Heroína

5 Você conhece o final desse filme apenas porque viu muitas vezes


Notas iniciais
Não aguentei, tive que escrever esse capítulo antes de qualquer outro. As ideias simplesmente fluíram, e eu estava realmente inspirada. Fico feliz que estejam gostando, os comentários são incríveis. Novamente, a Annie deixa elogios maravilhosos não só aqui como nas outras fics também, acho que estou ficando mimada! Muito obrigada, meu anjo. Espero que sintam esse capítulo tanto quanto eu. Nos vemos em breve. Passem no meu perfil e deem uma olhada em Quimera e nas minhas outras fics! AVISO: Violência, palavreado de baixo calão

Vamos causar algum problema

Você faz com que eu me sinta tão fraca

Eu aposto que você beija seus punhos

Antes que eles toquem minha bochecha

Mas eu tenho minha cabeça formada dessa vez

Tem uma ameaça em minha cama

Você consegue ver sua silhueta?

Trouble, Halsey

Capítulo V–

Você conhece o final desse filme apenas porque viu muitas vezes

Sobreviver foi tudo que Hinata fez ao longo de sua vida. Ela gostava de se considerar uma especialista. De fato, ela sobrevivera a maioria das situações em que a maioria das pessoas simplesmente desistiria. Quando foi fraca, ela sobreviveu. Apesar disso, não pensava, nem por um momento, que aquilo se devia às suas próprias forças. Na maioria das vezes, Hinata contou com a sorte.

Foi aquela mesma sorte que permitiu que ela chegasse viva em casa.

Kiba estava alterado, mais que o costume, quando puxou abruptamente os capacetes do compartimento da moto. Hinata sabia que devia impedi-lo de pegar as chaves, mas estava assustada e paralisada o bastante para mal conseguir pegar seu próprio capacete, que dirá impedir o Inuzuka. Montaram, e Kiba não esperou que ela se ajeitasse antes de dar a partida. Pouco acomodada, Hinata viu borrões passarem por eles, enquanto desciam a rua escura em uma velocidade avassaladora. Durante todo o percurso, Hinata manteve os próprios olhos fechados, rezando para um Deus que ela não acreditava para que não causassem um acidente. O garoto fazia curvas fechadas e a lataria passava rente ao asfalto, acelerando quando deveria frear e passando, pelo menos, três sinais vermelhos. Por algum milagre, Hinata abriu os olhos no momento em que seu prédio se fez visível, e ela respirou tão aliviadamente que seu tórax doeu. Kiba entrou na garagem ainda muito rápido, derrapando em uma vaga qualquer. Hinata sentia que cada gota de álcool que havia em seu corpo evaporara, mas Kiba continuava com os olhos injetados e a expressão raivosa. Subiram pelas escadas, com Hinata correndo para acompanhar seus passos.

Quando chegaram no apartamento, de alguma maneira, Hinata sabia que desejaria ter morrido em um acidente de moto.

A porta foi aberta com um supetão, fazendo o chaveiro cair da maçaneta. Hinata se abaixou para pegá-lo, enquanto seus olhos cravejavam no namorado, que respirava pesadamente. A garota não sabia qual seria o melhor momento para tentar uma aproximação, e todos seus movimentos pareciam cuidadosamente ensaiados. Deixou sua jaqueta sobre a bancada junto com as chaves, sem tirar os olhos de Kiba – era como um domador tentando se aproximar de um leão. Qualquer movimento errado poderia ser fatal.

O garoto andava pela pequena sala em passos transtornados. Ele puxava o cabelo e gesticulava para o alto, para si mesmo. Hinata já tinha visto aquele filme antes. Com cuidado, aproximou-se, com as mãos ligeiramente a frente do corpo e o rosto em uma máscara neutra, embora sua garganta estivesse trancada e suas pernas, fracas.

— Kiba... – tentou ser firme, mas sua voz falhou, rouca e sussurrada. Estava quase a ponto de tocá-lo quando o garoto se virou em um ímpeto para ela. Tudo aconteceu muito rápido. O braço no alto desceu em velocidade, com a mão espalmada, atingindo em cheio o lado direito do rosto da Hyuuga, que, desprevenida, caiu no chão.

— CALA A BOCA, SUA VADIA.

Hinata continuou no chão por alguns segundos, fitando o carpete enquanto lágrimas se formavam em seus olhos. Eram quentes, mas tudo em seu rosto parecia queimar. Sua bochecha formigava, e o gosto de sangue em sua boca a deixou enjoada. Ela engoliu, mantendo os olhos baixos para que as lágrimas não viessem a tona. Levantou-se com dificuldade, mas seu corpo todo pesava.

— Kiba, eu...

— Vagabunda! – o garoto vociferou, desferindo outro tapa, desta vez com as costas da mão. Pegou em cheio do outro lado, e Hinata, com seu corpo minguado, foi lançada ao chão, mais alguns metros para trás.

Desorientada, ela engoliu um soluço. Aquele tinha doído mais, e ela sabia que deixaria uma marca. Não tinha sido perto do olho, mas, da maneira que latejava, sabia que tinha aberto um corte, pouco abaixo da maçã. Ambos os lados estavam doloridos, sua cabeça explodia e sua visão estava embaçada por conta do choro preso. Mesmo lúcida, seus pensamentos pesavam, confusos, e era difícil distinguir a realidade. Enquanto encarava seus próprios dedos através do cabelo jogado à frente do rosto, Hinata pensou no que doía mais – os tapas ou a humilhação.

Em uma nova tentativa, desta vez sem se levantar, a garota tirou os fios grudados pelo suor, afastando-os para a orelha. Algumas lágrimas já escaparam aquela altura, e ela piscou repetidas vezes para conseguir enxergar a silhueta do namorado. Permaneceu apoiada contra uma das palmas, e Kiba parecia mais alto e intimidador visto de baixo para cima.

— Kiba, por favor, me deixe explicar- – implorou, encontrando sua voz por um milagre, uma vez que até mesmo respirar parecia impossível. Não adiantou. Kiba avançou como um animal descontrolado, e sua mão larga emaranhou-se contra o cabelo de Hinata, trançando seus dedos firmemente contra os fios e puxando-os com tamanha força que a garota foi levantada alguns centímetros do chão. Ela choramingou, sentindo pontadas dolorosas no couro cabeludo.

— O que tem para explicar? Hein?! SUA PUTA! – ele gritou perto de seu rosto, e gotículas de saliva voaram por todo seu rosto. Hinata lamuriou-se novamente, sentindo uma dor inexplicavelmente abrasadora.

Não conseguiu responder. Procurou desesperadamente pelas palavras, mas não conseguiu as encontrar dentro de si mesma. Havia muitas coisas que Hinata não conseguiria encontrar dentro de si mesma. Ainda assim, sua visão se clareou, embora tudo estivesse em tons doentios de vermelho, que ela imaginou ser sangue. Tudo que viu foi o rosto do namorado, parado a centímetros do seu, encarando-o de forma que só poderia ser descrita como bestial. Estava tão perto que conseguia ver os fios da barba rala, por fazer. Sua mandíbula trancada deixava todo o maxilar mais definido, com traços fortes. O cabelo grande espalhava-se por toda a parte, as narinas inflavam, e seus olhos – ah, seus olhos –, estavam coloridos de um tom opaco, com veias saltadas e avermelhadas. Mesmo que houvesse somente a luz do corredor iluminando-os, Hinata conseguia enxergar sua pupila dilatada, injetada. Com o pouco de sanidade que ainda lhe restava, a Hyuuga pensou que, no inferno, aquela seria daquela maneira que o diabo se pareceria.

— E-eu não fiz nada... – choramingou, agarrando-se desesperadamente no braço que suspendia seu cabelo, repuxando tanto que Hinata implorou internamente para que arrancasse-o de uma vez. Kiba a fitou com fúria, procurando em seus olhos vestígios de uma provável mentira.

— Então quem era ele? Quem era aquele cara te tocando? Responde! – sacudiu-a com força, e Hinata soltou um grito, sem conseguir se segurar. Seu rosto já estava encharcado, e começava a ficar sem ar, perdendo a consciência.

— N-não era ninguém... – o puxão ficou mais forte – E-eu juro! – conseguiu repetir, mais forte.

A posição em que estava fazia com que suas pernas permanecessem dobrados uma sobre a outra, e começavam a formigar. Sua cabeça doía tanto que era impossível descrever tal tormento em palavras. Não conseguia respirar direito, e o latejar em seu rosto tirava o pouco de concentração que lhe restava. Sabia que, provavelmente, aqueles cortes inchariam mais tarde. Estava deplorável, física e mentalmente falando. Parte de si implorava para que ele a matasse de uma vez. Mas, mesmo assim – ainda assim –, Hinata não queria que Kiba soubesse de Naruto. Não estava pensando racionalmente, mas não teve tempo de pensar. A resposta surgiu automaticamente, e seu desejo oculto de protegê-lo fez com que soasse verdadeira.

— Espero que esteja mentindo para mim, sua piranhazinha. – finalmente o garoto a soltou, mas assim que seu corpo desfaleceu no chão, ele desferiu um chute potente contra sua barriga desprotegida.

Hinata arfou, o ar escapando-lhe de forma que ela não imaginou ser possível. Parecia que aquele chute tinha quebrado cada uma de suas costelas, e ela se apoiou contra o piso, uma das mãos apertando o abdômen, enquanto a outra agarrou a garganta, ofegando por oxigênio. Começou a se desesperar, a visão escurecendo por um momento, mas, quando o ar se fez presente novamente, ela começou a tossir copiosamente. Por sorte, não cuspiu sangue. Não haviam ferimentos internos.

Enquanto se recuperava, ouviu a porta do quarto bater, e, quando se deu conta, estava sozinha. A luz do corredor ainda estava acesa, piscando e falhando algumas vezes. As cortinas estavam abertas, deixando que a luz da lua atingisse parte do cômodo. Deveria ser tarde da madrugada, e os vizinhos muito provavelmente estavam dormindo – não que fizesse diferença. Estavam acostumados a ignorar as discussões do casal que morava no fim do corredor.

Hinata apoiou-se contra os próprios braços, no chão gelado, e deixou que um soluço escapasse, seguido de outro, e mais outro. Muitos deles surgiram, e, ainda com falta de ar, pareciam com arfares desesperados. Tentou se acalmar, levando uma das mãos até a boca, para que seu choro não reverberasse pelas paredes finas. Quando mais apertava, mais lágrimas surgiam. Não sabia pelo que chorava – cada parte de corpo doía, sua cabeça se despedaçava, seu rosto estava destruído, sua barriga latejava, a recente embriaguez a deixara ainda mais sem forças. Fisicamente falando, tinha todos os motivos para desabar. Mas, se pudesse afirmar algo, seria que a dor era a última coisa em que pensava naquele momento. Aquelas lágrimas tinham um gosto diferente, embora fossem as mesmas. Grossas, quentes, salgadas. Quando atingiam os cortes, ardia. Seu corpo todo balançava com fungadas, e ela se apertava contra si mesma.

Era só mais uma maneira de tentar juntar suas partes quebradas.

Em meio a insanidade, conseguiu alcançar o celular, que voara de seu bolso em algum momento entre o primeiro e o segundo tapa. Não parecia estar trincado. Desbloqueou, indo direto para a chamada rápida. Não conseguia enxergar direito, mas não precisou dois toques.

— S-sou eu. – sussurrou, em meio a soluços – E-eu posso ir aí?

Sabia que a resposta seria afirmativa, mas esperou a confirmação antes de desligar. Sabia, também, que não poderia ficar ali. Aquela história ela conhecia bem – conhecia seu fim. Quando Kiba acordasse com uma ressaca maior do que pudesse suportar, procuraria por uma xícara forte de café e aspirinas – muitas delas –. Ele perceberia o que tinha feito, e voltaria atrás. Juras de amor, presentes caros, noites quentes de sexo, promessas a serem quebradas. E seria daquela maneira até que outra coisa o irritasse e eles voltassem, inevitavelmente, para o começo.

Hinata não saberia dizer como conseguiu se pôr de pé. Cada músculo em seu corpo gritava uma dor diferente, em uma harmonia sinfônica explosiva. Apesar disso, forçou seus membros a obedecerem seus comandos, e, apoiada junto a estante, conseguiu se levantar, mesmo que não fosse capaz de endireitar a coluna, naquele momento. Gotas de sangue respingaram em suas mãos, saindo de seu nariz, e ela controlou o sangramento com a manga da camiseta. Ainda que tremesse, se fez parar de chorar, deixando apenas os traços mornos das lágrimas que evaporavam lentamente das suas bochechas machucadas. Sua visão parecia nublada, e ela imaginou que parte de seu olho poderia estar inchada. Tateou novamente sua jaqueta, jogando-a sobre os ombros doloridos das duas quedas. Massageou o cabelo na tentativa falha de amenizar a dor de cabeça. Juntou seus documentos, trocados e seu celular. Abriu a porta devagar, andando passo por passo, incapaz de se equilibrar adequadamente. Fechou-a atrás de si, sem olhar para trás, e, apoiada pelas paredes, escorregou até o elevador.

As portas espelhadas se fecharam, e a música clássica que soava baixo fazia com que toda a cena parecesse uma comédia. Hinata sorriu enviesadamente para o reflexo que a fitava, carregando uma mágoa profunda por trás das íris lilases. Aquela era uma boa imagem para gravar na memória. A maneira que suas roupas pareciam erradas, seus pés descalços, sujos, a pele que contrastava em diferentes cores a medida que subia o olhar. Branco, como giz. Vermelho, claro e escuro, das manchas. Escuro nos braços. Roxo na maior parte da pompeia. Quando um novo choro atingiu sua garganta, ela teve vontade de rir. Seu pai certamente teria um ataque cardíaco ao vê-la daquela maneira – imaginar o episódio era cômico.

O elevador se abriu antes que pudesse praticar mais autopiedade. Vagarosamente, arrastou os pés pelo hall, vazio e silencioso. Hinata sabia que o porteiro noturno dormia na dispensa de materiais, e agradeceu estar com sua cópia das chaves. Abriu o portão, alcançando a calçada gelada. O clima estava mais frio que ela se lembrava. Mesmo com a jaqueta sobre os ombros, seus dentes começaram a bater. Todo movimento que fazia doía – em determinado momento, era como milhares de agulhas penetrando sua pele. Não podia sequer morder os lábios, que estavam cortados e começavam a inchar.

Por sorte – novamente –, não ficava longe. Seu refúgio. O único que lhe sobrara. Aquela área era ocupada predominantemente por prédios residenciais, e, duas quadras abaixo, uma casa simpática resistia aos condomínios monumentais. Tinha escadas e uma porta elegante. Hinata já tinha se deixado enganar por aquela fachada – mas já repetira aquele caminho vezes suficientes para ter em sua memória o que realmente significavam.

A medida que andava, ficava mais fácil de controlar a dor e seus movimentos. Quando estava chegando, já era capaz de caminhar sem se apoiar, mas ainda arrastava os pés, evitando as rachaduras cheias de pedregulhos. A noite se erguia majestosa sobre ela. A rua era dos vagabundos e transeuntes sem rumo, de modo que nenhum deles prestaria atenção nela. Agradecia por ser invisível naquele momento.

Chegou até a casa, subindo os degraus com caretas. Respirou fundo, o rosto já recomposto do choro que a engoliu mais cedo. Timidamente, deu duas batidas, e, em seguida, mais duas. Esperou. Não demorou – ela nunca demorava. Apareceu na porta vestindo uma camiseta grande demais e um shorts pequeno demais. Não estava de pijama, e Hinata se sentiu menos culpada ao saber que não a tinha tirado da cama ainda. Passou do corpo escultural para aqueles olhos claros afiados, que a avaliavam de cima a baixo de forma reprovadora. A Hyuuga esperou novamente, sem coragem de voltar a encará-la, até que, enfim, ela soltou um suspiro pesado e desceu um degrau para ajudar a garota.

— Vem, entra logo.

Hinata deixou-se apoiar contra os braços fortes da amiga, e entraram. Como sempre, a atmosfera dentro daquela casa a remetia segurança. Era aquecido e claro, com muitas lâmpadas e cores. Quadros coloridos espalhados pelas paredes, mas nunca eram os mesmos desenhos. Um único cômodo, que visava economizar espaço, mas, atrás das portas de correr, um quarto confortável e um pequeno jardim de inverno. Uma das poucas casas de um só andar que resistiram naquele quarteirão, mas Hinata sempre gostara da maneira que o espaço se dispunha organizadamente. Costumava pensar em ter uma casa igual aquela – no entanto, passava a maior parte do tempo se lamentando de visitá-la apenas naquela situação.

— Anda, senta na bancada, vou buscar o álcool. – sua voz continuava afiada, com um tom irritado que Hinata gostava de ouvir. Obedecendo silenciosamente, esforçou-se para subir na bancada de granito, sentada de costas para a cozinha planejada. Fitou o painel de televisão, com enfeites por todos os lados. Aquela era sua visão preferida de toda a casa, mas não saberia dizer se era porque sempre acabava naquele mesmo lugar.

Distraiu-se, voltando-se para o corredor oculto que separava um segundo cômodo, de onde a garota voltou com uma caixa grande. Seu rosto se convertia em caretas de raiva, e Hinata tentou lhe lançar um sorriso.

— Desculpa a hora. – fitando o relógio, eram quatro horas passadas.

— Não é a hora que me deixa irritada. – retrucou, com a resposta na ponta da língua. Agilmente, suas mãos preparavam curativos, molhando-os sem cuidado contra o vidro de líquido incolor, mas sua atitude mudava quando se aproximava do rosto de Hinata. Tocou primeiro sua bochecha, e quando o pano atingiu sua pele, a morena soltou um silvo – Olha isso. Merda, Hinata, isso está uma bagunça. – comentou reprovadoramente, mais consigo mesma.

— Me conte algo que eu não sei. – arriscou uma brincadeira, mas ardeu contra ela esfregou – Ai, Shion. Isso dói.

— Cale a boca.

Sua testa apresentava um vinco concentrado, mas os fios loiros escorriam pelos lados, escapando do elástico frouxo que os mantinha para trás. Hinata nem sempre esteve daquele lado entre elas, mas certamente tinha ficado o suficiente para que todos os detalhes do rosto da mulher ficassem gravados em sua mente. Conhecia a marca de nascimento perto da orelha, e outras cicatrizes, de outras histórias, que dividiram. Seu cabelo estava crescendo, deixando seu rosto mais maduro e mais cansado. A morena costumava ter medo quando seus olhos claros fuzilavam-na com verdadeira raiva, mas se acostumou com sua personalidade naturalmente zangada.

Hinata não saberia dizer se elas eram amigas. Aquela era uma relação estranha, e, em seu íntimo, não saberia descrever, ao certo, quais sentimentos nutria pela loira. Foram circunstâncias complicadas que as uniram, e circunstâncias mais complicadas ainda que as fizeram permanecer. De certo modo, a Hyuuga sabia que Shion se tornara a única com quem poderia contar – porém, se precisasse escolher, ela desejaria nunca precisar fazê-lo.

— Isso vai inchar. – a loira apontou, enquanto substituía o pano embebido por gazes limpas – Pelo menos não vai pegar uma infecção. Fique parada, vou limpar sua boca também. – mandou. Hinata apenas assentiu, suspirando baixo.

— Me desculpe. – não sabia pelo que estava se desculpando, mas parecia correto. Shion resmungou alguma coisa, mas sua expressão se suavizou.

Sempre fora daquela maneira com elas. Uma amizade nutrida pela necessidade de uma pela outra. Hinata jamais se esqueceria quando a conheceu – não seria capaz –. Ironicamente, foram unidas pela decepção amorosa sofrida pelo mesmo garoto – àquela altura, Hinata não deveria se surpreender que todos os aspectos da sua vida fossem, de algum modo, relacionados a Naruto Uzumaki. Shion apareceu muito antes de Hinata, mas a história se repetira. Apaixonada, foi abandonada sem quaisquer explicações. Somente depois que Naruto desapareceu foi que a loira decidiu ajudá-la a superar o que há muito ela tinha tentado. É preciso um coração partido para reconhecer outro.

Hinata esperou que Shion fosse o tipo de ex psicopata, decidida a acabar com a felicidade do casal por puro rancor – mas, depois de algum tempo de convivência, a Hyuuga descobriu que Shion apenas não era o tipo de pessoa que interpretava aquele papel.

E, quando pensou que apenas uma coincidência seria o suficiente para torná-las amigas, o destino lhe pregou uma peça infeliz. Shion estava lá quando aconteceu a primeira discussão. Inevitavelmente, ela também esteve lá quando todas as outras aconteceram. Mais que um ombro para chorar, ou uma casa para oferecer, Hinata descobriu que as linhas expressivas de experiência e desconfiança no rosto de Shion não existiam por acaso. Seu rancor não era por acaso. Seu pesar não era por acaso.

Quando aconteceu, Hinata concluiu que a surpresa foi maior que a decepção. Foi algo que ela jamais esperaria que acontecesse – em um momento, ele era o cara com quem podia contar para secar suas lágrimas, e, no instante seguinte, ele era aquele que a fazia se encolher de medo. Humilhada, desesperada, sozinha, só conseguiu se lembrar de um nome. Ligou, em agonia, e o que recebeu foi um endereço. Shion estava esperando, e a acolheu de braços abertos. Fez curativos, limpou suas lágrimas, dormiu ao seu lado.

As feridas que compartilhavam nunca cicatrizam, e elas nunca esqueciam.

Uma irmandade foi formada. Não andavam juntas, não se falavam por mensagens, não saíam para fazer compras. Mas Hinata também recebeu ligações no meio da noite, e ela também abandonou o que quer que estivesse fazendo para correr em socorro.

— Pronto. – Shion anunciou, guardando seu kit de primeiros socorros. Hinata passou os dedos pelas várias ataduras em seu rosto, mas não doía mais. Era difícil falar, mas sentia a pele refrescada.

— Obrigada. – Hinata murmurou, verdadeiramente agradecida, e fez menção de saltar da bancada. Mas, no momento em que forçou-se para baixo, sentiu o abdômen repuxar dolorosamente, e ela levou as mãos até o local com um gemido sôfrego.

— Hinata! – Shion se apressou em segurá-la – Calma, devagar. – a guiou até a cadeira mais próxima – O que é isso? – perguntou, e, sem esperar pela resposta, afastou a jaqueta, erguendo a blusa da morena. Sua expressão se transformou em puro horror quando encarou a quantidade de hematomas que despontavam da pele alva – Hinata, o que é isso? – a morena balançou a cabeça, tentando respirar fundo – Uma porra que não é nada! Hinata, ele nunca te machucou assim! – a loira a encostou novamente, ajoelhando para examinar a extensão dos ferimentos – Isso está indo longe demais. Que merda, você tem que denunciar ele!

— NÃO! – gritou, rápido demais, e soltou outro gemido de dor – Não. Ele não teve a intenção. Estava alterado. – murmurou, ignorando o fuzilar da loira sobre ela.

Aquela não tinha sido a primeira vez – nem da discussão, nem daquela conversa –. Hinata e Shion já tinham visto a pior parte uma da outra, mas, de alguma maneira, continuavam se reerguendo. A Hyuuga, por vezes, desejava que Shion ainda estivesse estudando na UK, mas bastava que ela lhe lançasse um de seus olhares furiosos para que desistisse da ideia.

Hinata já considerara a ideia de denunciar, muito mais do que gostaria. Entretanto, ela sabia como aquilo terminaria. De certa maneira, sentia-se mal por desejar atingir aquela situação, se o depois sempre se repetisse. Era quase como outra pessoa. O carinho, a honestidade, a culpa, a afeição. Era como no início do relacionamento, o cara pelo qual ela tinha se entregado. Ela via o amor refletido em seus olhos, a maneira que ele cuidava dela, como a tratava gentilmente. Hinata apostava que duraria algumas semanas. E, então, o sentimento de paz a inundava, e ela esquecia. Ela sempre esquecia.

Até acontecer de novo.

Por outro lado, denunciar significava admitir que estava errada. Que todos a sua volta tinham razão quando lhe diziam que ela era fraca. Hinata não queria ser fraca. Ela não queria dar esse gostinho a eles. Não queria aqueles olhares de pena sobre ela – não precisava disso.

— Dos meus problemas cuido eu. – murmurou, lembrando a si mesma, mas Shion também escutou.

A loira deixou um suspiro resignado escapar, sem fazer mais comentários. Desprendeu o cabelo, deixando uma cortina platinada cair sobre seus ombros, escondendo uma cicatriz visível próximo a sua clavícula. Hinata deixou os olhos abaixados, com um dos braços protegendo o estômago e o outro mantendo-a equilibrada sobre uma cadeira.

— Vem. – Shion acabou por dizer, passando um braço pela cintura da morena e suportando seu peso – Vamos te dar um banho e te colocar para dormir. – Hinata se virou para ela com os olhos cheios de gratidão. Podia jurar que viu um sorriso bruxulear em seu rosto, mas jamais saberia a verdade. Shion não era mais o tipo de garota que costumava sorrir. Assim como Hinata.

A loira, pacientemente, tirou a roupa da morena, deixando-a de lingerie, e a ajudou com o banho. A água quente relaxou seus músculos, mas extinguiu a adrenalina, intensificando a dor, sobretudo na região do ventre. Entre murmúrios e reclamações, conseguiu sentir todo o corpo limpo, ao menos, um pouco. Shion ficou com as pernas molhadas e respingos na camiseta, mas não se importou. Tirou a garota do box com cuidado, secando-a delicadamente, dos pés a cabeça. Foi no quarto e buscou um conjunto de roupas limpas – da própria Hinata –, ajudando-a a se vestir. Já limpa, caminharam para o quarto da loira, e Hinata se deixou cair na cama dossel. Mesmo fria e dura, parecia infinitamente mais confortável que qualquer outra onde já se deitara.

A loira saiu, apagando as luzes e trocando de roupa. Estava quase amanhecendo, mas era sábado, e poderiam dormir até tarde. Hinata não conseguia se virar, porque todos seus músculos gritavam. Deitada de lado, sobre os braços, encarou um ponto escuro, tentando fazer sua cabeça desligar. A casa estava todo negrume, e a garota só soube onde Shion estava quando sentiu o colchão balançar ao seu lado.

Hinata não percebeu que novas lágrimas escorriam de seus olhos até que Shion a abraçasse, acariciando seu cabelo e cantarolando uma velha canção indie.

Deveria ser bem mais de dez horas, mas não tinha como saber. A casa de Shion não tinha janelas, de maneira que pouca luz solar entrava pelas frestas encostadas da varanda que dava no jardim. O cômodo continuava agradavelmente escuro, mas Hinata estava acordada há poucos minutos. Despertou de outro pesadelo, e seus olhos não conseguiram pregar novamente. Os teve a noite toda, despertando e adormecendo diversas vezes. Em todas elas, Shion continuava ao seu lado, lhe abraçando. Agora, seus braços pendiam contra a cintura de Hinata, e seu rosto descansava próximo ao seu pescoço, fazendo cócegas enquanto respirava. A Hyuuga não queria acordar a amiga, por isso, permaneceu deitada, perdida em pensamentos.

Não tinha restado lágrimas em seu corpo para chorar. Seus olhos estavam secos e repuxados, e o direito estava ligeiramente inchado. Sabia que o saldo não era muito positivo – várias gazes espalhadas por suas bochechas, sua testa e seus lábios. Sua barriga pulsava, e o álcool em seu organismo se dissipara totalmente somente naquela manhã, lhe causando um enjoo desconfortável. Não precisava mencionar sua cabeça, que ainda fervia dos puxões. Apesar de tudo, o mais lancinante eram suas memórias. A submissão feria não só seu corpo, como também seu caráter, seus ideais, tudo que acreditava, tudo pelo que lutava. Se aceitava aquilo, o que a tornava diferente dos nomes pelos quais Kiba a chamava?

Seus pensamentos foram interrompidos por Shion, que bocejou e se moveu, virando de barriga para cima e espreguiçando. Em seguida, ergueu-se pelos braços, encarando Hinata com um olhar preocupado.

— Bom dia. – a loira disse, com a voz de soprano – Como você está? – ela retirou o braço do redor da morena, que arriscou se virar. Fez uma careta.

— Novinha em folha. – a morena resmungou, e Shion bufou, se sentando.

— Me engana que eu gosto. — retrucou, sarcástica – Vou preparar café. – ela se levantou, prendendo o cabelo. Hinata a acompanhou até a cozinha, admirando suas costas e soltando um suspiro de inveja. Shion já tinha sido uma modelo bem-sucedida, mas há muito tempo.

A Hyuuga se esforçou para levantar e ir ao banheiro. Sentiu um repuxão quando fez xixi, mas ignorou. Qualquer possível ferimento seria curado como todos os outros – com tempo e sorte. Em seguida, escovou os dentes, incomodada por não poder lavar o rosto. Trocou as gazes por novas, avaliando os cortes. Cicatrizariam em alguns dias, mas o inchaço custaria a diminuir. Suspirou internamente, já avaliando as possíveis desculpas que daria.

Saiu do banheiro e o cômodo estava iluminado. Shion abrira as portas da varanda, e, de onde estava, Hinata podia ver alguns brotos coloridos. Sorriu. Andou até o balcão da cozinha, onde a loira cozinhava algo com cheiro bom. A garrafa de café já estava cheia, e Hinata encheu uma xícara enquanto se sentava, com um careta.

— Você pretende me dizer o que aconteceu dessa vez, ou eu finjo que você rolou três lances de escada de novo? – Shion perguntou, despretensiosa, mas ácida. Hinata suspirou, não se ofendendo com a franqueza. Demorou alguns minutos para responder, mas, quando o disse, seus olhos encaravam as próprias mãos.

— Naruto voltou.

Não havia nenhum vestígio em Hinata que a fizesse não compartilhar aquela informação com Shion. Já haviam dividido muita coisa para se tratarem como meras rivais. A loira a entendia melhor que qualquer pessoa, porque também tinha estado em seu lugar, de certa maneira. Ela era a única que entenderia como estava se sentindo sem que tivesse que explicar com palavras – talvez Hinata não conseguisse fazê-lo.

Foi desperta de seus devaneios por um barulho alto. Levantou a cabeça rapidamente, estalando o pescoço, a tempo de ver Shion virando todo o conteúdo da frigideira dentro da pia, xingando. Depois, ligou a torneira, criando uma nuvem de fumaça, e o cheiro de queimado ardeu em seu nariz. Hinata não conseguiu segurar uma risada, vendo a loira esbravejar sozinha.

— Merda! Olha que bagunça, mas que droga! – respirou fundo, limpando as mãos em um guardanapo. Depois, voltou-se para o balcão, apoiada nas duas mãos, encarando Hinata com aqueles olhos vorazes – Explica isso direito. O que quer dizer com “Naruto voltou”? Quando ele voltou? Você o viu? – as perguntas vieram com velocidade, deixando-a parcialmente tonta.

— Vi algumas vezes. – admitiu, segurando a xícara firmemente, aquecendo as mãos sob o olhar atento da outra garota – Uma vez de longe, mas depois ele apareceu na Uni. Vai estudar lá. – fez uma carranca – E ontem na festa. – suspirou, tentando disfarçar a voz entrecortada – Não consigo lembrar como nos esbarramos. Tudo que eu lembro é dele, na minha frente, me segurando. E depois o Kiba chegou. Ele até deu um soco nele. – riu um riso lamurioso. Shion entreabriu a boca, chocada. Hinata não terminou a história, ela já conseguira adivinhar – Depois de tanto tempo, esse maldito aparece-

Sua voz morreu, e o silêncio atingiu a ambas. Shion levantou do balcão, andando pela cozinha buscando novos ingredientes para continuar a cozinhar. Não disse nada por um tempo, e parecia perdida em pensamentos.

— Queria estudar naquela faculdade ainda, para acompanhar essa novela. – comentou, por fim, e Hinata afogou com um gole de café, babando e rindo involuntariamente – Agora, de verdade. – ela se virou, com o semblante sério – O que você pretende fazer?

Era uma pergunta difícil. Não que Hinata não tivesse pensado nisso – ela tinha, e muito. A cada minuto, sua mente a perturbava com cenas, raciocínios, lembranças, visões. Era como se aqueles olhos azuis estivessem tatuados dentro de sua cabeça, vigiando-a. Conhecendo todos seus segredos. Em outros tempos, em outra época, tudo que Hinata queria era se entregar naqueles topázios, navegar naquele mar tranquilo. Sentir aquelas mãos apertando sua pele uma última vez. Mas não mais. Nunca mais.

— Naruto é passado, Shion. – respondeu, por fim, com um muxoxo – Isso não vai mudar, ele estando a dois quilômetros, ou dois mil. – tentou fazer com que sua voz estivesse firme, mas tudo que conseguiu foi parecer insegura.

— É claro que sim. – a loira rolou os olhos, zombeteira. Hinata a fuzilou – Eu sei os efeitos que Naruto Uzumaki causa nas pessoas, lembra? É óbvio que você nunca o esqueceu realmente. – era mais difícil quando Shion simplesmente jogava algumas verdades em sua cara. Para todos os efeitos, Hinata continuaria negando, até que a mente vencesse o corpo.

— Não vou deixar esse garoto interferir na minha vida mais do que ele já interferiu. – resmungou contra a borda da xícara, tomando um longo gole do café já frio, mas o gosto não era tão ruim, uma vez que a bebida quente queimava os cortes ainda abertos do lado interno.

— Esse não é o problema, Hinata. – era óbvio do que ela estava falando – Vai deixar isso acontecer toda vez que se esbarrarem? – falou quase com nojo implícito na voz.

Hinata não respondeu dessa vez. Cada pontada em seu corpo era um lembrete fresco do que acontecia quando ela se deixava levar. Naruto era uma perturbação, e não facilitava que seu coração começasse a falhar todas as vezes que o via. Que seu vigor se findasse, se âmago se esquentasse. Que ela agisse como uma maldita criança avistando seu presente preferido. Em sua cabeça, as coisas funcionavam muito bem – obrigada –, mas, na prática, ela terminava ali, naquela mesma cadeira, coberta de ataduras.

Não.

Aquilo não estava certo.

Era Kiba quem ela tinha escolhido. Foi Kiba quem remendou seus pedaços quando Hinata achou que até mesmo respirar fosse impossível. Ele a acolheu, cuidou, a cobriu de carinho e atenção. Ele aguentou suas noites de bebida, lamúrias, chamando, bêbado, por outro nome. Ele segurou seu cabelo quando ela vomitou o próprio estômago. Hinata não largaria dele na primeira dificuldade – ela não poderia. Devia isso a Kiba. Devia a ele uma segunda chance.

Seus dedos alcançaram a cartela de cigarros próxima a um vaso, no canto da parede, e puxou um. Acendeu, tragando profundamente. A nicotina atingiu seus pulmões como um soco nocauteante. Ela inspirou, soltando a fumaça pelo nariz, porque sua boca estava muito dilatada. Aquilo era o que era, mesmo que ela conhecesse o final daquela história.

Enquanto virava o rosto para expelir o fumo, seus olhos captaram as flores coloridas que cresciam no jardim. O sol atingia elas de maneira brilhante, e elas refletiam. Hinata desejou, nesse instante, que ela pudesse ser como aquelas flores – florescer sob quaisquer aspectos. Mesmo tendo suas pétalas arrancadas por um bem-me-quer.