Herói Anônimo
1 Prólogo - Apresentação
Notas iniciais
Capítulo 1
*Comentário do registro*
— Esse registro tem como objetivo manter uma memória, explicar alguns fatos que foram omitidos durante as guerras contra titãs e gigantes nos últimos anos.
— Eu não sou um herói comum, na verdade nem sei se poderia ser considerado um herói... Pois bem, acho que deveria me apresentar de alguma forma antes de começar a falar interminavelmente: Meu nome é Ernest W. Jensen, atualmente com 23 anos. Nunca ouviu falar de mim? Nenhuma surpresa, vou te contar um segredo: Fui apagado da história dos semi-deuses há algum tempo, mas não se preocupe, afinal é por isso que estou aqui, para registrar minha história de algum modo.
— Vamos iniciar esse papo, monólogo, história ou seja lá como queira chamar com um fato: Nem semi-deus eu sou diretamente, meus pais são semi-deuses que serviram no Acampamento Júpiter e viveram em Nova Roma juntou por um bom tempo, então sou meio que da segunda geração. A junção de um filho de Minerva com uma filha de Marte, ou Atena e Ares se você for um grego, em tese parece um pouco explosiva, afinal, dois deuses que não se dão muito bem e tem um gostinho pela guerra... Bem, você entendeu o ponto aqui, certo?
— Talvez você esteja pensando “ah, um filho de dois semi-deuses experientes, criado dentro do acampamento, como a vida deve ter sido fácil, sem nenhuma ameaça, treinamento desde cedo” bem, tirando a parte do treinamento desde cedo, isso poderia ter sido verdade, se não fosse um pequeno porém...
*Narrativa*
Um casal passeava pelos bosques de New Hampshire, aproveitando a neve que caía para distrair e divertir a criança que levavam consigo, devia ter por volta de 5 ou 6 anos, já andava e falava por conta própria, porém, claro, era apenas um garotinho. Tudo parecia estar tranquilo, e de fato estava, todos de férias, tanto a criança quanto os pais, passando um tempo na casa que o pai herdou dos avós da criança, o casal parou e sentou-se sobre as raízes de uma das árvores para um descanso, enquanto a criança explorava os arredores, sempre sobre o olhar cuidadoso e atento da mãe.
— Ernie, não vá longe, venha comer uma maçã – Já dizia a mãe, porém, outro detalhe já havia captado o interesse do garoto: Um coelho preto que se destacava na neve branca, como um pingo de tinta cuidadosamente colocado em um imenso papel. Não tardou a correr aos tropeços atrás do coelho por entre as altas e secas árvores, chegando até uma clareira. Em pouco tempo ambos os pais estavam ao lado do menino, resmungando algo sobre ele não correr assim para longe deles, porém, mais uma vez o menino ignorou o sermão, estava estático, olhando à sua frente de forma fixa, tremia levemente de forma que, em qualquer situação pensariam que era apensa o frio, porém não era apenas o frio: Um vulto escuro circulava perto da clareira, seguido por uma forma mais definida, que parecia mancar.
Após uma rápida troca de olhares, que pareciam já acontecer há eras, o homem deu um passo à frente, puxando da grossa bota uma faca de ouro com a lâmina tão brilhante que emitia uma pálida luz por conta própria, a empunhadura envolta em tiras de couro, enquanto a mulher tomava seu filho nos braços e recuava vagarosamente pelo caminho pelo qual vieram, sendo seguida em um ritmo um pouco mais lento pelo marido, que mantinha os olhos fixos nas duas formas, fazendo uma análise e buscando detalhes, já que agora se encontravam paradas um pouco além da clareira, como se tivessem percebido a movimentação dos três humanos. Depois de breves segundos, que mais pareceram uma eternidade, um forte vento soprou trazendo mais neve e captando a atenção dos humanos por um milésimo, nesse momento de distração, as duas figuras que ainda não haviam sido identificadas desapareceram. O casal, um pouco desconsertado, mas muito aliviado, voltou (levando o filho consigo, claro) para a cabana de madeira na qual estavam passando as noites, após escreverem algumas palavras em latim nas portas e janelas, decidiram passar o resto do dia lá dentro por precaução.
— Ele finalmente dormiu – A mãe se voltou para o pai – O que acha que era aquilo no bosque? Quer dizer, tenho um palpite sobre uma das coisas, mas aquele vulto... Não me lembro de ter visto ou lido sobre nada parecido...
— Nós estamos bem, Ernie está bem, é o que importa – O pai arrumou os óculos retangulares sobre o nariz – Estamos aposentados desse tipo de coisa Amber, pare de esquentar a cabeça, hoje em dia só precisamos nos preocupar com a própria proteção, já servimos por tempo demais na legião, hora de descansar um pouco.
A expressão da mulher suavizou-se um pouco enquanto ela deitava no sofá, pousando a cabeça sobre as pernas do marido, que não demorou a afagar os longos cabelos negros da esposa, que sorriu para ele. Em poucos minutos todos estavam dormindo, ao passo que a tarde chegava ao fim e a noite adentrava New Hampshire, reservando uma desagradável surpresa à família de semi-deuses.
*Comentários do registro*
— Calma, eu sei que não era exatamente isso que vocês esperavam ouvir nesse registro, mas juro, tudo é importante para a história como um todo! Eu preciso começar pelo início, ou terei que interromper em todos os momentos para recapitular e explicar algo do passado, acredite, você não vai querer isso.
*Narrativa*
— Russ, venha comer enquanto a comida ainda está quente – Chamou a mulher, impaciente com a demora do marido – Ernie e eu já comemos, se for demorar mais deixarei a louça para você.
— Pode deixar que eu lavo – Disse o homem – Estou terminando aqui, mas acho que vou tomar um banho antes.
Dito isso, o homem fechou o livro e entrou no banheiro para que, em poucos minutos, sentisse a água quente confortavelmente percorrendo seu corpo e encharcando os cabelos ruivos, enquanto revisitava em seus pensamentos as duas figuras vistas mais cedo.
“Corpo esguio, meio desajeitado... Acho que vi um brilho em um dos pés, mas parecia que aquilo estava mancando... Talvez estivesse ferido, por isso não atacou” – Mais uma vez o ruivo fechou os olhos, a cabeça estava à mil, revisitando seu conhecimento, cruzando com os fatos, como um bom filho de Minerva faria – “E se não estivesse machucado? A cabeça parecia meio disforme, as duas figuras pareciam estar sendo ocultadas, não estavam tão longe para serem indistinguíveis... A névoa não nos enganaria desse modo, já não somos crianças e sabemos o que vemos...” – Alguns segundos depois, com um estalo, o trecho de um livro pulou na memória de Russel Jensen: “Garras afiadas, cabelos em chamas, patas de burro e bronze desproporcionais ao corpo de mulher...”.
Os olhos castanhos do homem se arregalaram, terminou o banho correndo, chegando à mesa para jantar disse a mulher com um olhar preocupado:
— Empousa.
Uma ruga de preocupação se formou na testa da morena, mas essa apenas acenou positivamente com a cabeça, mantendo-se em silêncio.
— Devemos partir amanhã – Continuou o ruivo, vendo que a esposa não tinha muito a falar ainda – Mesmo com nossa experiência, não é inteligente ficarmos depois dessa noite... Só não iremos agora porque sair em uma floresta no meio da noite é quase suicídio, ainda mais sabendo o que temos lá fora – A ideia se interrompeu, Russel tinha seus olhos girando de um lado para outro na cabana, como se procurasse um sinal invisível, uma resposta perdida – Ainda temos a outra criatura, essa não se assemelha a nada que me recorde...
— Você mesmo disse, pare de esquentar a cabeça – Começou a mulher.
—Eu só quero saber o risco que estamos correndo, não acho que precisemos ficar estressados, mas... – O marido parou para olhar para a criança que já dormia no sofá, não pôde evitar um sorriso – Sorte que ele dorme rápido, não? Imagina ter que explicar tudo isso para ele tão cedo...
A esposa riu, acenando com a cabeça, de fato era uma sorte poder privar a criança de coisas assim por um tempo a mais. Foi então que tudo ficou escuro, o ar pareceu ficar mais denso e uma voz ecoou dentro da cabana, como uma faca raspando em pedra:
— Pegue-a.
A janela pareceu explodir em câmera lenta, estilhaços faziam pequenos cortes na pele dos pais que, imóveis, não conseguiam ver nada, a não ser escuridão. O desespero tomou conta de ambos, marido e mulher, o ar ainda parecia sólido quando a cabana clareou, fora esse fato, tudo parecia normal. Quase tudo: Os relógios estavam parados e a criança, desaparecida.
*Comentários do registro*
— Tentem adivinhar de quem era a voz que ecoava na escuridão, se você já leu os registros dos outros semi-deuses, não vai ser tão difícil...
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