Heroína

33 Um joelho ralado, um coração partido e um beijo de boa-noite


Notas iniciais
EXTRA EXTRA AUTORA NÃO ESTÁ MORTA e faltam dois capítulos pra acabar :(

Ei mãe, ei pai

Quando isso acabou?

Quando vocês perderam sua felicidade?

Quem está certo e quem está errado?

Quem realmente se importa?

A queda, a culpa e a dor ainda estão aqui

Eu estou aqui sozinho dentro deste lar destruído

— Broken Home, 5 Seconds of Summer

—Capítulo XXXIII–

Um joelho ralado, um coração partido e um beijo de boa-noite

Foi como um sonho.

Não. Não parecia a representação certa para expressar a dimensão.

Talvez tenha sido como uma alucinação.

Não. Ainda parecia deslocado. Pouco. Simples.

Foi como ver o passado. Isso. Era uma boa forma de começar.

Mamãe! — gritou uma pequena garota, deitada em sua cama, coberta com seu edredom, abraçada com suas pelúcias, vestida com seu pijama de mangas longas. Todos os itens eram rosas demais, assim como as bochechas da garotinha, que apontava seus dedos gordinhos para a porta do quarto, que agora se abria lentamente.

A garotinha estava começando a dormir sozinha, e o peso da separação, pela primeira vez em toda sua vida deixava-a apavorada; ficar sozinha era apavorante. Mas, ao mesmo tempo, seus medos infantis pareciam dissipar quando avistava sua mãe. Sim, sua mãe a protegeria de todo o mal. De toda a escuridão de um quarto cor-de-rosa vazio e ameaçador.

De um mundo cinza e ameaçador. De uma existência azul e ameaçadora.

Mamãe! Eu não quero dormir sozinha! — pobre garotinha, ciciava com um pequeno bico em seu rosto infantil. Todo seu corpo era engolido pelo cobertor, em uma cama grande demais para ela. O berço era confortável, seguro e pequeno. Agora, dormir em seu próprio quarto fazia dela uma mocinha, mas, bem, ela não queria ser uma mocinha, porque tinha medo.

Minha menininha. – sua mãe entrou pelo quarto, e tudo se iluminou. Ela tinha o sorriso mais lindo que a garotinha se lembrava. Mais lindo que todas as princesas, mais lindo que todas as imperatrizes dos livros da escola. Ela tinha o rosto coberto de sentimentos que a garotinha não sabia o que eram, contudo, eram suficientes para encher seu pequeno coração de tranquilidade – Não se preocupe, minha princesa. A mamãe sempre vai estar aqui com você, mesmo se não puder me ver. E você sempre vai poder dormir comigo, mesmo se for uma mocinha. — a mulher apontou em seu nariz de botão, e a garotinha riu, sentindo-se mais tranquila – Mas vai ter que convencer o seu pai. – a mulher sussurrou em confidência, enquanto o homem observava a cena da porta do quarto. Ele ria, mas fingia que não, porque gostava de ver sua menininha fazer uma pequena cara de conspiração com a mãe.

— Ma... mamãe...

Foi como ver o passado. Centenas, milhares, inúmeras lembranças. Seus olhos cansados recusaram-se a piscar, pois tinha medo de que, caso o fizesse, as memórias desaparecessem como um sopro. O passado era frágil, quebradiço, e ela tinha medo.

Mas, ao mesmo tempo, foi como ver o futuro.

Era surpreendente, pois os anos passaram, e o peso das escolhas – de outros – afligiam até mesmo o mais cândido dos sorrisos. Agora, os mesmos fios negros agora vinham com uma curiosa tonalidade esbranquecida, do grisalho que despontava elegantemente sobre uma mulher no auge de seus cinquenta anos. Mesmo assim, era discreto, com um penteado para trás. Era realmente curioso; como se tivesse sido penteado às pressas, escorregando para fora das orelhas.

O corpo mirrado e a postura altiva eram uma combinação estranhamente tranquilizadora. As roupas, casuais e mal passadas; a clavícula, à mostra; o rosto, magro. Os olhos cansados, mas o brilho – aquele brilho trazia consigo o fulgor de toda uma vida.

Foi como ver o futuro, porque era como olhar um espelho.

Era como se Hinata estivesse vendo uma versão de si mesma em muitos, muitos anos. A semelhança a deixou desnorteada, ponderando se o efeito dos remédios ou da anestesia teriam deixado-a delirando. A porta se abriu, e, de repente, Hinata estava olhando para uma versão do futuro de si mesma, e muitos pensamentos cruzaram sua mente. Em poucos segundos, talvez não suficiente para quem analisasse criticamente seu próprio juízo.

De alguma maneira, a possibilidade de estar vivenciando uma visão do futuro de si mesma parecia mais plausível – mais verídica, mais imaginável – do que a possibilidade de estar vendo sua própria mãe.

Passado, futuro. Sonho, alucinação. Cada pequena impressão, cada lembrança, cada memória, de repente um sopro. Apenas uma brisa suave, transparente. Tão rápido quanto veio, se foi.

Era curioso como a mente humana funcionava. Hinata, particularmente, sempre apreciou a forma como os milhares de milhões de neurônios em seu sistema nervoso, suas sinapses e seus impulsos, eram poderosos. A força atômica de bombas militares, a fragilidade de um dente-de-leite. Como células minúsculas, indefesas, intocáveis, seriam capazes de produzir – em tamanha magnitude – aquilo que os olhos avistam? Como poderia comunicar a visão, a audição, o olfato, processá-los em centenas de imagens, pensamentos e impressões? Como seria possível.

Como era possível?

— Mamãe...

Os bipes crescentes que preencheram o silêncio do quarto da UTI indicavam o nervosismo crescente de uma garota que acabara de passar por uma cirurgia no coração. Certamente qualquer médico no raio de três andares do Centro de Emergência de Komu repreenderia todos os três visitantes, por estressarem sua paciente em recuperação. Por outro lado, felizmente nenhum enfermeiro tinha aparecido até o momento, e a cena se prolongou como um filme – lenta e angustiante.

Naruto, um mero espectador, sentia que seu próprio coração saltaria para fora de seu peito, batendo descompassadamente, à medida que tentava respirar de forma inaudível – embora suas narinas aspirassem ruidosamente, com dificuldade em controlar a própria emoção –. Não queria ser aquele a quebrar a magia do reencontro; contudo, ansioso e deslumbrado, sentia as mãos tremerem um pouco. Sequer conseguia imaginar quais pensamentos cruzavam a mente deles. No entanto, decidiu não ser seu direito descobrir, e fez menção de sair.

Todavia, sua tentativa foi mal-sucedida, uma vez que o menor movimento foi interceptado pelo aperto frágil de Hinata. Surpreso, Naruto voltou seu olhar para baixo, para o rosto da amada, e novamente para a cama, onde sua mão, outrora coberta pela fragilidade dos dedos da menina, agora tentava se desvencilhar discretamente. Mesmo sem forças, Hinata parecia querer segurar-se desesperadamente à Naruto.

Seu rosto suavizou automaticamente, tomado pelo sentimento sufocante de compaixão e amor. Ele ficaria – sempre que Hinata pedisse, ele ficaria. Sequer poderia imaginar o desassossego que preenchia seu coração naquele pequeno instante de compreensão.

O momento que mudaria tudo.

— Filha... minha filha...

A voz de Hiromi Hyuuga pareceu preencher todo o cômodo, embora não passasse de um mero sussurro trêmulo. Quebradiça, quase inaudível. Se não fosse o silêncio mortal – exceto, por ora, pelos bipes acelerados do oxímetro atrelado ao dedo indicador de Hinata –, não teriam sido capazes de ouvir aquelas palavras.

Mas foram.

Tão nitidamente como se tivesse sido dita em alto e bom tom, a frase reverberou pelas paredes do quarto, e elas ganharam vida. Repentinamente, talvez pudessem se pintar de cor-de-rosa, como as do quarto antigo de uma garotinha do passado, que, amedrontada, chamava pela mãe.

— Mãe... mamãe... – Hinata continuava a repetir, incrédula. Piscava, tentando fazer com que sua mente, e seus neurônios, e suas sinapses, e seus sentidos, processassem a visão de sua mãe, entrando novamente pela porta do quarto.

Outra figura assumiu a visão de Naruto e Hinata, e a garota ofegou, com os dedos apertando a mão de Naruto ainda mais aflita. O garoto retribuiu o toque, tentando tranquilizá-la, passar para ela parte do alívio e da esperança que estava sentindo naquele momento. O homem segurava os ombros de Hiromi como quem tenta fazer o mesmo – compartilhar a energia necessária para prosseguir.

Hiashi estava muito mais radiante do que Naruto se lembrava; ao passo que parecia muito mais velho e cansado do que Hinata se lembrava. Ao longo dos quatro anos, o olhar distante, magoado e vazio de seu pai ao vê-la partir de casa jamais tinha saído de sua mente. Marcado a ferro e fogo, a decepção era um bom combustível para consumir uma alma culpada.

No entanto, distraída pelo próprio remorso, Hinata não era capaz de vislumbrar o amor que transbordava do rosto do homem – era apenas o que Naruto enxergava. A aura de Hiashi e Hiromi era suficiente para iluminar o ambiente mais escuro, e trazer resquícios de fulgência para o coração mais quebrado.

Foram muitos os motivos que levaram Naruto a ligar para eles; não era certo, sabia. Não se eximia de sua culpa, mas não se desculparia por tê-lo feito. Há muito alimentava a ideia de contatar os Hyuuga – não saberia, de fato, porquê. Fosse o sentimento de compunção que corroía seu próprio sono, fosse a necessidade de tranquilizar a mente turbulenta de pais devotos, muitas das explicações alimentavam, de fato, um certo caráter egoísta. Contudo, altruísmo velado nunca fora o pior dos pecados, e Naruto descansaria tranquilo.

Precisou de tato ao escolher as palavras que convenceram os pais de Hinata a irem até Komu, mas sem preocupá-los a ponto de colocar suas vidas em perigo durante o curto trajeto na rodovia que ligava a cidade à Konoha. Falou com Hiromi, por ter salvo seu número durante o último encontro conturbado que dividiram. Ao final da ligação, percebeu que não era necessário dizer muito – a simples menção do nome de Hinata teria feito com que atravessassem montanhas.

Entre um cochilo e um pesadelo nas cadeiras de plástico da sala de espera, Naruto pediu para que fossem o quanto antes para o hospital. Disse que Hinata estava bem, mas que precisaria dos pais em breve. Em seu coração, já compartilhava da angústia, do medo e da penitência que a garota impunha sobre si – ela precisaria de toda a ajuda possível, e o perdão vinha de muitas formas necessárias.

Agora, muito parecia pairar sobre a atmosfera – embora poucas palavras tenham sido ditas, e muito menos precisasse, realmente, ser colocado em expressões.

Quatro pares de olhos se encararam por um longo período; foi o que pareceu, mas o ponteiro do relógio silencioso sequer completou duas voltas antes que os Hyuuga dessem alguns passos hesitantes, aproximando-se da beirada da cama. Toda a tensão parecia encoberta por uma fina camada de cautela, prestes a romper a qualquer momento. As expectativas eram boas, na visão de Naruto, mas o garoto sabia que, entre os envolvidos, era o único que não poderia mensurar tamanha ambição.

Vislumbrou os rostos do casal, marcando os detalhes que, em sua mente, dariam uma bela pintura. O reencontro. A forma como o lábio superior de Hiromi estremecia, ligeiramente entreaberto em um meio sorriso ansioso para desabrochar. Ou a maneira que Hiashi limpava a garganta, sem saber ao certo o que dizer, ressaltando o pomo de adão sobre a garganta de pele um tanto quanto flácida, marcado pelos anos – e pelas angústias – que passaram.

Também fitava Hinata, acompanhando cada singela respiração que vinha da garota. Não apenas pela preocupação – incerto pela escolha, por sobrecarregá-la e pela culpa que ainda remoía seu peito –, mas também para não deixar escapar quaisquer detalhes significativos; e, quando se tratava de Hinata, todos eram importantes. Cada um deles. Como seus olhos, profundos, arroxeados e vazios, agora brilhavam com pequenos resquícios de lágrimas. A pele de seu rosto repuxando as maçãs em uma expressão duvidosa. Seu corpo frágil, coberto por lençóis, fios e soros. O cabelo, caindo como uma cascata sobre o travesseiro, destacando a pele pálida que, lentamente, assumia diferentes tons de vermelho – o vermelho-vergonha que Naruto amava pintar. Se pudesse criar uma cor, seria o vermelho-Hinata. Por Deus, o que ele não daria para ouvir seus pensamentos naquele instante.

Contudo, naquele momento, Hinata só pensava que estava desarrumada demais para encontrar seus pais.

— Minha filha, o que aconteceu? – a voz grave e rouca de Hiashi veio carregada de preocupação.

Foi o que bastou para Hinata arfar e deixar jorrar as lágrimas quentes que segurou por tempo demais.

Não imaginou ser capaz de chorar daquela maneira novamente. Primeiro, por conta da sua situação prática e real – acabou de acordar de uma cirurgia cardíaca, desidratada, doente, em processo de recuperação. Seu corpo não deveria ter forças, suprimentos ou recursos para produzir tantas lágrimas.

Mas utilizar a explicação fisiológica era simples e fácil. Era incomplexo, descomplicado. E, acima de tudo, permitia que Hinata não precisasse explicar o verdadeiro motivo pelo qual seu peito doía, sua garganta se fechava e sua respiração vinha em lufadas estreitas e dolorosas. Ela não precisaria explicar, falar ou sequer pensar no porque aquele súbito ataque de choro a assustava tanto.

Quando pensou que nunca conseguiria chorar novamente, foi quando desistiu. E, por um ínfimo instante, morreu.

Hinata se lembrava de pequenos fragmentos do que tinha acontecido – apenas o suficiente para saber que estava tão fodida e quebrada que a sensação de alívio pela overdose seria aceita de bom grado. No entanto, ela podia se lembrar, quase de forma cristalina, de avistar Hanabi; a mera menção de seu nome, sobretudo naquele momento, era suficiente para falhar uma batida em seu coração, replicado pela máquina e por todo o quarto.

Ver Hanabi tinha sido um presente que Hinata sabia não merecer; contudo, de alguma forma, foi capaz de aproveitar os últimos instantes de sua vida miserável, e, então, chorar um rio de lágrimas presas pelos acontecimentos, que, em torrentes, inundavam sua mente. Era muito para processar, agora. Seu filho, seu pequeno bebê. As dores físicas e emocionais que tragaram sua resistência, seu âmago e sua virtude. A saudade. A angústia. A penitência.

O último choro de Hinata fora, de certo modo, libertador. A queda dos grilhões que prendiam-na em uma coluna quebrada de sentimentos pútridos. Sequer tivera tempo de sorver a água quente que escorria por seu rosto, antes de deixar ser levada pelo toque amigável e brando da morte.

Hinata pensou ser o fim. Mas não foi.

E agora, ela estava chorando novamente. Estava viva, e estava chorando. Estava com Naruto, e estava chorando.

Estava com seus pais, e estava chorando.

As lágrimas aumentaram de maneira vergonhosa, enquanto ela soluçava sem conseguir conter seu próprio pulmão. Não tinha forças para levantar as mãos e cobrir o rosto pejoso – Hinata nunca gostou de chorar na frente de outros –. Uma de suas mãos residia, fraca, com uma agulha assustadoramente grande injetada na parte de cima de sua palma. Enquanto isso, a outra tinha os dedos de Naruto enganchados sobre ela, e Hinata não queria livrar-se da sensação quente de conforto.

Deixou-se, enfim, chorar, derrotada. Chorar doía, pois seus canais lacrimais estavam secos. Doía, porque seu peito, outrora aberto, revolvido, costurado e grampeado, estremecia com pequenos soluços. Não doía tanto, porque a anestesia a deixava inebriada, mas chorar doía.

Hiashi e Hiromi não sabiam o que fazer – passaram apenas alguns segundos após o homem perguntar o que havia acontecido, e Hinata simplesmente desabara, soluçando como uma criança. Tinham medo de se aproximar e machucá-la, especialmente sob suas condições. Tinham ciência do corpo magro, das marcas sobre a pele, das bandagens, curativos, dos soros e das máquinas. Eram pais, e sua filhinha estava chorando; mas por que sentiam tanto medo de fazer aquilo que nasceram para fazer?

Naruto tampouco sabia o que estava acontecendo, e certamente ver Hinata naquele estado cortava-lhe o coração mais do que qualquer faca afiada. No entanto, sabia o suficiente para entender a libertação, a confusão e o reconhecimento que aquele instante proporcionava para a Hyuuga. Jamais conheceria seus pensamentos, mas conhecia seu coração. E era um coração que sangrava; agora, talvez um coração que começava a se curar.

Por isso, fitou o casal, acenando suavemente com a cabeça, com a autorização necessária para que chegassem mais perto. Hiromi foi a primeira a avistar o sinal, engolindo em seco e dando alguns passos pelo lado direito da garota. Sua mão, firme à de Hiashi, puxou o homem, de modo que ele ficasse próximo à grade inferior da maca.

A mulher inclinou-se levemente, e Naruto desviou o olhar ao ver, brilhando em seus olhos, alguns resquícios luminosos de um pranto maternal. A cena era demasiada íntima para os espectadores.

Embora insegura, Hiromi acariciou o rosto de Hinata. Pela primeira vez em quatro anos, mãe e filha sentiam o carinho e a cumplicidade de um toque. Sem conseguir se segurar, Hiromi também chorou um pouco, sentindo sobre seu dedo a frieza e a rigidez da pele. Mas o cheiro ainda era o mesmo – a mesma garotinha que implorou para que ficasse ao seu lado, pois estava com medo.

Hinata estava implorando para que a mãe ficasse ao seu lado, pois ela tinha medo; e o medo a paralisava.

Em questão de segundos, sua bolha de intimidade eclodiu em uma sinfonia de suspiros, soluços e balbúcias. Hiromi sussurrava palavras que Naruto não ouvia, enquanto passava a mão por toda a extensão do rosto da garota. Hiashi segurava os ombros de Hiromi, contendo a emoção, enquanto outra mão pousava suavemente sobre a perna coberta de Hinata.

A garota sentiu a pressão em seu rosto, e tentou controlar os ofegos que saltavam por seu tórax, sem muito sucesso. O cheiro de sua mãe ainda era o mesmo; hortênsias, perfume, café com leite e casa.

— Minha filha, minha filhinha, me perdoa... eu te amo, eu te amo, minha filha. – as palavras entrecortadas pelo desespero de serem tidas tornaram-se como uma canção de ninar, acalmando o coração e a mente de Hinata – Deus, obrigada por devolver minha filha, minha menina... eu te amo, eu te amo, meu amor...

Como era possível? Hinata sentia-se encoberta por aquele amor, pelo desalento, pela proteção, e não conseguia entender. Por quê? Por que sua mãe a abraçava como um filho perdido, que retorna? Por que balbuciava palavras tão doces e amargas, tocando-a como se nada mais importasse? Por que Hinata recebia tanto amor, quando, por tantos anos, esperou receber acusações, rancor, amargura. Mágoa. Luto. Culpa.

Ela não era uma pessoa boa. Não era digna de ser amada. E, mesmo assim, sua mãe a abraçava e murmurava promessas tão firmes que rasgavam seu peito e marcavam-se dentro de si. Hinata não entendia.

Mas, por Deus, ela sentiu tanta falta dela.

— Ma... mamãe, eu... – arfou, pela primeira vez desde que começara a chorar. Sua voz estava rouca e baixa, e sentia uma dor incômoda em seu braço esquerdo, onde suas vagas lembranças exprimiam os espasmos de agulhas – Eu... eu sint-

— Não. – Hiromi afastou, segurando delicadamente o rosto de Hinata entre suas mãos. Os olhos se encontraram em uma conexão profunda, e Hinata não viu rancor. Ela não viu tristeza, acusações ou luto. Hinata apenas viu amor – Não diga nada, meu amor. Está tudo bem. Nós estamos aqui. Seus pais estão aqui, meu amor.

A garota voltou a se desmanchar em uma careta vergonhosa de choro, com o nariz escorrendo e os lábios crispando. Ela assentiu, concordando minimamente, e voltou o olhar para Hiashi. O homem inclinou-se com Hiromi, beijando o alto de sua testa, como costumava fazer – era mais alto, mais velho e mais protetor, garantindo, com um singelo beijo, que seu pai sempre estaria ali para protegê-la.

Durante muito tempo, Hinata foi acometida pela culpa de deixar sua casa, seu lar. Fugir sempre foi mais fácil do que enfrentar seus próprios demônios, e as lembranças de Hanabi em todos os cantos era demais para suportar. Jamais se deixou pensar no peso que seus pais carregaram por todos aqueles anos – não tinham perdido apenas uma filha, e nada podiam fazer. Era sua culpa, de ambas as formas.

Mas sair de casa não desmanchou o passado, e não destruiu as ruínas de sua mente. As memórias de conforto, de amor e segurança de uma infância feliz. Os muros de proteção, cumplicidade e benquerença. E, a cada momento em que suas lembranças eram acometidas pelo rosto da irmã, Hinata não podia lutar contra o sentimento de não ter merecido absolutamente nada. Tinha destruído seu lar, e, em penitência, se isolou na devastação daquelas paredes vazias.

E mesmo assim, por algum motivo que não saberia explicar, eles estavam ali. Tinha retornado, para o lar destruído. E não se importavam. A abraçavam como se nada no mundo importasse – como se a cama não fosse apertada demais para que dormisse nela, nas noites de pesadelo e medo. Como se nunca precisasse crescer.

A lágrima que escorreu, solitária, pareceu diferente de todas as outras.

Enquanto isso, Naruto respirou fundo, disfarçando a própria emoção. Tentou se afastar minimamente, mas Hinata continuava segurando sua mão, apertando-a com seus dedos frágeis, garantindo que fizesse parte daquela cena. Não sabia o que ela estava pensando, mas tinha alguma ideia sobre o que estava sentindo; precisava estar ali para garantir que sim, ela era digna daquele amor, que transbordava o passado, os erros e as decisões de uma outra vida.

Envoltos em um mundo particular, assustaram-se quando ouviram a porta abrir novamente. Duas enfermeiras entraram, e, apesar de sentirem o clima, precisaram interrompê-lo.

— Sinto muito, mas o horário de visitas da UTI acabou. Nós precisamos examiná-la e trocar os curativos. – a mais velha falou, com tom condescendente – Vocês poderão voltar dentro de algumas horas, mas vou pedir para que entrem um de cada vez.

— Sem problemas. – Naruto pigarreou. Voltou seu olhar para Hiromi, que respirava fundo e beijava o rosto de Hinata. Hiashi segurava a mulher enquanto fitava a garota com carinho, acariciando seu cabelo ralo.

— Nós voltamos, querida. – falou. Hiromi assentiu fervorosamente, aprumando a postura e virando-se com dificuldade. Naruto pôde ver seu rosto vermelho e as mãos trêmulas. Voltou seu tronco para baixo, todo para Hinata; a garota tinha o rosto ainda mais corado, os olhos molhados e a boca entreaberta, com a respiração arrastada. Teve medo de ter piorado sua situação, sobretudo após a cirurgia, mas, quando seus olhos se conectaram, soube que estava tudo bem.

— Descansa, meu amor. Nós não vamos a lugar nenhum. – sorriu seu sorriso preferido, e beijou suavemente o canto de seus lábios. Deixá-la foi mais difícil do que imaginara, sobretudo quando teve que separar seus dedos.

No entanto, o alívio em seu coração era suficiente para aplacar a ansiedade da separação – agora, tinha a certeza de que voltaria a vê-la, segura. Viva.

Deu as costas para o quarto, agradecendo a bondade das enfermeiras, e se juntou à Hiromi e Hiashi, que esperavam no corredor. Juntos, andaram devagar, em silêncio, respeitando os demais quartos; Naruto imaginou, distraído, quantas histórias de amor e de perdão escondiam-se por trás daquelas portas. Sua mão guiou o ombro de Hiromi pela porta de volta para a sala de espera, e a luz o cegou parcialmente.

Não tinha noção de que horas eram, ou quanto tempo passou dentro da UTI. O ar era diferente, com cheiro de lavanda e produtos de esterilização. O barulho da máquina de café o lembrou que precisava comer, e seu estômago fez um som vergonhoso. Riu consigo mesmo, apreciando a graça da situação – agora, o maior dos seus problemas era o café-da-manhã. A vida parecia mesmo incrível, e sua felicidade era contagiante.

— Meu filho, você comeu alguma coisa? Descansou direito? – Hiromi perguntou, virando-se para ele com ar preocupado.

O zelo o pegou de surpresa, deixando-o com saudade de Kushina; fez um lembrete mental de ligar para ela quando pudesse. Com forças renovadas, poderia falar ao telefone sem preocupar a pobre mulher. Hiromi também parecia mais tranquila, com o rosto leve. Até mesmo as rugas ao redor de seus olhos tinham se acentuado. Sobre a luminosidade natural, Naruto percebeu como o encontro tinha rejuvenescido seu espírito.

— Imagina, Hiromi, não se preocupe. – sorriu, tranquilizando-a – Vou comer alguma coisa por aqui mesmo. – sabia que eles entenderam. Ninguém deixaria o hospital.

— Então vamos acompanhá-lo. Hiashi também está de estômago vazio.

— Não creio que vou conseguir comer alguma coisa. – sua voz estava quase burlesca, comentando com leveza enquanto abraçava a esposa.

Caminharam pelo corredor após a porta da UTI, e entraram na visão da sala de espera, agora mais movimentada e barulhenta. Contudo, não demorou até que Naruto avistasse quem procurava, e com um largo sorriso, apressou o passo em direção a ela.

Shion estava sentada, com a coluna ligeiramente baixa, quase deitando sobre o ombro de Sasuke. Seu rosto estava entediado, mas havia uma ruga entre seus olhos, indicando uma mente turbulenta. Seus olhos claros piscavam lentamente, e Naruto imaginou se estaria lutando contra o sono; já fazia alguns dias que nenhum deles dormia uma noite completa e tranquila, mas sentia-se estranhamente energizado.

Bastou alguns passos dentro do campo de visão para que a garota se erguesse, tão rápido quanto podia; seu pescoço estalou de maneira dolorida, por conta do movimento repentino após tanto tempo parado em uma única posição. Contudo, tampouco sentiu. Seu rosto, tomado pelo pesar e pela névoa opaca do sono, subitamente se iluminou. Tão rápido quanto sua expressão mudou, suas pernas impulsionaram o corpo mirrado, levantando-se em um salto.

Shion esgueirou-se pela fileira de cadeiras de plástico, correndo até Naruto com a feição em agonia. No entanto, bastou um olhar para sua face calma e tranquila e ela imediatamente soube que o pior tinha passado. Sim, o pior tinha passado.

O Uzumaki a segurou pelos cotovelos, apoiando seu peso à medida que abria um sorriso cansado, acenando, como se comunicassem de forma muda. Shione engoliu em seco, soltando o mais pesado dos suspiros; uma lufada de ar que, há muito, estava presa em sua garganta. Foi como respirar de forma pura pela primeira vez. O ar passou por seus pulmões renovando-os com alívio.

Ela passou os braços pela cintura de Naruto, que a abraçou com força, apoiando sua cabeça contra o tórax. A força do contato transmitiu tudo que não conseguiam falar, deixando que a energia do medo, da apreensão e do sofrimento se dissipasse. Foi um abraço sincero, único e renovador.

Afastaram-se depois de alguns segundos, e Naruto se virou para Hiromi e Hiashi, que assistiam a cena com um ar educamente curioso.

— Essa é Shion. Shion, Hiromi e Hiashi, pais da Hinata. – fez as devidas apresentações, sem deixar de notar a sobrancelha arqueada no rosto da loira. Sua feição era comedida, e se recuperou com elegância do choque, afastando-se para cumprimentá-los com um aperto de mão – Shion é a melhor amiga da Hina. – anunciou, com um certo ar orgulhoso. A garota rolou os olhos, corando levemente nas maçãs, e o rosto de Hiromi se converteu em uma face verdadeiramente surpresa.

— É mesmo? Que prazer conhecer você, querida! – a mulher era gentil demais para mentir, e estava, de fato, encantada ao conhecer a garota. Enquanto Naruto era o elo entre dois momentos distintos da vida de Hinata, Shion representava uma figura inteiramente desconhecida. Uma vida nova, que, agora, eles também podiam conhecer – Como vocês se conheceram? – Shion olhou rapidamente para Naruto, que reprimiu um sorriso involuntário. A resposta carregava muita dor e sofrimento, mas, de alguma maneira, o alívio cômico o fez querer rir.

— Hm, nós nos conhecemos por acaso. Ela estava com um problema e eu ajudei, e desde então mantemos contato. – resumiu, ocultando todos os detalhes infelizes. Os Hyuuga assentiram, interessados de verdade, quase fascinados – Como ela está? – a pergunta veio carregada de ansiedade, direcionada para Naruto, mas ela alternou os olhos entre os adultos, mostrando que eles também estavam inclusos.

— Ela acordou. – essas duas palavras encheram a boca de Naruto no momento em que foram pronunciadas. Elas tinham gosto de esperança, felicidade e euforia. Quando Shion as escutou, um milésimo de segundo depois, o sorriso que se abriu nos lábios rachados estava tão iluminado quanto o olhar no rosto do Uzumaki. Ela acordou. – Ela está acordada e trocando os curativos. O médico acredita que a recuperação vai ser positiva.

Se o mundo fosse uma série de televisão, aquele seria o momento em que o mundo ganharia cores. As cenas, em preto e branco, seriam subitamente iluminadas pelas cores brilhantes e alegres; seu mundo tinha cores novamente.

Hinata estava debilitada, e mal podia se mexer. Seu corpo estava magro, fraco, frágil. Seus ossos, saltados, e os hematomas, vibrantes. Ela não falava, e mal respirava sozinha. Mas estava consciente – a maior força de Hinata jamais tinha sido física, mas sua mente, que se recusava a desistir. E sua mente estava ali, Hinata estava ali. Não um corpo, mas sua essência. Mais do que nunca, Hinata estava viva, e Naruto jamais se sentiu tão feliz e completo quanto naquele momento.

Por cima dos ombros de Shion, vislumbrou Sakura e Sasuke se aproximando, apreensivos. Provavelmente estavam pensando se deviam se aproximar, com medo de interromper algum momento íntimo. Naruto assentiu vibrante, indicando para que viessem – queria compartilhar aquela notícia com todo mundo. Queria gritar para o mundo, abraçar cada pobre enfermeira que passava por eles, alheias ao momento de felicidade arrebatadora que sentia sob cada célula do seu corpo.

— Sakura? Meu Deus, Sakura! – Hiromi foi a primeira que avistou a garota, abrindo os braços para puxá-la em um abraço igualmente atônito. A garota se apressou para cumprimentá-la, sem entender muito o que estava acontecendo – Olha como você cresceu! E você é o Sasuke, certo? – o Uchiha se abaixou para apertar sua mão, um pouco timidamente. Hiromi não conviveu o suficiente com Sasuke na época, apenas ouvindo falar sobre ele, na maioria das vezes por Naruto e suas histórias.

O reencontro foi confuso, mas a atmosfera estava alegre. A sala de espera da emergência parecia tranquila, sem muitas movimentações, e o pequeno grupo se concentrava próximo às portas que levavam ao corredor da UTI. Atraíam alguns olhares, mas não se importavam. Em sua pequena bolha, em seu pequeno universo, tudo estava bem.

— Você tem notícias? – Sakura perguntou, ainda com os braços dados com Hiromi. Naruto assentiu energeticamente. Não teria tempo para falar tudo que o médico lhe informou e, sinceramente, não se lembrava da metade. Sua mente se concentrava unicamente em Hinata, o momento em que seus olhos se abriram, e ele pôde admirá-los mais uma vez.

— Ela acordou. – gostaria de repetir aquelas palavras de novo, e de novo, e de novo. Nos últimos dias, muitos de seus pensamentos continuavam retornando; alguns como preces, outros como mantras. Grande parte como súplicas, e ele os repetia como quem deseja tornar realidade. Mas, naquele momento, Naruto estava repetindo aquelas palavras, e elas eram realidade. E nada se comparava.

Olhou para os rostos de cada um. Para Shion, Sakura e Sasuke, leais e preocupados. Para Hiromi e Hiashi, possivelmente em um estado de êxtase e caos. Quantas perguntas em sua cabeça, quantos sentimentos em seu peito. Se soubessem a metade, estariam estraçalhados; não cabia à Naruto contar, mas sabia que nunca mais iriam embora. Em meio ao desalinho, tinham se reencontrado. Aquele era o primeiro momento da eternidade, o primeiro passo do caminho. E não desistiriam tão fácil.

As paredes daquele lar destruído finalmente começaram a se reerguer.

Conforme o dia brilhava do lado de fora, Naruto sentiu como se, finalmente, pudesse respirar. Seu coração batia, bombeando sangue para suas veias. Elas pulsavam sob sua pele, sob o calor que emanava de suas células. Conseguia sentir cada movimento, mesmo parado; talvez sua mente, pensando a milhões de quilômetros por hora, desse a sensação de estar voando.

Faltava muito, e muito devia ser feito. Era só o começo – mas, agora, ele sabia que era o começo. Não o fim. Era o começo, pois ele poderia recomeçar. Hinata poderia recomeçar. A perspectiva de uma nova chance, de estar vivo, era, acima de tudo, inenarrável.

Colocou a mão no bolso para pegar o telefone. Precisava falar com sua mãe.

— Ela acordou. – repetiu – Está tudo bem.

Concordaram, com um sorriso, e olhares serenos. Sabiam que, naquele momento, as coisas realmente estavam bem.

Notas finais
seis meses sem atualizar.............um crime sem precedentes............. mas é aquilo né a vida adulta é só trabalhar pagar conta e encher a cara de vinho numa terça-feira pra esquecer que o mundo ta acabando mas a mãe ta on ta vacinada e TA DOIDA PRA ACABAR HEROINA!!!!! próximo capitulo é o penultimo e eu ja to sentindo a dor @hi_erohime para elogios xingamentos e receitas de bolo aceito tudo amo voces