Notas iniciais
Uma coisa que eu acho legal, mas nunca falei sobre antes. Alguns dos acontecimentos são reais e aconteceram nas datas que eu coloco. Em setembro de 2014 o vulcão do Monte Ontake realmente entrou em erupção. E em janeiro de 2009, Andry Rajoelina (e não Raoelina, como eu adaptei levemente) começou a planejar um golpe de estado em Antananarivo. Outra pessoa real que foi citada com o nome adaptado (porque não pode citar pessoas reais no Nyah :x) foi o comissário da polícia de Perth. A partir de agora, vou tentar postar um capítulo a cada quatro dias. Já tenho a base para os próximos, vamos ver se vai funcionar. :T Boa leitura.

Perth
Em algum lugar sombrio…


— Então, para o que estou olhando? – A voz monótona questionou, mal-humorada. Seu rosto era precariamente iluminado pela luz do telão que exibia o vídeo. Tinha sido convocado e odiava ser convocado.


— Esses são os Gasparine. – A outra voz, que controlava a exibição, explicou, apertando no teclado que controlava para trocar de vídeo. – Os Aleeksev. E os Rybakov, que foram atacados em três lugares diferentes. Todos pela mesma pessoa.


A pessoa da primeira voz levantou os olhos com mais interesse, embora mantivesse a voz monótona: — Quando?


— Noite passada. Estava procurando por… bem, por Chaos. – Explicou com cautela, tentando a todo custo não despertar a ira da primeira voz. – Poderia ser Pandora?


— Paranoia é a configuração padrão de Jennifer Moore. – Comentou, com desprezo. – Mas os membros de Pandora não usam máscaras. A menos que ela queira que achemos que não são eles. Ou alguém queira que pensemos que são.


— Quem está sendo paranoico agora?


A voz respondeu com um sorriso: — Veja bem então, o que está acontecendo é o seguinte: Essa pessoa não é de Pandora, mas certamente tem alguma ligação com eles… — Ele fez uma longa pausa. – Quão perto ele chegou de descobrir alguma coisa sobre nós?


— Ele não alcançou alguém que soubesse de alguma coisa e dificilmente o fará. – Informou. – Mas se isso continuar, as famílias podem começar a questionar…


— Então cuide para que não continue. – Decretou, com a voz firme, antes de suspirar para o vídeo da tela e comentar consigo. – Possui recursos e habilidade, e é tragicamente mal-informado… É você, não é, Pensador?


Antananarivo – Madagascar
1 de janeiro 2009


Oliver permaneceu calado durante as horas restantes do trajeto. Não tinha muito mais a dizer para qualquer um ali. Não conhecia aquelas pessoas e nem queria. Ainda assim, tinha um trabalho a fazer ali. Depois daquilo, poderia sumir. Ir para um lugar onde nem Pandora o encontrasse. Ele sorriu brevemente quando a possibilidade de voltar para Perth surgiu em sua mente.


A voz do piloto ecoou pelo sistema de som, anunciando que estavam chegando em Antananarivo e fazendo as costumeiras recomendações de segurança. Quando finalmente aterrissaram, Oliver esperou que todos descessem para enfim se juntar aos outros no hangar. Ao vê-lo descendo as escadas, Thalia começou a falar para os demais.


— Certo… Vamos recapitular. Esse – Ela puxou a foto de um homem, exibindo-a. — é Andry Raoelina, o atual prefeito de Antananarivo. Temos fortes razões para acreditar que ele esteja trabalhando com Chaos para assumir a presidência de Madagascar através de um golpe de estado. Arno, Sara e eu vamos atrás dele. Achando ele, provavelmente achamos Chaos. Eddie e Sandy, vocês vão garantir que o resto de nós não chame tanta atenção pela cidade. Não machuquem ninguém, especialmente civis.


— Isso vai ser difícil. – Eddie reclamou, com os enormes braços cruzados.


— Por isso eu estou com você. – A mulher que se chamava Sandy respondeu, com um sorriso. Oliver notou que ela, diferente dos outros, não carregava um cristal consigo.


— Gael e Oliver, vocês vão atrás de David e Francisco. Com sorte…


— Eles estarão vivos. – O rapaz de cabelo cinza que se chamava Gael completou, animado. Parecia muito novo, agora que Oliver o via de perto. Thalia o olhou um pouco apreensiva, como se refletindo sobre a ideia de confiar uma tarefa aos dois. Gael pareceu notar. – Não se preocupe. A Força estará conosco!


Arno riu, mas Thalia não pareceu se tranquilizar com aquilo, embora não houvesse tempo para mudar os planos: — É isso então. Daqui pra frente, é conosco. Boa sorte a todos.


Arno puxou Gael de lado pelo braço, e sussurrou para o companheiro sem tirar os olhos de Oliver, sabendo que ele ouviria também: — Tomem cuidado. Os dois.


Gael assentiu e se juntou ao novo colega: — Vem, novato, vamos procurar uns animais falantes.


Agora


Oliver se sentia desconfortável. Talvez fossem as roupas que tinha pegado emprestado do guarda-roupas do pai, mas ele sentia que não. Em toda a sua vida tinha participado de inúmeros eventos no Brookfield Place, mas não guardava exatamente boas memórias do lugar. Era um prédio frio de 46 andares e comidas luxuosas para quem podia pagar.


— Você está bem? – Luna perguntou, tocando-o no ombro.


— Claro. – Ele respondeu, levemente sobressaltado, se ajeitando no banco do carro. Não era fácil surpreendê-lo, mas estar ali trazia distração o suficiente para que fosse possível. – Só estou um pouco…


Inseguro. Era como ele se sentia. Aquele não era ele mesmo, mas quem ele era? E quem devia ser? Talvez não tivesse sentido pensar demais sobre aquilo, mas e se fosse a decisão mais cheia dele? Sabia o que queria e o que precisava, mas seria capaz de ter ambos? Ele era um louco aproveitando o poder de um cristal ou um egoísta tentando carregar um fardo do tamanho do mundo? Os dois? Ou nenhum?


— …Cansado. – Ele se completou.


— Se você não quiser fazer isso hoje…


— Não. – Oliver protestou, respirando fundo. – Já adiei isso por tempo demais.


— Que bom. – Ela admitiu aliviada. – Só aluguei o vestido para essa noite.


— É um vestido bonito. – Observou, dando uma leve olhada no vestido preto que ela usava, deixando-a quase completamente irreconhecível.


— Não é? – Respondeu com animação. – Ah, olha só, chegamos. – Anunciou, quando o carro parou na frente do arranha-céu.


Antananarivo – Madagascar
1 de janeiro 2009


— Só ande. Não chame a atenção. – Gael o alertou, sem olhar para o lado. – Eles estão em todos os lugares.


— “Eles”?


Gael sorriu, sem responder, enquanto continuaram andando pela cidade.


— Isso. – Ele parou subitamente de andar, Oliver seguiu o exemplo. – Vamos precisar de um deles para seguir. Quão longe seus sentidos vão?


— Eu nunca medi. Uns cinquenta metros ao meu redor se eu me concentrar, talvez?


— Deve servir. – Ele se sentou na calçada, recostado em um poste de iluminação. – Melhor se sentar, isso pode demorar um pouco.


— Achei que deveríamos procurar por seus companheiros. – Retrucou, se sentindo confuso.


— Nós estamos, mas como eu disse, pode demorar um pouco. Só fique atento, sim?


— Você é irlandês. – Observou. Era difícil saber quando o cristal estava traduzindo alguém, mas o sotaque lembrava muito o que ele conhecia.


— Você não é.


— Como veio parar aqui? Nessa loucura toda, eu digo.


— Provavelmente do mesmo jeito que você. Tinha um cristal roxo no quintal de casa. Ele me deu poderes e Jennifer Moore apareceu em minha casa.


— Vocês simplesmente… obedecem? Arriscam suas vidas quando ela manda?


— Deveria ser diferente? Arno me falou sobre você. Somos armas vivas, Young. Armas existem para machucar pessoas.


— Foi nisso que vocês se transformaram?


— Foi nisso que o cristal nos transformou. Você queria que fôssemos um grupo de heróis? Altruístas e valentes? Retirando gatos de árvores e bebês de incêndios? Um discurso de motivação a cada batalha? Desculpa se isso te desaponta, mas não estamos aqui para melhorar o mundo, só para protegê-lo. Vemos as coisas em escalas maiores, isso é tudo.


— Você parece bem confortável com isso tudo.


— Ei. – Ele contestou com um sorriso conformado. – Eu só quero viver. Não fiz essas regras, mas sou obrigado a jogar por elas. Todos somos. – Oliver ficou em alerta, repentinamente. O ritmo dos passos na rua tinham mudado, estavam sendo cercados. – Viu? Eles chegaram.


Agora

Todo o considerável chão do salão era coberto por um belo tapete vermelho e dourado, no qual repousavam várias mesas extremamente bem decoradas e cadeiras de madeira certificada (cujos selos de certificação ele era capaz de enxergar). No centro de uma das paredes, um grande telão cujas frases mudavam constantemente, todas de personalidades, australianas ou não, apoiando o movimento. Oliver não entendia bem sobre hashtags, mas tinha que admitir quão poderosas eram.


Reconhecia a maioria dos rostos, é claro, mas nada daquilo o fazia se sentir mais em casa. Sabia que eram, em grande maioria, magnatas provavelmente buscando dedução de impostos ao doar uma quantidade suficientemente grande ao movimento. Alguns lhe davam olhares de reconhecimento, os quais ele não retribuía. Não significavam muito para o seu pai, e menos ainda para si.


— Ele resolveu aparecer, então? – Oliver ouviu a voz familiar atrás de si e se virou apenas para confirmar as próprias suspeitas. – Oliver.


Mortimer estava exatamente como ele se lembrava. As bochechas um pouco inchadas e rubras. Os ombros redondos que se mexiam enquanto ele corria, acenando com os dedos fofos para os dois. O rapaz parou na frente dos dois, ofegante. Oliver tentou dizer alguma coisa, mas não sabia bem o quê.


— Eu disse que ia trazê-lo. – Luna afirmou, colocando a mão no ombro do irmão. – Vou deixar vocês sozinhos um pouco.


— É bom te ver. – Falou, por fim, um pouco desconfortável. Mortimer deu um sorriso simples, estendendo a mão gorducha. Oliver ignorou a mão e abraçou o antigo amigo, que deu uma risada.


— Não te vejo desde a formatura. – Falou, deixando um tom implícito de reclamação.


— E quando eu volto você é, uma celebridade?


— Só aconteceu. – Ele encolheu os grandes ombros, corando levemente. Era notável que aquela posição de destaque não o agradava, mas ele era determinado para desistir. – Eu estava fazendo isso com seu pai, sabe… Antes dele… E-eu…


Mortimer se perdeu nas palavras. Conhecia várias delas, mas frequentemente tropeçava em muitas até encontrar as certas. Quando eram íntimos, ele demonstrava menos dificuldade, mesmo em assuntos delicados, mas Oliver entendia que não eram mais íntimos. O tempo os tinha tornado quase estranhos.


— Tudo bem. Eu não quero falar disso. – Mentiu. Sentia um misto de raiva e tristeza pelo pai. Podia ter sido menos manipulado durante aqueles anos. Suas poucas conquistas agora pareciam vazias graças a última confissão do pai. E seu futuro jazia nebuloso dada a sua missão. – Estou bem.


— Perth não está. Está morrendo. – Ele contrapôs, em tom de súplica. – Estamos tentando, Oliver, pra valer, mas… Pessoas muito poderosas estão contra nós, ainda que não publicamente.


— Você não acha isso um pouco perigoso? Colocar a si próprio nessa posição? Não é muita responsabilidade?


— Viver é perigoso. – Respondeu, com seu ar científico. Oliver nunca tinha achado aquilo irritante. Até agora. – Pessoas morrem caindo de escadas. Além disso, se você não assumir uma responsabilidade, as pessoas erradas vão.


— Você mudou. – Oliver disse, após refletir por um tempo. Não que não suspeitasse daquilo no amigo. Ele sempre tivera um grande coração, mas nunca a liderança. Nunca o brilho. Aquilo sempre tinha pertencido a ele. – Eu apoio o que está fazendo. E realmente gosto.


Mortimer corou novamente: — Você vai nos ajudar então?


— Não.


— Não? – Ele parecia que tinha acabado de tomar um tapa, o que partiu o coração de Oliver. Mas ele não voltou atrás.


— Não é o meu tipo de coisa. – Encolheu os ombros, sentindo-os mais pesados do que nunca. – Mas qualquer ajuda financeira que meu pai tenha prometido, eu me comprometo a cumprir. Qualquer valor.

— Dinheiro não vai salvar Perth, pessoas vão.


— Mortimer… quando eu já salvei alguma coisa? Você me conhece, eu não consigo lembrar de tomar banho todos os dias sozinho. Eu não sou… heroico. Esse não é o meu lance.


— Eu pensei que você tivesse mudado. – Comentou, decepcionado. – Mas eu respeito sua decisão.


Oliver forçou um sorriso: — Obrigado.


— Vem, vamos encontrar os outros.


Honsü, Japão
Junho de 2014


— Você segue olhando para essa foto. – Keiko comentou, se esgueirando por trás do aprendiz. Ele não achava aquilo incômodo, uma vez que a ouvia de muito longe. – O que ela tem de especial?


— São os meus amigos. Então, sim, é muito especial. – Retrucou, retirando-a do alcance da visão da anciã.


— Amigos, sim. Eu tive muitos amigos no passado. Todos morreram e eu fiquei triste. Consumida pela dor, raiva e…


— Sem querer interromper, mas essa história tem uma moral ou você está… você sabe, desabafando?


Keiko o atingiu na cabeça com a mão. Ele poderia ter desviado, mas já tinha sido advertido para não fazê-lo. Os golpes vinham por várias razões, mas ela insistia que sempre tinham a ver com a sua disciplinação. Ele duvidava muito, especialmente pelo modo como ela parecia gostar de fazer aquilo.


— Ok, mestre Yoda, estou ouvindo. – Afirmou, coçando a cabeça. Keiko sabia como golpear. – Você e mais mil coisas, mas principalmente você.


— Essa garota da direita, você a ama, não é?


— Como você…


— Eu sou sua professora, garoto. Tenho meus sentidos apurados do meu jeito, então, você a ama, é?


— É. – Concordou, olhando de relance para a foto. – Mas isso ficou no passado.


— Não, não, não. – Keiko o atingiu na cabeça novamente. – Pessoas mortas estão no passado. Pessoas vivas estão no futuro.


— Eu nunca mais vou vê-la, então do que importa? Sou uma arma viva e não quero ferir nenhum deles. Especialmente ela.


— Arma viva. – Keiko repetiu como se mastigasse uma coisa ruim. – Arma viva. Não é nisso que eu estou te transformando.


— É o que sou. – Confirmou, com um sorriso triste.


— Era. Passado. Não será. Futuro. – Keiko apontou para si mesma. – Passado. – Então apontou para a foto. – Futuro. Acredite em mim, sei uma ou duas coisas sobre o destino.