Se você olhasse de fora, os irmãos Black eram quase idênticos. Os dois levavam as características marcantes da aparência habitual da família que pertenciam; tinham os mesmos olhos azuis cinzentos, maxilares demarcados, cabelos negros como ébano e pequenas sardas quase imperceptíveis espalhadas na região do nariz. Qualquer um que olhasse para eles diria que eram perfeitamente parecidos, e talvez, quando o mais novo alcançasse a altura do mais velho, fosse até possível confundi-los, caso tivesse apenas uma rápida visualização dos jovens.

Mas aqueles que conheciam os irmãos pelo que eram, e não pelo que se pareciam, bem sabiam que eram completamente diferentes.

Sirius Black era luz. A ovelha branca de uma família repleta de ovelhas negras. Ele era indomável, despreocupado e tinha ideais fortes e concretos. Sirius estava destinado a ser adorado, defender o mundo bruxo das forças das trevas e estar sempre sob os holofotes. Até mesmo em sua família, onde sequer era bem vindo, ainda era o herdeiro dos Black. O homem que carregava o nome da família e um dia seria dono de toda aquela fortuna absurdamente grande. Ele era arrogante por natureza e ao mesmo tempo uma das almas mais bondosas para aqueles que amava.

Regulus era escuridão. A personificação perfeita do que significava ser um Black. Ele era quieto, calculista, obediente e amava as artes das trevas. Fazia o que os pais mandavam, mesmo que seus esforços fossem sempre ignorados pela rebeldia de seu irmão, que levava toda a atenção por ser o herdeiro. Regulus era o plano B, caso Sirius falhasse. Tinha todas as qualidades perfeitas, mas havia nascido na ordem errada. Ele estava destinado a se tornar tudo aquilo que seus pais desejavam que seu irmão fosse, mas nunca poderia ser Sirius.

Sirius Black sempre seria o herói, e Regulus Black sempre estaria atrás das cortinas. O mais novo sabia disso. Seu irmão estava lutando por um destino diferente, enquanto ele estava preso, porque sabia que os pais não suportariam perder os dois filhos e também porque não era corajoso o suficiente para tomar uma atitude.

Quando Regulus tinha quinze anos, seus pais acharam que seria uma boa ideia que ele se juntasse ao lorde das trevas. A família já tinha uma longa lista de nomes entre os seguidores e ele seria um acréscimo incrível. Obviamente, teria de se manter afastado das batalhas reais durante uns bons anos, até terminar seus estudos, pelo menos, mas a marca seria um sinal precoce de lealdade. Ele precisava mostrar o mais cedo possível de que lado estava.

Ninguém sabia, mas ele hesitou antes de aceitar. Não era uma escolha, ele estava sendo intimado (embora provavelmente ninguém pudesse entender o sentimento de dever que existia naquela ação ou o tom de ordem de seus pais). Tinha só quinze anos e precisava se comprometer a dedicar o resto de sua vida a uma causa que sequer entendia. Acreditava em seus pais porque eles o amavam, mas às vezes, quando Sirius sussurrava coisas em seu ouvido sobre as atrocidades cometidas pelos comensais da morte, ele já não tinha certeza de nada. E acima de tudo, ele sentia medo.

Mas ele era um Black. Os Black não têm medo. Os Black sabem de que lado devem estar. Então, quando a marca negra foi gravada sobre seu antebraço esquerdo e ele sentiu como se o membro estivesse em chamas e seu próprio sangue correu sobre a pele pálida, ele permaneceu impassível, porque aquele era o seu dever. Supostamente, devia fazer com que se sentisse corajoso, mas nada no mundo parecia despertar esse sentimento em Regulus Black.

Quando Sirius descobriu sobre a marca, foi ainda pior. Seu irmão gritou e o repreendeu como se fosse uma criança, e ele respondeu com coisas estúpidas. Ambos disseram palavras que fizeram com que se arrependessem mais tarde, no entanto o pior mesmo foi a pura decepção nos olhos acinzentados de Sirius Black. Era como se o mais novo tivesse cortado o último laço que existia entre eles.

— Você não é meu irmão — ele disse. — Seus irmãos agora são aqueles malditos comensais da morte.

Essa foi a última conversa que os irmãos Black tiveram. Depois disso, as coisas ficaram muito diferentes. Sirius foi embora de casa no verão seguinte e parou de ter a necessidade de sequer encarar seu irmão caçula quando o via de longe. A cada ano, Sirius Black estava mais envolvido na luta contra Voldemort, enquanto Regulus se afundava cada vez mais nas ideias de sangue puro. Seu irmão era um defensor, ele um assassino a sangue frio.

Quando tinha dezoito anos, Regulus Black descobriu algo que o fez enxergar a proporção da luta que estava envolvido, e quando já era tarde demais, notou que todo aquele tempo estivera errado.

A última decisão de Regulus Black o levou a morte, porque ele estava sozinho demais e tudo que tinha a oferecer era a própria vida. Além de que era o preço que pagaria por suas atrocidades.

Ele foi levado por mãos frias e mortas em direção ao afogamento, e seu último pensamento foi como as coisas poderiam ter sido diferentes, se ele tivesse um bocado de coragem antes disso. Era engraçado pensar que, apesar de ser tarde demais para um recomeço, Regulus Black também foi um herói.

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