Heroína

14 Manual de comportamento para perguntas que não deveriam ser feitas


Notas iniciais
Bom, estou me preparando para as reações. Eu tinha esse capítulo planejado desde o começo, é um dos grandes start-ups de toda a história. Foi realmente incrível trabalhar nele, toda a narrativa e os sentimentos. Espero que gostem, ou, pelo menos, não me odeiem tanto! Vou trabalhar tudo que está aqui nos próximos, como os personagens vão se relacionar a partir de agora. Obrigada por todo o apoio, é indescritível ♥

Eu prometi que nunca iria deixar você

E você deve sempre saber

Onde quer que você possa ir

Não importa onde você está

Eu nunca vou estar longe

Lullabye (Goodnight My Angel), Billy Joel

Capítulo XIV–

Manual de comportamento para perguntas que não deveriam ser feitas

Naruto pensou em tocar novamente quando, passados trinta segundos, ninguém veio lhe atender. No entanto, antes que seu braço alcançasse a campainha, ouviu barulhos de tranca, e a porta foi aberta repentinamente, escancarando-a.

O primeiro pensamento que cruzou sua mente naquele instante foi em como o tempo tinha passado. Sua expressão mergulhou em surpresa ao encarar a mulher parada no batente, parecendo igualmente atônita. Em sua memória, Naruto nutria uma imagem diferente, e, mesmo que quatro anos tivessem se passado, sentia-se diante de uma mulher com muito mais idade. Hiromi ainda possuia uma beleza madura estarrecedora, com o cabelo mais curto, jogado para trás, o pescoço alvo à mostra na blusa social de tecido fino. Os saltos baixos deixavam-na bem-posta, ressaltando as pernas elegantes, cobertas pela metade por uma saia escura. Toda essa identificação demorou certa de dez milésimos, e, então, Naruto estava de volta para seu rosto.

Os olhos lilases refletiam emoções conflituosas, embora ainda fossem de uma imponência altiva. Ao redor deles, como uma moldura, pequenas rugas de expressão, pendendo por toda a lateral, mais proeminentes nas maçãs. Não havia nada de errado em marcas de vida, contudo, não eram elas que deixaram Naruto intrigado. Sua pele, muito esticada, não espelhava uma mulher de meia-idade que gozasse de plena saúde. Parecia mais magra, mais cansada. Se olhasse mais atentamente, veria resquícios de sofrimento incrustados em cada um de seus traços faciais. Era como se tivesse passado por problemas difíceis demais recentemente – não pôde deixar de pensar em Hinata, e se perguntou se foi a filha mais velha que tinha causado aquilo –.

Ficaram se encarando por longos minutos, até que ela deixou o ar escapar pelo nariz, os braços caídos e a expressão incrédula. Mudou o peso de uma perna a outra, piscando diversas vezes, talvez pensando se aquilo estava, de fato, acontecendo. Naruto abriu um sorriso envergonhado.

— Olá, Hiromi. – falou, por fim, e, quando sua voz atingiu os ouvidos, ela entreabriu mais a boca.

— Naruto? Naruto Uzumaki? – falou, tão baixo que Naruto teve de se concentrar para entender. Assentiu, colocando as mãos nos bolsos.

— Sou eu mesmo.

Naruto esperou por muita coisa. Esperou por xingamentos e por uma careta irada, que o expulsaria de sua propriedade tão rápido que não teria tempo de se explicar. Fúria, decepção, olhares cerrados e acusações que ele sabia que merecia – por todas as vezes que seus pais não estiveram na cidade, os Hyuuga tinham sido sua segunda casa, sua segunda família –. Todavia, Naruto certamente não esperava pelos braços que o puxaram para baixo, desengonçados, entrelaçando seu pescoço. Pego de surpresa, seu cérebro demorou para processar o abraço. Sem reação, deixou que seu corpo retribuísse automaticamente, apoiando-a pela base das costas, tentando manter uma distância respeitosa. Manteve os olhos abertos, estarrecidos, enquanto podia senti-la tremer um pouco. Inspirou fundo, e aquele mesmo perfume ativou antigas lembranças. Era um toque familiar e acolhedor. De repente, percebeu que se sentia como um filho voltando para casa.

— Oh, me desculpe. – ela murmurou, agora sorrindo, enquanto o afastava com sua força mínima. Naruto arrumou a postura, disfarçando a descrença apenas para sorrir para ela. Discretamente, seu indicador limpou os cantos dos olhos – É que eu fiquei muito surpresa. Venha, entre, por favor! – mais que depressa, ela abriu o caminho para o pequeno corredor que dava acesso aos outros cômodos. Encabulado, Naruto entrou, sentindo a mão tocar delicadamente seu braço.

— Com licença. – murmurou, olhando para todos os lados, absorvendo o máximo que podia naquele pequeno intervalo de tempo.

Eram as mesmas paredes, as mesmas recordações, com uma energia diferente. O piso de linóleo escolhido pessoalmente por Hiromi brilhava sob seus pés, e a cor neutra não cansava a vista, mas havia muitas coisas novas. Um vaso de flores, que pareciam novas e recentemente trocadas. Quadros. Muitos quadros. Naruto perdeu-se ligeiramente naquela linha do tempo montada do seu lado direito, de alto a baixo. Eram, em suma, fotos das duas irmãs. Identificou Hinata criança, com um bebê no colo. Era a primeira, no ponto mais alto, e as coisas seguiam-se como o fluxo de um riacho. Todas as fases da infância, fotos de aniversário e festividades. Fotos com os avós, com os amigos. Todas tinham Hinata e sua irmã mais nova, Hanabi – de quem Naruto sentia muita falta também –. Conforme as garotas cresciam, novas fotos, com os colegas de escola e nas férias de verão. Em determinado momento, Sakura começou a aparecer, junto com Ino e uma garota de cabelo castanho que o Uzumaki sabia ser uma amiga distante. Ele estava lá, posando com o sorriso debochado de um garoto de quinze anos, abraçando Hinata pela cintura. Engoliu em seco, com um misto de sentimentos tomando conta de seu peito. Foi o primeiro feriado com a família Hyuuga. Ele tornou a aparecer, também com Hanabi e os outros. Em um ponto, a garota que achava ser Hinata se tornou um pouco diferente, e, com surpresa, ele percebeu ser Hanabi, já no auge de seus catorze anos. Ela usava o cabelo curto e tinha um sorriso marcante. Eram poucas as fotos com Hinata. Andando em passos curtos, acompanhando a história, Naruto também sentiu-se incomodado. Embora fosse um belo painel, havia algo que não conseguiu identificar – algo mórbido.

— Venha, querido, vamos para a sala. – Hiromi o chamou, acordando-o de seus devaneios. Balançando a cabeça, seguiu a mulher pela entrada da direita, passando por um novo corredor. Entraram no cômodo, e, embora os móveis parecessem novos e realocados, ainda existiam elementos que sua memória guardava, como o carpete fofo e a estante de livros – Sente-se! – Hiromi praticamente o obrigou a se sentar na poltrona que ficava do lado do largo sofá, no qual ela mesma se acomodou. Cruzando as pernas, fitava seu rosto com um genuíno sorriso. O loiro começou a sentir a culpa imobilizar suas reações – O Hiashi está para chegar, ele vai adorar te ver também!

— Hiromi, eu... – tentou responder, mas sua garganta estava fechada. Aqueles olhos perolados o encararam com um amor maternal.

— Então, me diga, como tem passado? – perguntou, sem deixar de sorrir, as sobrancelhas baixas ressaltando as rugas. Naruto engoliu em seco, também tentando sorrir, embora suas mãos tremessem.

— Bem. Bem, venho passado muito bem. – gaguejou ridiculamente, nervoso – Estive morando com meus pais, na América, e voltei há poucas semanas. – se explicou, vendo um brilho passar rapidamente por seu rosto.

— Que maravilha! – ela exclamou – Isso é realmente ótimo, Naruto. Eu me lembro do quanto sentia falta deles. – Naruto não entendia como não havia mágoa ou raiva em sua voz, apenas uma alegria verdadeira.

— Hiromi, eu preciso me desculpar com você. – falou, rapidamente, ou não conseguiria completar a sentença – Naquele dia, há quatro anos, eu recebi uma ligação dos meus pais, o voo sairia pela manhã, eu não tive tempo para organizar minhas coisas, para me despedir, eu, eu-

— Está tudo bem, querido. – o tranquilizou, colocando a mão sobre a sua. O Uzumaki, que começara a hiperventilar, teve de respirar fundo para retomar a compostura. Queria que ela o deixasse falar, queria que o acusasse de ter ido embora, queria que ficasse com raiva. A cada momento em que captava sua fisionomia feliz por ele estar ali, ficava mais difícil lidar com o remorso – É claro que nós não o culparíamos por ter escolhido ir morar com seus pais. Jamais faríamos isso. – balançou a cabeça, reforçando a ideia de que eles guardarem mágoa era absurda.

— Mas eu fui embora! – insistiu, gesticulando – Eu não me despedi, eu fui embora e sumi por anos! – parte de si queria se mandar calar a boca, porque parecia que ele queria que Hiromi sentisse raiva, mas a mulher apenas continuou sorrindo, compreensiva.

— Naruto, como eu poderia guardar rancor de você, um filho que decidiu ir morar com os pais? – os cantos de seus olhos estavam pequenos, e o garoto sentiu que havia uma carga maior naquela frase, que não conseguiu identificar – Algum tempo depois sua avó conversou conosco, quando nos encontramos, e explicou o que tinha acontecido. – Naruto quis suspirar aliviado, porque, ao menos, uma parte tinha sido justificada – Nem eu, nem Hiashi, culpamos você, por nada. – novamente, aquele segundo sentido implícito, desconhecido – Eu estou muito feliz por você estar de volta!

Ela o olhava com emoção, e suas mãos finas agarravam-se as dele como alguém que realmente dependia disso. Naruto não entendia porque ela parecia tão aflita, mas tão aliviada ao mesmo tempo, não entendia suas palavras ambíguas e porquê a casa estava diferente, embora tão igual. No entanto, ele entendia o perdão, e isso fez seu peito desapertar.

— Bom, eu-

Foi interrompido novamente, desta vez pela porta se abrindo. Hiromi, surpresa – de um jeito bom –, soltou suas mãos e se pôs de pé, alisando a roupa executiva enquanto alargava o sorriso brilhante. Do corredor, surgiu um homem, carregando consigo um casaco de tweed e uma pasta de couro surrado. De imediato, Naruto também se ergueu, em um salto, secando as palmas suadas.

— Querido! Que bom que chegou. Temos visita! – anunciou, orgulhosa, e o homem se voltou para eles, ainda da entrada.

Naruto teve uma impressão semelhante quando vislumbrou Hiromi. Hiashi Hyuuga sempre fora um homem de expressões marcantes, mas, naquele momento, ele parecia simplesmente cansado. Rugas mais expressivas contornavam seu rosto sempre tão altivo, enquanto o cabelo, ainda longo, estava atado na nuca, deixando alguns fios escaparem para frente. As íris lilases – a característica notável que sinalizava um povo muito antigo do sul-asiático e das colônias – estavam atrás de um óculos de hastes escuras e lentes na ponta do nariz. Sua roupa era significativa – suéter de lã com as mangas puxadas e calças sociais, sapatos lustrosos e uma gravata agora frouxa. Naruto se lembrava das raras vezes em que vira Hiashi em roupas de trabalho – todavia, sendo um renomado professor universitário, aposentado e palestrante, quase nunca as trajava –.

Seus olhares se encontraram, e, assim como Hiromi, ele exibiu uma reação muito positiva. Deixou a pasta e o casaco na cadeira mais próxima, caminhando até Naruto, e, mesmo que tivesse crescido bons centímetros ao longo de todos esses anos, Hiashi ainda conseguia manter-se a sua altura, com as costas eretas. Parou na sua frente, e, abrindo um sorriso carregado, puxou-o para um abraço, cercando seus ombros. O loiro, acanhado, retribuiu como pôde, dando tapinhas em suas costas. Ele o afastou, ainda mantendo as mãos em seus ombros, lhe analisando com aquele semblante avaliador que tanto temia.

— Vejam só, Naruto Uzumaki. Você está ótimo, filho! – sua voz de trovão soou por todo o cômodo, e Naruto não pode deixar de sorrir.

— Obrigado, senhor. – agradeceu, sincero.

— Aqui, querido, sente-se. – Hiromi interviu, e Hiashi o soltou, para depositar um beijo no rosto da mulher. Naruto sorriu com a cena. O homem se acomodou no lugar antes ocupado pela esposa – Esperem um instante, vou trazer um pouco de chá para conversarmos. – Naruto percebeu que não haveria discussão, então aceitou, voltando para a poltrona.

Ficaram em silêncio por um instante, o Uzumaki secando as mãos a todo momento, engolindo em seco, enquanto Hiashi desfazia a gravata e checava seu beeper, um modelo antigo. Hiromi não demorou para voltar. Trouxe uma bandeja com três xícaras e um bule sofisticado, de cerâmica, fumegante. Depositou na simpática mesinha de centro, perto do pote de balas, e serviu para os três. Naruto parou sua xícara e depositou um cubo de açúcar, bebendo um gole generoso e inspirando fundo, sorrindo – o chá de Hiromi era, definitivamente, o melhor.

— Bem, Naruto. – Hiashi começou, depois de também tomar um gole do seu. Hiromi sentou-se ao seu lado, passando um braço no dele – A que devemos a honra? – perguntou, sem sugestividades, apenas interesse.

— Eu, hm, voltei há algumas semanas, e quis fazer uma visita. – engoliu, hesitando um pouco, mas eles não perceberam.

— Ficamos feliz que tenha vindo, filho. – o homem trovejou – Ouvimos sobre sua mudança repentina. Diga-me, como foi no exterior? – perguntou, agora assumindo o mesmo tom que usava com palestrantes na universidade. Naruto respirou fundo, agora sorrindo por falar de algo trivial.

— Eu acompanhei meus pais para a América, onde eles estavam expandindo uma linha maior de galerias. Moramos a maior parte do tempo em Los Angeles, mas eu conheci quase todos os estados, e cheguei a entrar na Universidade da Califórnia por alguns semestres. – narrou, orgulhoso de si mesmo e da família. O casal assentia, envolvidos.

— Que maravilha! – Hiromi comentou, fascinada – E por que decidiu voltar? – Uh, pergunta perigosa. Naruto não teria coragem de dizer que grande parte do motivo era Hinata, então demorou mais a responder essa, acabando por contar uma meia-verdade.

— Eles pretendiam começar uma tour pela Europa para fechar algumas parcerias, e eu poderia escolher ir junto ou voltar para Konoha. Eu conhecia muito pouco dos Estados Unidos para continuar morando sozinho e terminar a faculdade, e, sendo bem sincero, não queria me intrometer na viagem deles. – riram – Então consegui uma carta de transferência para o curso daqui.

— Muito generoso da sua parte, filho. – Hiashi falou. Um breve minuto de silêncio se instalou, e Naruto terminou o chá nesse meio tempo, depositando a xícara de volta na bandeja. Por fim, Hiashi pigarreou, limpando a garganta, com os olhos muito sérios – Você já encontrou Hinata?

Naruto não tinha certeza se deveria iniciar aquele assunto, por isso estava hesitante. Por outro lado, tampouco poderia dizer toda a verdade. Não sabia se os pais tinham total conhecimento da vida que Hinata levava, e ele imaginava que pai nenhum gostaria de ouvir que sua filha está envolvida em um relacionamento abusivo e usando drogas. Torcendo os dedos, acabou por assentir.

— Nós nos esbarramos algumas vezes, na faculdade. Conversamos bem pouco. – não por falta de esforço.

— Sim, aquele curso ridículo de Administração que ela faz. – Naruto se surpreendeu com a primeira emoção clara que Hiashi demonstrava na voz, uma clara desaprovação. Crispou os lábios, parecendo inconformado, e o garoto o entendeu. Ambos sabiam da aptidão de Hinata para algo muito mais grandioso – Imagino que também esteja sabendo sobre o namorado dela? – o loiro não evitou uma careta.

— Sim, eu tive a felicidade. – deixou o veneno escapar, e Hiromi suspirou, concordando com a cabeça.

— Aquele garoto destruiu a minha filha. – o patriarca fechou a mão em punho, cerrando o maxilar, enquanto Hiromi tentava acalmá-lo, com a voz baixa – Mesmo... mesmo com tudo que aconteceu, foi ele quem a levou para longe de nós. – lamuriou-se, de repente parecendo muito velho, e seus olhos se fecharam. Naruto sentiu o peito se apertar com aquela cena. O que quer que tivesse acontecido, pairava sobre eles, como uma nuvem de sofrimento.

— No começo, nós tentamos orientá-la, dar conselhos. Até castigos nós aplicamos. – Hiromi continuou, explicando – Mas nada adiantava. Era como se ele sugasse a energia dela. – ela lamentou tristemente – Acho que fez a cabeça dela contra nós, contra todos os amigos. Desde que... – ela parou, hesitante – Desde que ela saiu de casa, nunca mais a vimos. Não atendia nossas ligações, e, depois de um tempo, paramos de tentar. Sequer sabemos onde ela mora, se está bem. – parecia a beira do choro, a voz embargada, e Naruto decidiu que era hora de mudar de assunto.

— Bom, e como está Hanabi? Ela está na escola? – perguntou, passando para a outra filha, tentando manter o tom descontraído.

Algo aconteceu. Hiashi abriu os olhos com rapidez, encarando-o com algo diferente de raiva, mas intenso, angustiante. Seu rosto se transformou com bastante velocidade em uma máscara dura, contudo, não severa, como antigamente – Naruto não conseguiu detectar porque emitia uma aura tão pesada –. Hiromi, em contrapartida, desviou os olhos para seu rosto, com um sorriso trêmulo que não combinava com ela. Tampouco chegou aos seus olhos, agora lacrimejantes, e, antes que ela falasse, seu lábio inferior tremulou ligeiramente.

— Ah, querido. – lamuriou – Hanabi faleceu há alguns anos.

Ah.

Ah.

Há alguns períodos na vida em que experimentamos uma condição de compreensão clara e pragmática. Pode acontecer diversas vezes, em diferentes âmbitos. Pode acontecer durante uma aula, quando nosso cérebro estabelece a ligação definitiva entre os pontos específicos que tornam as matérias unas e contínuas. Pode ser no decurso de uma conversa casual com amigos, em uma mesa de bar, quando um comentário aparentemente despropositado lhe permite, finalmente, compreender determinado assunto. Pode ser em uma jornada solitária, em pensamentos avulsos durante um trajeto de ônibus ou um banho no final da tarde. A compreensão que abate traz consigo uma série de fatores que se interligam, formando uma imagem de entendimento, e, para bem, ou para mal, ela existe.

Naruto ficou em silêncio. Profundo e absoluto silêncio. Seus ombros, outrora eretos, caíram, tal qual seus braços, inertes ao lado do corpo. Não saberia dizer qual o semblante em seu rosto, mas supunha se assemelhar a inexpressividade. Sua visão, de repente, desfocou para lugar algum, e, em um pane temporário, sua mente enebriou-se, deixando tudo escuro.

Como um computador que reinicia, a primeira imagem que lhe apareceu foi a parede á direita, na entrada da casa. O painel enfeitado, repleto de quadros e fotografias, disposto em uma linha do tempo contínua que se interrompia na adolescência. O vaso de flores novas, que ele não reparou acompanhar um porta-retratos, posto ao fundo. O instinto pesado que ele sentiu olhando para aquelas lembranças, que – agora ele entendia – formavam um memorial. Um memorial para Hanabi.

Ele se lembrava tão claramente dela. Mais nova que Hinata, mas, ainda assim, eram tão unidas quanto possível. Tinha personalidade forte e um senso muito claro das coisas. Gostava de irritá-lo, e ele gostava de irritá-la. Perseguiam-se pelo jardim, ou pelo calçadão de areia da casa na praia que alugavam no verão. Era como uma Hinata em miniatura, o mesmo cabelo liso e azul-escuro, os mesmos olhos característicos que portavam a mesma determinação teimosa. Ela era baixa e magra, facilmente erguida, quando Naruto o fazia para capturá-la. Quando foi embora, ela não tinha muito mais que doze.

Naruto deixou o corpo cair para trás, batendo contra a almofada fofa, e, por mais que tentasse falar, sua garganta fechada impedia que as palavras saíssem como deveriam. Tudo que pôde fazer foi fitar Hiashi e Hiromi, a sua frente, de braços dados no sofá. Hiashi acariciava a esposa, o rosto baixo, enquanto ela limpava discretamente o canto do olho, parecendo mais branca, mais exaurída. Todas as peças foram se encaixando, pouco a pouca. A aparência velha e apática de um casal que era cheio de vida. As rugas, os semblantes envelhecidos, a atmosfera que pairava sobre suas cabeças, a casa sem vida. Eles vinham lidando não somente com a perda de uma filha, mas das duas.

— Eu...- Eu sinto muito. – foi a única coisa que conseguiu balbuciar, em seu estado catatônico. Aquelas palavras pareciam erradas, no contexto errado, com o peso errado. Ele estava muito, muito, além de sentir muito. Seu coração estava apertado, lhe dando dificuldade para respirar. Não parecia certo ter que dizer aquilo para dois pais – Me desculpem por ter perguntado. – a frase saiu murmurada.

— Está tudo bem, querido. – Hiromi se apressou, fungando e balançando a cabeça – Você não tinha como saber. Já faz dois anos, estamos nos acostumando. – deu de ombros, sorrindo da sua maneira trépida.

— Não tem como se acostumar com algo assim. – Hiashi resmungou, mergulhado em sua própria dor – Hinata é quem mais sofre. – parte de Naruto ficou alerta, não entendendo a última sentença, mas, sem querer perguntar, esperou que ele continuasse – Ela se culpa pelo acidente.

Um acidente. Ele se perguntou, por um ápice, como acontecera. Acidente de carro, talvez. Atropelamento? Naruto não teria coragem de perguntar. Hinata amava a irmã, mais que qualquer pessoa, e lhe parecia óbvio que atrairia toda a culpa para si mesma. No entanto, era como se faltasse uma peça, para que ele compreendesse por inteiro. Quiçá nunca conseguisse. Não seria insensível ao ponto de extrair toda a história daqueles pais. Se contentou – eis aqui uma força de expressão – com aquelas informações, pranteando a perda lamentável da maneira que achou justa.

— Foi antes dela sair de casa? – perguntou, por fim, julgando ser uma boa mudança de assunto. Hiromi assentiu com a cabeça.

— Sim. Acho que foi o ápice para ela. Se mudou algumas semanas depois. Sempre achei que ela teria saído bem antes, mas não queria fazê-lo enquanto estávamos de luto. De qualquer maneira, mal a víamos fora do quarto. – suspirou.

— Minha filha é uma boa pessoa. – Hiashi parecia falar consigo mesmo, com a voz amarga e o rosto severo contraído em uma máscara sôfrega – Ela é boa, gentil e inteligente. Ela sofreu mais que qualquer um. Só se envolveu com as pessoas erradas. – seus punhos fechados e os ombros retraídos davam a impressão de que ele queria convencer a si mesmo, antes de uma outra pessoa.

— Ficamos muito felizes em te ver de novo, Naruto, porque nos lembra, de certa forma, do passado. – Hiromi falou, fazendo aquelas palavras alcançarem seus ouvidos e penetrarem dentro de si – Quando ainda tínhamos nossas filhas.

Naruto não soube responder aquilo.

Estendeu a visita até quanto foi possível. O sol saiu do pico e se pôs do lado esquerda, com os raios entrando pelos vitrais da sala de estar, onde ficaram reunidos por toda a tarde. Em determinado ponto, quando o céu passou de anil para ciano, Hiashi recebeu uma ligação em seu telefone comercial, chamando-o para uma reunião, Naruto convenceu Hiromi de que já tinha tido muito do tempo deles. Ela tentou lhe convencer a ficar para o jantar, mas o garoto percebeu como estavam cansados. Prometeu, em vez disso, que voltaria logo.

Conversaram sobre muitas coisas – e sobre nada –. Falaram sobre sua experiência no exterior, e o curso de Artes. Falaram sobre os novos empregos, que exerciam há algum tempo. Hiashi saiu da aposentadoria, voltando a lecionar esporadicamente em Komu e dar palestras na região. Hiromi aceitou o cargo de gerente de marketing de uma empresa de grande porte, também em Komu – no passado, ela lhe disse que era muito boa no que fazia –. Mesmo já com mais idade, eles contaram ao Uzumaki que ficar em casa durante todo o dia era avassalador. Ver os cômodos vazios e o ambiente sempre silencioso estava enlouquecendo-os, então decidiram que o trabalho era o melhor caminho – todo o dinheiro extra não-utilizado ia para fundos de investimentos e causas sociais.

De maneira geral, Naruto não sabia como se sentia quando pisou novamente no gramado da casa Hyuuga. Olhou para trás, despedindo-se com um aceno por cima do ombro para o olhar esperançoso que Hiromi lhe dirigia. Em seguida, dobrou a esquina, entrando em seu carro, abafado do sol e dos vidros fechados. Ligou o ar-condicionado e deixou as mãos morrerem sobre o volante. Fitou o horizonte, a mistura das cores alaranjadas que formavam uma bela pintura.

E então, chorou.

As lágrimas escorreram silenciosamente, quebrando no queixo e caindo em seu colo e sua camiseta. Ele fungou, e elas desceram mais, como uma torneira aberta. Deixou que saísse por trinta longos segundos, depois, passou as costas da mão em suas bochechas, limpando-as, e snifou, com o nariz entupido. Respirou fundo uma ou duas vezes, controlando a respiração. Aquelas foram as lágrimas que não pode derramar por Hanabi antes. Em sua memória, a garotinha atrevida e espevitada continuava sorrindo para ele, enquanto fazia piada sobre qualquer coisa. Era realmente entristecedor quando alguém morria; mais ainda, quando uma pessoa jovem. Ele não podia imaginar como Hiashi e Hiromi estavam se sentindo. Chegou a pensar que se irritariam com sua aparição, por lembrá-los do passado, e de Hinata, e de tudo que tinha acontecido – e foi justamente o que aconteceu, mas não da forma que imaginou, e, de certo modo, muito mais angustiante.

Seus olhos e sua cabeça latejavam. Alguns resquícios escaparam pelos cantos, contudo, não se permitia prantear mais. Ligou o carro e deu meia volta, saindo do bairro pela mesma entrada íngreme que subira. Pegou a rodovia secundário e, com uma mão, enviou uma mensagem para Sasuke, dizendo para encontrá-lo em seu apartamento. Sentia como se lidasse com diversas pilhas de papéis, que continham histórias. Elas se complementavam, mas ele não sabia como organizá-las de modo coerente, e seus pulmões apertados não facilitariam o trabalho. Falar com Sasuke ajudaria a ordenar seus pensamentos, e para desabafar.

Dirigiu para casa no silêncio. Quando chegou em seu condomínio, o céu já estava escuro, mas sem estrelas. Entrou pela garagem, estacionando nos fundos, e pegou o elevador. A imagem refletida nas portas de metal era deprimente. Naruto lembrou-se que não tinha almoçado, apenas tomado algum chá. Não sentia a menor fome. Andar até seu apartamento lhe deixou mais cansado do que deveria.

Entrou, e o lugar estava tão silencioso quanto deveria. Com um suspiro pesado, abriu as cortinas, deixando que a grande janela industrial iluminasse a vista dos prédios do outro lado. Acendeu as lâmpadas amarelas nos lustres antigos. Na cozinha, deixou as chaves sobre o balcão e rumou direto para a geladeira. Ela mal tinha temperos e condimentos congelados, mas Naruto se abaixou para pegar uma garrafa gelada de cerveja. Somente o álcool o ajudaria.

Entornou um gole, que desceu, amargo, caindo direto em seu estômago, e ele quase pôde ouvir o baque. Jogou-se na poltrona, encarando a estante levemente empoeirada. Havia quadros nela, a maioria de suas viagens e com os amigos, há quatro anos. A lembrança das fotos das irmãs o fez mais lúgubre.

Antes que pudesse chafundar em mais fossa, ouviu passos ecoarem no corredor, e Sasuke entrou pela porta encostada. Usava a mesma camiseta de mais cedo, com bermudas e tênis. Trouxera o capacete, deixando no chão, e fechou a limiar atrás de si, encarando Naruto com as sobrancelhas arqueadas.

— Dobe, eu vi sua mensagem. Está tudo bem? – perguntou, caminhando até o sofá e sentando no canto esquerdo – Espera, você está bebendo? E andou chorando? – eram muitas constatações para uma frase só. Naruto suspirou, largando a garrafa aos seus pés e coçando os olhos, a essa altura, inchados e vermelhos.

— Eu estive com os pais da Hinata. – começou, puxando o rosto quando baixou os dedos.

— E aí? Como foi? Eles estavam bravos com você? – o moreno rebateu, analisando as reações estranhas do amigo.

— Não, não. Pelo contrário. – soltou uma risada seca – Ficaram bem felizes em me ver. – Sasuke esperou que ele continuasse – Teme, você se lembra quando Hinata saiu de casa? – perguntou, de repente.

— Hm, não realmente. Deve fazer uns dois anos. – Naruto assentiu, largando-se na poltrona, exausto – Foi Sakura quem nos contou. Ela disse que o namorado dela, Kiba, postou no Facebook que eles tinham ido morar juntos. – deu de ombros, estranhando o questionamento – Por que?

— Eles me disseram que ela saiu de casa depois que aconteceu uma coisa. – era estranho repetir aquelas palavras, como se não fizessem sentido fora do contexto – Cara, a Hanabi morreu.

Sasuke, que estava parcialmente deitado no braço do sofá, se ergueu bruscamente, as costas eretas e o rosto retorcendo-se em uma expressão de completo abalo. Seus olhos ônix se arregalaram, e ele engoliu em seco duas vezes, a boca entreaberta. Naruto imaginou que aquele deveria ter sido sua primeira reação. Observou o mais atentamente que pôde – a cerveja começava a fazer sua magia –, vendo como o amigo processava a informação, e se perguntando se, como ele, Sasuke também tentava arrumar desculpas para negar aquilo.

— Como assim, a Hanabi morreu? – exclamou, a voz falhando um pouco.

— Eu sei. É inacreditável. – murmurou. Sasuke entendeu o porquê dos círculos vermelhos nos olhos do loiro. Ele mesmo estava se esforçando para não deixar algumas lágrimas escaparem – Parece que foi um acidente. Não sei como. Não quis perguntar. A Hinata se culpou pelo que aconteceu, e saiu de casa logo depois. – explicou, a medida que Sasuke modificava suas reações entre descrença e choque.

— Mas, mas... é impossível! Teria saído nos jornais! Nós teríamos ficado sabendo! – argumentou, gesticulando nervosamente, mas Naruto balançou a cabeça, negando.

— Aparentemente, Hinata fez um escândalo, exigindo que a irmã não fosse exposta na mídia daquela maneira. Foi um enterro discreto, só com a família e amigos mais íntimos. Quase ninguém ficou sabendo quando aconteceu. – Hiromi lhe contou que a morena estava em um estado catatônico até o dia da missa no templo, mas que, quando mencionaram jornalistas, ela surtou. Gritou, chorou, pediu para que nada fosse publicado. Segundo a mulher mais velha, era desejo de Hinata que Hanabi não fosse lembrada por um acidente. Os pais concordaram, e nada foi divulgado.

— Eu não consigo acreditar. – Sasuke deixou o corpo cair da mesma maneira, levando a mão na cabeça, murmurando consigo mesmo. Naruto, exausto, pegou a garrafa esquecida e bebeu um novo gole – Coitada de Hiromi, Hiashi. Coitada da Hinata. Não consigo imaginar como tenha sido. – gaguejou, desacreditado. Ficaram alguns segundos em silêncio. Depois, o Uchiha falou: – Queria que ela tivesse nos dito. Queria ter estado lá para ela. – sua voz estava magoada, e Naruto nada falou; ele não estaria lá para ela. Mas todos eram muito amigos, e muito próximos.

— Eles têm muito ressentimento do Inuzuka. – Naruto comentou, agora amargo, e Sasuke se virou para ele – Disseram que muito antes ela já estranha, como se ele tivesse feito sua cabeça dizendo que eles queriam separá-los.

— O mesmo com a gente. – o moreno comentou, abismado. Naruto concordou – Como podemos culpá-la por alguma coisa? É como se todas as coisas que aconteceram com ela fossem tragédias.

O loiro nada disse, internalizando o sentimento de culpa, mais forte do que antes. Não conseguia deixar de pensar o que teria acontecido se tivesse ficado. Ao menos, se tivesse tido tempo de conversar com Hinata, lhe contar o que pretendia fazer – de certo maneira, ele poderia ter feito. Poderia ter dito aos pais que pegaria outro avião, pediria que o esperassem por meio dia. Teria conversado as pressas, dito o quanto a amava. Não teria deixado a imaturidade tomar as decisões.

Fechou os olhos, mergulhando em meditações escuras. Apertou a base da garrafa em seus dedos, subitamente irritado consigo mesmo. Os olhos maternais de Hiromi não saíram de sua mente, a maneira que ela e Hiashi pareciam agarrar-se um no outro, para não desmoronar. Havia um buraco neles, que nunca poderia ser tampado.

— Foi bom ter ido lá? – Sasuke o tirou de seus devaneios. Ele pensou na pergunta.

— Não sei. – disse, por fim – Mas me ajudou a ver as coisas de outro jeito. Para poder ajudar Hinata.

Em sua mente, era muito claro que ele tinha mesmo entendido errado as coisas – agora, era até ridículo em como pensou que as coisas fossem superficiais –. Hinata tinha passado por coisas que nenhuma garota de dezenove anos deveria ter passado, e apenas procurou alívio da maneira errada. Assim como Sasuke tinha dito, como culpá-la? Ele conseguia imaginá-la em uma espiral para o fundo, infinita, sem ter nada nem ninguém para se apoiar. Naruto não esteve ali, não esteve presente, e não sabia como o relacionamento dela funcionava, mas ele sabia que, no fim, ela tinha apenas a ele para se alicerçar. Sem amigos. Sem família. Culpada, amargurada, desesperada. Era agonizante até de se refletir.

Naruto tinha tantos pecados quanto qualquer um. Ele não tinha escrúpulos para dar uma de super-herói. Todavia, como poderia deixar passar em branco, quando amava Hinata mais do que seria saudável? Ou lógico. Ou certo. Aquele amor o consumia, o queimava, alimentando sentimentos que ele não conhecia antes. Só queria proteger Hinata de todo o mal que o mundo podia oferecer. Ele já tinha uma abertura, um voto de confiança – era como uma ínfima rachadura, que ele poderia usar para cavar mais e mais fundo, e descobrir seus segredos, e abraçá-la forte quando o fizesse.

Sim, ele iria salvá-la. De quem? – bom, essa era a pergunta de um milhão de dólares.