Heroína

28 Um golpe de sorte e mais dois do destino


Notas iniciais
Você bobeou e HEROÍNA VOLTOU!!!!!!!!!! Quatro meses sem atualização rapaz que vergonha sério Na verdade eu pretendia terminar Valentine e Quimera antes de postar aqui, MAS um comentário no Facebook me deixou tão emocionada e inspirada que um cap com quase 5k saiu em um dia!!!! Obrigada Luh Laras, se estiver lendo isso, saiba que eu não respondi seu comentário PORQUE O FACEBOOK ME BLOQUEOU AQUELA PRAGA mas obrigada mesmo ♥ Vamos ao desespero? Tragédia? Drama? EU AMOOOOO Amo essa fic e estava com uma saudade IMENSA de postar nela. Últimos plots chegando ai, e ainda quero terminar Quimera ainda nessa quarentena (quem sabe quando vai acabar ne k ai senhor me ajuda) Lavem as mãos, se hidratem, façam ioga e leiam muita fic! Cuidem da saúde!!!! ps ACABEI DE VER QUE ESSA HISTORIA FEZ DOIS ANOS TIPO ESSA SEMANA???????????W MEU DEUS??????????? DOIS ANOS JÁ CARALHO EU TO MUITO FELIZ OBRIGADA A TODO MUNDO QUE LEU, LÊ, COMENTA, FAVORITA, RECOMENDA MEU DEUS EU SOU A AUTORA MAIS FELIZ DESSE MUNDO DOIS ANOS DA FIC QUE EU MAIS AMO OBRIGADAAAAAAAAA

Apenas pare de chorar

É um sinal dos tempos

Temos que sair daqui

Pare de chorar

Vai ficar tudo bem

Eles disseram que o fim está próximo

Temos que sair daqui

Sign Of The Times, Harry Styles

Capítulo XXVIII–

Um golpe de sorte e mais dois do destino

Durante o percurso de dois quarteirões, Naruto infringiu mais regras de trânsito do que gostaria. Contudo, Shion não pareceu se importar com a velocidade muito acima do permitido, as curvas fechadas e os pneus cantando ao passar pelo sinal de pare – a garota estava com os olhos vidrados e o telefone colado na orelha, apertando o aparelho com os dedos tão brancos quanto possível, realizando uma chamada atrás da outra.

Naruto sentiu a cabeça pulsar com a quantidade de informações que tinha recebido em tão pouco tempo, somado a preocupação, ansiedade e uma raiva borbulhante, porém ainda adormecida. A hora do almoço tinha, há muito, passado, mas nenhum dos dois aparentava ter fome, ou apetite para comer.

O medo de Hinata estar machucada deixava seus olhos cegos, e sua mente incapaz de pensar. A imagem de sua garota, indefesa, sozinha, a mercê daquele desgraçado era o suficiente para que seus músculos tensionassem, suas mãos coçassem e ele instigasse um instinto assassino não muito familiar para alguém que costumava ser uma pessoa tranquila.

Naruto tinha a plena consciência de que Hinata não era nenhuma garota a ser salva. Muito pelo contrário – além de sua própria heroína, ela estava constantemente salvando outras pessoas. Ela o tinha salvo de si mesmo, e todos seus erros do passado, lhe dando uma nova chance de ser melhor. O Uzumaki sabia disso, e sentia orgulho da garota forte e independente que sempre amou.

No entanto, também sabia que estavam lidando com um canalha perigoso. Naruto não sabia até onde Kiba Inuzuka iria por ter sido contrariado, mas, segundo os relatos que recebera, não tinha a melhor das expectativas.

E, além de tudo, havia o bebê. Por Deus, pensar naquele filho era como um antídoto, acalentando toda a fúria e o medo, substituindo por um sentimento totalmente novo, abrasador, que tomava cada célula de seu ser. Aquela criança mal existia, e já era dona de todo o amor que Naruto sequer sabia possuir. Imaginar um bebê, corado e com covinhas, sorrindo para Hinata, enquanto ela o ninava em seus braços, era como experimentar a maior felicidade do mundo.

Naruto sabia que faria qualquer coisa por aquele filho. E por Hinata. Ele morreria, ele mataria. Não havia mais limites para o aceitável. Percebeu, com certa inquietação, que o amor era capaz de transformar um homem. Ele tinha mudado. Indubitavelmente.

Virou a esquina como uma corrida de um milhão de dólares, e estacionou de qualquer maneira na contramão. O prédio velho, decrépito e com pretensão de cair a qualquer instante entrou em seu campo de visão, trazendo memórias que pareciam tão antigas, mas tinham acontecido há poucas semanas.

Muita coisa mudara desde então. Era como uma vida inteira em três meses. Seu retorno para Konoha trouxe muitas tristezas, muita dúvida, mas também muitas alegrias. Naruto tinha muitos receios, mas lutar por aquela felicidade não era um deles.

Saíram do carro em sincronia, batendo as portas e correndo para a portaria. Shion cumprimentou o homem com um aceno rápido, e ambos já eram rostos familiares no saguão, subindo pelas escadas, sem paciência para esperar o elevador. Cada degrau que subia, impaciente, Naruto sentia como se gastasse muita energia, e mais continuasse sendo substituída no lugar. A adrenalina, somada a ira, a angústia e a preocupação, se transformava em uma força poderosa.

Chegaram no andar do apartamento de Hinata, e Shion saiu na frente, já abrindo sua bolsa.

— Como entramos? – Naruto perguntou um segundo mais tarde, quando viu a garota com um molho de chaves, procurando pela certa e colocando na fechadura – Você tem uma cópia? – era mais como uma pergunta retórica, mas ela se virou para fitá-lo com as sobrancelhas erguidas.

— Eu jamais deixaria Hinata morar com aquele filho da puta sem ter todas as precações.

Fraco de gratidão, Naruto a seguiu apartamento adentro. Sua primeira impressão foi compor uma careta, olhando para o quadro panorâmico e torcendo o nariz com o cheiro desagradável que o atingiu nos primeiros segundos. As cortinas estavam fechadas, e a parca luz que entrava provinha de um vitro quebrado no alto da janela. Os móveis estavam dispostos de maneira desorganizada, o sofá empurrado, o tapete enrolado e os enfeites pelo chão.

Sob a bancada, algumas garrafas de vidro, e papéis amassados pelo chão. Bitucas de cigarro compunham uma pintura caótica, e cinzeiros virados espalharam cinzas pelo piso. O apartamento não via uma limpeza há dias, e, provavelmente, também não era habitado.

Shion andou como um gato pela sala, desviando da sujeira eminente e analisando atentamente cada aspecto. Como Naruto, ela tinha chego a conclusão de que ninguém entrava no lugar há algum tempo, e seus olhos astutos procuravam pelas pistas que eles tinham ido buscar.

— O que você acha? – Naruto perguntou, não vendo propósito na quantidade de cigarros e cerveja que foram depositados ali.

— Kiba deve ter mais uns dois apartamentos, além da casa dos pais. – comentou, procurando algo entre os papéis amassados com o rosto inexpressivo.

— Então por que vivia aqui? – perguntou com um tom de escárnio, apontando para o cubículo. Sentia-se mal em pensar que seu quarto de pintura era maior que a sala e a cozinha juntos.

— Porque ele gostava de humilhar a Hina. – retrucou, o fitando com os olhos nublados. Imediatamente, Naruto cerrou os punhos, tomado novamente pela fúria assassina. Prometeu a si mesmo que, assim que encontrassem Hinata, ela não voltaria a pisar naquela casa nem por um minuto. Nunca mais – Vamos ver no quarto.

Naruto a seguiu pelo corredor, mas parou antes de acompanhá-la até a última porta. Um detalhe na parede chamou sua atenção – algo ínfimo, mas que o fez lembrar do passado, e seu coração apertar. O espelho no corredor, com a mesma moldura dourada, destoante do resto da decoração do apartamento. Ele se lembrava daquele espelho, da penteadeira de Hinata, na casa dos Hyuuga.

Engoliu em seco. Sequer conseguia imaginar quanto ela devia ter se esforçado para chamar aquele lugar de lar. O espelho, uma pequena peça que a ligava ao passado. Quantos pensamentos teriam corrido sua mente? Quantos momentos ela teria passado encarando o reflexo na parede, sem saber se o reconhecia?

Sentiu-se subitamente com falta de ar, e saiu, depressa. Tinha que encontrar Hinata.

Nunca tinha estado no único quarto do apartamento, e era tão escuro quanto o resto da casa. Shion tinha acendido uma lâmpada, mas a luz amarelada não era suficiente para iluminar todo o ambiente. As pesadas cortinas escuras estavam fechadas, e o ar condicionado velho acima da janela emitia barulhos estranhos de tempos em tempos. No centro, uma cama desarrumada com as colchas para fora. Naruto imaginou se Hinata tinha tentado levar algum resquício de vida para aquele lugar comprando conjuntos floridos para se cobrir.

Shion, mais rápida, já voltava do pequeno banheiro escondido com alguns frascos laranjas vazios. Naruto reconheceu como pílulas para dor de cabeça, normais, do tipo que se vendem na farmácia. Contudo, havia três frascos, então ele ponderou se eram utilizadas, realmente, como analgésicos.

— O que estamos procurando? Para onde ele pode ter levado ela? – Naruto sentou-se na beirada da cama, um pouco frustrado. Shion abriu o guarda-roupa e começou a tirar as roupas. O Uzumaki reconheceu algumas peças femininas que Hinata tinha deixado para trás da última vez.

— Qualquer coisa que pareça útil. – resmungou – Um papel, um panfleto, uma foto. Kiba é desequilibrado, e um pouco dramático. Tenho certeza que deve ter levado ela para algum lugar afastado, provavelmente fora da cidade. – agachou para puxar algumas bolsas e várias caixas de sapato.

— Você acha que ele pode tentar machucar Hinata? – perguntou, sombrio.

— Sim.

Naruto se ajoelhou e passou a ajudá-la a esvaziar o armário.

Quando quase tudo estava para fora, sentaram-se, analisando cada item. Os bolsos não tinham nada demais, a não ser notas fiscais e maços vazios. Os casacos foram tão inúteis quanto, e quase todas as caixas de sapato estavam preenchidas com tênis ou saltos altos. Contudo, Shion puxou uma mais velha, com a tampa amassada, e, dentro, continha alguns livros.

— Olha isso. – abriu espaço para colocá-la entre eles. Naruto puxou os dois primeiros. Eram livros antigos, provavelmente de romance, mas, embaixo, haviam álbuns de fotografia.

Cada um começou a folhear um. O primeiro continha fotos de Hinata e Kiba, várias delas. Sozinhos, com amigos, em viagens a praia. Naruto engoliu em seco, tentando não dar espaço para um ataque ridículo de ciúmes, não quando a vida de Hinata estava em perigo Continuou analisando as fotos, notando, depois de algumas, que o sorriso dela se tornava mais mecânico a cada novo registro.

— Aqui não tem nada demais, só algumas fotos de férias. – jogou para o lado, procurando por outro.

— Esse aqui parece ser de infância. Olha, é o Kiba. – Shion dividiu o álbum entre suas pernas, apontando para uma criança séria com o cabelo rebelde e um filhote a tiracolo.

Ela passou por cerca de cinco ou seis páginas do que parecia um book fotográfico infantil, e Naruto já estava desistindo, prestes a procurar qualquer outra coisa que ajudasse, quando reparou em um detalhe nas fotos. Parecia ínfimo, quase insignificante, mas Naruto puxou o álbum e destacou três fotos que estavam lado a lado.

— O que foi? – Shion se aproximou, alerta.

— Olha aqui no fundo. Esse borrão. – apontou para trás do menino – O que te parece?

— Um galpão? – arriscou, pensativa.

A sequência continha uma criança séria, em um fundo verde, com grama crescendo. No entanto, ao fundo, uma construção metálica parecia chamar a atenção. Era grande, e isolada, como um galpão de fazenda. Era o mesmo lugar, em ângulos diferentes.

— Tem legendas. – Naruto virou as fotos que tinha puxado do álbum.

Kiba no galpão da família.

2002, km 230. Komu.

— Fica na rodovia de Komu para Konoha. – Shion indicou, um pouco ofegante – Acha que...?

— Seria tão fácil assim? – ponderou. Estavam com pressa, e qualquer tempo perdido poderia ser significativo.

Shion, mais que rapidamente, virou toda a caixa no chão, por cima das roupas tiradas do guarda-roupa. Mais dois ou três álbuns amarelados caíram, e cada um puxou um para si, procurando mais imagens que pudessem indicar qualquer relação de Kiba com aquele galpão.

Procuraram por cinco minutos, sem acharem mais nada. Shion suspirou impacientemente, e Naruto fez um barulho enquanto jogava para longe. Estavam ficando sem tempo, sem pistas úteis e sem calma.

No entanto, entre as roupas, Naruto avistou algumas fotos avulsas, provavelmente soltas entre os cadernos ou que escorregaram. Puxou elas para suas mãos, analisando atentamente. Era Kiba, como esperado, um pouco mais novo, talvez três anos atrás. Haviam dois garotos junto dele em ambas as imagens, abraçados, com garrafas de cerveja. Estava ligeiramente, e uma lanterna estourou um feixe de luz na câmera.

— Você conhece? – apontou para Shion, que se virou e analisou uma das fotos.

— O da direita não, mas esse da esquerda parece o Toneri. – murmurou – Ele é o dono daquela boate famosa.

— Que é um ponto de drogas? – ergueu a sobrancelha, cético. A loira assentiu.

— Ele mesmo. Nunca ninguém conseguiu provar nada, e não seriam idiotas de fazer alguma denúncia, mas é o Toneri que traz os carregamentos da costa para a cidade. – deu de ombros.

— Você percebeu aqui? – Naruto se aproximou, indicando o fundo da imagem – Não parece…

— O galpão, sim! – foi a vez dela de puxar a foto, analisando de perto avidamente – Definitivamente é parecido!

— Vale a pena conferir? – Naruto ainda estava receoso.

— É a melhor pista que nós temos, e vindo do perturbado do Kiba, pode ser um bom lugar para começar. – Shion já estava levantando e passando pela pilha de roupas, sem se importar em arrumar – Vamos, se não conseguir encontrar nada, vamos procurar por ele na empresa que ele trabalha, na faculdade, na casa dos pais dele, até no inferno se precisar.

O Uzumaki a seguiu, com as expectativas renovadas. Já era de tarde, e fazia mais de vinte e quatro horas que não tinham notícias de Hinata. Precisavam começar de algum lugar, e um galpão abandonado aparentemente da família e fotos de Kiba com um traficante podia ser um bom começo.

Voltaram para o carro de Naruto, e ele mal colocou o cinto antes de arrancar rumo a saída principal. O quilômetro 230, como na legenda da foto, ficava há pouco mais de quinze minutos depois de Konoha, quase entrando na segunda cidade. Naruto se lembrava das pequenas entradas de terra do lado da rodovia, e torcia para que encontrassem rapidamente, depois das plantações.

Shion ligou o rádio para preencher o silêncio, mas o garoto duvidava que só estava tentando se distrair. Mesmo dirigindo, sua mente não conseguia desligar, e suas mãos estavam tensas sob o volante. A loira balançava os pés e roía as unhas, usando roupas amarrotadas e o cabelo preso no alto.

— Não lembro se já perguntei, mas como você e a Hina se conheceram? – falou, ainda com os olhos na estrada.

— Não sei se vai querer saber dessa história. – Shion suspirou. Naruto esperou, sem negar, mas também não confirmou. Sua curiosidade e ansiedade para se distrair superavam o medo de ouvir algo que não queria. Afinal, a vida de Hinata lhe interessava por inteiro, não somente as partes boas – A vida não foi fácil para nenhuma de nós. Um dia eu estava voltando mais cedo do... trabalho – deu uma risadinha e Naruto assentiu – e encontrei ela correndo. Ela praticamente caiu em cima de mim. Acho que o destino armou tudo para que nós nos conhecêssemos naquele dia, embora as condições fossem um pouco desagradáveis. – crispou os lábios e Naruto esperou, confuso. Shion virou-se para fitá-lo, com o mesmo ar irônico que lhe era característico – Foi a primeira vez que Kiba tinha agredido ela.

Naruto não estava esperando por aquilo.

Seus dedos firmaram no volante, tão forte que poderia ter quebrado. Trincou os dentes, engolindo em seco a bile que subiu por seu estômago. Nenhuma palavra seria capaz de descrever seu nojo, seu asco.

Naruto era uma pessoa majoritariamente pacífica. Ele repudiava qualquer tipo de violência desnecessária, mas também era humano. Agora, bater em mulheres era o tipo de agressão mais covarde, baixa e canalha que conseguia pensar.

Imaginar Hinata passando por esse tipo de coisa – imaginar qualquer garota passando por isso, lhe dava náuseas. Se Kiba estivesse na sua frente naquele momento, Naruto não hesitaria em quebrar-lhe alguns membros.

— Ela estava tão assustada, correndo descalça, só com a bolsa e os documentos. Quando trombamos, eu a acalmei, e a levei para casa. Ela era uma desconhecida, mas, quando vi aquilo... – balançou a cabeça, voltando a fitar o vidro – Não podia deixar ela sozinha.

— Sei que não deveria agradecer, mas obrigado. – murmurou com a voz rouca. Shion assentiu, dando de ombros.

— Nós gostamos de brincar dizendo que odiamos a amizade que temos. – riu, um pouco lamuriosa, e Naruto percebeu que Shion possuía fortes sentimentos por Hinata – Eu lhe deu meu número, e disse que poderia me ligar a qualquer hora, se precisasse de ajuda. Não nos vimos por algumas semanas, mas, eventualmente, ela voltou a ligar.

O tom implícito de sua voz não deixou dúvidas sobre o que se tratava. Ainda furioso, enojado e com o coração apertado, preferiu não dizer nenhuma palavra.

— Acho que passamos a confiar uma na hora, porque entendemos o que cada uma passava. – Naruto se virou rápido, desta vez surpreso, e seu pescoço estalou. Shion soltou uma risada sem humor – Ah, Naruto, você é uma graça. Como acha que eu consegui essas belezinhas aqui? – puxou o cabelo loiro para trás, e Naruto viu pequenas cicatrizes em sua pele.

Engasgou, intercalando seu olhar para a estrada e para a garota, surpreso e preocupado. Também se importava com Shion, e imaginá-la sofrendo qualquer tipo de agressão também fazia seu coração disparar. Ela era uma garota única – o modo como falava sobre aquele assunto, tão despojadamente, sem se importar. Naruto admirava sua força, e desejava que ela nunca tivesse passado por isso.

— Você está, quer dizer, você está bem? – gaguejou um pouco, tentando encontrar as palavras certas, mas ela balançou a mão no ar.

— Claro, como nova. Não se preocupe. – encarava a paisagem um tanto pensativa – As pessoas são violentas quando querem. Meu trabalho é perigoso. Faça as contas. – voltou a dar de ombro, como quem comente o clima. Naruto engoliu em seco.

— Eu sinto muito. – expressou, o mais sincero possível.

— Já disse que está tudo bem. – rolou os olhos para ele, virando-se – Eu também cometi muitos erros. Insisti nos caras errados, achei que eles poderiam mudar. Mas nunca mudam. – sua expressão veio carregada de amargura – De certa forma, eu e Hinata encontramos suporte uma na hora. Nós nos entendíamos, não fazíamos julgamentos. Apenas estávamos ali para curar nossas feridas.

O silêncio durou por alguns minutos, Naruto não sabendo, ao certo, o que dizer. Era, de fato, uma amizade estranha, feita na pior das circunstâncias, mas ele era grato por Shion existir na vida de Hinata. Era um tanto paradoxal, porque também queria que nunca precisassem ter esse tipo de vínculo.

— Antes nós só ligávamos uma para a outra quando precisávamos, se é que me entende. Não éramos essas amigas que saem juntas e fazem as unhas. Mas, depois que você voltou – o fitou com intensidade – ela precisou de mim, e nos aproximamos bastante.

O Uzumaki estremeceu, pensando em quanta confusão deve ter causada na vida de Hinata, e na de Shion também. A culpa seria algo que jamais se livraria.

— Eu sei o que você está pensando, Naruto. – ela continuou, astuta – E não é assim. Hinata te ama. – surpreso, ele a olhou – Ela verdadeiramente te ama, até mais do que seria recomendável. Foram semanas, meses, que ela tentou te esquecer, mas tudo que fazia era sofrer porque não podia estar do seu lado. Não fique se sentindo culpado por qualquer coisa. Ao menos, não por isso.

Foi acometido inesperadamente por aquelas palavras, e parte dos sentimentos pesados que pairavam sobre seu peito esvaíram.

— Nós vamos encontrá-la. Eu prometo. – sua voz estava carregada de gratidão.

A luz do sol já estava um pouco mais baixa, mas Naruto conseguiu virar no lugar certo. Com a rodovia deserta, pôde diminuir a velocidade aos poucos, próximo do quilômetro indicado por marcas no asfalto. Virou para a esquerda, tentando se lembrar de onde ficavam algumas plantações mais afastadas, e onde um galpão poderia ser construído.

— Acho que fica por aqui. – murmurou, indo devagar pela estrada de terra e pedregulhos.

Shion também ficou alerta, olhando pela janela.

Se algum Deus existia, ele definitivamente estava do lado deles. Naruto avistou, ao fundo, um borrão, que tomou forma a medida que o carro avançava. O galpão se ergueu entre a grama, já bem mais alta que nas fotografias. Com um suspiro aliviado e ansioso, ele acelerou, estacionando tão próximo quanto possível.

Naruto estava rezando avidamente para uma boa notícia. O entardecer se aproximava, e, caso fosse uma tentativa frustrada, teriam de voltar para a estaca zero. Ele não sabia o que faria se precisassem continuar a procurar por Hinata, sem notícias e sem pistas. Aquele galpão caiu como um milagre, e, tal qual, Naruto duvidava muito que daria certo da primeira vez.

Estacionou e ambos saltaram do carro. Se aproximaram do galpão, e logo Naruto percebeu que a grama próxima da frente estava menor, e pisoteada. O lugar era maior de perto, com quatro ou cinco metros de altura, grossas portas de aço e cadeados com correntes na única entrada visível.

— E agora? Acho que é impossível quebrar isso aqui. – Shion perguntou, analisando os cadeados como se realmente considerasse abri-los a força.

— Vamos dar uma volta. – sugeriu.

Cada um para um lado, rodearam o galpão, procurando por qualquer coisa que lhes desse uma pista. O lugar era abandonado, afastado das cidades, e parecia ter sido visitado recentemente. Naruto não sabia se estavam certos, ou seu desejo quase irracional de encontrar Hinata o cegava para a possibilidade de que poderiam estar perdendo tempo.

A angústia lhe tirava o ar. Era desesperador, e o garoto procurava dispersar os pensamentos de que o pior poderia acontecer. Perder Hinata era, de muitas maneiras, impensável. Inimaginável. Doloroso, pungente, lancinante. A pior dor que um homem poderia sentir, o coração dilacerado, a alma incompleta. Imaginar qualquer coisa acontecendo àquela mulher já era o suficiente para que a agonia tomasse conta de seu corpo.

Deu a volta no galpão e encontrou Shion novamente na entrada. Ela balançou a cabeça negativamente.

— Nada. Sem janelas ou outras entradas atrás.

Naruto levou a mão até o cabelo, puxando para cima com frustração. O que fariam agora? Voltar para Konoha? Procurar o maldito no trabalho? Quanto tempo demorariam? Quanto tempo mais Hinata ficaria desaparecida?

— Vem, vamos voltar. Vai escurecer logo, precisamos achar mais pistas. – Shion chamou, com a voz terna, percebendo o desespero do Uzumaki – Vamos direto para a polícia, precisamos tentar.

O garoto concordou, acenando, e esfregou os olhos cansados.

Estava se virando, quando um lampejo divino chamou sua atenção. Um instinto, um sopro, uma intuição. Sorte, destino, acaso. Por alguns milímetros, ele vislumbrou uma pequena tranca, quase imperceptível. Como uma janela, uma saída de ar, um alçapão. Poderia não ser nada, mas poderia ser tudo.

— Shion. – Naruto deu as costas, caminhando em direção ao lugar. A garota o seguiu, curiosa.

Aproximou-se, perguntando-se como não tinha visto antes. Era bem discreto, com apenas uma tranca e um cadeado. Era tão pequeno que ele duvidou se uma pessoa passaria por ali.

— Também tem cadeado. – a loira pontuou. Naruto ergueu-se e caminhou de volta para o carro, quase correndo.

Abriu o porta-malas, puxando a chave de roda com uma determinação quase furiosa. Correu de volta para o local, com Shion o encarando com descrença e um pouco de surpresa cômica. Com toda a força da sua raiva, preocupação e cólera, Naruto começou a bater contra o cadeado com a ferramenta.

Com três tentativas, a trava cedeu, caindo na terra. O garoto ofegou, aliviado, e jogou a chave de roda para o lado, agachando para ver como poderia abrir. Não entendia como aquela pequena janela poderia servir, mas estava desesperado.

Foi quando puxou para cima, e ela correu mais do que esperava. Revelou, então, uma entrada, um pouco apertada, mas definitivamente possível para uma pessoa do seu tamanho, se abaixasse. Estava escura, mas Naruto viu o começo de uma escada, como uma passagem subterrânea.

Virou-se para Shion com o rosto inexpressivo.

— O que você acha? Devemos ir? – já não estava mais tão confiante.

— Não temos mais nada para tentar. – deu de ombros.

Naruto respirou fundo e abaixou-se, comprimindo os ombros e entrando pela passagem escura e com cheiro de pó. Balançou o celular para acender a lanterna, iluminando o caminho a sua frente apenas o suficiente para que não caíssem. Sentiu os dedos de Shion procurarem por seu braço, e caminhava com dificuldade.

Era apertada, e desceu bons degraus, quase o suficiente para causar claustrofobia. Continuou até que os degraus acabaram, e o piso plano já era melhor iluminado. Todas as paredes eram de metal, e, de alguma forma, a construção permitia que grades deixassem a pouca luz entrar.

Uma sensação de angústia começou a deixar Naruto sem ar. Quanto mais andavam, mais aquela sensação se apoderava dele. Seus pensamentos gritavam por Hinata, e, ao mesmo tempo que rezava para que a sorte estivesse do seu lado, também temia estar certo.

A passagem se tornou menos estreita, e ele pôde ajeitar as costas. Andaram por um corredor de um caminho só, e o cheiro se tornava mais amargo cada vez que avançavam. Não saberia dizer porque alguém construiria algo daquele tipo em um galpão velho, mas boas intenções não pareciam ter sido consideradas.

Finalmente, uma porta. Era pequena, estreita como a janela pela qual entraram. Shion parou do seu lado, o fitando como quem pergunta, silenciosamente, se deveriam continuar. Já tinha entrado até ali, precisavam ir até o final.

Naruto foi na frente. Respirou fundo, o coração batendo vagarosamente no peito. Levou a mão até a pequena porta, em câmera lenta, puxou para abrir. O cômodo estava mais escuro, e seus olhos precisaram se acostumar para enxergar o que havia do lado de dentro.

Imediatamente, foi pego pelo choque, e seu corpo se moveu sozinho, a mente anuviando-se por completo, os olhos perdendo o foco, as pernas vacilando.

— HINATA!

Correu e suas costas rasparam contra o batente pequeno. Correu, como nunca antes. Em quatro ou cinco passadas largas, estava se jogando no chão, com os joelhos raspando contra o concreto, sem sentir dor. Tampouco ouviu os gritos desesperados de Shion, e quando ela se jogou junto dele.

A imagem era como um pesadelo.

Sua garganta estava seca, e seus olhos encheram-se de lágrimas, incapazes de enxergar; não importava. Cada aspecto daquela cena já estava gravada para sempre nos piores cantos de sua memória.

Hinata estava inconsciente. Se parasse para analisar racionalmente, jamais seria capaz de identificar a garota com um único olhar. Seu rosto estava completamente desfigurado. Ambos os olhos inchados, arroxeados como duas bolas. Cortes nos lábios e manchas cor vinho traçavam uma pintura doentia em sua pele porcelana.

O cabelo desgrenhado grudava nas bochechas, também com cortes e inchaço. Como se tivesse sofrido um ataque de alergia, seu rosto parecia ter o dobro de tamanho, vermelho. Seu corpo mirrado, minúsculo, pêndulo para frente, as mãos atadas atrás de um pilar de metal que sustentava a sala secreta abaixo do galpão.

Se os inchaços, os cortes e a brutalidade fossem os únicos elementos, Naruto, ainda assim, seria capaz de agradecer aos céus. Contudo, o cheiro que invadia seu nariz fazia-o queimar. Todo o cômodo cheirava a urina, fezes e sangue.

Poças escuras no chão cercavam Hinata. Sangue seco, vermelho-escuro, espalhado para todos os lados. Uma poça concentrada, bem abaixo de suas pernas.

— Hinata, meu Deus... meu Deus, por favor, Hinata... – soluçou, pegando seu rosto com cuidado, como se ele pudesse, de alguma maneira, machucá-la ainda mais.

Aproximou-se, rezando com toda sua fé e suas crenças. Sentiu uma lufada mínima, ínfima, porém quente. Está viva!

— Shion, me- me ajude a desamarrar ela- ela tá vi-viva! – orientou, piscando para se livrar das lágrimas. Precisa ser forte, precisava agir rápido.

A garota loira, também com aos soluços, moveu-se para trás, trabalhando da melhor maneira que pôde para desfazer os nós. Enquanto isso, Naruto controlava a bile e as mãos trêmulas, segurando seu corpo com medo de que o menor movimento pudesse desmontá-lo.

Shion conseguiu retirar as cordas e Hinata, inconsciente, tombou como uma mera boneca de pano. Naruto a segurou com cuidado, aninhando-a contra seu peitoral e chorando baixo. Se tivesse se permitido, provavelmente o sofrimento teria tomado conta de todos seus membros, e ele próprio desfaleceria.

Tal qual uma cena no modo automático, ele se levantou, segurando Hinata em seu colo e caminhando vacilante de volta para a porta. Abaixou-se com cuidado para que não trombassem, e ouviu Shion correr atrás de si, chorando alto e balbuciando palavras ininteligíveis.

Naruto sequer pôde sentir raiva. Fúria. Ódio. Seu peito se apertava de angústia, agonia e dor. Uma dor tão profunda e arrebatadora que chegava a ser física. Seu coração sangrava de uma maneira que ele jamais imaginou ser possível.

Todas as possibilidades, todas as cenas, sequer chegaram perto de prepará-lo para aquilo. Sua mente era uma nuvem opaca, enquanto palavras se misturavam na tentativa de formar um pensamento coerente sequer. Milhares de Hinata! ecoavam em um cômodo vazio, rebatendo nas paredes. A quantidade de sangue o apavorava, e a garota, apesar de possuir limitada respiração, não demonstrava quaisquer reações.

Subiram as escadas com pressa, correndo para o carro. Shion, na frente, abriu as portas de trás e pulou para dentro. Naruto viu suas mãos tremendo, e sequer conseguiria pensar em como ela deveria estar se sentindo – provavelmente como ele.

Naruto colocou Hinata deitada sobre o colo da outra garota, e saltou para o lado do motorista, dando partida e meia volta com velocidade impressionante. As mãos tremendo, ofegante e sem sentir suas pernas, chegou a rodovia direto para Komu; a cidade tinha os melhores hospitais, o melhor atendimento e todos os recursos necessários para cuidar de Hinata. Naruto não iria perdê-la.

— N-Naruto, me-meu Deus... – Shion arfou do banco de trás. O Uzumaki olhou pelo retrovisor, mas ela tinha os olhos para baixo. Ele não conseguiu ver que ela analisava o abdômen de Hinata, e somente mais tarde chegaria a ver os hematomas que coloriam o corpo da mulher que ele amava.

Enquanto dirigia, Naruto rezava. Ele rezava com convicção, implorando para que desse tudo certo. Se obrigou a parar de chorar, ainda que as lágrimas invadissem seus olhos sem permissão. Ficaria forte, por Hinata. E, depois, seria forte, para prender – ou matar – o desgraçado.

Pensou na garota, e no filho. Uma mistura de sentimentos invadiu seu peito, doendo, dilacerando. Se culpou por não poder protegê-la. Se culpou por Hinata ter passado por tantas coisas. Se culpou por cada dor física e emocional. Se culpou por ela ter se envolvido com o filho da puta.

E rezou. E fez promessas para Deus. E murmurou sozinho o nome de Hinata, lutando para ser forte o suficiente. Por ela. Por elas. Por eles. Ele ia conseguir. Tinha que conseguir.

Não podia acabar daquela maneira. Tanto para se viver, tanto para se redimir.

Sua história e a de Hinata ainda não tinha acabado.

Notas finais
se vocês soubessem a desgraça que tá pra acontecer iam agradecer por eu ter sido tão boazinha nesse capítulo me xinga lá no twitter @hi_erohime