Heróis do Olimpo - Rebelião
8 Uma surpresa agradável
Os meios-sangues apoiaram as mãos nos joelhos, ofegantes, quando chegaram à Casa Grande. Hazel, Frank e Octavian olhavam em volta, observando a inusitada decoração da casa. A sala de estar parecia ter sido engolida por uma floresta tropical. Parreiras tomavam conta das paredes e do teto. As parreiras tinham folhas verdes e estavam repletas de cachos de uvas vermelhas.
Sofás de couro rodeavam uma lareira de pedra acesa. Em um canto, um velho fliperama de PacMan fazia barulhos e piscava. Nas paredes, várias máscaras — as de sorriso/choro do teatro grego, máscaras do carnaval de Nova Orleans, máscaras venezianas com plumas e narizes grandes e aduncos, máscaras africanas feitas de madeira. As vinhas se retorciam por suas bocas e pareciam línguas de folhas. Algumas máscaras tinham cachos de uva saindo pelo buraco dos olhos.
Seymour, a cabeça de leopardo empalhada no alto da lareira, rosnou. Jason lembrou-se de quando chegara ao acampamento, e Quíron havia explicado sobre Seymour, o leopardo tornara-se afetivo à Jason, o que era uma surpresa para ele, e agora tinham Hazel, Frank e Octavian. Os três pularam de susto, Hazel colocou a mão no coração. Os outros tentaram conter o riso.
— Seymour, estes são amigos, comporte-se. — repreendeu Quíron, que estava em sua cadeira de rodas habitual — Perdoem a decoração, é uma longa história.
— Bom, eu não perguntei antes, mas agora pergunto: O Sr.D é Dionísio, não é? — perguntou Frank.
— Exato. Na época em que Jason chegou aqui, o Sr.D havia saído para o Olimpo, que estava fechado. Então fez esta decoração para que nos lembrássemos dele. O Sr.D tem um grande senso de humor.
— Nem me fale. — disse Percy, com um sorriso sarcástico.
Quíron serviu limonada para os campistas, que no momento estavam: Annabeth, Percy, Nico, Jason, Piper, Leo (que fora literalmente carregado por Jake e Piper), Calipso, Clarisse, Butch, Rachel, Jake, Hazel, Frank, Octavian e Will, ou seja, a sala de estar estava quase amarrotada.
Jason surpreendeu-se, a Casa Grande estava a mesma de quando chegara ao acampamento, até o fato de Quíron servir limonada e jogar salsichas para Seymour. Percy não havia se habituado àquilo, depois da guerra contra Gaia, ele só havia ido à Casa Grande uma única vez, e a Casa Grande só havia se instalado àquela decoração depois que ele fora ao Acampamento Júpiter.
— Contem-me, o que houve na floresta? — perguntou ele, quando os semideuses já estavam mais tranquilos.
— A lâmia nos deu um aviso. — disse Thalia. Quíron já sabia, por Malcolm, que levara as crianças de volta aos limites, sobre a lâmia e os grifos.
— Ela nos disse: “Vocês não perdem por esperar, semideuses. A vingança está por vir. Gaia não pôde derrotá-los, mas não quer dizer que eles não poderão”. A questão é: eles quem? — disse Clarisse.
— E por que grifos nos atacaram? Quero dizer, os grifos são seguidores de Zeus, não são? — disse Annabeth, Quíron assentiu.
— Isso explica porque eram imunes aos raios. — murmurou Jason, pensativo.
— O que foi aquilo que você fez na floresta? Quero dizer, você ficou invisível? — perguntou Hazel.
— Me transformei em vento. — todos olharam sugestivamente para ele.
— Como fez isso? — perguntou Annabeth.
— Longa história, envolvendo uma conversa com o vento. — disse ele, sorrindo de canto.
— Eu sabia que conseguiria. — murmurou Leo, sorridente, ele estava deitado no sofá, em cima de Piper e Jason.
— E você, que virou uma tocha humana, Valdez? — falou Clarisse.
— Enfim — Annabeth chamou os amigos de volta ao assunto — Eu ainda não entendi o porquê dos grifos, e a lâmia? Ela teria algum motivo para juntar-se aos titãs?
— Vingança. Hera a fez sofrer muito. — disse Quíron.
— Acho que se formos contar quantas pessoas desejam se vingar de Hera, teremos um bom número, não? — disse Percy.
Quíron assentiu.
— E os grifos... Talvez tenham tido a mesma reação de Jason ou Piper, lembram-se? Vocês podem estar sendo apoderados por espíritos males. Acreditem, são piores que os eidolons, cada male tem um objetivo. Como Fome — ele olhou para Leo — Tremor, Fadiga, Frio...
— Lembro-me de uma história em que Deméter pede que Fome puna Erisíchton, um homem grosseiro que desprezava os deuses, ele foi punido por cortar um carvalho sagrado da deusa, que na verdade era uma ninfa amada de Deméter, estou certa? — disse Annabeth. Quíron assentiu.
— Isso pode significar que Éris está envolvida nisto. — disse ele.
— Quem é Éris? — perguntou Frank.
— Filha de Zeus e Hera. A deusa da discórdia, mãe dos males e criadora do pomo da discórdia — disse Annabeth — Hera a expulsou do Olimpo por ela não ser bonita.
Frank franziu o nariz.
— Enfim, Éris é bastante poderosa, e tem rancor de Hera, por expulsá-la do Olimpo, e de Zeus, por não fazer nada para impedi-la. De fato, é uma boa explicação. — disse Malcolm.
— Tomem cuidado, crianças. Fome conseguiu matar Erisíchton, quanto mais ele comia, mais fome sentia. Era uma fome semelhante ao mar, que recebe todos os rios e, no entanto, não se enche. Se Éris quisesse matá-lo de princípio, já teria o feito. — disse Quíron, olhando para Leo, que estava quase tão branco quanto marfim. Calipso gelou.
— É sério. Os daemons são incrivelmente poderosos, até quando Erisíchton dormia, ele ansiava por alimentos e movimentava a mandíbula como se estivesse comendo. — disse Annabeth.
— Daemons... Creio que sejam as Desgraças em romano. E como poderemos impedi-los? — perguntou Jason.
— Não sei dizer. Terão de procurar um sábio para isto, digo, um profeta. — disse Quíron.
— Onde encontramos um profeta? — perguntou Clarisse.
— Os profetas geralmente moram no mar, como Nereu, alguns de vocês já o conheceram. Têm Proteu, filho de Poseidon e favorito do próprio, é um sábio entanto. — disse Quíron.
— Só pra variar um pouco, não é? — murmurou Clarisse, sarcasticamente. Percy só entendeu depois de um minuto.
— Ei! — ralhou ele.
— Proteu é um sábio, que conhece todas as coisas, passadas, presentes e futuras. Ele pode dizer-te, a forma de prevenistes dos daemons. Proteu mora em uma gruta, não sei dizer-lhes onde, mas creio que Percy possa localizá-lo. E tem uma coisa — todos esperaram pacientemente — Proteu não lhes dirá nada voluntariamente, por mais que lhe implores. Devem obrigá-lo a falar pela força. Se te apoderares dele e o acorrentarem, ele responderá às tuas perguntas a fim de ser posto em liberdade, pois, apesar de todas as suas artes, não conseguirá escapar, se o prenderes em cadeias apertadas. Ele chegará à gruta ao meio-dia, para repousar. Será fácil, então, para apoderarem-se dele. Quando, porém, se vir aprisionado, recorrerá ao poder que possui de mudar de forma. Transformar-se-á em um javali, ou um tigre feroz, em um dragão coberto de escamas ou em um leão de amarela juba, ou produzirá um ruído semelhante ao crepitar do fogo ou à água corrente para tentar fazer com que soltes a cadeia, quando então, fugirá. Bastar-te-á, contudo, mantê-lo preso a ele; quando perceber que todos os seus artifícios são inúteis, voltará à sua forma original e obedecerá tuas ordens.
— Então deveremos partir amanhã, logo cedo, estou certa? — perguntou Annabeth.
Quíron assentiu.
— Recomendo que comece a contatar Poseidon, em busca de ajuda, logo hoje, Percy. — disse Quíron. Percy assentiu.
— Você vai liderar, então, quem vai com você? — perguntou Leo.
— Frank e Hazel, se estiverem dispostos, claro. — disse ele. Frank e Hazel assentiram, prontamente.
— Está bem. Amanhã, às oito horas, dependendo se descobrirmos logo hoje onde Proteu repousa, partiremos. — disse Annabeth, todos concordaram.
Os campistas saíram da Casa Grande, muitos estavam confusos.
— Como os daemons conseguiram atravessar a barreira de proteção da árvore de Thalia? — perguntou Piper.
— Não faço ideia. — respondeu Annabeth — Bom, eles tem o poder de traição, que é Anfilogias, talvez a própria barreira tenha nos traído.
— E talvez tenha sido o que aconteceu com os grifos — disse Jason — Ou a própria Discórdia.
— E se Deimos tivesse os convidado à entrar? — perguntou Leo.
— Não sei. Não acho que Deimos nos trairia com intenção, até porque ele é filho e seguidor de Ares, certamente não faria o lado do pai perder a guerra. — disse Annabeth.
— Tem razão. — murmurou Percy.
[...]
— Não acha melhor suspender as atividades até as questões da segurança do acampamento serem resolvidas? — disse Rachel. Quíron olhou-a, pensativo.
— Tem razão, querida. — disse ele, pousando a mão no ombro da ruiva. — Peço que informe aos semideuses, acho que não voltaremos às atividades coletivas tão cedo.
A ruiva assentiu e saiu da Casa Grande, caminhando em direção ao pavilhão, onde estavam reunidos os semideuses, para o jantar. Rachel deu o recado, os semideuses pareceram mais aliviados do que decepcionados, Rachel os entendia, as últimas atividades têm sido um tanto quanto desastrosas.
Rachel caminhou na Praia dos Fogos, ela precisava esfriar a cabeça. Sua mente palpitava e lhe mostrava feixes de imagens que ela não conseguia compreender. Ela chegava perto a ter certeza de que havia algum movimento no Tártaro, mas ela procurava uma forma de se informar direito, para que pudesse contar aos semideuses.
[...]
Nico caminhava em direção ao Chalé 01, com Thalia ao seu lado. Os dois permaneceram um tempo em silencio. Quando chegaram, Thalia voltou seus olhos azuis elétricos às íris negras de Nico.
— Olhe, não quero lhe forçar a me dizer nada, mas, se puder, seja sincero: Toda essa sua preocupação com o que viu ou sentiu no Mundo Inferior, tem à ver com Bianca, não têm? — disse ela.
— Não necessariamente. — ele suspirou — Eu só acho que... O que quer que seja o que precisamos enfrentar... Está em algum lugar não muito apropriado para irmos.
— Você quer dizer... O Tártaro? — perguntou Thalia, de olhos arregalados. Nico assentiu, cabisbaixo.
— E acho que não só o Acampamento Meio-Sangue corre risco, mas o Olimpo e o Mundo Inferior. E com o Mundo Inferior, quero dizer que as almas nos Campos Asfodélos estão correndo um grande risco, e as almas do Tártaro parecem em rebelião.
— Isso quer dizer que... Estão tentando fugir?
— Sim. Normalmente, as almas do Tártaro nem pedem mais por socorro, ou tentam escapar, pois por éons não conseguiram, mas nas últimas semanas estão todos rebeldes, e eles têm de parar, mas não farão voluntariamente.
— Vamos dar um jeito. Você precisa descansar. — disse Thalia. Ergueu o rosto do moreno e movimentou seus lábios nos dele, logo foi correspondida. Nico parecia um pouco ardente. Thalia envolveu o pescoço do moreno com os braços. Os dois se beijaram até ficarem sem ar nos pulmões.
— Eu te amo Grace.
— Eu te amo Di Angelo. — Thalia sorriu — agora vai, antes que Jason comece a bufar.
Nico olhou pelo canto do olho e viu Jason parado, olhando para o céu, revirando os olhos. Nico riu e deu um tapa de leve no ombro do amigo.
Nico caminhou até o Chalé 13 e desabou em seu beliche, ele de fato, precisava voltar ao Mundo Inferior, não podia deixar sua família à mercê do caos.
E com família, ele queria dizer no geral, tanto Deméter, que agia como uma mãe com todos, Perséfone, que, pelo contrário do que muitos pensam, não era uma bruxa má, pelo contrário, era encantadora e tão materna quanto a mãe, Hades, que era hospitaleiro, justo e preocupado com o filho, as próprias Erínias (ou Fúrias, como preferir), que apesar de rabugentas, eram parte de família de Nico, o exercito de cadáveres, que frequentemente procurava impressionar Nico, Bianca e Maria, que mesmo no Elísio, corriam perigo, e eram a família dele, embora fazia um bom tempo que Nico não vira e nem ouvira Bianca, mas ultimamente ele se sentira tão próximo dela, que até se assustava.
E, para assustar-se ainda mais, Nico ouviu sua voz, no momento em que pensava nela.
— Nico. — chamou. Nico nem se lembrava de como era a voz da irmã, mas teve uma sensação nostálgica de alegria ao ouvi-la. Era doce, firme e não soava como um eco, como a voz dos outros fantasmas. Nico olhou em volta, e a viu, ela estava parada no canto do Chalé, próxima à uma janela que mostrava o Elísio, como as do Argo II, que mostravam o Acampamento Meio-Sangue.
Bianca usava as roupas prateadas de quando Nico a vira pela última vez, os cabelos negros caíam como cortinas em volta do rosto. Sua pele era cor de oliva, e a menina tinha um brilho nos olhos negros, e um sorriso parecia prestes a brotar de seus lábios. Ela tinha a aparência de uma garota de doze anos, e sempre teria.
Nico se levantou num salto, e já pode sentir as lágrimas inundando suas órbitas. Ele já era uns dez centímetros mais alto que a irmã, sua pele bem mais pálida que a da menina, e, certamente tinha mais aparência de fantasma que Bianca.
— B-Bianca? — Nico sentiu seus lábios tremerem e seu coração palpitar alegremente.
Bianca sorriu, não pôde evitar.
— Nico, eu estou tão orgulhosa de você. Tenho te observado por um bom tempo, sabe? — disse ela. Nico sorriu, ele queria abraçar a irmã, mas tinha medo de que ela desaparecesse como um borrão, mas a menina tomou a iniciativa, ergueu a mão para tocar o braço do irmão.
Nico não pode evitar e sentiu as lágrimas doces escorrerem pelo seu rosto quando sentiu os dedos quentes da irmã tocando sua pele.
— C-como? — gaguejou ele. Ele só tinha duas respostas em mente, ou Bianca estava viva, ou ele mesmo era um fantasma. Não como um fantasma morto, mas como uma vantagem por ser filho de Hades, ele pôde sentir o toque da irmã. Nico não evitou e abraçou Bianca, ele nunca pensou que poderia fazer aquilo outra vez, e sentia-se tão feliz, como se pudesse fazer qualquer coisa.
Bianca pareceu igualmente surpresa ao notar que conseguia tocar o irmão.
Nico ouviu o som de batidas na porta, e resolveu tentar uma coisa. Ele abriu e encontrou Hazel, com uma expressão cansada. Nico olhou para trás, certificando-se de que Bianca ainda esta ali.
Hazel entrou no chalé, logo paralisou e olhou na direção do beliche de Nico, onde Bianca estava sentada.
— Você pode vê-la? — perguntou Nico.
— E-ela... — Hazel respirou fundo — Você é Bianca? — perguntou Hazel, olhando para a menina, que embora Nico tivesse mudado muito, continuava muito parecido com a irmã. Bianca assentiu.
— Sim. Olá, Hazel Levesque. — disse Bianca, com um doce sorriso. Hazel colocou a mão sobre o coração.
As duas conversaram por um bom tempo. Nico sorria feito um louco, ele estava tão feliz que poderia até abraçar Hades. Nico estava deitado no beliche, com a cabeça no colo de Bianca.
Hazel enrolou-se em suas cobertas. Bianca cantava a canção de ninar que costumava cantar para Nico quando ele era pequeno. A voz de Bianca era doce e encantadora, fazia com que as palavras em italiano ficassem ainda mais bonitas.
Nico dormiu como um anjo naquela noite, sentindo o toque da irmã em seus cabelos e a ouvindo cantar Mio Soldatino. Era tudo o que ele mais desejara há tempos.
— Te amo, Soldatino. — Nico pode ouvir a irmã sussurrar antes de cair aos braços de Morfeu.
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