Heroína

19 Aproveite a maré alta enquanto pode, você sabe o que virá em seguida


Notas iniciais
Finalmente consegui escrever ♥ Como estão meus anjinhos????? Gostando da fic?? É o capítulo 19 já, e eu estou gostando de como as coisas estão caminhando. Como eu disse, eu queria trabalhar bem minimamente as coisas (tava verificando a linha temporal da coisa e tecnicamente só passou um mês????), então, se estiver muito maçante, por favor me digam!! Acho que sem mais, espero que gostem ♥ Confiram minhas outras histórias (vem projeto novo em breve!) e a playlist da fic, sério, eu passo horas procurando a música PERFEITA O próximo capítulo vai ser um especial ;) Link playlist do Spotify: https://open.spotify.com/user/12181997845/playlist/7bhYns4WjKVuwzb867Q3wH Link Pinterest: https://br.pinterest.com/erohime/hero%C3%ADna/

Eu posso ouvi-los agora

“Como você pôde nos decepcionar?”

Mas eles não sabem como me senti

Ou veem isso de outra forma

Sentindo isso ultrapassar tudo o que eu costumava odiar

Me pergunto se nós trocássemos

Eu tentei, mas foi tarde demais

Todos os sinais que eu não li

Dois lados de mim não conseguem concordar

New Person, Same Mistakes, Tame Impala

Capítulo XIX–

Aproveite a maré alta enquanto pode, você sabe o que virá em seguida

A cena era, no mínimo, curiosa. As três garotas – a loira, a morena e a de cabelo cor-de-rosa – conversavam, sentadas ao redor do sofá, como se fossem velhas amigas. Shion tinha as pernas cruzadas, sentada na poltrona. Usava roupas confortáveis – o que significava, basicamente, uma camiseta velha e calcinha –, enquanto Sakura e Hinata dividiam o sofá de dois lugares, ainda com os trajes da faculdade. Demorou para que a Haruno se acostumasse com o jeito extravagante da dona da casa, mas, depois de algumas horas, já não se importava mais.

Como esperado, Hinata recuou imediatamente após a cena comovente com Sakura. Faltava muito para que ela fosse a garota do passado; muito possivelmente, jamais voltaria a sê-la, o que significava que demonstração explícita de sentimentos – os que envolviam fraqueza, mais explicitamente – a deixava incomodada. Sakura respeitou suas decisões, mantendo uma distância segura, embora se sentisse radiante. Ela sentiu tanta falta da sua melhor amiga.

Enquanto conversavam, não foi difícil perceber como a mecânica entre elas funcionava. Percebeu o quão próximas eram, e o quanto zelavam uma pela outra, embora as alfinetadas irônicas fossem realmente engraçadas. Discreta, não comentou sobre os ferimentos que se curavam na loira, disfarçados o suficiente para passarem despercebidos por olhos menos atentos – o que não era o caso das esmeraldas astutas da Haruno –. Hinata sempre reagia quando Shion levantava, com um ar preocupado, mesmo que inconscientemente. Não se sentiu insegura ou ciumenta; além do sentimento ser antiquado e sem sentido, não era como se elas fossem melhores amigas também. Havia algo muito mais profundo e incompreensível entre as duas.

Durante todo o dia, certos assuntos eram notoriamente desviados e evitados. O nome de Kiba não era citado, mesmo quando oportuno. Falaram muito sobre as novas oportunidades que Hinata tinha conseguido com a iniciação científica – motivo, este, que ocasionou o surto do Inuzuka –, contudo, não falavam sobre a universidade, ou o curso de Administração que ela fazia. Shion, com seu humor ácido e provocativo, não falava muito sobre si mesma. Relembraram os anos passados, a escola primária e o que havia mudado, porém, não falavam exatamente o porquê de ter mudado.

O sol se pôs tão rápido quanto puderem notar. Hinata uniu alguns ingredientes em uma refeição saborosa, servindo as duas outras garotas na sala, em vez do balcão. Comeram sem silêncio, conversando a todo momento, falando sobre suas vidas e trivialidades. Sakura sentia essa necessidade de conhecer novamente a amiga; devia isso a ela. A partir do momento em que se reencontraram, ela tinha prometido que jamais voltaria a sair do seu lado, não importava a situação. Ainda que não tivessem lhe contado como se conheceram, ela também era grata à Shion, porque sabia que tinha cuidado de Hinata quando ela mesmo não o fez.

— Maldito Naruto, não responde minhas mensagens. – resmungou, enquanto desbloqueava o celular mais uma vez. Demorou trinta segundos, e, quando ergueu a cabeça, dois pares de olhos a encaravam atentamente – Ah, meu Deus! Me desculpa. – exclamou, quando se deu conto da burrice – Desculpa, só pensei alto, não foi a intenção. – baixou o rosto, envergonhado. Que maravilha, Sakura. Agora que estava começando a ser aceita por ambas.

— Não, que isso, eu estou tranquila. – Shion ergueu as sobrancelhas, pronta para provocar Hinata mais uma vez, que, esperando, já rolou os olhos – Não é porque nós ficamos na oitava série e ele sumiu nas férias de verão que eu guardo rancor. – Sakura acompanhou as risadas por educação – Confesso que ele ficou muito bonito. Nossa Hinata aqui – esticou-se para dar dois tapinhas em sua perna – que está com problemas.

— Miserável. – a morena resmungou – Queria que ele tivesse ficado na América. – ela suspirou, subitamente muito cansada.

Sakura continuou ouvindo com atenção. Aquele assunto não tinha vindo a tona ainda, e ela, envergonhada, não se atreveu a comentá-lo. Não sabia quais eram as opiniões sobre Naruto, e, embora conhecesse parte da história, contada por ele, era diferente ouvir diretamente de Hinata. Quase inacreditável. Ela falava com um tom inusual. Como alguém muito maduro para a situação, e muito farto também. Não conseguia imaginar por quais situações ela tinha passado ao longo daqueles quatro anos, mas, mesmo com poucas palavras, uma tristeza palpável tomava conta do ambiente. De repente, a Haruno passou a se perguntar quantas cicatrizes ele teria deixado naquele dia, há tanto tempo.

— Eu, hm, não devia ter comentado sobre ele. – pigarreou, torcendo as mãos.

— Está tudo bem. – Hinata retrucou, acariciando, bruta, seu joelho. Ela observava atentamente as reações da rosada, medindo, por enquanto, suas palavras – Não vou fingir que vocês também não conversam sobre isso. – abriu um meio sorriso – É só que... – mudou de posição, pensativa – Ele voltou. Isso é um fato. Ele voltou, voltou para Konoha, voltou para a minha vida. Mas ele voltou do passado. E eu não estou mais no passado. – suspirou – Naruto queria perseguir uma versão de mim mesma que já não existe mais. E, mesmo depois de nos acertarmos – sua voz vacilou sem que Sakura entendesse o porquê –, ele continuou a bagunçar minha cabeça. Não sei o que fazer. Não é tão simples quanto um triângulo amoroso. – riu sem humor.

Sakura não disse nada. Continuou a remoer a resposta, captando ponto a ponto, surpreendendo-se, mais uma vez, em como Hinata tinha mudado – ou como a tinham mudado –. Foi cru, direto e sem rodeios. Como se não a afetasse da maneira que deveria; neste momento, Sakura percebeu, também, que haviam paredes, muitas delas, tornando-a fria. Era uma máscara sólida, insensível. Feita para não sofrer.

Tampouco podia deixar de concordar, novamente. Não tinha pensado por aquele ângulo, e, analisando de uma perspectiva neutra, era a mais pura verdade. Talvez aquilo fosse, enfim, o que mais a tinha abismado – como Naruto continuou o mesmo garoto romântico e utópico, e como Hinata tinha se transformado. Estaria ela mesma, afinal, do mesmo modo presa ao passado?

— Nem vimos a hora passar. – Shion interrompeu o silêncio pesado, levantando-se. Passou por trás de Hinata, tocando-lhe nos ombros – Podem ficar à vontade, eu vou me trocar.

— Você vai trabalhar hoje? – Hinata rebateu antes que Sakura pudesse raciocinar. Ela parecia furiosa.

— Sinto muito, docinho. – saiu para o quarto com um rebolado que fez a Haruno ter sérios golpes na autoestima.

Percebeu que não sabia lidar estando somente com Hinata no cômodo. Olhando-a de perfil, era uma das garotas intimidadoras das quais fugia, ainda que se considerasse alguém de fácil sociabilidade. O rosto pálido contrastava bastante com a maquiagem carregada, os olhos ainda inchados, ligeiras manchas em seu pescoço. Engolindo em seco, procurou não pensar nas diferentes realidades que se diferiam naquela situação. Superficialmente, aquela era a garota com quem não falava há anos, a sua melhor amiga do colegial. No entanto, era difícil ponderar que, ao mesmo tempo, ela namorava um canalha medíocre abusivo e agressor. Apenas não existia em seu universo – e sentia-se mal por ser tão simplória.

Hinata não manteve os ombros tensos, como outrora. Relaxou um pouco, mantendo o rosto de lado e os pensamentos longe. Muitas coisas perturbavam-na, e alguma parte distraída previu algumas aspirinas para dormir. Ela estava acostumada a lidar com problemas atípicos para a maioria das garotas da sua idade – e estava tudo bem. Não seria hipócrita a ponta de culpar Naruto por todas as adversidades que tinham lhe tirado o sono ultimamente; de fato, não gostaria de admitir que eram as lembranças dos olhos topázio que lhe davam um pouco de paz. De algum modo curioso, Hinata sabia lidar com sua própria bagunça. Todavia, sabia como parecia absurdo para as pessoas que estavam do lado de fora. Sujo, errado. Shion, que sempre esteve ao seu lado, era capaz de compreender – somente uma pessoa fodida compreendia outra. Agora, com a volta de Sakura, ela apenas não sabia como reagir.

Sakura era a ponta que a ligava de volta para sua antiga vida. Ela representava, quase que literalmente, tudo que deixara para trás, que tentava desesperadamente abandonar, e que continuava a persegui-la. Tê-la de volta era bom – céus, era bom —, contudo, também era assustador. Confuso. Não sabia como deixá-la fazer parte daquela nova vida, da sua vida, da maneira que estava. E não queria fazê-la partir. Era irritante, porque parecia bastante com o dilema de certa outra pessoa. Hinata não sabia como deixar ir. Não queria deixar ir. Mas ela era quebrada o suficiente para contaminar as pessoas.

E havia Kiba. Doce e amargo Kiba.

Quer dizer, ele estava possesso – Hinata estava tão fodida. Ela sabia que ele a estava esperando em casa, conseguia sentir, um tanto palpavelmente, o gosto de sangue em sua boca quando ela cortasse os lábios, mordendo-os para não gritar de dor assim que o primeiro soco a atingisse. Soava como um poema trágico delicioso. Shion insistiria para que ela ficasse, ao menos, alguns dias, mas, no fundo, Hinata sabia que ele esperava ela voltar. Não conseguiria fugir para sempre – talvez apenas o suficiente para acalmá-lo.

Depois de tantos anos, ela finalmente queria abandoná-lo. Deixar aquela vida, continuar inteira. Se fosse tão fácil quanto parecia, ela o faria sem pensar, naquele instante. No entanto, conhecia suas próprias dependências, e tinha sua própria culpa – como deixaria Kiba, tão friamente, quando era ele que sempre a aceitava de volta, depois de cada erro, de cada recaída? Repetidamente, tudo parecia voltar para os momentos bons e os momentos ruins. Só restava saber de um continuava compensando o outro.

Elas não tinham troca uma palavra sequer quando Shion retornou, com roupas diferentes – bem, muito diferentes. Sakura, que estava imersa em devaneios, surpreendeu-se, e tentou disfarçar. Hinata, já acostumada, apenas revirou os olhos, irritada por ter que vê-la fazendo aquilo mais uma vez. A minissaia não fazia jus às suas pernas bem torneadas, tampouco o bustiê rendado valorizava seus seios. O batom vermelho-sangue deixava seus lábios volumosos, e carregava uma bolsa de mão. O salto quinze a deixava muito alta.

— Eu juro, se você sair com aquele desgraçado de novo, eu te deixo apodrecendo na porta. – Hinata praguejou, e a loira jogou a cabeça para trás, rindo.

— Não se preocupe, amor, hoje tem festa na casa do Toneri, poucos clientes. – Sakura engasgou, ouvindo-as falar tão tranquilamente sobre o cara que lhe dava arrepios só de passar.

— Clientes? – escapou da sua boca grande antes que pudesse segurar. Hinata fechou imediatamente a cara, mas Shion permaneceu impassível.

— Essa é uma história engraçada, docinho. Pede para a Hina te contar. – sorriu, parecendo amigável. Inclinou-se para Hinata, então, e a beijou – Querida, eu estou indo. Volto antes que você possa sentir minha falta.

— Vê se não apronta. – fui sua única resposta, rude. Apesar do tom hostil, ela sorria. Shion assentiu, abrindo a porta. Mesmo sem sol, o céu parecia claro. Ela saiu pela calçada, deixando-as sozinhas uma nova vez. Sakura não soube o que dizer em seguida. Hinata não fez cerimônia – Se quer falar, fala.

— O que? – assustou-se, virando-se para ela – Não, é claro que não. – algo em sua voz deu a entender que estava se defendendo, mesmo que não fosse a intenção. A Hyuuga suspirou, erguendo as mãos.

— Desculpa, não quis te atacar. Foi instintivo. – mordeu a bochecha, pensativa – Eu sempre defendo a Shion. E ela sempre me defende. Não foi nada pessoal.

— Eu entendo. – murmurou. Era muito mais complexo do que ela sequer imaginaria – Só fiquei surpresa. Quer dizer, ela é tão linda, e engraçada. – ofegou um pouco, demonstrando toda sua incredulidade. Hinata concordou, ávida.

— É uma cidade desprezível. – o asco era perceptível – É pequena demais, antiga demais. Ela não consegue um emprego decente, e, sem dinheiro, não consegue sair daqui. É orgulhosa demais para deixar eu ajudar. – soltou o ar pesadamente – As vezes a vida é uma filha da puta com pessoas que não merecem. E elas têm que arrumar um jeito de continuar sobrevivendo.

Continuar sobrevivendo.

Sakura jamais entenderia.

— Eu sinto muito. – sussurrou. Ainda tinham um longo caminho que as separava.

— Está tudo bem. – sorriu um pouco – Você pode ficar o quanto quiser. – mudou de assunto – Eu vou passar alguns dias por aqui.

Hinata se levantou, caminhando até a bancada. De costas, parecia mais magra que Sakura se lembrava, com as roupas engolindo-a. Puxou, então, uma cartela e um isqueiro, acendendo um cigarro e levando-o a boca. A outra garota engoliu o choque, observando a cena com cetismo – ela tragava lentamente, inalando toda a fumaça tóxica, e expelia para cima, criando uma densa nuvem acinzentada. Com as mãos apoiadas na cintura e a postura completamente blasé, Hinata figurava-se quase intimidadora. A Haruno nunca a imaginaria como uma fumante, embora já a tivesse visto pelos cantos da faculdade com cigarro entre os dedos. Da forma que ela olhava para o nada, aparentava uma calma frágil e um controle superficial do que estava acontecendo.

— Eu posso passar te pegar amanhã, para irmos juntas para a aula. – sugeriu, de repente. Não pensou em como lidaria com a rejeição; apenas decidiu, repentinamente, que aquilo era o certo a se fazer. Tentou parecer verdadeiramente animada, e a reaproximação, caso acontecesse mesmo, representaria algo muito mais sólido do que imaginava.

— Claro, – baforou novamente, com a bituca quase pela metade – por que não? – aquele foi o sorriso que mais a lembrou de antigamente.

Naruto era muito bom em fingir que as coisas estavam bem. Ele tentou – Deus era testemunha de que ele tentou— ignorar o episódio daquela manhã. Depositou um pouco da sua fé em Sakura, acreditando que ela saberia o que fazer. Era algo que ambas mereciam, afinal. Foi enquanto caminhavam até o banheiro, atravessando o primeiro bloco do campus, que ele as tinha visto pela última vez. Desde então, não tinham mais dado notícias. Naruto seguiu para suas aulas, se esforçou nos estudos, trocou mensagens com Gaara e almoçou com seus amigos. O clima não era exatamente o melhor – Ino estava estranhamente calada, e Sasuke, apesar de não ser de muitas palavras, parecia mais pensativo que o normal. O Uzumaki sabia ao que aquilo se devia, mas ninguém tinha coragem de falar em voz alta.

Ele estava preocupado. Ver aquele babaca realmente a ponto de agredir Hinata, na frente de uma plateia, tinha lhe tirado o apetite. Ele era um animal da pior espécie. A maneira que seus olhos injetados brilhavam furiosamente, como ele apertava os pulsos da garota e a sacudia como uma boneca – tudo aquilo não parecia real. Era como se não conseguisse acreditar que existia alguém capaz daquilo, que Hinata estava presa a ele.

A última conversa que tiveram ainda estava fresca em sua memória – de fato, ele a tinha remoído mais vezes que podia contar. A vulnerabilidade que toda a situação trazia o fazia se sentir culpado por ter pensamentos tão egoístas. Era impossível, contudo, não passar por uma maldita autocrítica no momento mais inoportuno que existia. Custava a admitir que Hinata estava certa, em cada uma das perspectivas que tinha lhe apresentado desde que voltou – Naruto continuava apegado a um passado que não existia mais. Apesar de tudo, o que mais o incomodava era pensar que poderia estar mesmo apaixonado por uma idealização da garota que a Hyuuga um dia fora.

Virou a noite mergulhado em vinho quente e questões filosóficas. Em algum momento da madrugada, levantou, sentando-se no parapeito da janela e admirando as construções comerciais que tampavam a vista para as campinas. Os fantasmas das lembranças que o velho apartamento continha insistiam em perturbá-lo. Naruto cochilou entre um gole e outro, pensando, entre tantas outras coisas, no motivo que faziam-no amar Hinata Hyuuga.

No dia seguinte, ignorou veementemente a ressaca, e chegou atrasado na disciplina em Ateliê. Por isso, precisou ficar alguns minutos a mais depois que a turma tinha sido dispensada, para poder concluir sua pintura de observação. Estava estressado, confuso e com o coração aflito – as cores cinzas e escuras refletiram bem seu interior. As guardou junto das demais obras da classe, e saiu disparado pelo corredor, agora com menos pessoas. Enquanto descia as escadas rumo ao refeitório, cruzou alguns armários, e, passando pelo último bloco, uma alucinação o fez parar.

Hinata estava parada próxima a uma coluna, fumando. Ligeiramente de costas, Naruto só pôde admirar seu perfil. Como um adolescente ridículo, suas mãos suaram, e, como sempre acontecia, ele teve a confirmação mais profunda e imutável de que aquela era a mulher que ele amava. Sexy, tragava a nicotina aos poucos, soprando para longe. Usava roupas diferentes – ainda muito bonitas, mas diferentes das que ele se lembrava. A calça jeans era lisa, se ajustando às suas pernas, e uma camiseta branca, com as mangas dobradas, a deixava jovial e despojada. Sem saltos ou botas – usava tênis comum. O cabelo curto estava solto, esvoaçando. Naruto pensou que não era possível alguém admirar tanto uma pessoa como ele a admirava.

Então, foi tirada de seu estado de fascinação pela pessoa que a acompanhava. Ninguém menos que Sakura. A garota ria como se não houvesse nada de errado no universo, usando um de seus vestidos florais e coloridos, o cabelo preso em uma trança e a bolsa de grife a tiracolo. Não parecia incomodada com a fumaça, e gesticulava. Com Hinata. Como duas antigas amigas.

O que diabos tinha acontecido ontem?

Engoliu o ceticismo e voltou a andar, passando despercebido. Teria que conversar com a amiga mais tarde, porque sua curiosidade falava mais alto. Ainda assim, sentiu-se mais leve quando viu como elas riam – era espontâneo.

— Fico contente que ache a minha vida engraçada. – Hinata alfinetou, sorrindo. Sakura estava sem ar de tanto rir de algum comentário sarcástico feito pela morena. Tinha se habituado bem rápido com o novo tipo de humor da Hyuuga.

Voltou para casa tarde da noite, se despedindo de Hinata depois de conversarem por horas a fio. Em casa, tomou um longo banho de banheira, ainda processando tudo que tinha acontecido. Pela manhã, voltou com seu carro para Shinjuku, e buzinou duas vezes. Hinata saiu, bebericando café e com roupas novas – segundo ela, Shion tinha um gosto seleto e gostava de provocá-la fazendo tudo ao contrário do que tinha pedido –. De qualquer maneira, parecia muito melhor. Chegaram juntas, e, depois de assistirem suas respectivas aulas, se encontraram para irem lanchar juntas. Era ligeiramente inacreditável que ela, Sakura Haruno, estava mesmo conversando e rindo com Hinata Hyuuga.

— Pronto. – Hinata terminou seu cigarro, amassando a bituca e jogando-o no canteiro. Sakura limpou as lágrimas que escapavam pelos cantos de seus olhos, e, em uma risada meio suspiro, controlou-se.

— Sabe, nós deveríamos sair juntas. – Sakura sugeriu como quem não queria nada, enquanto desciam as escadas – Como fazíamos antes. Ir em alguma festa naquelas boates luxuosas do outro lado da cidade. – não tinha nada a perder se ela recusasse.

— Não sei não. – Hinata soou incerta, lembrando-se distraidamente de quem gerenciava as casas noturnas. Ela não precisava de mais problemas para lhe tirar o sono. De uma forma ou outra, ainda pertenciam a mundos diferentes.

— Vamos, vai ser legal. – a Haruno insistiu, sem vergonha na cara – Vai ter uma festa da faculdade daqui alguns dias, e todo o pessoal vai. – todo o pessoal. Ótimo, agora Hinata tinha se tornado uma garotinha medrosa.

— Hm. – resmungou, sem confiar na própria voz. Uma coisa era voltar a falar com Sakura, darem passos de bebê, juntas. Outra coisa era voltar a encarar todos eles, de uma vez só, em um lugar com pouca luz e muito álcool. Quer dizer, ela ainda se lembrava de como foi difícil falar com Gaara.

— Promete que vai pensar com carinho. – era impossível negar algo àquela garota. Por fim, Hinata rolou os olhos, assentindo com a cabeça – Perfeito! – exclamou, agarrando-a pelo braço e comemorando. O toque a fez retesar, e, percebendo o desconforto, Sakura se soltou, mudando de assunto: – Quer sair hoje? Podemos tomar sorvete depois que meu turno acabar. – a morena ainda sabia que a garota cumpria meio período na sorveteria, mesmo que não precisasse.

— Não posso. – dessa vez foi sincera – Preciso pegar alguns livros em casa. – murmurou. Não precisou de outras meias palavras para que a Haruno entendesse, e, lentamente, o sorriso em seu rosto se desfez, sendo substituído por uma careta insegura.

— Você tem certeza? – arriscou. Tinham chego no refeitório, e Hinata pegaria o ônibus de volta para a cidade.

— Sim, preciso deles. – eram os livros de cálculo que escondia na cabeceira da cama. Precisava deles para se preparar para a iniciação com Asuma, mesmo que não estivesse pronta para voltar tão cedo para seu apartamento. Não podia depender de Shion para resolver seus contratempos – Acho que nos vemos depois. – colocou os óculos escuros, escondendo sua insegurança.

— Pode contar com isso. – como uma garota podia sorrir daquele jeito, sempre tão alegre?

Tomaram caminhos separados. De volta ao seu pequeno momento de paz rotineira, o chacoalhar do ônibus foi reconfortante. Sem as roupas cavadas e as botas, sentia-se exposta, sem todos os olhares julgadores sobre ela – era quase como se fosse invisível. E ela gostou disso.

O centro se aproximou. Fez uma nota mental de passar na biblioteca – enquanto se lembrava do momento em que viu Naruto pela primeira vez, depois de tantos anos. Naquele mesmo ponto, pensou ter visto uma assombração. Sua mente pregando peças. Era uma irritante contingência o fato de que cada maldito lugar daquela cidade continuava lembrando-a do loiro.

Desceu em seu quarteirão, caminhando para o prédio, em vez de descer para a casa de Shion, que, provavelmente, ainda estava dormindo – tinha chego tarde, e falado pouco –. Com um forte respirar, chamou o elevador. Irritou-se com a forma que suas pernas tremiam de medo. Não tinha o que temer. Era sua casa também. Puxou as chaves que sempre ficavam em sua bolsa, e destrancou a porta. Imediatamente a luz das pequenas janelas iluminou sua visão – e ela o viu.

Paralisou, engolindo em seco. Devagar, um pouco trêmula, retirou os óculos escuros, pensando que era tarde demais.

Ele estava no sofá, com os botões abertos, a camiseta amassada. O cabelo grande demais escorria sobre seus olhos, ainda baixos. Em suas mãos, uma garrafa pela metade; aos seus pés, mais duas jaziam vazias. Hinata engoliu em seco, forçando para baixo cada mínimo resquício de receio, obrigando suas pernas a entrarem. Ele ergueu a cabeça para fitá-la.

Os olhos vermelhos não mentiam. Seus lábios formavam uma linha fina e comprimida, e as íris castanhas refletiam contra a pele amorenada. Os músculos saltavam pelo tecido conforme as mãos cerradas se moviam sobre as pernas apoiadas. Eram pouco mais de duas horas, e ele deveria estar no estágio, em Komu. Hinata pensou muitas coisas em milésimos de segundos – inconscientemente, deixou a porta entreaberta. Nunca tinha sido claustrofóbica, mas o ambiente fechado a deixou sufocada. Kiba a seguiu com o olhar enquanto ela se aproximava da bancada, depositando suas coisas. Seus movimentos eram lentos, como em um filme. Seu estômago formigava.

— Sabia que viria aqui uma hora ou outra. – ele foi o primeiro a falar. A voz rouca denunciava uma tranquilidade suspeita. Hinata estava esperando pelo pior; ela sempre esperava.

— Só vim pegar algumas coisas. – retrucou no que não passou de um sussurro. Kiba levantou, e ela quis correr para longe. Seu corpo reagia instintivamente para ficar longe dele. Hinata devia ficar longe dele.

— Volte. Essa é a sua casa. – pareceu um pedido, mas foi uma ordem. Ele se aproximou em poucos passos, os olhos vidrados em seu rosto. De pé, era alto, e os ombros largos era intimidadores.

— Não. – corajosa, porém não muito inteligente – Não até você se acalmar. – completou, mantendo, a todo custo, sua dignidade. Sua garganta arranhava com as palavras, e seu coração palpitava como asas de colibri. Era patético.

— Eu estou calmo. – ele ronronou. Não era o que seus punhos cerrados diziam, tampouco no que ela acreditava – Eu entendo amor. Você sabe que eu entendo. – começou, se acercando mais, até que estivessem há poucos metros um do outro – Eu realmente entendo. Você quer fazer essa iniciação, ou o que quer que seja, porque pensa que pode. Mas não é assim que funciona. – sua voz estava aveludada, e, por isso, Hinata demorou alguns segundos para entender.

— O que disse? – repetiu, atordoada. Kiba estendeu a mão livre para acariciar seu rosto. Onde ele tocou, formou uma trilha gelada.

— Amor, você acha que é inteligente o bastante para fazer isso, mas não é. – a garota piscou duas vezes, ainda pensando ter ouvido errado. Seu tom de voz complacente, as carícias que desciam até seu queixo, nada daquilo fazia sentido; não combinavam com as palavras que saíam da sua boca – Veja, foi por isso que eu insisti para você desistir de fazer aquele curso. Eu não queria que você se frustrasse, porque eu sei que você não conseguiria.

Hinata quis afastar sua mão com um tapa, mas estava atônita. Seus ouvidos zuniam, como um rádio mal sintonizado. Continuou a encarar Kiba, sem foco, enquanto seu rosto cobria a parca luz do sol. Os traços brutos estavam relaxados, embora seus olhos continuassem morosos. Seu estômago era um buraco vazio, e algo dentro dela caiu. Sua mente processou vagarosamente cada uma daquelas frases, tentando encontrar sentido.

— Por que está dizendo isso? – sussurrou, áfona. Os dedos ásperos passaram de seu rosto para seu antebraço, desnudo da camiseta. A pele arrepiava de maneira desagradável.

— Porque é a verdade. – soprou. Seu hálito tinha cheiro de cerveja – Eu sempre sou sincero com você, sabe por que? Porque eu te amo. Eu te amo mesmo com todos os seus defeitos. – continuou; neste momento, seu corpo a prendia contra a bancada. Hinata estava aturdida demais para reagir, as pernas bambas, o rosto ávido – Eu continuo do seu lado, mesmo você me desobedecendo. – sua mão alcançou seu pulso, agora agarrando-o com força. Isso a despertou parcialmente, e, assustada, tentou se soltar, sem sucesso. Seus olhos aflitos foram da mão para Kiba. Quanto mais se debatia, mais Kiba apertava – Quem mais faria isso, hein? Me fala amor. – sacudiu todo seu corpo como se fosse nada – Me diz quem mais faria isso por você. Ninguém faria. Eu sou o único que você tem.

— I-Isso não é verdade. – gaguejou, aterrorizada. Sua mente reproduziu as imagens sorridentes de Sakura; o rosto preocupado e irônico de Shion; Gaara, rindo no sofá perto da janela; Naruto.

— É sim. – ele continuou, com um ronronar – Você vem sendo uma garota tão má, Hina. – murmurou, umedecendo os lábios – Tratando mal a única pessoa que continuou do seu lado. Isso machuca, sabia? Você não se sente culpada por isso? Eu sempre estive aqui por você. Se eu for embora, você vai ficar sozinha. Afinal, quem aguentaria ficar do seu lado? – Hinata queria agir como uma criança e tampar os ouvidos, cantar alto. Parar de ouvir – Uma garota perturbada, drogada. Cheia de problemas, pobrezinha. Tóxica. Tudo que você toca, você destrói. Você não tem ninguém de verdade, somente a mim. Eu sou o único que ficou, você lembra? Onde estão seus amiguinhos? Eles queriam nos separar, lembra? Você lembra, Hinata? Lembra de quando tudo aconteceu, e eu fiquei com você? Eu aguentei cada um dos seus surtos. Ninguém aguentaria isso. Nem seus amigos, nem seus pais. Você está sozinha, amor...

— PARA COM ISSO!

Reuniu forças de algum lugar, e o empurrou. Com o desequilibrou, conseguiu se soltar, e a garrafa de cerveja caiu de sua mão, estilhaçando no chão. O pouco líquido que restava voou para seus pés, e os cacos marrons espalharam-se pelo carpete, manchando-o por inteiro. Hinata se afastou alguns passos, trombando com a porta. Segurava a si mesma protetoralmente, enquanto as primeiras lágrimas quentes escorriam por seu rosto. Ela sabia que era mentira. Sabia que ele estava mexendo com a sua cabeça – mas não conseguia se convencer disso. Uma parte, uma pequena parte, acreditava naquelas palavras.

Kiba sorriu bestial, arruinando os traços suaves em seu rosto, e transformando-os em linhas endurecidas ainda mais maquiavélicas. Limpou as gotículas que espirraram em seu rosto, sem voltar a se aproximar. Não era preciso – Hinata já respirava ruidosamente, o peito subindo e descendo com dificuldade. Chorava silenciosamente, reprimindo soluços.

Ela não estava sozinha. Não estava. Ela tinha Shion, tinha sua amiga. Tinha Sakura, que se esforçou tanto para se reaproximar. Tinha seus amigos – eles eram seus amigos, não eram? Ela tinha Naruto. Naruto. Naruto! Ele tinha voltado, ele a amava. Ela não precisava de Kiba. Não é? Não precisava. Ela não precisava. Hinata queria sair, ela queria ir embora. Queria se livrar daquela agonia que apertava seus pulmões, do ácido que queimava seu abdômen. Queria se libertar de Kiba.

Hinata não queria ficar sozinha.

— Sem mim, ninguém vai te querer. – cuspiu, rude. Ela sacudiu a cabeça, negando veementemente. Seus joelhos quase cederam para o chão, e o quarto começou a rodar. O ar faltou, seu pulso queimou. Seus pensamentos estavam nublados.

Hinata se abraçou, tentando reunir os cacos. Em desespero, seus olhos encontraram os do Kiba, que a fitavam em puro escárnio. Ela pensava que socos e chutes eram a pior forma que ele teria de machucá-la. Que nada poderia ser pior que aquilo. Estava errada. Aquele sentimento que surgia em seu âmago era simplesmente desesperador – a engolia de volta para a escuridão, um buraco fétido e silencioso onde ela não conseguia ver a luz. De onde ela não conseguia sair.