Herói Anônimo
23 A cidade adormecida
Notas iniciais
Capítulo 23
*Narrativa*
Era início da manhã, todos estavam no pavilhão para tomar café da manhã, uma nervosa Peggy olhava ao redor buscando o namorado, que já estava concluindo ter sido devorado por algum monstro.
— Ei – Um irmão da garota cutucou-a com o cotovelo e acenou com a cabeça para a entrada do ambiente – Ali.
Os olhos da garota brilharam quando viram Ernest entrando, sujo de terra, com o rosto encovado e grande olheiras de quem não havia dormido durante a noite anterior, mas aparentemente bem, o mesmo brilho de sempre no olhar. O rapaz avistou a namorada e enviou uma mensagem com o olhar – “Explico tudo depois, pelo amor dos deuses, não faça alarde sua escandalosa” – Seguindo para sua mesa para comer e oferecer parte da refeição à Atena.
— Ótimo, vocês paspalhos estão revezando para sumir? – Annabeth abriu espaço e sentou-se ao lado do irmão.
— Ahn? – O jovem ergueu as sobrancelhas e olhou confuso para a loira.
— Heim? – Debochou a garota, logo explicando – Percy sumiu também, junto com a Sra. O’Leary... Não sabemos de nada ainda...
— Certo, então com isso tudo eu ainda sou chamado de paspalho?
— Basicamente, sim.
O filho de Atena revirou os olhos, tomou um gole de seu café e desenhou um delta invisível na mesa usando o próprio dedo.
— Conseguiu algo de útil com o laptop de Dédalo?
— Bem... – Annabeth cruzou os braços – Estou terminando um projeto, já estudei outros... Mas não vou te contar nem mostrar nada antes da hora, vai ser uma surpresa.
(...)
— Ei, você come demais – O rapaz sorriu ao ver a namorada saindo do refeitório – Vai ficar fora de forma.
A garota ao vê-lo desviou sua rota e foi de encontro ao mestiço, que abriu os braços para um abraço e, em troca, recebeu um belo soco cruzado na face direita, seguido por um chute na altura do estômago, deixando-o no chão.
— Isso é por sumir e não dar notícias, babaca.
— Ai – Gemeu o rapaz – Precisava de dois golpes?
— O chute foi por me tirar pra gorda.
Se levantando com as mãos erguidas em sinal de rendição, o filho de Atena se aproximou com cautela da filha de Apolo.
— Desculpe... Não consigo explicar o que aconteceu, eu pirei com... – A voz do rapaz falhou.
— Eu sei – Peggy passou os braços pelo pescoço do jovem, envolvendo-o – Mas da próxima vez que for pirar, pire comigo, eu vou cuidar de você.
— Você sempre cuida de mim – A voz do garoto saiu rouca.
Os dois ficaram abraçados por uns minutos e, ao se separarem, Ernest lembrou-se:
— Percy sumiu também... Acha que ele está por aqui?
— Não sei, perguntou pra Annabeth?
— Ela que me disse que ele sumiu...
— Entendo... – A garota pensou por alguns segundos – Melhor irmos fazer algo, temos muitas atividades e em breve ele pode voltar, talvez só precise de um tempo, como você.
*Comentários do registro*
— Eu sei que não foi muito maduro da minha parte fugir por um dia quase, mas entendam que a morte de Charles me devastou. Eu era responsável por tudo e, ver aquilo falhar, me fez querer desistir.
— De qualquer forma, o dia se seguiu tranquilamente, não fiz nada demais, só pratiquei um pouco de esgrima com uma espada emprestada, afinal achei que viria a calhar saber lutar com algo além de facas. Pedi para Jake Manson de Hefesto para forjar algo para mim depois, talvez dar algo para ele fazer melhorasse seu ânimo.
*Narrativa*
Era quase fim de tarde quando a maior parte dos campistas foi enfiada em três vans e partiram em disparada rumo à Manhattan.
— Você vai nos dizer o que está acontecendo? – Ernest olhava para Annabeth com a testa franzida após ela desligar o celular.
— Nem eu sei, Percy nos chamou, disse que era urgente... – A loira torcia a barra da camiseta, visivelmente ansiosa – Só sei que estamos nos arriscando.
— Ótimo, vamos dar um passeio por Nova York! – O irmão replicou, ironicamente.
(...)
Após todos saírem do elevador do Empire State, haviam em torno de 40 semideuses no Olimpo, o mestiço olhava em torno de si, analisando cada um e pensando sobre o que estava por vir. Após basicamente invadirem a sala do trono, todos foram enviados para uma voltinha pelo Olimpo enquanto Percy e Annabeth batiam um papo com Hermes, então Ernest resolveu dar uma olhada nas luzes azuis a riscavam o céu de maneira tão estranha.
— Que diabo é isso? – Murmurou para si mesmo.
— Parece magia, energia sem corpo – Peggy surgiu de algum ponto atrás do rapaz, fazendo-o dar um pulo.
— Magia, é? – O jovem coçou a barba – Mas não está causando danos... O Olimpo deve ter suas próprias proteções, creio eu.
— Bom, você é o inteligente aqui, esperava que você soubesse – A morena deu uma piscadela para o namorado.
— Peggy... Será que essa é a última batalha, realmente?
— Espero que seja – A garota olhou para o horizonte, a silhueta de Manhattan começava a se enquadrar no pôr do sol – Não aguento mais essa guerra.
O garoto apoiou a mão direita no cabo da faca de caça, presa na parte externa da coxa direita, ao mesmo tempo que puxava a namorada para um meio abraço com o braço esquerdo.
— Vai ficar tudo bem, depois disso podemos pensar em ir pra uma faculdade ou qualquer coisa do tipo. Não precisaremos nos preocupar com Cronos.
“Eu ouvi isso, panaca” – A voz do Senhor do Tempo ecoou na cabeça do filho de Atena.
“Droga, as vezes você fica quieto demais, eu esqueço que está aí” – O rapaz suspirou e conduziu a namorada de volta para os arredores da sala dos tronos.
— A questão é que ele não morreu no Estige, tampouco eu – A voz de Percy ecoou no silêncio do salão, as palavras fizeram o mestiço congelar, mil pensamentos vieram à sua mente.
“A maldição de Aquiles, sem dúvida” – Cronos falou pesadamente – “Agora é só com as Parcas”.
“É a mesma coisa que eu tenho, não é?” – O semideus perguntou ao titã.
“Segue o mesmo princípio, mas você só tem seu braço envolto pela proteção do rio, os outros dois tem o corpo todo invulnerável, com a exceção de um único ponto” – Esclareceu o Senhor do Tempo.
Invulnerabilidade seria um bom trunfo para essa batalha, mas Ernest resolveu deixar para pensar nisso depois, precisava definir algumas coisas com os dois que lideravam os demais campistas.
— Ei, espero não estar interrompendo nada... – O rapaz adentrou a sala abraçado à namorada, fazendo Annabeth levantar os olhos do laptop de Dédalo.
— Vocês precisam ver isso, agora! – Connor Stoll invadiu a sala com seu irmão, interrompendo a interrupção do filho de Atena.
Os seis semideuses saíram correndo ao encontro do resto do grupo, que observava a cidade pelos binóculos de observação do Olimpo.
— As luzes pararam – O filho de Atena observou – Pode ser um bom sinal.
— Eu não... Ouço nada – A irmã interviu.
Toda a cidade havia silenciado, caído em um sono profundo.
(...)
— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ IA ESCONDER ISSO DE MIM! – O mestiço exclamou, segurando o escudo-televisão de Annabeth.
— Eu disse que ia mostrar só na hora certa!
— Sempre é a hora certa pra coisas do tipo!
— De qualquer modo – A loira tirou o escudo das mãos do rapaz – Vamos ao assunto de interesse aqui.
— Certo, vamos recapitular algumas coisas – Ernest sentou-se no capô de um carro qualquer, sem importar-se com o motorista adormecido – A primeira é: A cidade toda está dormindo.
— Certo! – Uma voz qualquer concordou.
— A segunda é que nas camadas externas da cidade o tempo está quase parado – Annabeth completou, analisando com seu escudo mais uma vez.
— Como moscas no âmbar – Jake Manson completou.
— Então não podemos contar com ajuda externa, estamos sozinhos – Percy concluiu o que todos temiam.
— Bem, não que houvesse muita ajuda externa para ser chamada... – Ernest suspirou e olhou ao seu redor, buscando alguém que tivesse outra ideia.
— Bom, descartamos ataques pelo ar, então eles virão pelos rios e por terra – A loira relembrou – Temos que interceptar as entradas da ilha.
— Certo – Percy concordou e começou a dividir os chalés, para onde cada qual iria.
— Ei, tente não morrer – Peggy apertou a mão de Ernest.
— Não se atreva a morrer – O rapaz retrucou, dando um beijo na namorada antes de se despedirem, um rumo à ponte da rua 59 e a outra rumo à ponte de Williamsburg.
O rapaz saiu correndo, atrás de seus irmãos, vendo de relance a chegada das caçadoras de Artêmis, que de fato eram um reforço muito bem-vindo.
— Malcom – Chamou o jovem – Qual o plano?
— Impedir os monstros, acho que não podemos planejar tanto mais em uma ponte.
— Barricada com carros? – Arriscou o mestiço.
— Se conseguir manobra-los, manda ver!
— Temos algum equipamento ou arma fora nós mesmos?
— Não.
— Entendido – O rapaz estalou os dedos das mãos, apenas torcendo para dar tudo certo e conseguirem a barricada sem grandes problemas.
“Eu não vou morrer” – Prometeu para si mesmo – “Vou encontrar Peggy de novo”.
Com esse último pensamento, os filhos de Atena dispararam noite adentro, até que finalmente, desapareceram na escuridão.
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