Heroin
1 addicted
Notas iniciais
Era isso que eu merecia. Estava no fundo do poço, mesmo depois de tantos avisos, de tantas conversas. E tudo por causa de uma estúpida experiência, “só pra experimentar” eu dizia. Aquela euforia, a sensação de flutuar, o relaxamento, tudo me fazia sentir a pessoa mais poderosa do mundo.Mas foi tudo seguido de depressão: Me sentia um lixo, queria morrer, estava sujo, fedia, precisava sumir do mundo, me enterrar e não sair mais. Mas o pior não havia passado, estava tendo uma crise de abstinência da pior droga que já havia experimentado — ou da melhor, tudo depende do ponto de vista. A única coisa que tenho certeza é que se eu não injetar uma grande dose nesse momento, vou morrer.
Meu corpo estava molhado de suor e sua imagem não saia de minha cabeça, estava começando a alucinar. Tudo por ser inconseqüente, agir por impulso, eu sabia que seria assim, sabia que só poderia usar a primeira dose e que seria a única, apesar de todas as promessas de outras doses sempre que quisesse, eu sabia que o vício se iniciaria a partir do momento que a agulha encostasse em minha pele. Mas eu quis mesmo assim, quis consumir por completo, até a última gota.
Caminhei lentamente do banheiro para a sala, me jogando no sofá. Minha cabeça rodava, tudo parecia ser um desenho animado. Sons ecoavam na minha mente, parecia que eu iria explodir a qualquer momento, a crise ia se agravando.
Precisava de outra dose, nem que fosse um mililitro daquilo, que fosse por um segundo, tinha que ter uma forma de acontecer de novo. Levantei do sofá e cambaleei até o quarto, minha cabeça latejava constantemente, meu coração se acelerava e a vista estava ficando embaçada e aos poucos escurecendo.
Cheguei à cama com um tanto de dificuldade. Peguei a camisa do dia anterior, e seu cheiro ainda estava impregnado na roupa, afundei meu rosto, e meu coração se acelerou mais ainda, a dor de cabeça estava se tornando insuportável, mas aquela sensação era maravilhosa, queria que durasse para sempre.
E escutei alguém bater na porta. Minha última entrega havia chegado. Tirei forças do além para chegar até lá com toda a velocidade que pude, abri a porta e lá estava, a minha melhor heroína, a mais forte, a mais viciante, a mais perturbadora, a mais letal.
E minha respiração se tornava cada vez mais pesada e difícil de acontecer.Me coração estava a mil por hora, eu já não enxergava nada, minto, enxergava o suficiente para a última injeção, e aproveitei minha última dose com todo o meu corpo. Aproveitei como nunca havia aproveitado nada na vida; era o fim, mas o melhor fim que poderia imaginar, ali, abraçado com aquela droga até nos tornamos apenas um. E senti uma dor excruciante no peito, não conseguia mais tomar nem um fôlego, minha cabeça explodiu de dor, não tive forças nem para um último suspiro.
E minha existência terminara nos braços do que me fazia me sentir melhor. Daquilo que me viciou em tão pouco tempo, daquilo que eu sabia que me levaria a esse fim miserável.
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