Heroic Wish
13 Capítulo 13
Aquele barulhinho deixava seu corpo dormente e o enchia de uma preguiça que beirava o exagero. Usava o pescoço daquele tigre quase manhoso como travesseiro, sentindo a vibração de seu ronronado balancear seu quase despertar. Desvencilhou-se lentamente do grande abraço de tigre de Mutano e tentou sentar na cama, tendo a perna com a cauda do animal enrolada puxada. Desequilibrou-se e caiu novamente deitado naquela cama de casal exageradamente grande, pensou o velocista, voltando para a realidade.
Olhou para o teto e quase se esqueceu de como havia chegado lá. Suspirou e apoiou-se nos cotovelos, admirando Mutano voltar para sua forma humana quando teve sua perna liberta daquele agarro carinhoso de sua cauda. Um sorriso leve e singelo brotou dos lábios de Kid Flash e deixou-se perder na visão do colega adormecido.
– Adoro esse cara... — Sussurrou inocentemente, não se lembrando de que já havia declarado tal fato momentos antes.
A boca estava seca e foi ao banheiro a fim de saciar a sede com um copo de água. Não queria sair daquele quarto aconchegante e ir até o refeitório da Torre, onde provavelmente esbarraria com algum colega Titã.
Estava um tanto magoado com toda a confusão que martelava em sua mente que fugiu para o quarto de Garfield. O transmorfo sempre aparecia quando precisava de apoio e seu carinho pelo velocista ficava mais à mostra a cada dia. E Bart estava maravilhado com essa possibilidade tão pura de amizade verdadeira, não queria perder mais amigos e faria de tudo para permanecer lado a lado com Gar. Bart realmente acreditava que havia perdido os amigos da Justiça Jovem e tal fato o desolava em dimensões preocupantes.
Voltou para o quarto, em passos leves e despreocupados, pronto para voltar ao sono perfeito que o embalara e o havia abandonado tão rapidamente. Viu Mutano estirado na cama, com braços e pernas ocupando grande parte daquele aconchego e fez um bico contrariado.
–... Folgado. Sai pra lá.
Ia afastar Mutano para seu canto de direito na cama quando ouviu passos do outro lado da porta do quarto. Olhou desconfiado e aguardou alguma reação dos intrusos.
– “Intrusos?” – Pensou Bart com o cenho franzido. – “Deve ser os veteranos chamando o babaca pra sair...”.
Considerou o pensamento incontestável e destravou a porta do aposento sem cerimônias.
–----x-----
(...) – Goiaba.
– Guaraná.
–... Geee...leia.
– Não vale, Conner...
– Mas é comida!
– Tim, me ajuda aqui... – Cassie pediu ao amigo.
– Ele tem razão, é comida. – Disse sinceramente, tentando ser o mais neutro possível naquela brincadeira, já que seu único papel ali era ser o juiz. Pelo menos dê um sabor pra geleia.
– Geleia-de-morango. – Conner recitou vitorioso.
– Argh... Gengibre. – A loira disse, contrariada.
– Irc... “Giló”. – Superboy proferiu sem pensar.
– Eu tenho quase certeza de que JILÓ é com “J”... – A loira ironizou, olhando sorridente para Robin.
– Sim, é com “J”. Caro estudante do ensino médio que insiste em matar aula. – Timothy deu duas cotoveladas amigáveis em Conner, que revirava os olhos e desviava o rosto dos olhares dos dois parceiros, um tanto envergonhado pelo deslize.
– Foi um lapso... Me deixem em paz.
Apertou o passo quando os dois trocavam cochichos e risadinhas enquanto olhavam para o clone. Sentia-se contrariado, mas claramente, aliviado. Há algum tempo que quase acreditava que a relação entre Cassie, Tim e si entrara em um clima pesado e um tanto tenebroso. À princípio não havia aprovado inteiramente a ideia de Tim de todos saírem juntos, pois já começara a sentir muita falta dos momentos íntimos com o menino prodígio. E depois da promessa de ser possuído, fato que ainda o deixava arrepiado somente por conta de a ideia ter surgido do menor, não sabia ao certo do quanto conseguiria se concentrar em outros afazeres. E ali estava ele em um encontro descontraído entre amigos e ansioso por Bart juntar-se ao grupo. Havia se lembrado de como a amizade de todos era importante e um sentimento de culpa brotou sorrateiramente em seu peito. Estava negligenciando os amigos há tanto tempo. “De repente, por isso que a Cassie andava meio amarga”, pensou Superboy. Nem tudo tinha que girar ao seu redor, como Robin já havia o alertado em algumas conversas.
Kon-El chegou à porta dos aposentos de Garfield e esperou Tim e Cassandra resolverem deixar de gracinhas e o acompanhar na procura por Bart. A super audição foi acionada quase que sem querer e pode ouvir ao fundo de respirações preguiçosas, o ronronar de um felino de grande porte. O jovem herói encarou a porta pensativo, sentindo a curiosidade aumentar dentro de si. Olhou para Tim, vendo que o líder Titã estava distraído em meio à conversa com a amiga e resolveu que usaria a visão de raios-X só para dar uma espiadinha...
– Rapidinho... – Superboy sussurrou para si mesmo, mostrando-se infantil ante suas decisões.
Antes que pudesse saciar sua curiosidade, a porta do quarto se abre e dá de cara com Kid Flash, que vestia somente a calça amarela de seu uniforme.
O mais novo arregalou os olhos e o rosto sardento esquentou, preenchendo-o com uma vergonha que não sabia ao certo porque sentia.
– Ah, oi, Bart. – Conner acenou sorridente para o amigo. – Er... Estávamos atrás de você, cara.
– E- estavam? Eu vim conversar com o Mutano e acabei pegando no sono...
Conner desviou o olhar para dentro do quarto escuro do transmorfo, encontrando-o já em forma de humano, dormindo estirado em sua cama.
– Eu jurava ter ouvido um ronronado...
–... O Gar faz uns barulhos estranhos enquanto dorme... – Bart falou isso tentando controlar sua vergonha. Afinal, eram amigos, e amigos tinham certas intimidades.
O clone de Superman sorriu de leve para o sardento e pareceu aliviado, o que conseguiu chamar a atenção do jovem e quase sempre desatento Kid Flash.
– Que bom que vocês estão se dando tão bem, Bart...Realmente fico feliz.
O velocista encarou o maior, estranhou o comentário, mas percebeu sinceridade por parte do amigo, e assentiu com a cabeça, sorridente.
Robin e Moça Maravilha finalmente os encontraram e mostraram-se felizes ante a presença de Bart.
– Por onde andou, Kid Flash?? – Perguntou Tim, fingindo estar irritado, colocando as mãos na cintura. – Para que serve seu comunicador, se não vai responder ao meu chamado, quando preciso???
Bart se mostrou assustado com a feição contrariada de Robin e gaguejou ao responder ao líder:
– E-eu esqueci no meu quarto, Robin... Desculpe.
Todos começaram a rir, deixando Bart ainda mais nervoso.
– Ai, Kid... – Cassie abraçou o pobre Bart, que se encolhia entre o abraço da loira, que sempre o tratava como um irmão mais novo. – Você é tão fofinho.
– Vamos, Bart. – Robin o puxou pelos braços, fazendo-o sair do quarto de Mutano.
– Ué, pra onde?
Cassie o ajudava no encorajamento, empurrando-lhe as costas.
– Decidimos na rua, só queremos sair. – Comentou a loira.
– Faz tempo que não saímos juntos, não é mesmo?
O jovem velocista sardento chegou a se emocionar ao ouvir Robin dizer aquilo. Queria gritar bem alto que sim, fazia muito tempo que não saíam juntos, e aquilo o deixava irado. Mas uma coisa rara aconteceu e ele ponderou duas vezes antes de executar suas ações. Somente deixou-se levar pelos amigos até seu quarto, onde poderia trocar de roupa e sair com todos para tentar se divertir um pouco.
No meio do corredor, Bart olhou para trás e pensou se seria muito estranho chamar Gar para o encontro entre amigos. Lembrou que o rapaz esverdeado parecia realmente muito cansado em seu sono, então deixou o pensamento de lado, não deixando de espiar mais uma vez a porta do quarto do companheiro de equipe.
Superboy reparou em tais atitudes de Bart e em como o amigo parecia retraído em suas vontades. Então resolveu dar a ideia:
– Quer chamar o Garfield?
–... Que?
Todos riram novamente, e aquilo começava a incomodar Bart.
– Podemos chamar o Mutano pra ir com a gente, se quiser.
– Ah... Ele está bem cansado, ta dormindo que nem uma pedra.
–Talvez em uma próxima vez então, não é?
– É... – Bart esticou os braços, espreguiçando-se, puxando-os para trás do corpo o máximo que podia. – Então eu vou na frente pra me trocar. Assim a gente não se atrasa.
– Relaxa, Bart, não temos nenhum horário marcado. – Conner disse, vendo Bart correr na frente sem usar sua super velocidade.
– Eu sei, mas quanto mais rápido sairmos, melhor. – Ativou seu poder e saiu como um raio pelos corredores.
– Bom... – Robin tomou a dianteira. – Não vou sair por aí com máscaras, vou me trocar também. – Buscou o olhar de Superboy e piscou. – Nos encontramos no jardim da Torre!
– Certo. Estaremos esperando. – Cassie acenou para Tim. – Não precisamos nos preocupar com isso, não é? – Referiu-se aos uniformes simples que decidiram ser o melhor para as lutas.
– Nunca me dei bem com colans. – Conner confessou. – Não me sinto confortável.
– Pois é, nem eu. Agradeço por não precisar usar uma máscara também...
Superboy e Moça Maravilha caminhavam lado a lado, conversando sobre como lidavam com a vida civil.
– Não tenho tantos problemas com minha identidade civil. Na verdade, Conner Kent é meu alter ego, eu nasci Superboy. – Conner tentava explicar para a loira. – Nunca entendi direito porque o Clark me falava para não ser o Superboy por todo o tempo. Achava que ele não me queria como... Bom, você sabe...
–... Sucessor? – Cassie riu.
–... É muita prepotência minha pensar sobre isso?
– Sempre temos uma escolha, mas talvez fosse a ideia inicial.
Passaram pelo hall de entrada da Torre, abrindo caminho para o jardim, onde se encontrava o memorial dos fundadores Titãs.
Conner reparou que a companheira admirava sonhadoramente a estátua de sua predecessora, Donna Troy.
– Ela teria sido uma Mulher Maravilha fantástica... – O clone proferiu.
– Ela era fantástica... Como Donna, Moça Maravilha ou Troia. Mas mais ainda como uma irmã.
Cassandra abaixou o olhar em uma reverência respeitosa à imagem da amiga e irmã por juramento. Donna sempre foi seu porto de segurança, quando ganhou seus poderes de seu pai, Zeus, mesmo antes da princesa Diana, a Mulher Maravilha, tomar para si sua guarda. Diana era uma amazona, não possuía a chamada paciência e não pretendia meter-se em meio a adolescentes, por isso foi prontamente contra a entrada de Cassandra na equipe dos Novos Titãs. Ainda mais por saber que a presença de Conner estava confirmada. Amazonas possuíam uma dura aversão contra a influência dos homens nas decisões de batalha. Ainda mais quando a presença de homens cria ilusões amorosas em seus corações, em detrimento da luta pela justiça. Era uma doutrina que lhe fora imposta, mas que não deixava de admirar. O código das amazonas possuía passagens que ainda não podia dizer entender. Talvez precisasse amadurecer um pouco mais.
O vento noturno levantou algumas folhas do jardim e balançou as flores taramanianas que Estelar cultivava aos arredores da Torre. Conner admirou os cabelos da amiga se bagunçarem diante do ataque impiedoso do vento e sorriu. Seu olhar se encontrou com o da colega e a moça sorriu de volta, tentando prender o cabelo em um rabo de cavalo.
– Desde quando está namorando o Timothy? – Perguntou quando a madeixas já estavam presas.
O clone kryptoniano não desfez o sorriso, mas desviou o olhar para a lua que já se mostrava no céu de São Francisco, admirando sua luz cálida.
– Não sou bom com datas.
– É, você não é. – Cassie colocou um casaco jeans, não se mostrando abalada com o fato que parecia já conhecer, e então viu Bart correr e parar à frente dos dois colegas.
– Contemplem!!! – Kid Flash ergueu os braços, exibindo seu traje jovem e descontraído, ouvindo gracinhas de Moça Maravilha e Superboy.
– Todos prontos?
Tim surgiu logo após a entrada triunfal do velocista, também trajado com vestes joviais, mas seu porte transpassava uma elegância que talvez não combinasse tanto com as roupas. Conner suspirou ao bater o olho em seu menino prodígio, percebendo o quanto era raro saírem em encontros sociais. O viu direcionar toda sua atenção para Bart e fez o máximo para não sentir ciúmes do moreninho e colocar-se entre os dois, não obtendo muito êxito. Andaram lado a lado até a garagem da Torre, onde o carro de Tim estava estacionado.
Bart pareceu ter uma grande ideia e Cassandra adorava a cara que o impulsivo fazia quando isso acontecia.
– Podemos ir com o Batplano? – Perguntou entusiasmado.
Todos pareceram ponderar o pedido seriamente, com exceção de Tim.
– Vocês não estão falando sério... – Tim deixou claro sua posição diante tal tema.
– Eu posso pilotar!!! – Bart gritou. – Eu li todos os livros existentes sobre como pilotar planos, tenho certeza que consigo!
O silêncio tomou conta do lugar e Bart parecia perder um pouco do entusiasmo. Quem prestasse atenção, poderia jurar ver uma luz se apagando aos poucos em volta do rapaz.
– Quer saber, que se dane. – Tim esbravejou, chamando a atenção de todos. – O que de pior pode acontecer?
Cassandra quase listou todas as possibilidades, mas o sorriso de Bart a fez esquecer-se de qualquer complicação teórica.
– PARA O HANGAR ENTÃO!!! – Bart puxou Cassie e a carregou no colo, correndo velozmente em direção ao hangar da Torre, não ouvindo os protestos da amiga. – EU APOSTO QUE CHEGAMOS LÁ PRIMEIRO QUE VOCÊS!!
Tim e Conner processavam a nova informação admirando o rastro de luz que Bart deixava por onde passava em super velocidade.
– Vocês já apostaram corrida? – Timothy perguntou, realmente curioso.
– Não, mas não por falta de tentativas dele.
– Ué, por quê? Não seria uma boa chance de testar seus poderes?
– Sim, mas... Sou orgulhoso e sei que ele ganharia... – Riu sem graça. – O Flash já apostou com o Clark algumas vezes e ele sempre ganhou.
– Isso não quer dizer nada. Mas você já perdeu este último desafio. – O menor sorriu e puxou o clone para um beijo leve e cheio de saudade. – Vamos para Gotham depois dessa reunião, entendido? – Sussurrou próximo aos lábios do rapaz, beijando-o novamente em seguida.
–... Sim senhor. – Carregou o namorado e disparou ainda mais animado em direção ao Hangar, encontrando-se com os amigos.
– APERTEM OS CINTOS!!!
Bart parecia fora de si de tanta empolgação, tanto que Tim quase desistiu daquela ideia absurda.
– Isso é loucura... – Sussurrou para Conner e Cassie enquanto Bart preparava a aeronave para levantar voo. – A gente vai morrer.
Apesar de seus esforços para que Bart não o ouvisse, o mais novo proferiu:
– Fala sério, Tim! Nos juntamos aos Titãs, conheceremos novos amigos e estamos todos reunidos. O que pode ser melhor do que isso? – Tim sorriu ante a alegria de Bart, que parecia exatamente inabalada, como imaginava. Talvez ele realmente só precisasse de atenção.
– Não morrermos nesta noite? – Conner proferiu brincando, sentindo que aquela era uma frase com meias verdades. – Eu tenho muito o que experimentar ainda!!! – Um barulho ensurdecedor das turbinas os assolaram e o clone pareceu realmente preocupado, fazendo todos gargalhar.
– Acaba logo com isso, Kid!! – Robin gritou, também achando graça da situação de Conner. – Lembre-se de que preciso entregar esse batplano para o Batman sem nenhum arranhão!!
– Confia em mim, eu sei o que to fazendo!!! – Disparou para fora do Hangar rindo quando todos gritaram com o avanço.
E bateu uma das asas do plano no primeiro outdoor pelo qual passou.
Todos os encararam e o menino parecia não acreditar no que havia acontecido, permanecendo com os olhos arregalados.
–...Opa.
–----x-----
Manhã seguinte.
Aquela banheira era pequena, mas de alguma forma, deveras confortável. Tragou seu cigarro mentolado e admirou sonolentamente o contraste da fumaça com a luz do sol matinal que adentrava por aquela janela exageradamente grande, se levassem em conta que se tratava da janela de um banheiro. Encostou a cabeça na borda e suspirou preguiçosamente, esticando os pés e pernas até sentir que estralaram. Um sorriso sutil brotou sem algum forte motivo, a não ser por seu corpo estar relaxado e um tanto dormente. Poderia ficar naquela água o restante do dia se não fosse por aquela intromissão desnecessária do dono do aposento.
– Sabe que detesto essas porcarias.
Dick Grayson adentrou o local e, antes de qualquer “bom dia” polido, arranca o cigarro dos dedos de Jason Todd, molhando-o na torneira e jogando-o na lixeira.
– E é proibido fumar na Torre. – Pegou uma escova de dente e se preparou para escová-los. – Não sou seu tutor só no papel, entendeu?
Iniciou uma escovação de dentes com um vigor que chegava a incomodar Jason. Para o rapaz, não era uma atitude condizente para tal período do dia, não fazia nenhum sentido. Detestava o turno matutino, quando o sol estava nascendo era a hora em que normalmente estava indo dormir. Mesmo antes de iniciar a vida de vigilante já adotava tal estilo de vida. E esperava com todas as forças que pudesse tomar um banho e afundar-se no colchão, mas parecia que o dia na Torre Titã começava cedo.
– Ok, papai...
Jason espreguiçou os braços e girou um dos ombros, como se o colocando no lugar. Sempre estava com algum tipo de ferimento ou contusão e a dor que elas proporcionavam já fazia parte da sua rotina. Porém o corpo realmente estava fatigado por conta da noite que passara com Richard, no seu novo quarto.
Riu internamente, deixando um sorriso sacana escancarar esse gênio que já chamava a atenção de Asa Noturna. Os dois se encaravam por através do espelho sobre a pia onde Dick escovava os dentes, um olhar de cumplicidade que somente amantes trocavam. Jason mordeu os lábios e riu divertidamente ao abaixar o olhar para o quadril do mais velho, que trajava sua cueca box azul e vermelha, provavelmente por não ter encontrado a própria peça íntima em meio à bagunça que fizeram naquele quarto da Torre.
Possuíam praticamente o mesmo porte físico, com uma diferença de alguns centímetros na altura, o que tornava possível tal troca de vestimenta. Jason era mais alto, mesmo assim, e enchendo-se de força de vontade, sentou na banheira e cruzou os braços na beirada, apoiando o queixo neles.
– Até quando vai ficar aí?
Richard desviou os olhos de Jason e pareceu lembrar-se do que estava fazendo, cuspindo a pasta que escorria pela boca.
– Vem cá. – Chamou numa ordem. – Eu quero te tocar.
Esticou um braço, enfatizando o pedido, e então Richard lavou a boca desajeitadamente, ainda deixando alguma espuma no queixo. Virou-se para Capuz Vermelho, que lhe admirava o corpo com todas as segundas intenções possíveis.
– Sabe... – Caminhou alguns passos até o rapaz na banheira, parando quando viu alguma esperança de aproximação brilhar em seus semblante. – Meus olhos estão aqui em cima. – Apontou para os dois azuis, fazendo com que Jason os encarasse. – Eu não sou um pedaço de carne, ok?
Jason desencostou da borda da banheira, gargalhou e afundou na água, jogando os cabelos e mecha branca para trás.
– Não quis ofender a senhorita, perdão.
– É sério, você poderia ser um pouco mais sensível quanto a isso. Eu sei que sou gostoso e tal, mas me cansa ser visto apenas como objeto de prazer. – Brincou mais um pouco, mesmo que em seu subconsciente, aquilo fosse uma verdade.
– Não tenho mais nada a lhe oferecer... – Jason encarou a paisagem por além da janela, parecendo pensativo. – Eu já te dei tudo, Dick... Tudo.
Sentiu o sangue gelar quando encontrou o olhar de Jason. Por alguma razão, o jovem havia cortado todo o clima de piada iniciado por Dick. Este sentiu pesar com tal mudança, anotando em seu caderninho mental que Jason andava bastante sensível por aqueles dias. Não sabia ao certo se gostava daquele Jason que se mostrava presente mais a cada dia, contudo aquilo certamente o incomodava.
Pulou para dentro da banheira sem aviso, espirrando quase toda a água pelo banheiro. Como a banheira era pequena para um homem adulto, quanto mais dois, Richard havia pulado em cima das pernas de Jason, fazendo-o quase gritar com o impacto.
– Porra, Grayson!!! – Esbravejou. – Quase quebrou minha perna, idiota!!! – Dramatizou, pois se sentiu no direito. – Você é sim um pedaço de carne!!! Um maldito e estúpido pedaço de carne que só serve pra foder!!!
Dick gargalhou vitorioso. Aquele sim era o Jason que lhe fazia alegre, por mais que tal fato demonstrasse certo grau de masoquismo por parte do jovem Asa Noturna. Saiu de cima das pernas do outro, tentando ajoelhar-se e segurar o rosto de Capuz Vermelho, que ainda permanecia em seu momento de insultos gratuitos direcionados a Richard Grayson. Quando conseguiu fazê-lo sem machucar o jovem contrariado, encostou sua testa na dele, fazendo-o parar de falar, mas permanecer com o cenho franzido.
– Se apaixonar por mim te deixou melancólico, Jay?
Jason sentiu as costas arrepiarem e segurou os pulsos de Richard um tanto nervosamente.
– Corta essa, seu babaca! – Desviou o olhar, mesmo que seu rosto continuasse frente a frente com Dick. – Para de se achar, é nojento.
– Aqui... – Passou as mãos do Capuz Vermelho por seu torso, lenta e carinhosamente. – Você gosta de me tocar, não é? – Deixou que Jason tomasse conta daquele ato sem ser guiado. – Jay... Eu adoro quando me toca. – Beijou cada bochecha do rapaz, que já havia sido hipnotizado pelo corpo do mais velho.
Fechou os olhos e suspirou um gemido quando Jason colocou as mãos por dentro da cueca e o puxou mais para perto pelas nádegas.
CV estava entregue àquele clima sensual novamente. Irritava-se com tal poder de Dick sobre si, mas não precisava sentir remorso naquele momento.
– Sabe que essa cueca é minha, não é?
– É claro. – Respondeu, sentando-se no colo de Jason e remexendo-se sobre seu membro.
– Você ficou um tesão nela. – lambeu o queixo de Asa Noturna, limpando o resto de pasta de dente que ali insistia, mordendo e sugando seu pescoço. – Acho que vou dá-la a você.
Jason o soltou, fugiu do agarro para um beijo, e abriu os braços, apoiando-os na beira da banheira, admirando, desejoso, Richard e seus movimentos sensuais em cima de si.
As mãos de Dick passeavam pelo corpo do mais novo, em um joguete lascivo que ainda demoraria para terminar se Jason já não estivesse em seu limite.
– Merda. – Xingou quando percebeu que não poderia mais brincar com Richard. — Quero isso dentro de mim... – Apertou o pênis de Dick, fazendo-o gargalhar e gemer ao mesmo tempo. – Acha que consegue transar comigo nesse lugar apertado?
Estava impondo um desafio, e Richard fingiu se sentir ofendido com tal pergunta.
– O que eu disse antes mesmo? – Ficou entre as pernas de Jason e as puxou, deixando cada uma pendurada em um lado da banheira, sendo ajudado pelo palmo de água que ainda se encontrava ali. – Em qualquer lugar, Jason. – Brincou com o traseiro do mais novo, vendo-o ofegar e pender a cabeça para os lados, mordendo os lábios, sem tirar os olhos de cima de si. – Se quiser, a gente marca cada canto desse quarto.
Riram juntos do que fora dito, mesmo sendo provável que tal ideia fosse colocada em prática futuramente.
Com certa urgência, Jason foi puxado para um beijo, sendo correspondido em meio aquele contorcionismo que o ato gerava. Como ambos possuíam um controle físico avançado (E haviam sido treinados pelo Batman), a posição em que se encontravam era menos desconfortável do que parecia. Se alguém os flagrasse ali, se impressionariam mais com a elasticidade de seus corpos do que com o ato sexual em si.
– Segure-se.
Dick ordenou, fazendo com que Jason agarrasse seu pescoço para equilibrar-se. Puxou mais suas pernas, levantando-as até os ombros, fazendo com que seus corpos se encontrassem e seu membro roçasse na entrada do mais novo.
– Isso tem tudo pra dar errado. – Riu, divertindo-se com a posição de Jason em cima de si, suspirando desejoso quando este gemeu ante o toque íntimo.
– Só faça de uma vez, idiota...
Penetrou-o, ficando atento a cada expressão que o possuído tomava, arrepiando-se quando as unhas de Jason lhe arranhavam as costas. Segurou-o pelo traseiro, ajudando-o nos movimentos da cópula, delirando ao perceber que transar com Jason estava ficando cada vez melhor, mesmo em meio às loucuras que sempre impunham àquela relação. Era de uma perfeição que o fascinava. Não conseguia mais imaginar um universo em que Jason não estivesse ao seu lado e nem se assustava mais com tais pensamentos.
Gemiam em meio aos espasmos musculares que aquele esforço causava, fazendo o resto da água que se encontrava na banheira balançar nervosamente, acompanhando o ânimo daqueles rapazes.
Encaravam-se, devorando um ao outro em olhares desejosos cada vez que uma estocada ecoava acusticamente pelo banheiro. A franja branca caía sobre a testa de Jason e ser visado por entre aquela cortina platinada foi quase como a gota d’água para Richard. Agarrou-o em um fogoso beijo, desequilibrando-se quando CV respondeu-lhe o ato, puxando seus cabelos negros.
Um gemido foi abafado pela língua de Jason, que quase bateu a cabeça na extremidade da pequena banheira se não fosse o autocontrole de Dick. Fez com que o rapaz lhe largasse o cabelo e tomasse algum controle sobre o seu peso.
– Maluco...
– Dick... – O cotovelo lhe dava apoio na borda da banheira, começando a rebolar junto às investidas de Asa Noturna. – Ahhh... Droga! – Gritou em gemidos quando se sentiu ser masturbado pela mão livre do mais velho. – Não faça isso... Sem minha permissão, idiota...
O possuidor gargalhou entre gemidos.
– Não se incomodou com isso da última vez... – Aumentou a velocidade das investidas e masturbação. – Achei que já havia me dado tudo.
Jason o encarou contrariado. Estava completamente perdido em meio àquela relação. Nu e frágil entre um sexo maravilhoso e uma situação que ninguém conseguia entender. Pendeu a cabeça para o lado quando sentiu uma fisgada prazerosa no ventre, acompanhada de uma dor um tanto depressiva no coração. Realmente não tinha mais nada a oferecer para Richard além daquilo?
– Eu te amo, droga. – Apertou os olhos, sentindo o orgasmo se aproximar cada vez mais. – Merda!
Richard deixou-se cair por cima de Jason, amortecendo-lhe a queda no fundo daquela banheira com os braços. As pernas do mais novo voltaram para seus ombros e beijou-o de forma profunda, aceitando aquele sentimento. Sentiu o pênis ser apertado entre aquela transa e viu estrelas com a vinda de seu gozo. Apertou-lhe o membro na intensidade do prazer que sentia, fazendo com que Jason também alcançasse o êxtase daquele contato físico.
– Eu sei, Jay... – Sussurrou em seu ouvido quando os sentidos começavam a voltar ao natural. – Eu sei... – Beijou-lhe o pescoço e encostou-se a testa do sonolento.
Ficaram em silêncio por uns longos segundos, recobrando as forças. Quando Richard fez menção de levantar, encontrou o olhar de Jason admirando o teto daquele aposento.
– Ei... – Fez o mais jovem focar o olhar em si. – Não é de hoje que te pego com essa cara sonhadora depois que goza. Eu sou tão bom de cama assim? – Richard riu, realmente achando que aquela era uma verdade incontestável.
– Sai de cima de mim, seu idiota... – Jason suspirou nervosamente, sendo atendido por um Dick divertido por sempre conseguir tirar o rapaz do sério. – Esse seu ego me irrita.
O sorridente saiu da banheira, retirou de vez a cueca azul de Jason, que estava descida em meio às pernas e ligou o chuveiro, do outro lado do seu banheiro.
– Vai precisar de outro banho. – Apontou para o sêmen que compartilhavam naquele ato, entrando debaixo da água quente, logo se ensaboando.
– Eu só quero fumar. – Jason confessou preguiçosamente, olhando para os dedos enrugados da mão, por estar a muito tempo dentro da água.
– Acho que também te amo...
Desviou o olhar ainda preguiçoso para o rapaz no chuveiro, vendo-o virar de costas para si, ensaboando as pernas. Não pareceu demonstrar nenhuma emoção ante ao que lhe fora confidenciado. Nem ao menos pareceu surpreso, dada a situação em que viviam.
– Que você acha, eu sei, cara. Eu ein...
– Ta, ta... – Richard riu sem graça e virou o olhar novamente para Jason. – Quando eu tiver certeza, você vai ficar sabendo.
–... Você não tem o que fazer não? – Jason desviou o olhar e finalmente quis sair daquela banheira.
– Até tenho... — Seguiu com o olhar o corpo nu de Jason se retirar da banheira e escoar o resto da água e sêmen que ali se encontrava. — Estou há um tempo parado, vou atrás de alguma missão com o Victor.
– Que saco. – Bufou e enrolou uma toalha na cintura, encaminhando-se frente ao box de vidro do chuveiro. – É de manhã, a gente não faz essas coisas de manhã... Ninguém em sã consciência vai atrás de um trabalho há essa hora!!
O vigilante mais velho sorriu com a cena preguiçosa de Jason, que nem havia percebido que se incluía nos planos de Asa Noturna.
– O que você quer fazer então?
– Dormir...
– Fora de questão.
Ouviu os xingamentos usuais direcionados para sua pessoa.
– Vamos a um encontro então.
Jason estranhou e fez que não entendeu.
– Encontrar quem?
– Só nós dois, babaca.
– Você ta maluco, só pode.
– Qual foi a última vez que saiu de casa com trajes civis?
Capuz Vermelho ficou em silêncio, parecendo realmente estar pensando em uma resposta.
– Eu não saio mais como civil. Você sabe disso, Dick.
E ele realmente sabia dos motivos do mais jovem, mas resolveu esquecer-se disso por ora.
– Vai sair hoje.
– Cara...
Richard desligou o chuveiro e puxou uma toalha, secando os cabelos. Colocou-a no ombro saiu do box. Segurou as mãos de Jason e o enlaçou pela cintura.
– Eu vou estar com você... O que pode dar errado?
–... Muita coisa...
–----x-----
Continua
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