Heroína
18 Garotas vestidas de rosa-shocking, vermelho-sangue e azul-lágrimas
Notas iniciais
Deus sabe que eu falhei com você outra vez
Mas eu e você estamos bem
Nós não nos despediremos, você sabe que é melhor assim
Nós não quebraremos, não morreremos
É apenas um momento de mudança
Tudo o que somos, é tudo o que é certo
— All We Are, OneRepublic
—Capítulo XVIII–
Garotas vestidas de rosa-shocking, vermelho-sangue e azul-lágrimas
Hinata não estava bem. Quer dizer, estava fisicamente bem, na medida do possível. Mas saiu do banheiro cambaleante, deixando Sakura e suas palavras para trás. O sol estava ardente e abafado, cegando-a quando chegou do lado de fora. Respirou fundo, mas o ar não conseguia chegar em seus pulmões. Seus sentidos não funcionavam como deveriam, e, quem a visse, não saberia dizer o redemoinho de emoções que se instaurara dentro de seu peito. Seguiu, sem rumo, até se apoiar em uma das colunas gregas, fechando os olhos. Sentiu-se fraca, o coração descompassado. Estava acostumada com os acessos de Kiba; contudo, há muito não falava com a ex-amiga. Em sua mente, a maneira que a garota protegeu-a com o corpo, entre tantas outras coisas, deixava-a perturbada.
Para sua sorte, os corredores encontravam-se vazios – não teria de lidar com a humilhação dos olhares curiosos e as fofocas em sussurros. Não se iludiria ao pensar que aquele assunto seria facilmente esquecido; os abutres de Konoha não deixavam nada passar. Em vez disso, concentrou-se em manter a compostura. Seus pulsos, como imaginou, continham marcas avermelhadas contra a pele branca, que não tardariam a desaparecer. Não teria coragem de aparecer na aula, já iniciada. Teve vontade de pegar o próximo ônibus e voltar para casa.
Não o fez. Em vez disso, com o restante de amor-próprio que lhe restara, aprumou a postura, com a bolsa velha nos ombros. Alisou a roupa, passando a mão no rosto para despertar. Voltou a andar pelo largo corredor, subindo as escadas para o segundo andar. Controlou as memórias turbulentas, conferindo em seu relógio se não seria cedo demais. A cada passo, recuperava a veracidade que alimentava seu espírito indomável – o fogo que se acendia em momentos como aquele, quando estava prestes a perder a si mesma. Era a vontade de se provar, e provar aos outros, que ela era quem mandava na própria vida. Quando chegou na sala do professor Asuma, seus olhos faiscavam, e ela se recusava a pensar em qualquer outra coisa que não fossem seus próximos passos. Estava irritada, inconformada e decepcionada. E já tinha aprendido, no passado, a transformar aqueles sentimentos em algo produtivo.
— Com licença? – perguntou, empurrando a porta minimamente. Asuma estava sentado, com meio cigarro aceso e os olhos atentos em alguns papéis. Ele a fitou, surpreso, e deixou de lado sua prancheta.
— Hinata, oi. Claro, fique à vontade. – a convidou. Hinata entrou, fechando a porta atrás de si, mantendo os ombros dignamente retos – Pode se sentar. Como você está? – ele parecia verdadeiramente preocupado, e ela agradeceu o sentimento.
— Estou bem, obrigada. – sorriu fraco, deixando a bolsa sobre o colo. O cheiro de nicotina a fez querer fumar também.
— Fico feliz em te ver determinada, depois dos acontecimentos recentes. – Hinata gostava de Asuma por muitos motivos, e um deles era sua sinceridade genuína; ele nunca tinha segundas intenções por trás de suas frases.
— Eu agradeço, professor. Foram alguns contratempos infelizes. – mordeu o lábio, preocupada em falar demais. Não queria parecer uma garota frágil, desabafando para seu orientador.
— Gostaria que soubesse que se houver quaisquer problemas que possam prejudicá-la em sua carreira acadêmica, não hesite em me contatar. – seus olhos eram gentis, mas seu semblante era sério. Ela entendeu as entrelinhas, e, em vez de irada, sentiu-se curiosamente agradecida.
— Obrigada. – sua voz estava carregada de gratidão. Pigarreou, espantando a comoção – Sei que deveria estar na aula agora, mas queria conversar sobre o problema de iniciação. – desculpou-se silenciosamente, e o professor assentiu de imediato.
— Absolutamente compreensível. Fico feliz em vê-la tão animada para começarmos. – sorriu de maneira tão vibrante que a incomodou; a lembrou de certa pessoa – Seu histórico escolar é impecável. – estendeu algumas folhas que buscou em uma pasta, dentro de sua gaveta – Suas notas em física, química e cálculo são excepcionais, e foi ótimo você ter feito as duas disciplinas de cálculo avançado como optativas. Como sabe, ministro os programas de física avançada, quântica e metafísica, além de cálculo voltado para análise qualiquantitativa de elementos astrofísicos. A UK tem uma bolsa especial para o curso de Astronomia e Astrofísica, e, embora eu a considera a candidata perfeita – ergueu as sobrancelhas sugestivamente, e, por algum motivo, Hinata enrubesceu – fico satisfeito em orientar sua iniciação científica nesse ramo. Acredito que se interesse por corpos astronômicos, não?
— É a minha paixão. – respondeu, rápido demais. Não conseguia se lembrar a última vez que passou um tempo, mesmo que alguns segundos, olhando para o céu através de um telescópio. Suas mãos coçavam com a mera possibilidade de estudá-lo novamente.
— Perfeito. – Asuma sorriu satisfeito – Busquei sua grade de horários, e não haverá muitas interferências. Três dias por semana durante a tarde, e dois dias em estudos avançados no período da noite. – reprimiu uma careta – Faremos catalogação, fichamento, análises, cálculos. Apenas o divertido. – riram – Na primavera, montaremos um estande para sua apresentação no Congresso Nacional. – finalizou, orgulhoso. Hinata não conseguiu responder de imediato; sua garganta estava embargada. Aquele era seu sonho há muitos, muitos, anos.
— Professor, e-eu nem sei como te agradecer a oportunidade. Eu prometo que não vou decepcioná-lo. – estava tão emocionada que Asuma surpreendeu-se. Sorriu paternalmente, estendendo um bloco de fichas para ela.
— O prazer vai ser meu, Hinata. Aqui estão os detalhamentos, e, se me permite, gostaria de expulsá-la da minha sala para que você vá assistir suas aulas. – a fitou divertido, e ela não segurou uma risada. Levantou-se, estendendo a mão e apertando-a com firmeza – Até mais. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, estarei à disposição. – reforçou, e a Hyuuga assentiu, sorrindo confiante.
Saiu da sala, sentindo-se leve. Parou no corredor, controlando o tremor em suas mãos. Pequenos fogos de artifício explodiam dentro de seu estômago. Não pensou em Kiba, e na possível reação exagerada que ele teria. Ela o confrontaria, se necessário. Nenhum soco e nenhum chute doeriam mais do que ter de abandonar sua chance – a única coisa que despertou nela um ínfimo sentimento de pertencimento. Felicidade.
Desculpou-se mentalmente com Asuma, mas não iria para a aula. Ter de encarar os rostos piedosos de pessoas que ela não se importava estava fora da sua lista de afazeres. Em vez disso, chamou um táxi, impaciente demais para esperar pelo ônibus. Indicou o endereço e recostou no banco traseiro, ansiosa.
Fechou os olhos por dois segundos. A manhã tinha passado tão rápido, e sido tão estressante. Àquela altura, deveria desconfiar de algo estava errado – estava mais irritada do que necessariamente ferida. Mais alguns hematomas, bem, inevitável. Agora, a humilhação pública era simplesmente detestável. E, como se não bastasse, a interferência de Sakura trouxe de voltas algumas pendências do passado nada agradáveis – Hinata sabia que não estava pronta para resolvê-las, e, talvez por isso, estavam afetando-a tanto.
Queria estar exultante. A iniciação era real, seu sonho era real – Kiba que fosse ao inferno –. Era o seu momento, de ninguém mais. Quatro longos anos aguentando toda aquela merda, fingindo que sua vida era suportável. Agora, tinha uma esperança, uma ínfima esperança, e se agarraria a ela com sua vida. Contudo, tudo que conseguia pensar era em como Sakura a protegera com seu corpo, como parecia furiosa e disposta a sofrer as agressões por ela. Era esgotante, e doloroso.
O táxi chegou depressa – não era seu prédio. Desceu, arrastando a bolsa velha. Pagou com duas notas e deixou o troco. Subiu os degraus, batendo na porta repetidas e enfáticas vezes. Esperou, batendo os pés. Não demorou até que ela atendesse. Vestia pijamas e tinha o rosto inchado; ficou feliz por não tê-la acordado, embora fosse mais de dez.
Sorriu tristemente. Avançou, abraçando-a com firmeza e depositando um beijo molhado em sua bochecha. Fechou a parte, toda a casa iluminada pela grande janela que dava na varanda. Hinata acomodou, jogando-se na poltrona e tirando as botas.
— É raro receber uma visita sua assim, mas acho que fico feliz em te ver inteira. – a voz ácida era deliciosamente familiar. Shion se largou no sofá de dois lugares, com as pernas para cima.
— Tenta de novo. – Hinata retrucou, estendendo os dois braços. Ao redor dos punhos, ainda se via débeis marcas avermelhadas, como dedos. Shion suspirou.
— Já passamos por coisa pior. – respondeu, não tão otimista quanto parecia – Tudo bem, o que aconteceu dessa vez? Você não deveria estar na aula?
— Acho que... – hesitou – Acho que não vai dar mais. Dessa vez. Sabe, com Kiba. Não sei se vou poder continuar com isso.
Shion levantou-se abruptamente, o rosto estupefato. Hinata teria achado graça da expressão assombrada. Naquele momento, tudo que conseguiu foi um suspiro temeroso. A loira engoliu em seco, jogando as pernas para o lado.
— Bem, eu vou passar um café. – ainda estava um tanto automática – E você vai me contar absolutamente tudo. – frisou, quase agressivamente. Hinata riu, lamuriosa, e concordou.
Estava cansada. Não cansada daquele dia. Estava cansada. As desculpas que inventou para si mesma – tampouco as migalhas de carinho – já não estavam compensando todo o desgaste, a vergonha. Era difícil admitir, depois de tudo, que eles estavam certos. Talvez sempre estiveram.
Virou-se, observando Shion concentrada na cozinha, enquanto fervia uma caneca de água. Sorriu involuntariamente. A amiga também não aparentava mais os inchaços e os sinais; as cicatrizes que desenhavam todo seu corpo eram como histórias trágicas, que não apagavam a beleza espontânea que a mantinha forte. Ela sempre manteve ambas fortes. Hinata lhe devia mais que a vida.
— O dia está cada vez mais estranho. Eu não queimei nada ainda. – comentou, trazendo duas xícaras fumegantes. Hinata rolou os olhos, divertindo-se com as piadas insípidas sobre suas habilidades culinárias. Acomodou-se na beira do sofá, mais próxima da poltrona, e estendeu o pires. Hinata aceitou, e o café aqueceu-a por dentro – Vamos lá. O que está acontecendo? – a seriedade em suas expressões deixou a Hyuuga mais confusa, e mais atordoada.
— Eu consegui a iniciação científica com o Asuma. – começou com a melhor notícia. Shion imediatamente abriu um largo sorriso, inclinando-se para ela e segurando sua mão livre.
— Não brinca! Parabéns! – a reação foi apropriada. Hinata sentiu-se acolhida, e feliz. Por um momento.
— É, obrigada. Kiba descobriu. – revelou. A loira rolou os olhos, acomodando-se e esperando pelo pior – Já consegue imaginar como ele lidou. – a outra crispou os lábios, indelicada.
— Canalha miserável. – resmungou. Hinata ignorou o comentário, fitando os próprios dedos, e os punhos ainda marcados.
— Ele fez uma cena na UK. – sorriu, melancólica – Gritou, apertou. Disse que eu tinha desobedecido ele. – pressionou a xícara – Sabe o que aconteceu? Sakura interveio. Se jogou na minha frente, me empurrou, me abraçou. E gritou com ele. – era engraçado, de um jeito absurdo.
— Sakura? Sakura Haruno? – repetiu, surpresa. Hinata assentiu – Uau. Por essa eu não esperava.
— Quem dirá eu. – contraiu os lábios, engolindo o líquido de uma só vez, enquanto pensava – Ele não se importou com nada. Estava na frente de todo mundo, todos olhando. Ele não se importou em me humilhar. Pessoas que eu conheço, assistindo, enquanto eu não podia fazer nada. – riu sem humor. Shion engoliu em seco, deixando-a continuar. Era melhor que desabafasse.
Hinata parou de enxergá-la, porque sua visão embaçou. Conseguiu segurar as primeiras lágrimas, recusando-se a derramá-las. Sequer sabia porque surgiram – se era por Kiba, ou pelo passado. Pelo garoto de olhos azuis que importunava seus pensamentos e seu coração, ou pelas cicatrizes que ela mesma carregava. Foi difícil continuar, com a voz embargada e a respiração falha. Mas ela não ia chorar. Não ia.
— Eu não sei como começou, sabe. Eu não sei. – soluçou – Ele estava lá, e foi tão gentil. Tão bom. Ele estava ali para me ajudar, quando eu achava que o mundo estava desabando. N-Naruto tinha ido embora, e, de repente, nada mais fazia sentido. Ele estava ali. – respirou fundo, tentando não se perder naquelas memórias – De repente, quando aconteceu... – sua voz se perdeu, enquanto os dedos trêmulos tocaram sua bochecha. Ela ainda conseguia se lembrar da sensação.
— Não foi culpa sua. – Shion sussurrou, acariciando sua perna.
— Acho que eu fiquei mais surpresa que qualquer coisa. – sua risada parecia deslocada, como toda ela – Ele estava bêbado, drogado. Aconteceu. Eu nem lembro o motivo. E eu pensava: “como eu deixei isso acontecer?”. Mas, no outro dia, ele apareceu. Arrependido, chorando. Dizendo que nunca mais ia acontecer. Que precisava de mim. Nós estávamos juntos há dois anos, eu tinha saído da casa dos meus pais. Deus, eu briguei com meus pais. Disse coisas horríveis para eles. – uma gota solitária escapou, perdendo-se em sua boca, salgada. Fingiu que não tinha escapado, e continuou, mais ofegante e mais baixo – O que eu faria? Voltaria para eles? Admitiria que estava errada? E todos os olhares, Deus, aqueles olhares nojentos, asquerosos. As fofocas, as malditas fofocas. – fez uma careta, a garganta se fechando – Eu não suportaria olhar para eles depois de tudo. Eu não quero que sintam pena de mim. Eu não quero. – repetiu, perturbada, em um murmúrio.
Parou de falar, sentindo os ombros tremerem. Shion se levantou em um salto, parando ao seu lado e envolvendo sua cabeça com os braços. Hinata afundou o rosto contra seu peito, deixando, finalmente, o choro engasgado sair. Tremia compulsivamente, retraída. Mais tarde, tentaria convencer a si mesma de que era a época do ano que a deixara tão sensível. Enquanto isso, pediu desculpas silenciosamente por estar molhando a blusa da loira.
Hinata não era estúpida. Ela conhecia a bolha vulnerável em que fingia viver. Ela conhecia suas ilusões, suas fraquezas. De noite, quando Kiba já tinha dormido, ela se entupia de analgésicos para não pensar mais. Para conseguir míseras quatro horas de sono, e ter forças para levantar no dia seguinte. Ela sentia dores, agonia, por dentro e por fora. Quando acontecia, o reflexo no espelho transparecia a criatura miserável e insignificante, não a deixando esquecer. Os olhos inchados, os cortes no lábio, as manchas arroxeadas, o nariz quebrado. As costelas doloridas, o abdômen contraído. Todo o sangue. Hinata sempre teve enjoo com sangue – até ter de lidar com ele –. E, mesmo com tudo, tudo, ela tinha medo.
Transformou-se na mulher que queria ser. Retraída, fechada. Tenaz. E submissa. Seus ideais eram tudo que importava, até que precisasse abdicá-los para evitar mais uma discussão. Uma potencial briga. Xingamentos. Havia momentos, sim, quando não se importava – geralmente era quando Shion precisava dela. Mas, na maior parte do tempo, ela apenas existia.
Estava ciente da sua situação. No entanto, ir embora, ter coragem para se afastar, significaria que tudo fora em vão. Tudo pelo que lutou, tudo pelo que passou. Se afastar de seus pais, Hanabi. Seus amigos, seus melhores amigos. As festas, as drogas, as bebidas, a sensação de infinito. As crises, o choro. Todos que tinham alertado, dito que ela estava errada. Teria sido por nada. E então tinha Kiba, com suas palavras carinhosas, dizendo que ele era tudo que ela tinha. Finalmente, ele era mesmo. Tudo que tinha sobrado. Renunciar Kiba – e os resquícios de amor que ele lhe dava – era ser insuficiente. Medíocre. O que sobraria, afinal? Toda a dor, todo o sofrimento, todas as lembranças.
— Que merda, me desculpe. – gaguejou, afastando-se quando se acalmou um pouco – Eu manchei toda sua blusa. – o pijama branco agora era uma palheta de cores escuras da maquiagem. Shion bufou.
— Para o inferno com isso. Vem aqui. – a puxou, levantando-se. Foi para o sofá, trazendo Hinata para perto e passando o braço por seus ombros, acolhendo-a – Você realmente está pensando nisso? Dar um basta? – perguntou, com a voz suave. Acariciava seu cabelo, confortando-a. A Hyuuga suspirou.
— Eu não sei. – limpou os vestígios das lágrimas – Eu não aguento mais. – riu, lúgubre – Depois de tanto tempo, conseguir a iniciação me deixou feliz. Mas ele vai acabar com isso, eu sei que vai. Vai me convencer a desistir. Quem sabe me bater. – Shion a segurou mais forte – Eu não aguento mais, eu não aguento mais. – repetiu, lacrimosa – Eu só queria sentir isso mais uma vez. Essa sensação de que algo vale a pena. Mas eu tenho tanto medo. – sussurrou, perdendo-se.
Shion nunca tinha visto Hinata naquele estado. Quando a encontrou, da primeira vez, não hesitou em levá-la para sua casa, cuidar de seus ferimentos, abraçá-la a noite inteira, para convencer de que as coisas ficariam bem. Desde então, elas se sustentavam, se ajudavam nas piores situações. As únicas que conseguiam entender não a dor, mas as motivações. Hinata entendia que aquela era a maneira de Shion sobreviver, dia a dia; Shion entendia que nada tinha restado à Hinata, nem mesmo o amor. E não se julgavam.
Mas agora, ela via uma luz. Uma esperança. Hinata tinha dado o primeiro passo para se livrar daquela relação, daquele ordinário. Shion não aguentava vê-la se humilhando por tão pouco, sempre subjugada por um alguém que entendia seus traumas, e usava eles contra ela. Ela tinha uma chance de sair, ela queria sair. A loira sabia o quão forte sua amiga era, e, mesmo ali, destruída, ela nunca a tinha visto tão corajosa. Tinha aguentado merda demais.
— Hina, olha. Olha aqui. – a chamou, fazendo-a fitá-la no rosto – Vamos com calma, tudo bem. Primeiro, você passa uns dias aqui. Até parece que eu vou deixar ele encostar em você. – disse ameaçadoramente – Vou buscar algumas roupas, e você fica comigo, sim? – afagou seu rosto, vendo-a sorrir um pouco – E nós vamos conversar, você vai para a faculdade, vai começar essa iniciação e vai ser brilhante. Ninguém vai tirar de você a chance de ser quem realmente é. – era uma promessa.
Hinata assentiu devagar, agora fraca de gratidão. Mesmo machucada, Shion ainda conseguia curar seus ferimentos, todas as vezes. Aquilo fazia seu coração doer – a lembrava de que, mesmo que Kiba tivesse tirado todo mundo dela, não estava sozinha –. Conseguiu arrumar a postura, respirando fundo e recompondo-se.
— Obrigada. – agradeceu verdadeiramente. Shion rolou os olhos, inclinando-se para beijá-la.
— Tudo para ver esse rostinho bonito alegre de novo. – riram. O clima se tornou menos pesado, e Hinata também – Agora, vou só trocar de roupa e passo pegar suas coisas. – levantou-se, retirando a blusa e jogando-a no canto. Hinata puxou uma folha de cima da mesa de centro e anotou o essencial, incluindo sua cartela de cigarros e o vidro de remédios para dormir, apenas para garantir.
Muito tempo parecia ter se passado, com o sol ao pino e iluminando todo o ambiente. Hinata massageou as têmporas, com uma dor de cabeça a caminho. Sua pele voltou ao normal, e quase não se notava o aperto de mais cedo. Sua garganta voltou a se fechar, de preocupação – onde estaria Kiba? Teria ido trabalhar, ou a esperava em casa? Estaria muito irritado com ela?
Era difícil deixar de se culpar.
Recostou no sofá, pensativa. Shion vestiu uma outra blusa e calça, pegando as chaves em sua bolsa. Por sorte, o prédio ficava na quadra de cima, perto o bastante. Entregou a lista do que precisava, e a loira não disse nada, despedindo-se com um afago. Sozinha, Hinata concluiu que o silêncio a incomodava mais do que imaginava.
Sakura passou o resto do período em cólicas. Não conseguiu se concentrar nas aulas teóricas, quase arrancou o dedo nas aulas práticas. Sua cabeça estava longe – bom, talvez nem tanto. Estava na jaqueta de couro que carregava consigo, protetoralmente. Não tinha decidido o que fazer, embora a decisão estivesse praticamente tomada.
Durante os anos em que estiveram definitivamente separadas, ela e Hinata mal cruzavam caminhos pelos corredores. A morena desviava os olhos, evitava os lugares em que ela poderia estar, pedia para outra secretária atendê-la. Mesmo com toda a frieza e a esquiva, ela sentia sua falta. Muita. Hinata era sua melhor amiga, a garota com quem falava no telefone madrugada adentro, para quem contava seus segredos e seus medos, a que lhe dava conselhos sobre garotos. De repente, a viu se afastar, diminuir, escapar por entre seus dedos, sem poder fazer nada. Parte de seu orgulho não colaborou, e ela desistiu, mais rápido do que deveria.
Se perguntou se teria feito o mesmo por outra pessoa – ter literalmente se jogado na frente de um homem agressivamente perturbado e prestes a agredir alguém. E então proteger essa pessoa com seu corpo, enquanto grita com o homem descontrolado. Provavelmente não, não teria. E isso a assustava.
Decidiu ir até o fim com seu plano insano. Quando o último professor liberou a turma, pegou a jaqueta e seu carro, saindo antes da maioria dos alunos. Deixou uma mensagem para Sasuke, dizendo para ele e o pessoal não se preocuparem durante a tarde. Em seguida, dirigiu até a cidade, sem precisar de GPS. Lembrava-se – bem até demais – do dia em que Hinata mudou-se para aquele prédio velho e decrépito. Lembrava-se de ter tentado impedi-la, e de terem brigado. Mais uma vez.
Suspirou, desligando o rádio. Nem mesmo Girls estava a animando. Ficava tensa a cada esquina, cruzando a cidade. Não demorou até estar estacionando em frente ao prédio, com as mãos suando, o xale grudando ao redor de seu pescoço. Respirou fundo, saindo com a jaqueta e sua bolsa de colo. Passou pela portaria com mais facilidade do que esperava. Ainda se lembrava do andar. No elevador, suas pernas falharam.
Entregaria a jaqueta, e o que mais? Foram quase três anos sem se falaram. Sem contato, apenas ressentimento e mágoa. Sakura não sabia o que dizer – e ela sempre sabia o que dizer –. Respirou fundo, andando pelo corredor escuro e sombrio. A cada passo, sentia mais seu coração na garganta. Preparou alguns diálogos em sua mente, mas nada que pudesse ajudá-la, realmente. Parou na frente da porta.
Bateu uma vez.
Esperou.
Nada.
Bateu outra vez, mais forte. Esperou. Nada. Começou a ficar apreensiva. Talvez ela não estivesse em casa – ou a estivesse evitando, o que soava infinitamente pior –. Bateu mais uma vez, temendo que fosse Kiba a recepcioná-la, embora se lembrasse, vagamente, que ele passava o dia todo fora, trabalhando. Prestes a desistir, bateu uma última vez. Mais do mesmo – silêncio. Com um suspiro, decidiu que aquele não era o seu dia. A coragem reunida anteriormente esvaiu-se, e ela se virou, para ir embora.
No entanto, assustou-se. Deu de cara com uma garota, que a fitava curiosa.
— Você é Sakura, não é? – perguntou, com a voz séria. Ela assentiu, engolindo em seco.
Quem era aquela mulher? Parecia ser mais velha. Era loura e esbelta, com o cabelo liso pelos ombros e roupas de segunda mão, que, de alguma maneira, escorriam perfeitamente por seu corpo magro e alto. A pele era bronzeada, de dar inveja. Sakura a esquadrinhou milimetricamente, e seus olhos capturam pequenas cicatrizes próximas as omoplatas. Se repetiam em um padrão aleatório, espalhadas. Algumas mais recentes que outras. Havia uma em seu supercílio bem desenhado também. Muito além de sua aparência, algo nela gritava perigo. Sakura tinha a impressão de conhecê-la.
— A Hinata não está em casa. – informou, e a de cabelo rosa assustou-se, pensando em negar. A loira não lhe deu atenção, passando por seu corpo estático e indo em direção à porta. De alguma maneira, ela tinha as chaves – Vim buscar algumas coisas para ela. – entrou, a deixando para trás. Com medo, e curiosa, Sakura a seguiu para dentro do apartamento.
— E-Ela está com você? – gaguejou.
— Sim. – a loira não era de muita conversa. Como se conhecesse o local, foi direto pelo corredor, desaparecendo na primeira porta. Sakura ficou no primeiro cômodo, incomodada, sentindo-se uma invasora.
Era pequeno. Demasiadamente pequeno. Organizado, em determinados pontos, onde ela podia reconhecer as marcas da Hyuuga. Um sofá de bazar, com o estofado azul e alguns rasgos, mas bem conservado. Poltrona, perto da janela pequena, com cortinado escuro. Uma estante velha, televisão moderna. Tapetes coloridos, aconchegante. Mas também havia garrafas vazias, nos cantos, e um cinzeiro transbordando em cima da mesa de centro. Sakura jurou ter visto resquícios de vidro quebrado embaixo dos pés do assento. Virou os olhos, e a cozinha era ainda menor, separada por uma bancada americana com duas banquetas. Geladeira pequena, mesa de madeira e pratos no escorredor. Cheirava a produtos de limpeza e fumaça intoxicante de cigarro.
A loira voltou, dessa vez com uma mochila. Estava parcialmente cheia, e chacoalhava lá dentro. A Haruno esperou pacientemente, com os braços cruzados sobre o corpo. Ela foi para a cozinha, abrindo a geladeira e puxando uma lata de cerveja. Sakura disfarçou, um pouco surpresa pela atitude blasé.
— Se quiser ver a Hinata, pode vir comigo. – falou com tranquilidade, bebericando. Uma nova vez, foi acometida pelo choque.
— E quem é você? – não quis soar rude ou desconfiada. A loira pareceu não se importar, apoiada contra a bancada, bebendo cerveja no almoço.
— Shion. – respondeu, sem receio de fitá-la nos olhos. Sakura processou por um segundo, e, em seguida, entreabriu a boca., estupefata.
— Shion, tipo, Shion? Da escola primária? – parecia indelicado falar daquela maneira, mas não tinha outro jeito de expressar sua indignação.
— Essa sou eu. – ela respondeu, impassível e sarcástica. Sakura não disse nada, um pouco tímida. Era estranho. Quer dizer, ela não via a garota há bons cinco, seis anos. A loira virou o resto do conteúdo da lata de uma só vez, limpando a boca – Bem, acho melhor irmos. Ela está esperando.
Pegou a bolsa e puxou a chave de volta, trancando-a apropriadamente. Sakura ainda estava aturdida, seguindo-a pelo corredor de pouco iluminação. Segurava a jaqueta de couro contra seu peito como um bote salva-vidas.
— Não tem problema eu ir junto? – perguntou, receosa. Entraram no elevador. Lado a lado, Sakura percebeu que Shion era bem mais alta do que parecia, esguia como uma modelo.
— Não. – retrucou. Em outros tempos, a Haruno provavelmente se sentiria intimidada por uma garota como aquela. Chegaram ao térreo, passando pela portaria, e ela caminhou até seu carro, não percebendo que Shion seguia pela calçada – Ei, onde vai? – parou, indagando com uma sobrancelha arqueada.
— Hm, meu carro? – respondeu, meio incerta.
— Deixa aí, minha casa fica há dois quarteirões daqui. – voltou a andar.
Sakura pensou por dois segundos se era uma boa ideia, considerando o bairro. Acabou por apertar o alarme e disparar em passos rápidos atrás de Shion. Caminharam em silêncio, com os sapatos de Sakura fazendo barulho no concreto. Viraram a esquina, e ela se perguntou como haveria uma casa em meio a tantos prédios comerciais naquela região. Sua pergunta foi respondida quando avistou, afinal, uma porta antiga, de construção vertical, espremida entre dois edifícios. Subiram os degraus, e ela entrou sem chave.
Novamente, a de cabelo rosa admirou a casa. Era diferente, com apenas um cômodo e várias divisórias. A cozinha, do lado esquerdo, era moderna. Ao fundo, separado por uma parede, a cama de dossel. Parecia como uma casa da década passada que tinha passado por uma reforma. Distraiu-se por alguns segundos, até que alguém chamou sua atenção.
— Sakura!
Assustada, se virou, com a garganta fechada.
— Oi, Hina. – cumprimentou com um murmúrio.
O ambiente se tornou sufocante. Sakura pôde vê-la, por inteiro. Nunca tinha observado, realmente, como ela tinha mudado. Como o cabelo, que gostava longo e cheio, agora mal chegava nos ombros, reto, deixando seu rosto mais magro que nunca. Pior que isso, era seu aspecto devastado, sem esperanças. Parecia ter trocado de roupa, usando uma camiseta ligeiramente maior que seu corpo. Foi quando Sakura viu. Por suas pernas e em seus braços. Manchas, algumas vermelhas, algumas amareladas. Outras desaparecendo.
Com os lábios tremendo, Sakura levou a mão até a boca, cobrindo seu abalo. Seus olhos marejaram, o arrependimento se espalhando lentamente por ela, por seu corpo. Era como se estivesse acordando pela primeira vez.
Hinata sempre teve a pele mais branca que a maioria das outras pessoas. Pequenos tropeços ou trombos deixavam marcas, e ela corava com facilidade. Mas também voltava ao normal com rapidez, o sangue voltado a circular corretamente pela área atingida. Aqueles machucados pareciam recentes, e ainda estavam coloridos. Ainda doíam.
— Sakura, eu... – Hinata deu o primeiro passo, ciente da própria condição, e do que ela estava vendo.
— V-Você esqueceu sua jaqueta no banheiro. – se apressou, estendendo-a. Idiota! No desespero, disse a primeira coisa que veio em mente. A Hyuuga a fitou confusa, mas pegou a peça ofertada. Deu as costas, indo guardá-la no armário do quarto, mas foi surpreendida novamente – Eu devia ter ficado do seu lado!
Parou.
Virou-se. Sakura tinha os ombros trêmulos, os olhos hesitantes e úmidos, os punhos apertados. Seu rosto parecia incomumente pálido, mas sua voz soou clara e firme. Shion, encostada no canto da parede, assistia a cena em silêncio. Hinata pensou não ter ouvido direito – ainda estava emotiva de mais cedo, e provavelmente sua cabeça estava pregando-lhe peças. Quando seus olhares se encontraram, seu peito ficou apertado.
— Eu devia ter ficado do seu lado. – ela repetiu, dando um passo para frente. Parecia prestes a desmoronar, mas continuou: – Não devia ter dito nada daquelas coisas. – Hinata sabia do que ela se referia, e deixou seu rosto se converter em uma máscara dolente – Você era minha melhor amiga. – riu, dúbia – Eu devia ter dito que ficaria do seu lado, independente do que você escolhesse. Que eu te apoiaria em todas suas decisões. Que eu estaria do seu lado quando... quando precisasse de mim. – hesitou, soluçando – Que eu te defenderia de tudo e de todos. Não deveria ter te afastado, ou gritado com você, ou deixado que você se isolasse de nós. – mais um passo, e estavam frente a frente – Tudo que importa é sua felicidade, e a sua segurança. Uma amiga de verdade tentaria abrir seus olhos... – mordeu o lábio, respirando fundo – Mas continuaria com você. E eu não fui isso. Eu não disse nada dessas coisas, eu não fui uma boa amiga. Eu deixei você ir, deixei você se afastar, e eu nunca, nunca, devia ter feito isso. Queria que você soubesse o quanto... o quanto... – nesse momento, as primeiras lágrimas já caíam, e as palavras se perderam em algum lugar dentro de si. Não conseguiu terminar, embora estivesse se esforçando. Foi tomada uma soluços e arquejos, como se estivesse sem ar.
Hinata pensou que o tempo tivesse congelado. Em um piscar de olhos, foi capaz de enxergar perfeitamente a cena que se desenrolava. Ela avistou pequenos detalhes que tinha se esquecido com o tempo. As sardas que ela tinha no nariz, ou como seus olhos eram intensos. Como era mais alta, e como suas roupas eram coloridas – elas adoravam trocar vestidos. Foi há tanto tempo. Uma outra vida. E, mesmo que conseguisse visualizar tudo ao seu redor, bastou apenas um segundo para que tomasse uma decisão. Não pensou muito. Mais tarde, provavelmente culparia sua vulnerabilidade, ou não conseguir ver pessoas chorando na sua frente.
Ela deu um passo, e estendeu os braços. Assim como Sakura tinha feito mais cedo, ela o envolveu junto a si, puxando-a com delicadeza. Prendeu os braços em suas costas, até que a paralisia dissipasse, e a Haruno também a rodeasse, pela cintura. Não sabia se iria se arrepender daquele abraço, ou de derrubar aquela muralha. Tinha aprendido a se fechar, para evitar a dor e a mágoa. Agora, o primeiro muro estava ruindo. Como um castelo de areia.
Apoiou sua cabeça contra seu ombro, segurando suas próprias lágrimas. Foi como um nó se desfazendo, e o alívio tomando conta de suas pernas, deixando-as fracas. O perfume era o mesmo – doce, com cheiro de flores. Não eram as mesmas, nem de longe, e tinham seus próprios pecados. Mas, de alguma maneira, era como uma volta ao passado, e o perdão, mesmo que não se concretizasse, existia.
A remissão existia.
— Eu sinto muito.
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