Heroína
35 Foi uma bela jornada
Meu amor nunca temeu
O que as minhas mãos e meu corpo fizeram
Se o Senhor não me perdoar
Eu ainda teria meu amor
E meu amor me teria
— Work Song, Hozier
—Capítulo XXXV–
Foi uma bela jornada.
Naruto semicerrou os olhos quando se virou acidentalmente para a janela, cujo vidro exibia o céu azul sem nuvens. A luz do sol o cegou repentinamente, embora iluminasse todo o andar em que estavam. O dia estava ótimo para voar, e ele agradeceu pela possibilidade de um voo tranquilo e sem turbulências. Não tinha medo de altura, mas certamente tinha receios demais quando envolvia a mulher que caminhava ao seu lado.
Ela estava alheia aos pensamentos desastrosos que corriam sua mente, mas conseguia sentir a tensão conforme ele apertava seus dedos mais e mais forte, até que os sentisse firmemente contra sua mão, quase unindo-as – deixando uma mancha esbranquiçada onde o sangue não corria normalmente.
Hinata não reclamou da força com a qual Naruto segurava suas mãos, e isso se devia a uma série de motivos. Não apenas porque o amava – era o motivo mais plausível, justificável e comum. Não, ela também não reclamou, porque sentiria falta da força que os dedos faziam contra os dela. Do calor que emanava, da segurança que sentia. Não saberia quantos anos ficaria sem sentir aquele simples toque, e aproveitaria o máximo que pudesse.
O saguão do aeroporto estava pouco movimentado, e o sol ao pino indicava que a hora passava mais rápido do que gostaria. Ambos aguardavam, e se preparavam, para aquele momento há alguns meses, desde a notícia da aprovação da bolsa universitária na capital. A felicidade que Hinata sentia só era maior que a tristeza esmagadora que a impedia de respirar se pensasse muito.
Ela estava indo, e Naruto estava ficando.
A mesma situação que tantos anos antes, quando se separaram, em uma outra vida. De fato, não era a mesma situação, e muito se diferenciavam. Em vez de sair às escondidas, agora caminhavam lentamente rumo ao check-in, onde despacharia suas malas e seguiria para Tóquio com apenas um bilhete de ida.
Contudo, Hinata não conseguia deixar de pensar que entendia, finalmente, como Naruto se sentiu quando partiu sem olhar para trás. A dor da despedida era forte demais para suportar sozinha, e se tivesse a chance de desaparecer sem amarras ou choro, ela o faria sem pensar. Claro, o garoto não deixaria que fizesse isso, ou compraria ele mesmo um ticket para ir atrás dela – Naruto compraria até mesmo um avião, se fosse para não perdê-la de vista.
A Hyuuga evitou despedidas dramáticas, mas não podia impedir um coração apaixonado para o do garoto ao seu lado. Ele, mais que ninguém, estava sentindo a dor de deixá-la partir, mas disfarçava bem, falando mais que todos, arrumando suas malas, sendo prestativo e amoroso. Um perfeito cavalheiro – e um grande mentiroso.
Naruto desviou os olhos da janela a tempo de pegar duas pérolas encarando seu rosto. Ele sorriu curto, se perguntando o que Hinata estava pensando. Por alguns segundos, se encararam, até que a garota virou o rosto para o que Shion dizia; Naruto fingiu não vê-la corar, e suprimiu uma risada.
— ...sinceramente, é nojento. – ela terminou a frase, caminhando ao lado da amiga com uma postura blasé. Hinata concordou, embora não soubesse, ao certo, do que ela reclamava – É nesse andar mesmo?
— Sim, já vamos no balcão. – Naruto respondeu.
— Chegamos rápido. – Shion resmungou. Ela também vinha apresentando sinais de um humor ácido e pouco simpático desde a notícia da ida de Hinata.
Era compreensível. Com a bagagem emocional que compartilhavam, não conseguia esconder a tristeza de ver a Hyuuga partir; a morena compartilhava o mesmo. Eram o laço mais forte construído em Konoha, e, por algum motivo, aquela merda de lugar conseguiu trazer o melhor de ambas. Sobreviveram juntas, e agora ficariam separadas, depois de três longos anos.
Por algum motivo, Hinata ficou nervosa, e usou a mão livre – aquela que não estava sendo segurada fortemente por Naruto – para limpar o suor na calça de moletom que escolheu para o voo de duas curtas horas até Tóquio. Não sabia do clima, mas sabia que odiava lugares apertados, e a poltrona no corredor certamente seria empurrada por algum folgado que deitaria toda a extensão sobre suas pernas. Nem mesmo voar de primeira classe a estava deixando animada.
A hora passou rápido demais, e ela estava triste. Hinata estava triste, acima de tudo. Não ansiosa, não com raiva. Triste.
Mas também nervosa.
— Só um minuto, vou despachar tudo. – Naruto pediu licença, e trocou um último olhar cúmplice com Hinata antes de deixar a cena. A garota se voltou para Shion tentando manter a naturalidade.
Ambas se encararam em um silêncio que não precisava ser preenchido com palavras. O olhar cinza de Shion desviava do rosto de Hinata, olhando para a grande janela transparente atrás dela. Se não a conhecesse tão bem, ela não saberia que a amiga admirava os aviões que pousavam.
— Você vai sentir minha falta? – provocou, com a voz trêmula demais para que soasse como uma piada despretensiosa. Shion bufou, rolando os olhos.
— Agora você vai ficar sentimental? Eu não quero mais olhar na sua cara. – Shion dizia isso com frequência, em um outro contexto que, felizmente, ficou para trás. No fundo, nenhuma delas falava a verdade, pois a loira encarava os próprios pés – Talvez eu fique entediada. – admitiu, baixo.
— Eu também. – Hinata retribuiu. Uma mecha do cabelo cobriu a lateral do seu rosto, crescendo rápido demais. O guardou atrás da orelha, estendendo o tempo de resposta até que as palavras não fugissem da sua boca – Eu não teria conseguido sem você.
Shion ergueu o rosto, talvez porque soubesse que ela não falava apenas da ajuda que recebeu naquela manhã para embalar as últimas roupas na pequena mala de mão. Ou da semana anterior, quando a loira lhe deu seu perfume preferido, como uma “recordação”. Ou sequer falava dos últimos meses, quando Shion lhe deu banho e limpou seu vômito, vindo de dores insuportáveis que sentia ao andar na fisioterapia.
Ambas sabiam sobre o que Hinata falava, e parecia doloroso demais recordar isso. Mas a Hyuuga não fazia isso com o coração pesado.
— Teria conseguido sim. – Shion retrucou, a voz falhando – Você sempre foi mais forte, Hina.
— Não era. – rebateu – Não sem você. Eu não estaria viva sem você, Shion. – confessou, e o clima ficou denso. Hinata estendeu a ponta dos dedos até que tocasse a mão da garota à sua frente – Obrigada.
Aquela palavra parecia mais pesada do que deveria, e veio carregada de um sentimento inexplicável. A loira prendeu a respiração, sentindo, de repente, que a realidade era mais dura e crua do que o céu azul perfeito que via pela janela. Tudo estava frio, mesmo com o sol a pino, porque admitir determinadas coisas era mais difícil do que pensava.
Elas seguiram em frente, e nunca olharam para trás. E nada em seu passado voltaria para assombrá-las – menos a rua de cima do prédio de Shion, onde Hinata caiu e rastejou de dor. Ou a sala de estar, onde ela aplicou um curativo no olho roxo da garota quando ela voltou de madrugada depois de um cliente esquentadinho. Ou a banca de jornal da esquina, onde compravam cigarros e tomavam café.
O passado estava em todo lugar, e ninguém se cura no lugar onde se machucou.
— As passagens já estão autorizadas. – Naruto voltou, interrompendo um momento contemplativo pesado demais.
— Passagens? – Shion voltou-se para ele, saindo do transe e impedindo, no último momento, que uma lágrima teimosa escorresse pelo seu olho – Que injusto. – fungou, dando uma falsa risada – Você é rico e vai poder ir até Tóquio com ela. – acusou. Hinata respirou fundo, livrando-se de qualquer pensamento pesado que pudesse nublar aquele momento. Naruto, ao seu lado, tinha o maior dos sorrisos.
— Bom, eu queria ser privilegiado assim. – riu com gosto – Mas mesmo sendo loiro, não me deixariam entrar no avião. Eu não sou uma garota. – ele provocou, mas Shion ainda estava confusa. Ela alternou o olhar entre o casal que estava na sua frente. Alto, a caixa de som anunciou a liberação de check-in para o embarque.
— Não entendi. – a loira replicou.
— Bom, temos duas passagens para Tóquio. – Hinata puxou a cópia dos tickets que tinha guardado estrategicamente em seu bolso traseiro. Não importava que estivessem amassadas – Uma é minha. A outra é sua. – ela estendeu, mostrando o nome das titulares para o embarque.
—- ...O que?
Shion encarou a mão de Hinata confusa, e depois olhou para cima. Ela encarou Naruto, e depois Hinata novamente. O casal se divertiu com a confusão genuína em seus olhos escuros, rindo cada vez mais até que a ficha dela caísse.
A ideia foi de Hinata, mas Naruto colaborou. Ele foi um verdadeiro cavalheiro ao se oferecer para comprar a passagem – dinheiro não seria problema. Além disso, também ajudou a enviar os documentos e pegar o sobrenome de Shion para reservar os lugares sem que ela soubesse que mexeram na sua carteira.
— Como assim? – ela repetiu, talvez para dar uma chance de ouvi-los dizer: “Pegadinha!”.
— Você vai comigo para Tóquio, Shion. – Hinata falou, franca e claramente. Ela deu um passo para frente e segurou a mão da garota, que estava um pouco trêmula – Você vai comigo, vai sair de Konoha e deixar tudo isso para trás. Vamos começar uma vida nova, e eu não poderia dar esse passo sem você.
Hinata viu Shion perder a cor, indo de rosa para branco, de branco para amarelo, e de amarelo para rosa novamente. Foi quando seus lábios começaram a tremer, e seus olhos ficaram úmidos, recusando-se a chorar. Todo seu corpo tremia, e Hinata sentia porque ainda estava segurando suas mãos.
— I-isso é um absurdo, claro que não! Não, eu não posso aceitar. – argumentou, ainda tentando encontrar sua voz. Ela mexeu os braços, mas Hinata segurou suas mãos mais forte.
— Você pode, e você vai! – disse, firme – A passagem já está comprada, o dormitório já está alugado. É a sua chance, e você não vai ficar presa nessa cidade. Dessa vez é para valer.
Era a chance de recomeçar. Shion sabia disso, e, pega pelo alívio e pelas oportunidades ofuscantes, ela ofegou. Hinata soltou um riso, e deixou que a garota a abraçasse, tão forte quanto Naruto segurava sua mão. Ela merecia tanto quanto a Hyuuga, e na capital, viveria a vida que devia ter sido dela, para começar. Dignamente, sem se humilhar, sofrer ou precisar encarar uma vida de sofrimento que era jovem demais para ter.
— Ma-mas e minhas roupas, minhas coisas, minha casa! – afastou Hinata subitamente, engolindo e limpando os olhos rapidamente.
— Naruto resolveu tudo. – Hinata apontou com a cabeça para o garoto que assistia a cena emocionado. Ele sorriu largo.
— Quem você acha que despachou as malas? – deu de ombros – Hinata pegou tudo e eu trouxe escondido. Não se preocupe com a sua casa, meus pais indicaram uma ótima imobiliária para preservar ela, e você pode alugar, ou vender, ou deixar aqui quando quiser ter para onde voltar.
Shion o encarou por alguns segundos, como se decidisse qual xingamento usar. Então, passou por Hinata para abraçar o garoto também. Surpreso, se abaixou para deixar que seus braços finos rodeassem o pescoço. Ouviu um agradecimento lamurioso, e balançou a cabeça, sem querer receber qualquer crédito.
Emocionados, se afastaram, e, apesar de não sorrir, Shion tinha os olhos mais brilhantes que qualquer céu azul.
O toque de embarque soou novamente, e eles se entreolharam.
— Bem, é hora de ir. – Naruto engoliu em seco. Estavam na porta do check-in, e, após passar pelo detector de metal, não teria mais volta. Shion olhou para ambos e sorriu, compreendendo.
— Vou me adiantar. – virou para o Uzumaki, o abraçando rapidamente – Até mais, mané.
— Até, Shion. – ele retribuiu, rindo.
Sozinhos, a proximidade voltou a ser elétrica. Hinata ergueu a cabeça para encarar o rosto tranquilo de Naruto, mas reparou nos cantos dos olhos inchados. Quando as safiras fitaram seu próprio olhar, subitamente quis chorar, e sabia que não conseguiria parar quando começasse.
Havia tanto a ser dito – mas faltavam palavras. De repente, nenhuma frase fazia sentido, ou fazia jus. Como dizer ao homem que amava, ao homem responsável pela sua vida, um adeus tão breve?
O futuro era incerto, mas tentava se manter positiva. O curso era dos seus sonhos, e o processo de cura era lento; o de luto, insuportável. Pela primeira vez, Hinata sentia que era capaz de respirar, mas, para isso, significava deixar para trás a única pessoa que realmente gostaria de ter ao seu lado? O que era justo de verdade?
Abriu e fechou a boca, sem emitir som. Suas mãos trêmulas se acalmaram quando sentiu o mesmo toque apertado, e Naruto a puxou para seu peito, onde, tantas vezes, se sentiu calma. Inspirou fortemente, fazendo seu cérebro assimilar aquele cheiro, e saber que significava lar.
— Não precisa dizer nada. – ele murmurou em seu ouvido, com um dos braços firmes em sua cintura, e o outro rodeando suas costas – Eu sei.
Naruto sabia. Hinata sabia. Mas ainda era doloroso.
— Você não pode perder o voo. – ele aumentou a distância rápido demais. Seus olhos estavam molhados, mas ele tinha o sorriso mais brilhante. Sempre foi assim. Ele sempre foi o Sol.
— Eu amo você. – parecia a única coisa certa a dizer. Hinata não segurou as lágrimas, que começaram a correr copiosamente. Ele ergueu o dedo e limpou uma a uma, parecendo, ele próprio, conter a própria emoção.
— Eu amo você, hime. – murmurou, a voz subitamente grossa – E amarei para sempre. Você não vai se livrar de mim tão cedo. – brincou, e ela conseguiu rir, mas pareceu mais uma lamúria – Eu te ligo assim que o avião pousar.
— Tudo bem. – Hinata concordou, porque bastaria mais cinco segundos para ela desistir de tudo.
Juntos, caminharam alguns passos até o portão de embarque. Shion estava à vista do outro lado, com os olhos firmes e o rosto brilhando. Naruto apertou a mão de Hinata mais uma vez, a virando para que pudesse beijá-la.
Foi um beijo calmo, mas pesado. Cheio de significado e promessas, enquanto suas línguas se tocavam e Hinata sentia as pernas ficarem fracas. Ela se agarrou ao pescoço dele, sustentando todo seu corpo e sua coragem. Seus corpos se encaixavam de maneira clichê, e ela não sabia como seria capaz de se afastar.
Naruto encerrou o contato com uma série de pequenos beijos em sua boca, e nos cantos dos lábios, em suas bochechas e em sua testa. Cada toque parecia queimar, mas era bom; era cálido, e acolhedor. Ele a olhou, e seus olhos continham uma devoção que a deixou fraca. A determinação de um homem de fé, que não abandonaria nenhum princípio, e não quebraria uma promessa.
Ele sorriu, e a soltou. Hinata respirou fundo e tentou sorrir de volta, mas não soube se chegou, de fato, aos seus olhos. Quando se virou, prometeu que não olharia para trás. Passou pela segurança, confirmou sua passagem e terminou o check-in. Alcançou Shion, que a olhava com empatia. Começaram a andar, juntas, para o corredor que levaria ao avião.
No último instante, Hinata olhou para trás, apenas para encontrar a sombra de Naruto, que ainda sorria, e ainda a via partir.
—
Naruto semicerrou os olhos quando se virou para a multidão atrás dele, e xingou mentalmente quando o sol o cegou repentinamente. Infernos, ele ainda não tinha óculos escuros decentes. E nem mesmo o capelo foi capaz de bloquear a luz. Estavam em pleno meio-dia, no meio do campo, e estava quente debaixo daquela roupa.
Praguejando, tentou encontrar seus pais, que pareciam atrasados. Sabia que tinham visto a cerimônia e o discurso do reitor, e toda a ladainha do orador, que, sinceramente, ele não sabia quem era – e achava injusto não ter um representando na turma de Artes apenas porque poucas pessoas resistiram aos últimos dois anos de especialização. Quer dizer, não era tão difícil assim. Seja como for, seus pais vieram, mas estavam atrasados para encontrá-lo perto da árvore grande, que estava perto do arco de futebol, no campo de futebol, que era o único lugar que coube todos os formandos daquele ano.
Formatura.
O tempo passou rápido, mas passou muito devagar. A percepção de Naruto mudava a cada dia, mas ele tentava seguir da melhor maneira possível. Nos momentos em que tudo parecia parar, ele se sentava, tomava uma taça de vinho, solitário como um velho, como costumava fazer. Seu apartamento ainda tinha vista para uma selva de pedras, mas com mais quadros de fotos e menos poeira das caixas empilhadas.
Quando os dias eram bons, ele sequer ficava em casa. Aproveitava para sair com os amigos, e fazia muito isso. Se encontrava com Sasuke e Sakura para almoçar, ou bebiam no bar perto da Universidade de Konoha depois da aula. Ele se inscreveu em uma aula extracurricular com Ino, para ajudá-la com a matéria prática de Design, e jogava videogame com Gaara. Tinha bons amigos, que se importavam, mas sabia que o cercavam para garantir que tudo continuaria bem.
Os primeiros dias foram os piores, mas descobriu que o pior continuaria sendo o pior, não importava quanto tempo passava. Quando Hinata ligava, ele sorria, mas, quando desligava, era como se arrancassem seu coração do peito. Os contatos tentavam seus recorrentes, mas ambos tinham suas vidas, há milhares de quilômetros de distância. O curso de astrofísica ia bem, e ela devia estar atarefada. Sempre se falavam por mensagem, mas Naruto não conseguia sentir o cheiro do seu cabelo ou beijá-la apropriadamente por texto.
Respeitando o pedido da Hyuuga, Naruto não foi visitá-la, nenhuma vez sequer. Após alguns meses, os primeiros seis, quase discutiram por isso. Ele queria vê-la, mas sabia porque ela negava; a dor da despedida demorava para cicatrizar, e tê-lo por um fim de semana não era o bastante.
Foi difícil, mas ficou menos difícil com o tempo. Quando fez um ano, ligaram por vídeo, e jantaram juntos – foi engraçado, e deprimente, e a saudade era tão grande que Naruto queria arrancá-la com as mãos.
No entanto, suportou. Por Hinata. E por si mesmo. Na faculdade, concentrou todas as suas energias nas aulas, e nada faz um bom artista como um coração partido. Seus quadros foram indicados para algumas exposições, e ele se formou com honras, dois anos depois. Estava pronto para se unir aos pais nos negócios da família, e ter sua própria galeria, conhecer a arte do mundo todo, desenhar e pintar.
Ele tinha uma coleção especial de pinturas nas cores pérola e azul-petróleo. Elas estavam nos olhos, nas paisagens, no céu e na arte abstrata acima da sua cama, quando pintou bêbado, triste e sozinho.
Acima de tudo, Naruto estava orgulhoso, porque o tempo passou, e, bem, ele não morreu.
Avistou cabelos flamejantes em um chapéu com voal, e abriu um largo sorriso, junto dos braços, para receber a pequena criatura que empurrava formandos até chegar ao filho. Kushina o felicitou muitas vezes, abraçando-o e beijando seu rosto, fazendo o garoto abaixar alguns centímetros. Em seguida, recebeu o abraço orgulhoso de Minato, com o mesmo sorriso brilhante e algumas rugas de idade que o diferenciavam do mais novo.
— Achei que não tinham vindo! – reclamou, abraçando os ombros da mãe. Ela bufou, batendo nele com sua bolsa de mão.
— E perder sua colação? Nunca! – retrucou – Ficamos lá atrás, com seus avós, e estava tão cheio. – reclamou – Demoramos anos para te achar.
— Parabéns, filho, estamos orgulhosos! – Minato parabenizou, e Naruto sorriu, lembrando porque estava feliz.
— Obrigado, pai! Nem acredito que realmente me formei. – brincou.
— E segunda-feira temos reuniões com alguns proprietários para conversar sobre meu novo sócio. – o Namikaze piscou, e Naruto riu, sentindo impulsos elétricos por todo seu corpo.
Pensar no futuro era estranho. Tinha o cansaço e a bagagem de uma vida dupla que seus pais jamais saberiam. Ele não ligou para contar sobre as noites no hospital, ou sobre como, de vez em quando, pensava nas pequenas mãos e nos olhos azuis infantis de um bebê com o qual sonhou uma vez. No entanto, ele ligou para Kushina quando estava triste, e recebeu mensagens de Minato quando se sentiu perdido.
Agora, já não podia se esconder na sombra de um universitário, e encarar esse novo capítulo o assustava. O que fazer quando a jornada acaba?
— E então, planos? – perguntou, saindo do devaneio – Estou faminto! – ele perguntava sobre o almoço de comemoração, enquanto tirava o capelo para deixar o cabelo suado respirar.
— Claro! – Kushina concordou. Ela parecia distraída, olhando para os lados de maneira culpada.
— Mãe, o que foi? – Naruto perguntou, desconfiado.
— Que curiosidade, moleque. – resmungou – Estou apenas procurando... ah, achei! – de repente, ela ergueu os braços, acenando – Tinha perdido ela.
Ela?
Sem querer deixar seus pensamentos o traírem, Naruto se virou, seguindo o olhar e o aceno inquieto da mãe. Não demorou até identificar a sombra que se aproximava, embora – admitia – tivesse demorado para identificá-la. Seu coração falhou uma batida, e quase não se recuperou, errante.
— Hinata ficou para trás, mas ela estava sentada com a gente. – Kushina explicou, sorrindo marota.
Naruto prendeu a respiração, a vendo andar em sua direção, tão linda quanto sempre foi. No entanto, o que tirou seu fôlego foi o choque. Se não tivesse o mínimo de consciência, acreditaria que voltou no tempo, e estava vendo a mesma menina de 15 anos caminhar até ele.
Hinata tinha o cabelo longo, tão longo quanto sempre, com a franja rente aos olhos e o azul-petróleo caindo como uma cortina, para todos os lados. Ela usava um vestido – um vestido – esvoaçante, de festa, longo até os olhos e com panos para todos os lados. Era azul, mas fraco, como tiffany, e não índigo. Lembrava seus próprios olhos. Ele poderia misturar tonalidades e pintar aquele azul em toda uma tela. Ela também tinha sapatos fechados, com um salto que equilibrava na grama. Hinata estava brilhante.
Seu semblante era único, ansioso, com um sorriso que cobria toda sua bochecha. Ela parecia se conter para não correr, e Naruto entendeu, pois ele mesmo sentia as pernas se mexerem sem sua autorização. Parecia uma nova mulher, não a que foi embora, e certamente não a que ele reencontrou naquele mesmo campus, há tantos anos.
Ele não aguentou, e precisava saber se ela era real. Mexendo os pés, diminuiu a distância até que estivesse ao alcance de um abraço. Quando a puxou pela cintura e sentiu a maciez da pele sob seus dedos, soube que o mundo tinha voltado para o lugar. Enterrou o nariz na curvatura do ombro, inspirando o perfume que nunca saiu da sua memória. Seus braços cercaram as costas nuas, e o abraço durou segundos, ou horas.
Naruto a afastou, fitando seu rosto para marcar cada traço e detalhe que deixou passar em dois anos de distância.
Hinata estava mais madura, mais tranquila, mais confiante. Seus olhos eram ansiosos, e as maçãs, vermelhas. Ela usava maquiagem, com os cílios longos e os lábios com gloss. No entanto, continuava a mesma. Talvez sem tanto peso nos olhos, e sem linhas de expressão. Um traço sequer do passado.
Ele admitiu que a encarou tempo demais, e precisou se inclinar para beijá-la. Primeiro, foi rápido, ansioso para matar a saudade da textura, do sabor e da sensação da sua boca. Quando sentiu que poderia respirar novamente, ele desacelerou, deixando que todas as borboletas no estômago voassem. Os dedos de Hinata apertaram seu pescoço, e ele sentiu arrepios na base da espinha.
Se afastaram cedo demais, mas ele tinha tantas perguntas. Agora, Hinata o encarava com vergonha, e um pouco divertida.
— O que está fazendo aqui? – perguntou, sem fôlego. Ela não comentou nada sobre seus planos de vir para Konoha.
— Surpresa! – gritou, rindo. Foi como música, e Naruto a seguiu – Sua mãe me ajudou, e eu fiquei sentada com eles durante a cerimônia. – o garoto virou de costas para encarar a mãe, que acenou e riu, cúmplice. Ele sequer manteve a pose, voltando para Hinata. A abraçou fortemente, mais uma vez, e ela soltou um gritinho enquanto afundava em seu peito.
— Senti tanto a sua falta. – murmurou, com a voz embargada. Ela assentiu, ainda embalada no abraço.
— Eu também.
Naruto queria perguntar quanto tempo ela ficaria. Onde ficaria, o que planejava. Como estava sua vida, o que tinha feito. Como foram os últimos dois dias, os últimos dois anos. Quais seus projetos, seus sonhos, seus medos. Seu almoço preferido, se ela planejava voltar. Todas essas perguntas ficaram presas na garganta, sem nunca chegar à superfície. Mas Hinata leu seus olhos.
— Eu te conto tudo no almoço. – prometeu – Mas eu estou voltando. – sua voz parecia sinos, mesmo com todo o barulho. Ele parou por um instante, apreciando aquelas palavras, como vinho – Eu conquistei muitas coisas lá, Naruto. Mas não é onde eu queria estar. Não mais. – ela procurou sua mão, a segurando com força – Solicitei minha transferência para Konoha por enquanto, mas posso ir para qualquer lugar. Sou correspondente do laboratório, e... tanta coisa aconteceu. – ela pareceu perder o fôlego – Mas eu estou aqui, e não vou a lugar nenhum. Não mais. Não sem você.
Era o que bastava.
Naruto a segurou pela cintura, a abraçando e erguendo para que pudesse rodá-la. Hinata soltou um grito assustado, pega de surpresa, mas ele não se importava com as reclamações, apesar de sentir o sorriso em seu rosto. Seus braços encaixavam na cintura, e eram fortes o suficiente para nunca soltá-la – não que Hinata planejasse sair.
O presente não redimia o passado. Deus sabia quantos pecados cada um deles guardava em seus próprios bolsos, e quantas preces de um fiel abandonado foram feitas até que chegassem até ali. Mas a jornada se torna branda, e bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
E agora se salvaram.
Hinata sorriu, e era verdadeiro. Quando encontrou seus olhos, soube que estava no lugar certo.
— Eu não acredito em finais felizes, mas, por você, eu posso tentar.
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