Heroína
17 Você chamou a cavalaria? Vai se deixar pintar como uma daquelas francesas?
Notas iniciais
Estarei sempre lá pra minha amiga
Ela significa tudo pra mim
Tudo o que ela quer é sua lealdade, é
Ela quer algo melhor
Ela não quer outro erro
É melhor você não arriscar
Porque tudo o que eu vejo é uma rainha
Se você maltratá-la, é melhor acreditar
Ela vai viver la vida loca
— Love a Girl Right, Little Mix
—Capítulo XVII–
Você chamou a cavalaria? Vai se deixar pintar como uma daquelas francesas?
Naruto chorou todo o caminho. Virou as costas, já com a cabeça baixa, e avançou em passos rápidos, tentando, desesperadamente, esconder o tremor em seus ombros. As lágrimas escorriam por seu rosto, quentes e grossas, misturando-se com os pingos gelados de chuva, e não o deixavam identificar, de fato, o que molhava sua camiseta. Disfarçando, correu até seu carro, estacionado há poucos metros, e se jogou no banco de couro, encharcando-o. As janelas fumê totalmente fechadas, escuras, garantiam-lhe segurança suficiente. Ele segurou-se firme no volante, deixando a cabeça cair entre os braços. E chorou.
Um lamurio trêmulo escapou de seus lábios, e todo seu corpo estremecia. Logo soluços preencheram o silêncio sufocante, e ele não precisou se controlar. Tentou puxar o ar pela boca, mas nunca chegava em seus pulmões. Em determinado momento, suas têmporas começaram a pulsar, enquanto tentava controlar a palpitação. Endireitou a postura, imaginando como seu rosto estaria inchado e vermelho. Um fio de ranho escorria por seu nariz, e tudo estava embaçado. As últimas palavras repetiam-se com um filme dentro de sua cabeça, as expressões no rosto sôfrego, e, ainda assim, incrivelmente incólume, de Hinata. Toda a dor, a mágoa, a agonia. Seus olhos opacos, o cansaço em seus ombros. Naruto nunca conseguiria imaginar seu martírio.
Parecia difícil respirar. Tentou se controlar, dizendo a si mesmo que não tinha o direito de derrubar aquelas lágrimas – ele carregava o peso da morte de uma garota, uma garota inocente. Que tinha a vida pela frente. Mesmo Hinata garantindo-lhe que não, ele sabia que tinha sido sua culpa. Ou, ao menos, um maldito efeito borboleta. Se tivesse sido mais maduro, se tivesse esperado algumas horas. Se não tivesse fugido. E agora Hanabi estava morta. Um acidente atroz, uma obra do destino, um Deus cruel. Ele mesmo se sentia afundando em um oceano escuro, denso. Como Hinata teria se sentido? Naruto tinha visto como Hiromi e Hiashi estavam. Perdidos, desolados.
Aquela dor passaria um dia?
Por pouco não conseguiu se controlar o suficiente para dirigir. Os soluços pararam, e suas mãos conseguiam se fechar decentemente em torno do volante, e agora, um choro silencioso continuava a molhar seu rosto, perdendo-se em seu queixo e por todo o pescoço. Piscou, tentando focar a visão. A chuva tinha engrossado, e depois cessado quase que completamente, embora as nuvens cinzentas formassem um manto no céu. Respirou fundo, uma, duas e três vezes. Quando se sentiu seguro, deu a partida, querendo apenas chegar em casa. Uma enxaqueca estava a caminho.
Dirigiu até em casa, com o raciocínio nublado e o nariz escorrendo. Entrou pela garagem e pegou o elevador subterrâneo, se recusando a olhar na porta espelhada; não tinha coragem de encarar a própria aparência patética. Por sorte, não encontrou nenhum de seus vizinhos a caminho do apartamento, e sentiu-se grato quando o aconchego de sua casa taciturna e escura o tomou. Cambaleante, coçou o rosto, retirando as roupas molhadas e deixando uma trilha de pegadas sujas. De cueca, foi até o quarto e abriu por inteiro as cortinas, deixando a luz azulada entrar. Demorou menos do que ele esperava até que o silêncio se tornasse insuportável, e, zigue-zagando para a cozinha, procurou as cegas por uma garrafa inacabada de vinho.
Jogou-se no sofá próximo da janela, entornando direto no gargalo. Não deixou de rir secamente com a situação – bebendo sozinho, de roupas íntimas, como um velho decrépito. Irônico, de fato. No terceiro gole, seus sentidos começaram a ficar enebriados, menos lúcido, com menos pensamentos. A tristeza o tomava como uma manta aquecida, seus membros e seus órgãos. Suspirou, bagunçando o cabelo – um hábito infeliz e tranquilizador –.
Teve um estalo. Um conselho antigo, de quando era criança. A voz de seu pai soou em seus ouvidos, e também foi tranquilizador. De repente, aquela era a coisa certa a se fazer.
Tornou a se levantar, voltando para o quarto. Puxou uma caixa, ainda embalada, depositada no fundo de seu armário. Era mais pesada do que ele se lembrava. Na sala, a deixou cair no chão, e afastou a mesinha de centro. Buscou a garrafa e tomou mais um gole. Da janela, um vento gelado arrepiou sua espinha, e ele se perguntou se deveria ter tomado uma ducha quente antes. Não importava. Desempacotou os materiais, segurando-os em suas mãos como peças raras. Há muito nãos os usava, e alguns estavam lacrados.
Com paciência, retirou cada uma das partes de madeira, montando-as como uma quebra-cabeça – muito mais complicado do que deveria ser, mas sua visão estava turva –. O cavalete em tamanho menor, apoiado no chão, mal chegava à altura de seus olhos. Pegou uma tela em branco, encaixando-a de maneira que pudesse escorar seus braços também. Um pouco zonzo, separou o estojo com tubos de aquarela, tons pastéis e tons brilhantes. Aplicou alguns em torno da paleta, misturando-as com o pincel de ponta grossa. O cheiro familiar de tinta invadiu seu nariz. Sem avental e com a coordenação motora afetada, sabia que, logo, ficaria coberto de manchas.
Fazia muito tempo que Naruto não pintava. Quando seus dedos encaixavam no pincel, via a imagem de Minato, com ele em seu colo e um livro de grandes pinturas – livro este que ele herdara, como presente do pai –. Naruto se lembrava de como os traços o fascinavam, a beleza das musas, as paisagens misteriosas. Seu primeiro kit de pintura não passou de giz de cera e cadernos em branco, mas a sensação de colorir uma verdadeira tela nunca seria esquecida. Pintar exprimia os sentimentos mais profundos, eternizava as memórias mais relapsas. Era sagrado. Ele não via outra maneira de manifestar sua tristeza.
Começou com traços grosseiros, indo de um lado a outro do quadro branco, com tons escuros. As linhas desconexas verticais começaram a tomar forma quando misturou duas nuances de azul, descobrindo um vistoso violeta. Com um suspiro, percebeu a direção que estava indo, mas ele não controlava a trincha – era a trincha que o controlava. Deixou-se pintar incessantemente tudo que vinha a mente, a garganta se fechando uma ou duas vezes, o encontro com Hinata fervilhando, nítido. Toda a dor e o desespero, perpetuados em aquarela. Vez ou outra, deixava a paleta para pegar a garrafa de vinho, e, em um pico ou outro de humor irônico, pensava que estava como um típico pintor renascentista – bêbado e sem esperança.
Desmaiou no sofá, quando estava quase acabando. Um retoque ali, um brilho aqui, e uma ostra gigante, exibindo sua pérola, poderia ser adicionada à sua coleção particular de desenhos nunca exibidos. Em sua antiga casa, na Califórnia, tinha um ateliê próprio, repleto de criações e inspirações. No apartamento, pensaria em uma maneira de transformar o quarto extra em um estúdio – em algum momento em que estivesse lúcido e são.
Naruto não teve um sono tranquilo. Pesadelos da realidade misturaram-se com fantasia, unido ao vinho e a meditação, o fizeram acordar de sobressalto, no meio da madrugada. Assustado, debateu-se um pouco antes de identificar onde estava. O cômodo estava escuro, o pincel e a garrafa vazia caídos aos seus pés. Coçou os olhos, grunhindo. Levantou-se, a muito custo, e foi direto tomar um banho. Com o estômago embrulhado, não conseguiria voltar a dormir nem se quisesse. Acendeu as luzes e colocou um café preto para passar, enquanto mandava uma mensagem para a mãe, perguntando por eles e dizendo que estava com saudades – pediu por detalhes das novas inaugurações e das galerias em Paris, ou Londres, ou Roma.
Tomou o café e secou o cabelo com a toalha. Não eram nem cinco da manhã. Mais três horas até o começo das aulas, e ele parecia ter sido atingido por um caminhão ou algo parecido. Seu rosto estava inchado, e sua cabeça latejava.
Como um zumbi, zanzou pelo apartamento, recolhendo os materiais de pintura e guardando, por ora, o quadro de temática marítima em seu quarto – fingindo não saber porque existiam tantas pérolas por todo ele –. Não sabia se tinha sido uma boa ideia retomar seus hábitos de arte enquanto estava embriagado, mas, definitivamente, tinha sido libertador. Agora, com a cabeça fria, tinha de pensar o que fazer.
Naruto não sabia se teria coragem para encarar Hinata, depois de tudo que tinha acontecido. Sentia-se sujo, um canalha. As palavras dela martelavam-no.
Eu não posso ser salva.
Era isso que ele queria? Ser um herói? Teria ficado cego por seus próprios sentimentos, perseguindo inutilmente um passado já enterrado, enquanto a única coisa que provocava na mulher que amava era dor? Quer dizer, parecia inescrupuloso demais. A mera ideia o fazia ficar enojado de si mesmo. Tudo que ele queria, quando voltou, era conquistar o perdão da Hyuuga, redimir-se. Agora, ele se transfigurara no vilão. Sabia que o mundo não podia ser enxergado daquela forma – preto no branco, heróis e vilões; ainda mais por um espírito artístico –. Contudo, em seu coração, era assim que era. Pura e simplesmente.
Era frustrante.
Agradeceu quando começou a amanhecer, o céu um pouco mais claro que no dia anterior. As nuvens carregadas pareciam ter ido embora, e um fiapo de luz solar se estendia nas primeiras horas. Se trocou, reuniu sua mochila e alguns trocados para uma refeição decente. Não pôde fazer nada, no entanto, para disfarçar a cara inchada e o aspecto pueril. Apelou para os bons e velhos óculos escuros.
Cumprimentou o porteiro quando trombou com ele no saguão. Na garagem, abriu o carro, e gemeu internamente ao ver o estado de seus preciosos bancos de couro, manchados da cena de ontem. Arrependido de não ter sido capaz de se controlar, suspirou, pelo que parecia ser a milésima vez – novamente, não deixou de se comparar a um velho –. Jogou sua mochila no banco do passageiro, abrindo as janelas em vez de ligar o ar. Saiu de ré, entrando para a pacata rotina dos moradores de Konoha, que acordavam, preguiçosos.
Naruto não estava realmente com vontade de ir à aula. Na segunda-feira, a única ressaca que ainda não tinha passado era a que tinha lhe deixado profundas olheiras. Aos resmungos, estacionou em sua vaga típica, e o asfalto do estacionamento não mostrava indícios da forte chuva do fim de semana. Caminhou, se arrastando, até os fundos da universidade, nos bancos do jardim. Avistou os amigos, e um incômodo assolou seu estômago. Era como se o passado estivesse por todos os lados, pronto para lhe açoitar.
A primeira a acenar foi Sakura, inabalável com seu xale colorido e o vestido esvoaçante de mangas três quartos. O cabelo rosa parecia desbotado, mais próximo da cor estranhamente natural. Ao seu lado, Sasuke se curvava em um caderno, alheio, e Gaara estava quieto, sem a máscara amigável. Ino falava no telefone, e não o viu chegando.
— Bom dia. – cumprimentou, azedo.
— Credo, que bicho te mordeu? – exclamou – É segunda, vamos animar! – seu espírito era mesmo peremptório. Naruto a ignorou propositalmente, sentando-se ao lado do Sabaku, assumindo um semblante preocupado.
— Gaara, está tudo bem? – estava acostumado com seus comentários sarcásticos e as piadas, mesmo pela manhã. Seu rosto, no entanto, estava arqueado em uma feição pensativa, e o expresso da cafeteria estava intocado. Dois pares de olhos se voltaram para eles, atentos. O ruivo despertou, voltando-se para Naruto, e seus olhos refletiam uma intensidade verde que o surpreendeu.
— Sabe quem foi em casa ontem? – não esperou por uma resposta, embora Naruto fizesse uma boa ideia, e suas mãos suassem frio – Hinata. – com exceção do Uzumaki, a reação coletiva foi similar. Sakura soltou algo como um guincho, surpreso, e Sasuke abandonou o caderno, franzindo a testa. Ino se virou abruptamente, desligando o celular de imediato e se juntando à roda.
— O que ela foi fazer lá? – Sasuke pareceu ser o único com voz para externar a pergunta.
— Ela estava com Kiba. Ele e meu irmão passaram um tempo conversando. – o significado daquela frase pareceu tomar proporções diferentes para Naruto e os outros. Enquanto seu estômago dava um nó, a compreensão ultrapassou rapidamente seus rostos. Lembrou de anotar mentalmente o que aquilo significava, apesar de que também tivesse uma intuição sobre o que se tratava. No momento, concentrou-se em não vomitar – Foi estranho. – vincou a testa de maneira cômica. Ninguém falou por alguns minutos. O clima fúnebre contrastava jocosamente com o sol, que agora iluminava todo o lado direito. Naruto se perguntou o que eles estavam pensando – Vocês acham que... acham que desistimos muito rápido? Acham que poderíamos ter feito diferente?
Silêncio.
Naruto fitou os próprios pés, porque parecia pessoal demais olhar para o rosto de qualquer um deles. De relance, viu Sakura baixar a cabeça também, com os ombros amuados, o cabelo escorrendo por seu rosto como uma cortina. Ele conhecia apenas parte da história que tinham lhe contado – de todos, Sakura fora a última a parar de tentar, meses depois do suposto início de relacionamento entre Hinata e Kiba. Quando lhe contaram, ele fora um verdadeiro babaca, os acusando de terem tentado pouco. Agora, culpa era pouco para descrever o aperto que tomava conta de sua garganta.
Se perguntou o que teria acontecido para Gaara dizer aquelas coisas. Naruto se lembrava do passado, de como gostava de Hinata. Ele também sofreu. Contudo, mesmo sem saber de tudo o que aconteceu, era capaz de imaginar – ele conhecia, da mesma forma, os efeitos de ter Hinata de volta para sua vida, e vê-la partir mais uma vez.
— Sei que eu disse isso antes, mas não é verdade. – resolveu falar, apoiando a mão com firmeza em seu ombro. Gaara ergueu os olhos para cravar em seu rosto – Vocês fizeram o que puderam. Algumas coisas apenas não podem ser mudadas, não importa o quanto tentemos. – uma profundidade emocional embargou sua voz, todavia, ninguém entendeu ao que ele se referia, embora Sasuke soubesse parte da história, e tivesse se voltado para ele com condolências. Pigarreou – Eu tenho certeza que ela sabe o quanto vocês se dedicaram.
O ruivo assentiu, devagar, ainda imerso em sua reflexão. Seus olhos pareciam úmidos, mas ele não chorou. Piscou rapidamente, tentando sorrir, acabando com uma careta estranha. Naruto se virou para frente, vendo Ino abraçar Sakura pelos ombros e sussurrar algo em seu ouvido. O loiro estava prestes a comentar algo, quando um ponto no horizonte chamou sua atenção. Estavam sentados próximos ao corredor do primeiro bloco, na área externa, e as colunas gregas abertas permitiam uma boa visão de quem caminhava pelo caminho de concreto. Entre os alunos que chegavam para a primeira aula vinha Hinata, distraída.
Como sempre, Naruto perdeu o fôlego. Ela estava linda, com a luz fraca do sol iluminando sua pele alva. Usava calça jeans escura e botas de salto que alongavam suas pernas. Uma camiseta vermelho-escuro com rabiscos e a jaqueta de couro a tiracolo. De longe, não conseguiu ver seus olhos. Ponderou se estavam tão inchados quanto os dele. Imaginá-la chorando, tão desesperadamente como ele o fez, deixava seu coração apertado – no entanto, não teve coragem de ir até ela. Torceu os dedos, empertigando os ombros.
Ao seu lado, Gaara também retesou, como se tomasse um choque. Todos os amigos a encaravam não tão discretamente, acompanhando seus passos através do acesso pavimentado, rumo ao bloco B, pela parte de trás. Não pareceu tê-los notado na mesa – ou, se notou, disfarçou muito bem.
Quando a segunda-feira chegou, Hinata acordou para sua antiga vida, como se todo o resto não tivesse passado de um sonho muito vivido. Ela despertou com o segundo alarme, atrasada, e tomou uma ducha na água fria. Secou o cabelo e cobriu as olheiras com maquiagem. Colocou a primeira roupa que encontrou no armário, e, enquanto vestia as botas, procurou por seu passe e algumas moedas para comprar um café na padaria. Pegou a bolsa surrada e suas chaves. Kiba, há muito, já tinha saído, e imaginou que teria sido para ir trabalhar normalmente. No dia anterior, mal o vira, depois que voltaram da casa de Sasori. Indo de um lado a outro, sibilando furiosamente no celular. Hinata optou por não ficar em seu caminho. A maior parte de seus hematomas já tinha desaparecido, sem novas cicatrizes, então as coisas estavam indo bem.
Lutou para não pensar em Naruto, por um segundo sequer. O encontro no cemitério foi uma infelicidade, mas ter lhe contado sobre Hanabi fora um erro, e dos grandes. Não queria que ele pensasse que tinha algum tipo de dívida com o passado, com ela. Já tinha superado – ele tinha que superar também –. Hanabi tinha partido, e já fazia dois anos. Mesmo que seu coração sangrasse em pedaços, não seria ele a consertá-lo. Não podia, e não iria, envolvê-lo em sua escuridão.
Em vez disso, se concentrou no início da nova iniciação científica com Asuma. Já tinha pego sua demissão da secretaria – ela definitivamente sentiria falta de ficar imprimindo documentos e ajudando Shizune com sua pilha infinita de papéis –, mas ainda não tinha falado com Kiba. Nas poucas vezes que tentou, sentiu a voz morrer na garganta. Estava receosa com a sua reação, e não seria nada agradável. Torcia para que ele descobrisse depois, quando já estivesse com o projeto finalizado, e, mesmo que não pudesse apresentar o Congresso, pelo menos poderia se consolar com aquele sentimento caloroso de missão cumprida.
Pegou o ônibus que chegava quase em cima da hora. Pronta para mais uma incrível aula de contabilidade, contornou por fora do bloco, porque não queria enfrentar a pequena multidão apressada que se empurrava nas escadas. Seus olhos desviaram, por um segundo, para grupos sentados nas mesas de cimento, nos jardins, e sentiu inveja. Sozinha, ignorou quaisquer convicções desnecessárias, evitando fazer contato visual. Estava quase virando quando sentiu um puxão abrupto, a fazendo tropeçar e estralando seu ombro. Assustada, foi obrigada a se virar.
As coisas aconteceram rápido demais.
Naruto estava focado em Hinata, absorto, e não percebeu a figura furiosa que caminhava até ela, como um touro, os olhos faiscando. Era um homem elegante, com barba por fazer e camiseta social. No entanto, sua aura não era, nem de longe, humana – era bestial. Estendeu o braço e agarrou Hinata pelo pulso, a puxando para trás. Ela desequilibrou, tropeçando, e a mochila escorregou para o cotovelo. O loiro, por reflexo, se levantou, e Sasuke o imitou, não sabendo se precisaria contê-lo.
Hinata choramingou, o aperto se tornando mais forte e mais doloroso. A mão segurava firmemente seu antebraço, e pressionava como grilhões; manchas avermelhadas de sangue contido já começavam a se formar. Seus olhos amedrontados procuraram por outros pontos para focar, mas continuavam a ser atraídos para o rosto distorcido pela cólera do namorado.
— Está machucando! – lamuriou. Engoliu em seco, tentando, sem sucesso, se livrar. Quis se esconder dos olhares curiosos que assistiam, como abutres, mais uma cena do casal.
— Que história é essa de iniciação de cálculo, Hinata? – vociferou, e ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Sentiu a pressão baixar, e parou de lutar momentaneamente, pega pela surpresa.
— Como soube? – não passou de um sussurro apavorado. Ele abriu algo parecido com um sorriso animalesco, cheio de dentes, e apertou mais seu braço, sacudindo-a.
— Então é verdade? Hein? ME DIZ! – gritou, e gotículas de saliva voaram para seu rosto. Paralisada, não conseguia reagir – Eu já tinha te proibido, não tinha? Já não tinha dito para desistir disso, não tinha? NÃO TINHA? – sua voz ficava mais e mais alta. Hinata impediu que as lágrimas escapassem, mas seus lábios estavam secos, e a mão formigava, já pálida.
— E-eu pensei-
— Pensou o que? Que poderia me DESOBEDECER? – ele estava descontrolado. A puxou para perto, chacoalhando como uma boneca de pano. Sem apoio, Hinata rezou para não cair e piorar a situação. Não teve coragem de olhar em volta, para as pessoas que assistiam-na ser humilhada, mais uma vez. Ele não deveria estar no trabalho? O que tinha acontecido? Como ele tinha descoberto? Não fazia mais diferença. Ele reagiu exatamente como ela esperava. Kiba não aceitava que ela gostasse das matérias de exatas, e foi a muito custo que a deixou pegar as optativas de cálculo avançado. Esperar que ele aceitasse a iniciação seria abusar de uma sorte que não tinha. Naquele instante, apenas implorava para que ele não a batesse em público. Seria vergonhoso demais.
Naruto ficou atordoado. De repente, o namorado a puxou pelo braço, surpreendendo a todos que estavam ao redor. Estava longe para ouvir o que diziam, mas bastou um instante para o rosto dela perder completamente a cor, seus olhos se arregalarem de pavor e seus lábios começarem a tremer. Ouviam gritos proferidos por ele, desconexos, enquanto ele a balançava incessantemente, parecendo alterado, fora de si. O loiro sentiu o sangue ferver, e sua visão escureceu. Uma coisa era ele ouvir, ver os hematomas; outra coisa era presenciar. Ele não aceitaria que Hinata – nem qualquer outra mulher – fosse agredida na frente dele. Passou as pernas para fora do banco, prestes a sair correndo e intervir. Não estava entendendo porque tantas pessoas pararam para olhar, de perto – acima da escada e nas muretas abertas –, sem fazer nada para ajudar.
Sasuke se prostrou ao seu lado, com um braço em seu ombro. Se virou para o amigo, com protesto, contudo, viu a sombra em seu rosto – estava tão irado quanto ele. Se contendo para não interferir. Tinham que tomar cuidado para não se exaltar, embora quisesse lhe dar um belo de um soco, apenas para começar. Mais gritos, e ele a puxou para perto, sacolejando. Naruto não aguentou, e começou a andar, mas, antes que pudesse chegar, foi surpreendido uma segunda fez.
Sakura saiu em disparada à frente deles, o cabelo rosa esvoaçando junto com seu xale. Tão rápido quanto um piscar de olhos, a garota, com todo seu corpo mirrado e sua força descomunal, se jogou no meio deles. Com agilidade – e aproveitando do elemento surpresa a seu favor –, puxou o braço de Hinata pelo cotovelo, enquanto, com os ombros, empurrava Kiba para trás com a mão livre. Quando ele a soltou, chocado, Sakura a envolveu com os braços, puxando contra seu corpo. A diferença de alturas era visível, mas, de alguma maneira, conseguiu envolvê-la, como uma grade de proteção – talvez o fato de Hinata estar atônita tivesse ajudado.
Naruto, surpreso, desacelerou, andando devagar, tentando entender o que estava acontecendo. O porquê de Sakura ter corrido em sua direção, parecer tão zangada, estar abraçando Hinata tão protetoralmente. Quando conseguiu uma distância segura, passou o abraço para trás, a protegendo com suas costas e as mãos segurando suas laterais defensivamente. Mantinha a morena perto o suficiente de suas costas. Com o rosto em evidência, pôde ver seus olhos vermelhos de raiva e a boca crispada, totalmente enojada.
— FIQUE LONGE DELA, SEU MONSTRO! – gritou em plenos pulmões, sem se importar com quem estivesse perto. Hinata piscou duas vezes, processando a situação. Kiba, retomado do choque, emitiu um som gutural, irado, e deu dois passos para frente. Sakura reagiu, indo para trás, continuando a abraçar Hinata atrás de si. O Inuzuka rosnou, quase como um animal prestes a atacar.
— Isso não é da sua conta, sua vaca. – cuspiu, mas ela não se abalou. O encarou na mesma altura, sem pestanejar – Não acha que já se meteu demais na nossa relação? Está vendo, Hinata! – gritou, dirigindo-se para a morena – Está vendo como sua amiguinha quer nos separar? Como ela sempre quis? – riu amargamente, jogando os ombros largos para trás.
— Não chegue perto dela! – avisou. Kiba poderia facilmente jogá-la para o lado. No entanto, algo o dizia que não obteria sucesso. Sakura parecia muito mais ameaçadora, como nunca viu antes. Naruto, livre do abalo, resolveu ajudar, e andou em passos firmes até eles, se colocando entre os dois, de costas para a amiga. Estavam próximos, com os corpos se tocando. Cerrou os olhos, encarando-o furiosamente, com os punhos comprimidos.
— Hora de ir, Inuzuka. – rosnou, sem se sentir intimidado. O outro permaneceu cinco segundos o encarando de volta, até que desistiu, caminhando para trás. Quando se virou, Naruto percebeu uma veia saltada em seu pescoço. Antes de voltar, Kiba fitou Hinata diretamente. Para os demais, aquele olhar não significou nada, mas, para ela, foi o suficiente para sentir arrepios pela espinha.
— Nós conversamos em casa, amor. – sibilou, dando meia volta em passos duros.
Apenas quando ele estava próximo do portão foi que Naruto relaxou. Tenso, deixou os ombros caírem, e voltou para Sakura. De perto, percebeu que a amiga tremia, deixando os braços caírem de Hinata. Seu rosto estava apreensivo, os lábios trêmulos. A multidão de curiosos começou a se dispersar, entre murmurinhos. Olhou ao redor, seus amigos a postos, o encarando a procura de orientações. Ele tampouco sabia o que fazer. Sua vontade era afastar a todos e abraçar Hinata, acariciar sua cabeça e lhe dizer que ficaria bem – que ele nunca mais deixaria Kiba a machucar. Entretanto, seus olhos encontraram os de Sakura, e ele percebeu o que tinha que fazer. Assentiu minimamente, e ela entendeu.
A de cabelos rosas se aproximou de Hinata, abraçando seus ombros e sussurrando em seu ouvido, a guiando até o fundo do bloco, onde havia um banheiro. Ela era a pessoa mais indicado para isso, agora, e precisava disso também – Naruto nunca a tinha visto tão feroz.
As duas se afastaram, e o loiro se uniu aos amigos novamente. Tinham o mesmo semblante confuso e escuro. Gaara parecia abalado, e Sasuke tinha o mesmo vinco na testa de quando se concentrava em um problema particularmente complicado. Suspirou, por fim, jogando a bolsa nos ombros.
— Vamos, temos aula agora. – sua voz estava rouca, e os outros entenderam que não podiam conversar sobre aquilo naquele momento. Seguiram cada um para suas respectivas aulas, mesmo com os pensamentos longe.
Hinata mal tinha ciência das mãos macias e pequenas que guiavam seus ombros, embora fossem calorosas. Suas pernas se movimentavam por conta própria, e ela sabia que entraria em estado catatônico a qualquer momento. Seu coração batia na garganta, e seu pulso formigava, o sangue voltando a circular – provavelmente vindo direto de seu rosto, porque o sentia pálido –. Só se deu conta de onde estava quando a luminosidade foi substituída pela lâmpada artificial branca, que refletia no piso do banheiro. Piscou algumas vezes, tentando voltar à racionalidade, porém, suas mãos tremiam. Teve que se sentar contra a bancada, com a cabeça nas mãos.
Assim que sua mente clareou, sentiu o cheiro agradavelmente familiar de frésias e rosas. Era o mesmo perfume, depois de tantos anos. Ergueu os olhos lentamente, procurando por ela. Sakura estava contra a pia, a fitando preocupada. Seus olhos muito verdes pareciam intensos, e ela enrolava os dedos contra o vestido. Hinata tinha a impressão de estar nua. Totalmente exposta para ela. Aquela garota – não, aquela mulher— linda e independente, que costumava ser sua melhor amiga de todo o mundo. E agora a tinha salvado de mais uma das humilhações de Kiba, e, provavelmente, de alguns hematomas também.
Desviou, constrangida. Não ia chorar – ainda tinha um pouco de amor-próprio. Continuou apoiada, respirando pela boca e tentando parar aquele maldito tremor. Sakura permaneceu respeitosamente quieta. Cerca de um ou dois minutos se passaram, ela não sabia. Quando estava confiante o suficiente, se ergueu, sozinha. Caminhou até o espelho, com a Haruno acompanhando seus movimentos. Viu seu reflexo bagunçado, e se inclinou para arrumar a maquiagem e a franja. Ignorou a maneira que seus olhos refletiam uma garotinha assustada, e se concentrou na postura agressiva.
— Obrigada. – sussurrou, encarando-a pelo reflexo. Sakura assentiu, repuxando os lábios de gloss para cima. Continuaram a se olhar silenciosamente. Ela lia seus segredos, sem os julgar. Hinata via a saudade.
— Você não pode voltar para casa. – ela murmurou de volta, mas suas vozes reverberavam no banheiro vazio – Ele pode... pode... – falhou, morrendo no final e deixando o restante no ar. Hinata conseguiu imaginar o que se seguiria, e ela também estava com medo – Você não pode voltar. – se fez mais firme, virando para fora do espelho. A Hyuuga a imitou, encarando-a de frente. Várias emoções entorpeceram sua pele naquele instante.
— Não se preocupe. – tentou sorrir, tranquilizando-a – Eu vou para a casa de uma amiga. – conhecia alguém que adoraria aquela história – Mas, no final, ele sempre acaba se acalmando. Fica tudo bem. – tentou acreditar desesperadamente naquelas palavras. Sakura ergueu uma elegante sobrancelha para ela, descrente.
— Ele vai te machucar! – brandou, tentando não gritar. Ficava aflita apenas com a possibilidade de vê-la com novas manchas roxas. Hinata fechou a cara.
— Eu e Kiba temos nosso próprio jeito de lidar com as coisas. – doía ter que defendê-lo, mas, sempre que via aquele olhar no rosto das pessoas, não conseguia se conter. Queria provar que estavam erradas, queria provar que ela conseguia. Que não precisava que sentissem pena.
— Hinata, você não pode ficar com ele! – insistiu, dando um passo para frente e tocando seus dedos. Em um choque, a Hyuuga saltou para trás, recolhendo a mão contra o peito.
— Sakura, não. – cortou, com um bolo na garganta. Magoada, deixou os olhos caírem. Sentiu-se uma idiota por esperar algo diferente daquilo. Pegou sua bolsa, lentamente, e a mirou uma última vez antes de sair do banheiro – Obrigada de novo. – murmurinhou, retirando-se. Fechou a porta, deixando a outra para trás.
Sakura exclamou alto, gesticulando sozinha e frustrada. Apoiou as mãos contra a bancada, balançando a cabeça. Uma lágrima escapou, impetuosa. Percebeu que tinha feito como sempre, afugentado Hinata, abordando-a do jeito errado. De soslaio, viu a jaqueta de couro esquecida, surrada e antiga. Lembranças a invadiram. Quantas vezes não tiveram aquela conversa? Tinha perdido sua chance, de dizer tudo que realmente precisava dizer – que ela não tentaria convencê-la a deixar Kiba, mas sim que estaria ao seu lado, como uma boa amiga deveria fazer. Alguém para defendê-la, e não acusá-la e gritar com ela. Talvez aquele tenha sido seu erro, desde o início – sua chance ter feito tudo diferente.
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