Heroína

6 Não ligo para um comentário amargo, se a sua presença adoçar as coisas


Notas iniciais
Oioi todo mundo! Como estamos hoje? Acho que estou vencendo essa pequeno bloqueio criativo (e a preguiça da greve), e consegui escrever algo que gostei bastante. Esse capítulo, ao contrário dos outros até agora, é mais parado. Eu quis, particularmente, trabalhar as relações interpessoais dos personagens, como eles se relacionam, tentar mostrar como seus laços interferem e vão interferir no futuro. Espero que não esteja monótono! Prometo que no próximo capítulo as coisas voltarão a andar. Estou amando todo o apoio que vocês estão dando! Muitas pessoas acompanhando, comentando, isso é incrível. Espero não decepcioná-los nunca! Boa leitura, e nos vemos logo ♥ Ah! Uma novidade! Eu criei uma playlist no Spotify, com as músicas, e uma conta no Pinterest, onde eu posto algumas imagens que me inspiram. Sei que é difícil transmitir algo que eu visualizo, e é difícil também imaginar, então desde lugares, roupas, paisagens, coisas que eu imagino e que são parecidas, para inspirar e ilustrar vocês também! E, claro, assim como a linda da Annie fez, podem me mandar sugestões de músicas, que eu com certeza vou amar! Link playlist do Spotify: https://open.spotify.com/user/12181997845/playlist/7bhYns4WjKVuwzb867Q3wH Link Pinterest: https://br.pinterest.com/erohime/hero%C3%ADna

O que eu faço quando meu amor está longe

(Te preocupa estar tão só?)

Como eu me sinto ao final do dia?

(Você está triste porque você está sozinho?)

Não, eu consigo com uma pequena ajuda de meus amigos

Eu vou longe com uma pequena ajuda de meus amigos

With a Little Help From My Friends, The Beatles

Capítulo VI–

Não ligo para um comentário amargo, se a sua presença adoçar as coisas

Na manhã seguinte, Naruto não sabia dizer se a dor de cabeça lancinante que o atordoava era proveniente da ressaca absurda ou do soco que inchara seu olho esquerdo. Qualquer que fosse a razão, o garoto acordou já proferindo uma série de xingamentos. Tateou cegamente pela cama, procurando pelo travesseiro que, de alguma maneira, acabara próximo de seu pé, e o jogou contra o rosto, protegendo-se da luminosidade intensa do cômodo. A cortina, embora fechada, balançava com o vento, e ele se amaldiçoou por não ter fechado a janela apropriadamente – não que tivesse pensado em alguma coisa quando voltara para casa.

De modo geral, ter ido para a festa foi uma péssima ideia – Naruto se lembraria de brigar com Sakura mais tarde –. As lembranças pareciam nubladas em sua memória, e o gosto ácido de bebida em sua boca tirava sua concentração. Mesmo assim, seus dedos ainda pareciam sentir perfeitamente a textura macia da pele de Hinata Hyuuga, e talvez – só talvez – sua lembrança gostasse de brincar com suas percepções. Depois que o irmão de Gaara, Sasori, o ajudou com o gelo e saiu, Naruto conseguiu localizar Sakura, que, assim como a maior parte das pessoas naquela casa, tinha presenciado a cena memorável da briga. A garota concordou em levá-lo para casa, e, depois de avisar Ino que estavam indo, a rosada lhe deixou na porta do prédio, dizendo que, no dia seguinte, devolveria seu carro. Sem muitas opções, atordoado com a agressão recente e enfurecido, Naruto apenas subiu para seu apartamento.

Parecia muito tarde, mas não o suficiente. Sozinho com seus pensamentos, o loiro percebeu que seria impossível permanecer naquele apartamento sozinho e sóbrio. Recuperou uma garrafa de vinho do armário – que comprovava, mais uma vez, que ele estava, de fato, se tornando um velho decrépito –, e tomou metade de seu conteúdo jogado em sua cama – ao menos alguma coisa tinha dado certo na sua noite, pensou enquanto aproveitava o novo colchão –. Enquanto bêbado, perdera o controle das próprias reações, e, mais tarde, se lembraria de agradecer por morar sozinho, ou seria decerto muito constrangedor que alguém visse a maneira que ele ficara choramingando e revivendo, em voz alta, vez após vez, o diálogo com ela.

Agora, acordado, Naruto achava que tinha dormido muito pouco. Incapaz de fugir da claridade solar, sentou-se, deixando os lençóis correrem por seu corpo desnudo. Se levantou, lentamente, ignorando as pontadas irritantes que sentia em sua têmpora, e evitou passar a ponta dos dedos pelo inchaço evidente, antes que pudesse, ao menos, olhá-lo com atenção no espelho. Seu senso de equilíbrio não melhorou muito quando se pôs de pé, e, com dificuldade, puxou sua roupa do chão e a levou para o banheiro. Cada movimento parecia ecoar amplificado em mil vezes dentro de sua cabeça, até mesmo suas reclamações. Desviou de algumas caixas jogadas pelo meio do caminho, e entrou no banheiro, por pouco não escorregando no tapete.

Apoiou-se na bancada, fitando o próprio reflexo deplorável, soltando um gemido involuntário – do qual ele se arrependeu no segundo seguinte –. Estava pior do que imaginava. Certamente aquele babaca sabia bater, porque pegou em um ponto sensível, e o inchaço estava enorme, com bolsões arroxeados e vermelhos por toda a extensão. Na melhor das hipóteses, diminuiria em um dia ou dois, mas certamente ficaria dilatado por mais um tempo. O aspecto doentio do hematoma, somado ao seu cabelo bagunçado para todos os lados e as olheiras de alguém que se embriagou a noite toda, deixavam-no com uma aparência absolutamente vergonhosa.

Entrou no chuveiro gelado, estremecendo quando a água bateu em seus ombros. Os músculos reclamavam, doloridos, mas ficou mais lúcido, e o formigamento em seu rosto amenizou. Depois de alguns minutos totalmente imóvel, Naruto decretou que era o suficiente para sobreviver ao sábado, e saiu, puxando uma toalha molhada da caixa ainda intacta debaixo da pia. Voltou para o quarto, disposto a tomar uma xícara bem forte de café preto e, quem sabe, uma aspirina. Vestiu uma calça de moletom e bagunçou os fios molhados, pegando seu celular em cima do criado-mudo enquanto mancava até a cozinha.

Puxou a cafeteira e um sachê de pó instantâneo, misturando com água quente sem colocar açúcar. Distraído, apoiou-se contra a bancada enquanto esperava a tecnologia fazer seu milagre, Rolou pelo feed de notícias, ignorando veementemente todas as mensagens – e eram muitas. Aparentemente, todo mundo já tinha ficado sabendo da surra – por que eles potencializam tanto as coisas? – enquanto ele, aparentemente, dava em cima da namorada de Kiba Inuzuka. Bufou sozinho. Eles não sabiam da missa a metade, e se Hinata pertencia a alguém – o que não era o caso –, certamente era a ele.

Seu devaneio foi interrompido por uma série de acontecimentos. A cafeteira apitou, com o café expresso pronto, ao ponto que seu celular começou a vibrar em sua mão. Perdido, ziguezagueou pela cozinha, derrubando uma das caixas de potes plásticos, e o barulho o deixou desorientado. Xingando, desplugou a cafeteira e atendeu ao telefone, equilibrando-o no ombro enquanto tirava o café da jarra e chutava os potes para o lado.

— Alô? – saudou um tanto irritado e sem fôlego.

Isso é jeito de falar comigo, garoto? — a voz do outro lado esbravejou, e Naruto estremeceu, respirando fundo e se deixando sorrir um pouco.

— Desculpe, mãe. Tive alguns contratempos aqui. Como você está? – perguntando, bebericando o café sem se importar se estava quente. Queimou um pouco a língua, e o gosto amargo lhe deu uma careta.

Como acha que estou, meu bebê está morando do outro lado do oceano! – ali estava a chantagem emocional – Seu pai não deveria ter permitido que você voltasse sem nós. – Naruto soltou uma sonora gargalhada enquanto a mulher choramingava. Já tiveram aquela conversa, ao menos, dez vezes, e todas elas seguiam pelo mesmo caminho. Apesar disso, Naruto estava mesmo com saudades da mãe.

— Mãe, nós já falamos sobre isso. Agora você e o papai vão poder aproveitar uma segunda lua de mel – fez uma careta ao imaginar – e viajar para as inaugurações sem eu atrapalhar. Eu vou ficar bem. Eu juro.

Qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, você tem que me falar! — o loiro rolou os olhos, concordando com a cabeça mesmo que ela não pudesse vê-lo – E não se esqueça de visitar seus avós sempre, me ouviu? E coma direito. Nada de festas todos os dias, se eu souber que você está faltando na faculdade para vadiar, moleque, eu te mato! – mesmo pelo telefone, Kushina Uzumaki podia ser bem persuasiva quando queria. Naruto sentiu um arrepio, agradecendo por estar a milhares de quilômetros distante.

— Não vou, mãe. Fica tranquila, ok? Já me instalei no apartamento, as aulas começam segunda-feira, me encontrei com meus amigos. Está tudo certo. – garantiu, ocultando, é claro, a parte em que ele tinha metade do rosto dormente.

Ah, que maravilha! – a mulher mudou de tom com rapidez impressionante – E como está a Hinata? Diga que eu mandei um beijo! Estou morrendo de saudades dela e da Hanabi. – Kushina divagou enquanto Naruto soltava um gemido silencioso.

— Mãe! – choramingou – Esquece isso. Eu e Hinata não estamos mais juntos. Ela está namorando outra pessoa. – a última parte da frase saiu como um murmuro azedo.

O quê? Como assim? Explica essa história direito! Não é possível.

— Mãe, o interfone está tocando! – salvo pelo gongo! – Eu te ligo depois. Beijos, te amo.

Naru-

Desligou antes que a mulher tivesse chance de dizer qualquer coisa, respirando aliviado. Se Kushina entrasse naquele assunto, ninguém seria capaz de pará-la até que Hinata estivesse pessoalmente na linha – nem que ela precisasse voltar para o Japão, e ela faria isso –. Naruto não precisava de outra demonstração da impetuosidade de Kushina, e, mesmo enviesado, correu para o telefone na parede perto da estante, e o pegou antes que parasse de tocar.

Senhor Uzumaki?

— Eu mesmo. – Naruto respirou fundo, pensando que estava correndo muito de um lado a outro para uma manhã de sábado.

A senhorita Sakura Haruno está se apresentando na recepção.

— Ah, – Naruto rolou os olhos, se preparando para mais uma perturbação – pode deixar subir, obrigado.

Com um suspiro, Naruto desligou e voltou para a cozinha, terminando seu café, agora um tanto frio, e reorganizando os potes nas caixas, jogando-as na lavanderia para limpar a bagunça. Puxou o celular e guardou no bolso, preparando-se mentalmente para aquela visita. A ressaca havia se dissipado consideravelmente, e seu rosto, embora incomodasse, já estava limpo com uma pomada para desinchar. Não tinha muito o que fazer, além de aguentar as provocações eminentes da amiga.

A porta foi aberta com um supetão, e Sakura entrou como um furacão, sendo seguida de Sasuke. Naruto, surpreso, foi recepcioná-los, não esperando pelo Uchiha. A garota vinha com o cabelo preso no alto e um sobretudo elegante, até mesmo para ela, enquanto Sasuke trazia sua habitual cara de tédio. O loiro depositou um abraço rápido no amigo e um beijo no alto da cabeça de Sakura, pegando as chaves de seu carro quando ela jogou-as em sua direção.

— Esse foi o carro mais confortável e maravilhoso que eu já dirigi. – foi a primeira coisa que ela lhe disse, e Naruto resmungou, sentindo ciúmes da sua máquina. Sakura se jogou no sofá maior, enquanto Sasuke ocupava a poltrona, restando a borda da janela para o loiro.

— Espero que não tenha abusado do meu carro. – grunhiu, mal-humorado – Eu não sabia que você vinha também, teme. – voltou-se para o moreno, que estava distraído, analisando o velho apartamento, parecendo imerso em memórias, da mesma maneira que Naruto se pegava fazendo nos últimos dias.

— Sakura me ligou de manhã, falando que precisava vir trazer seu carro. Ela disse que queria que eu viesse também, mas é claro que só quer uma carona depois. – o moreno provocou, enquanto a rosada lhe dava a língua, parecendo corar ligeiramente. Naruto riu, mas observava os amigos atentamente.

— Nosso time está unido de novo! Vocês não ficam animados com isso? – a Haruno se justificou, gesticulando com um sorriso afetado. Naruto teve que concordar, saudoso. No ensino fundamental, costumavam fazer todos os trabalhos juntos, inseparáveis. Eles eram seus melhores amigos desde que se entendia por gente.

Seu coração se tornou apertado por alguns instantes, enquanto milhões de momentos passavam pelos seus olhos. Como um filme, as cores se misturavam – os fios sempre vívidos de Sakura, e ele nunca soube como a genética tinha lhe dado uma cor tão diferente; Sasuke, cuja mãe insistia em manter o cabelo meticulosamente cortado em um penteado que não lhe valorizava em nada, mas, de alguma maneira, ele sempre fizera sucesso com as garotas; e ele, com suas roupas alaranjadas brilhantes. Em algum momento, essas cenas se quebraram, e saber que fora ele quem causara essa ruptura era incomodamente doloroso.

Disposto a não ser tomado por esses sentimentos sufocantes, Naruto balançou a cabeça, voltando para a realidade. Sakura, jogada no sofá, admirava o ambiente como um todo, em silêncio, e ele não saberia dizer o que Sasuke estava fazendo – era difícil ler suas emoções, embora o Uzumaki afirmasse, com certo orgulho, que conseguia fazê-lo muito bem na maioria das vezes.

— Tenho muitas lembranças desse lugar. – Sakura comentou, com um tom de voz estranho, quase como um grasno. Naruto sabia que ela era a única que conseguiria fazê-los chorar. Acompanhando seu olhar, admirou o próprio apartamento, decorado por ele, mas sem a maior parte de seus pertences. Os quadros, enfeites e bugigangas ainda estavam cuidadosamente embrulhados em plástico-bolha, e Naruto não tinha intenção de desfazer isso tão cedo. Assim, o cômodo parecia bem limpo, com as estantes brilhando de lustra-móveis e a televisão de tela plana devidamente instalada. Tinha se mudado para aquele apartamento ainda muito cedo, com pouco menos de quinze anos. Embora a casa de seus avós ficasse há quatro minutos dali, seus pais concordaram que a experiência seria boa para criar nele responsabilidade. Ainda que por pouco tempo, grande parte dos encontros dos amigos tinham acontecido naquele lugar, e suas paredes carregavam mais memórias que eles jamais conseguiriam lembrar.

— Eu sinto muito por ter ido embora. – Naruto murmurou, baixo e rapidamente, mas os amigos se viraram para ele, surpresos. Sakura esticou o braço até que suas mãos tocassem sua perna, em um afago rude.

— Naruto, nós não ficamos bravos por você ter ido morar com seus pais. – sua voz era sincera – Ok, eu até fiquei um pouco brava. – eles riram, Naruto se lembrando do belo tapa que ganhara – Mas não é como se fossemos te recriminar por isso. Se eu tivesse pais milionários que viajam pelo mundo, não pensaria duas vezes. – jogou o cabelo para trás, afetada, tornando o clima mais leve. O Uzumaki, gargalhando, alcançou sua mão e acariciou seus dedos, em um agradecimento mudo.

— Eles não são milionários. – protestou, mas não estava realmente bravo. Quando as risadas se dissiparam, Naruto não pode reprimir um suspiro – Não sabia se deveria voltar para Konoha. Eles se mudariam para Londres por um tempo, e eu poderia escolher ficar na Califórnia e terminar a faculdade, ou vir para o Japão. – quando dizia em voz alta, parecia mais como um problema de primeiro mundo – Acho que o que me fez voltar foi-

— A Hinata. – Sakura e Sasuke responderam em uníssono, se entreolhando e rindo entre eles, enquanto o rosto de Naruto se convertia em uma carranca. Cruzou os braços, irritado, enquanto os amigos tiravam sarro da sua cara – Ora, Naruto, não fique bravo. – Sakura quem falou primeiro, dando de ombros, sem parecer se importar realmente com a zanga do Uzumaki – Posso fazer uma pergunta? Não me leve a mal. – se apressou – Por que essa fixação toda pela Hinata? Brincadeiras a parte, vocês foram namorados há quatro anos, e nós sabemos como terminou. – Naruto definitivamente não sentira falta da sinceridade irritante de Sakura.

Naruto não respondeu de primeira. Muito menos de segunda. De fato, as palavras, de alguma maneira, se tornaram presas em sua garganta, e não conseguiu formular uma frase digna com elas. Abriu e fechou a boca algumas consideráveis vezes, mas nada falou. Distraído, correu os olhos pela janela, que, sem as cortinas, refletia os prédios comerciais, cinzentos mesmo com o sol incindindo sobre eles. O céu azul anil parecia límpido – Naruto queria se sentir como aquele azul –. Virou o rosto, passando pelos cantos das paredes, que ainda pareciam sujas e empoeiradas. Baixou, pousando em Sasuke, que o encarava despudoradamente, com tanta atenção que Naruto quase corou.

De modo inexplicável, ele e Sasuke eram amigos há mais tempo que podiam contar. Melhores amigos, do tipo inseparável, e ninguém conseguiria explicar – nem ao menos tentavam –. Era impossível justificar como duas pessoas tão diferentes se davam tão bem – na maioria das vezes. Brigavam da mesma forma que faziam as pazes, e o Uchiha costumava ser o elo sensato da relação, mas Naruto também tinha sua parcela de racionalidade. O fato era que eles eram diferentes, em ideologias, personalidades, modos de agir e pensar. Mas, naquele instante, quando Naruto o encarou de volta, teve a impressão de ler em seus olhos a resposta que procurava. O brilho malicioso e um tanto angustiado, o rosto impassível mas incomodado.

Mais uma vez, Sasuke o entendia como ninguém mais – por isso era seu melhor amigo.

Por que essa fixação toda pela Hinata?

Ora, não era uma resposta fácil? Poderia ser a maneira que seu rosto corava por qualquer razão – vergonha, raiva, felicidade, embriaguez? Poderia ser como seu cabelo, mesmo curto, despencava em uma cascata enegrecida sob seus ombros, contrastando com a pele alva? Poderia ser por seu sorriso, que se abria tão raramente, e era um espetáculo tão belo? Ou, talvez, poderia ser como seu corpo comportava formas tão curvilíneas que era impossível vê-lo sem sentir-se quente? Mais que isso, poderia ser sua personalidade, como ela era forte, destemida, segura, confiante, intensa? Poderia ser, também, pelo modo que tomava decisões baseada em suas emoções, e como as sentia tão impetuosa? Poderia ser por esses motivos?

Mas, então, Naruto teria de saber a razão pela qual ele próprio notara cada uma dessas particularidades, memorizando-os e formando, em sua mente, a garota pela qual seu coração batia mais descompassadamente.

— Porque eu a amo. – respondeu, firme, com a voz parcialmente rouca.

Ele podia ter vários defeitos, mas algo de que se orgulhava era sua sinceridade quantos aos seus próprios sentimentos – Naruto não trabalhava com joguinhos. Ele era autêntico, as vezes dolorosamente ingênuo, mas não via sentido em esconder algo de si mesmo, ou de outras pessoas. Seus amigos, os próximos a ele, conheciam suas convicções, o jeito energético que as demonstrava. Era uma ocorrência inexorável, não havia sentido negá-la – ele não tinha vergonha em admitir que amava Hinata, dolorosamente, devastadoramente. Inevitavelmente.

Sakura se calou, envergonhada com sua resposta curta e direta. Sasuke, por outro lado, parecia lhe encarar com um orgulho furtivo. Naruto estava satisfeito consigo mesmo, embora seu coração doesse um pouco – e, aparentemente, não menos que seu rosto, que estava ali como um gentil lembrete de como o amor pode doer.

— Você é problemático mesmo. – a rosada comentou, depois de alguns minutos em silêncio, e Naruto a encarou, ofendido – Tudo seria muito mais fácil se você, não sei, deixasse para lá. Superasse. – não era como se aquela fosse a conversa mais confortável para eles. A garota se ajeitou desconfortavelmente, evitando erguer o olhar, e Naruto bufou para ela – Sério? Olha o seu rosto! Você tomou um senhor soco ontem a noite. – a garota prendeu o riso, enquanto o Uzumaki a encarava ultrajado. Sasuke, ainda quieto, ria disfarçadamente.

— Ele me pegou de surpresa! – defendeu-se, mas os amigos, claramente, não davam a mínima – Vocês são uns traíras. Teme, você nem estava lá! – acusou, e o Uchiha abriu um sorriso mais pronunciado, dando de ombros.

— Desculpa, dobe, mas todo mundo estava falando sobre isso. Mas, se serve de consolo, não está tão ruim quanto disseram. – disfarçou a risada com uma tosse, e Naruto o fuzilou.

— Vocês são impossíveis. – cruzou os braços, emburrado, encostando contra a janela. Ao menos sua ressaca havia passado, embora seu estômago gritasse de fome, alimentado somente com aspirinas e uma xícara amarga de café – Quem é aquele babaca, afinal? Preciso conhecer meu concorrente.

— Não deveria existir uma competição. – Sakura rolou os olhos, mas se virou, apoiando contra uma almofada – O nome dele é Kiba Inuzuka. A família dele tem uma rede de farmácias, e são conhecidos por seguir carreira de manipulação medicinal, mas o Kiba faz engenharia no período noturno. Acho que ele ainda está estagiando em uma empresa famosa em Komu. A família Inuzuka costumava ser vizinha da família da Hinata, então eles já se conheciam. Não sei quando começaram a namorar, mas eles começaram a sair no segundo ano. No começo, ele sentava com a gente no almoço e também foi para Suna no verão, mas não demorou dois meses até que a Hinata parasse de andar com a gente. Ele não tem irmãos, então pode herdar por inteiro o império Inuzuka, além de exercer a profissão. Ele é um ano mais velho que a gente, mas começou a estudar depois. Está no segundo ano da faculdade, e é amigo da maioria do pessoal mais velho. – o relato foi longo e detalhado, e, quando ela parou para respirar, Naruto e Sasuke a encararam, estupefatos – O que foi? – a rosada corou, fechando a cara – Eu tentei arrancar o maior número de informações que eu pude, enquanto ele ainda não me odiava. Nunca caí no papo dele, de qualquer maneira. – desdenhou, despreocupada.

O loiro ficou em silêncio, absorvendo os dados que Sakura tinha lhe dito. Eram circunstanciais, mas, definitivamente, era um começo – além do que descobrira sozinho, claro. Um ótimo gancho de direita – ele jamais admitiria –, e experiência em brigas. Era um pouco mais baixo que Naruto, e não conseguiria ter feito o estrago que fez se apenas socasse cegamente um monte de massa e músculos como ele. Além disso, seus olhos injetados e a pose ameaçadora com que falou com Hinata mostrava uma personalidade claramente desequilibrada. Agressivo, descontrolado – basicamente um pitbull rico e feroz. Apesar dos acontecimentos, Naruto não sentia raiva por ter apanhado, mas pela maneira que Hinata se encolhera quando ele a olhou – os ombros encolhidos e o rosto assustado eram uma imagem que jamais sairia de sua mente.

— Olha, Naruto, não é inteligente se meter com o Inuzuka. – foi Sasuke quem disse, surpreendentemente. Naruto parou e olhou para o amigo. O Uchiha não era do tipo que brincava com assuntos sérios, e sua testa vincada apenas reforçava essa teoria – Eu queria a Hinata longe dele tanto quanto você quer agora, mas ele é perigoso. É influente, tem os amigos certos. Não desconfio que ele seja praticamente um psicopata.

— Influência não é nada para mim. – argumentou.

— Não é disso que estou falando. – o moreno continuava sério – Não é sobre a família mais conhecida ou a conta bancária mais cheia. O que estou dizendo é crimes prescritos, mandados de prisão ignorados, ameaças, brigas descuidadas, tráfico de drogas. – a cada novo item, Naruto sentia sua boca entreabrir mais e mais – Ele realmente tem a influência certa. Você viu o que aconteceu na festa, e foi só um mal entendido. O Inuzuka já fez mais por muito menos.

— E Hinata se envolveu com um tipo como ele? Como?! – foi a primeira coisa que exclamou, chocado. Os amigos não tinham uma resposta imediata para isso. Pareciam envergonhados, e Naruto não queria repetir a cena da lanchonete de novo. Ele só queria entender. Era como um roteiro cinematográfico estúpido. Apenas surreal demais.

— É como eu disse antes. – Sakura falou, cuidadosa, quase docemente – Ele não era assim no começo. Hinata só foi se envolvendo, até que fosse tarde demais para ela sair.

Ninguém disse nada por um bom tempo.

Naruto permaneceu a deriva, com os pensamentos densos. Era como se fosse uma peneira, e, mais tarde, quando estivesse lúcido, esses julgamentos escoariam para um lugar que lhe permitisse remoer frase a frase. Talvez quando estivesse dirigindo, tomando uma ducha ou prestes a dormir. Sua cabeça trabalharia rapidamente, e, muito provavelmente, ele ficaria com raiva – um ódio cego, fervente. Ele também pensaria em estratégias, teceria ideias, e, no mundo dos sonhos, viveria momentos que não aconteceram, e presumivelmente nunca aconteceriam.

Entretanto, naquela ocasião, ele apenas não pensou. Deixou que aquele diálogo desaparecesse, e seus olhos captaram um redemoinho de poeira iluminado pelas luzes solares que queimavam suas costas. Já passavam das duas, certamente. E ninguém disse nada.

Quando o desconforto se tornou palpável, Naruto se ergueu da borda, sentindo os pés formigarem. Sakura e Sasuke o acompanharam com o olhar, parecendo preocupados. O garoto puxou uma camiseta, jogada próxima ao cabideiro, e pegou também a carteira. Se virou para os amigos, sorrindo um sorriso pequeno.

— Bom, já que vocês não pretendem ir embora tão cedo, eu vou no mercado comprar algo para nós almoçarmos. Já volto. – deu as costas antes de ver suas reações.

Absorto, desceu pelas escadas, lentamente, com as mãos no bolso da velha calça de moletom. Saiu para a rua a pé, com o sol incomodando seus olhos. Era sábado, e as pessoas não andavam pela calçada. A maior parte do comércio estava fechado, mas, como tudo naquela cidade, o mercado não ficava longe. As poucas pessoas que passaram por ele tomaram o cuidado de não encará-lo descaradamente, mas Naruto sabia que, se ele se esbarrasse consigo mesmo, também ficaria assustado.

Não se sentia culpado pela forma que saiu do apartamento. Seus amigos sabiam que ele precisava se afastar quando sua cabeça estava cheia de coisas. Uma boa caminhada o impediria de explodir com as pessoas erradas, e, de qualquer modo, era uma boa oportunidade de devanear sem ser interrompido. Não que fossem muitas as coisas que ele pensava – uma única garota ocupava cada raciocínio seu.

Chegou ao mercado, grande, se considerasse o tamanho da própria cidade. Tinha um estacionamento parcialmente cheio para o fim de semana, e portas automáticas. Ao entrar, Naruto atordoou-se com a quantidade de funcionários, carrinhos e corredores. Analisando panoramicamente o lugar, localizou, primeiro, o corredor dos congelados. Pegou uma cestinha, andando com a cabeça baixa – mas a maioria das pessoas estavam ocupadas em fazer as próprias compras. Naruto pegou alguns pacotes de lasanha, algo que estava com muita vontade de comer, desde que chegara. Também pensou em pegar ingredientes para fazer um rámen, mas, enquanto listava mentalmente do que precisava, acabou batendo a cesta contra as costas de uma mulher, que andava na direção contrária.

— Ah, me desculpe! Estava distraído-

Virou-se para se desculpar, mas sentiu a voz morrer quando encarou a mulher. A primeira coisa que pensou foi como o destino era fodido. Engoliu em seco, paralisado, e suou frio quando ela lhe dirigiu um sorriso divertido.

— Se não é o famoso Naruto Uzumaki, quem diria. Então era verdade. Você voltou mesmo. – sua voz era cortante e provocativa. O loiro queria responder, queria reagir, mas estava surpreso demais, sentindo o cérebro derreter.

— Shion? – sussurrou, como um idiota.

A mulher a sua frente gargalhou, jogando a cabeça para trás. Deixou as clavículas a mostra, os ossos sobressalentes expostos de maneira elegante sob a camiseta de alças finas. Os seios pequenos ficavam marcados, e o corpo era ainda mais magro. A pele clara exibia algumas cicatrizes de formato estranho, mas ninguém as notaria enquanto o cabelo louro reluzente balançava em suas costas. O rosto repuxado era fino, com traços marcantes, como Naruto se lembrava, há tanto tempo. A boca delgada, o nariz reto e os olhos felinos carregavam maquiagem, as sobrancelhas feitas e a expressão muito mais adulta do que realmente deveria ser. Ainda que fosse muito bonita – e, quando dizia isso, queria dizer muito bonita mesmo—, a única coisa que preocupava o Uzumaki era, de fato, a fúria que enfrentaria da garota.

— Bem, bonitão, você está um caco, mas não posso negar que o tempo fora realmente te valorizou. – a garota o encarava de cima a baixo sem pudor, deixando-o constrangido. Naruto abriu e fechou a boca, embasbacado. Shion não parecia querer escalpelá-lo, mas, ainda assim, não esperava que fosse tão direta.

— O-o-o que- O que está fazendo aqui? – gaguejou ridiculamente.

— Acho que o mesmo que você. – ela zombou, parecendo se divertir bastante. Apontou para a própria cestinha, e Naruto reparou, pela primeira vez, nas compras. Comida congelada também, algumas frutas, shampoo e salgadinhos suficientes para duas pessoas – Nossa, você realmente levou um belo soco.

— Até você? – respondeu antes que pudesse pensar, e quase se arrependeu da impetuosidade. Shion, por outro lado, não pareceu se ofender, sorrindo para ele como quem sabe um segredo muito bom – Mas, como você está? Digo, faz muito tempo. – tentou se redimir, sendo simpático. Estava desconcertado. A garota era mais velha que ele, e não era tão baixa para que precisasse redirecionar o olhar. Tinha uma presença intimidadora, acima de tudo. Alguém que impõe a si mesma.

— Muito tempo desde que você desapareceu da escola sem dizer uma palavra, sem se justificar, nem me mandar uma mensagem, você quis dizer? Pois é, faz mesmo, não é. – o loiro ruborizou fortemente, enquanto ela parecia se entreter com seu constrangimento. Naruto lembrava bem do episódio, quando pediu para que seus avós o matriculassem em outra escola para terminar o ensino fundamental. Foi quando conheceu Hinata – Não precisa ficar assim. – ela sorriu, parecendo simpática, mas nem tanto – Eu estou ótima. Faminta. – ergueu a cesta, fazendo piada – Vejo que você também. Tirando esse hematoma no seu rosto. – ele resmungou enquanto ela o encarava de maneira estranha, quase pretensiosa – Bom, eu vou indo. Acho que vamos nos encontrar de novo.

— Até mais. – Naruto respondeu, no automático – Você está ótima, a propósito. – Shion estava de arrasar. A garota sorriu mais largo, agradecendo e desparecendo no corredor do lado.

Naruto continuou encarando as batatas congeladas, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Não fazia sentido – ele jamais esperaria encontrar Shion, ainda mais daquela forma –. Fazia três dias que estava na cidade, e sentia-se atordoado. O que mais o intrigava era o modo com que a garota falou com ele. Não parecia superior, mas debochada, como se soubesse algo que ele não sabia. Se tivesse que distinguir, não chegava a ser irritante – apenas curioso.

Continuou suas compras, devagar. Não parou para pensar o que significava quando ela disse “vamos nos encontrar de novo”. De fato, isso aconteceria, muitas vezes, mas Naruto não sabia disso. Não sabia de muitas coisas, era claro. Naquele momento, apenas ponderava nos próximos dias, no começo das aulas, e em todas as oportunidades que teria – mas ele também não tinha conhecimento se seriam boas ou ruins.