Heroína
12 Ah, então isso é o que você chama de arrependimento?
Notas iniciais
Sei que não sou santa
As vezes vou na cara dura
As vezes ajo na candura só pra te conquistar
Mas não sou beata
Me criei na rua
E não mudo minha postura só pra te agradar
— Garganta, Ana Carolina
—Capítulo XII–
Ah, então isso é o que você chama de arrependimento?
Hinata e Naruto se encararam por longos minutos, ambos em silêncio. A atmosfera do apartamento parecia sufocante, mesmo com as grandes janelas abertas, as cortinas balançando em uma dança desarmoniosa. Hinata havia se sentado, sem deixar que a manta descobrisse suas pernas geladas, enquanto Naruto se acomodou na poltrona, virando-a totalmente para ela, podendo, assim, encará-la com aqueles olhos eletrizantes. Hinata não se sentia confortável sob aqueles topázios julgadores.
Ela sabia que estava em uma enrascada. O pequeno cochilo – de fato, os únicos minutos de sono que desfrutara entre o curto período do dia anterior até aquela manhã – e ingerir um pouco de água ajudaram-na a recobrar a lucidez, mesmo que parte dela. Algo em sua cabeça ainda tamborilava incomodamente, mas nada que não desse para ignorar. Não gostaria de admitir que já estava acostumada com aqueles lapsos temporários de sanidade – mas era a primeira vez que agia fora de seu período de consciência. Aquele não era exatamente o momento para se lembrar do vexame nos corredores da UK, todavia, a lembrança dos braços de Sasuke Uchiha como duas algemas de ferro envolvendo-a ainda estava bem fresca. De qualquer maneira, Naruto não a deixaria em paz para que desfrutasse de sua deliciosa ressaca, e, àquela altura, já deveria ter descoberto o motivo de seu pequeno surto psicopático.
Suspirou, e o gesto insignificante reverberou por todo o cômodo. Não ajudava que ela estivesse no lugar que perturbava seu sono quase tanto quanto seu morador. As memórias que guardava dentro daquelas paredes eram as melhores de sua vida, e também as piores. Nem que se passassem cem anos ela se esqueceria do desespero sufocante que tomou seu corpo quando ela vagou pelo apartamento vazio em busca de fragmentos de alguém que já tinha partido. Olhando em volta, nada tinha mudado muito. A mesma estante com os mesmos porta-retratos, embora algumas fotos fossem recentes. A mesma mesa de centro e os mesmos armários visíveis por cima do balcão que dividia a cozinha. Sobretudo, a mesma energia também estava infiltrada naqueles poros.
Apertou os dedos no cobertor, ansiosa. De todas as pessoas, não saberia dizer se justamente ele teria sido a melhor ou a pior opção para ajudá-la. Kiba, ao contrário de si mesma, tinha conseguido ir trabalhar – contudo, Hinata apagou entre quatro e cinco horas da manhã, e realmente não sabia se ele tinha continuado por muito mais tempo depois dela, então suspeitava que alguns estimulantes ainda agiam em sua corrente sanguínea. Novamente, ao contrário dela, e talvez aquele fosse o ponto principal de toda a confusão.
— Eu, de verdade, não entendo como as coisas chegaram nesse ponto. – Naruto quebrou a quietude, a voz mais rouca e mais baixa que antes. Hinata bufou, agora verdadeiramente com raiva.
As primeiras doze horas depois que o efeito passava eram sempre as piores. Hinata não se considerava uma viciada – ela odiava usar aquelas coisas, odiava como sua pele ficava manchada, como ela perdia a total capacidade de distinguir realidade de alucinações. Todas as vezes que usou foram com Kiba e mais uns ou outros, mas eles sempre estavam lá. Talvez fosse a pressão coercitiva, talvez fosse uma necessidade gritante em seu interior. De qualquer maneira, não procurava culpados, embora devesse colocar alguns pontos nos is. Era fraca, e bastava o menor contato para que seu organismo superreagisse, atingindo o pico muito rapidamente, e, consequentemente, decaindo na mesma velocidade. Geralmente, eram nesses momentos que apagava, principalmente depois de já ter bebido. Acordava, com uma dor de cabeça insuportável e um arrependimento maior ainda, e, mesmo que sua mente estivesse bastante lúcida, seu corpo não seguia os mesmos padrões, apresentando, com infelicidade, os mesmos sintomas de uma abstinência, independente de como se sentisse no estado mental. As alucinações continuavam, os tremores, os lapsos, a perca dos sentidos – porém, aquela era a primeira vez que se via agindo sem discernimento.
— O que aconteceu com você? – Hinata ouviu seu múrmuro, mais para si mesmo do que para ela, e seu sangue ferveu.
— Você não vai querer saber. – rosnou, sentindo-se estúpida por se deixar influenciar tanto pelas reações do garoto. Naruto a encarou, impassível, parecendo querer decifrar o que havia por trás daquela máscara de fúria e mágoa constante.
— Tudo bem, eu fugi! – ele exclamou, de repente, jogando os braços para cima, frustrado – Eu fui embora, ok? Eu fugi, eu fui para a América, eu te deixei aqui, eu admito isso! Eu admito a porra dos meus erros! – estava a beira de gritar agora, gesticulando nervosamente, e Hinata empertigou-se – Mas eu não consigo entender por quê. Por que, Hinata! Por que você começou a namorar aquele babaca, — neste ponto, Naruto já tinha levantado, caminhando em círculos com passos duros – por que começou a usar drogas! – cada palavra parecia como uma faca afiada lançada precisamente para ela, afundando em sua carne e abrindo antigas cicatrizes. Hinata livrou-se, então, da manta, jogando-a com raiva para o lado enquanto se colocava de pé também, movida por uma cólera há muito fermentada. Rezou para que seus olhos não estivessem lacrimejando.
— Para de me tratar desse jeito! – gritou, gesticulando, enquanto Naruto a encarava, os ombros subindo e descendo pesadamente – Para de me tratar como se eu fosse só a porra de uma garota de coração partido! – apontou, seu dedo quase tocando o peitoral do loiro – Você não sabe de nada, me ouviu? NADA! – percebeu que Naruto desarmou a pose ofensiva, os olhos agora mais amenos, mas não foi o suficiente para refreá-la – Você não atendeu nenhuma ligação. – fungou, deixando os braços caírem e um soluço escapar por seus lábios apertados – Não respondeu a droga de uma mensagem. Seus avós não sabiam onde você estava, e, depois, eles também desistiram de me falar! Você me destruiu de todas as maneiras possíveis, Naruto. – cuspiu, colocando para fora parte do que era anos de sentimentos guardados – Se eu sou desse jeito hoje, se você quer mesmo encontrar a porra de um culpado, então comece culpando VOCÊ! – merda, ela estava soluçando demais.
Sua visão se embaçou, e, fraca, deixou-se cair sentada no sofá, apoiando a cabeça entre as mãos. Aquilo era demais para ela. Não tinha como resistir a tanto rancor sendo despejado tão repentinamente. Seu peito estava apertado, e doía como o inferno. Deixou que o choro saísse ruidoso, com os ombros tremendo, sacudindo-a por inteiro. Sua cabeça queimava, seus membros estavam fracos, seu estômago parecia querer colocar para fora tudo que havia ingerido nas últimas vinte e quatro horas.
No fundo, queria que Naruto sofresse tanto quanto ela sofreu. Ele não entendia – e nunca entenderia – tudo pelo que ela passara, quais foram as consequências dos medos dele. No começo, parecia simples curar a dor de um amor não correspondido, de um término – Hinata chegou a admitir certa parcela de culpa, por ter criado expectativas altas demais para serem atingidas, mesmo por ele. Ela deixou que Kiba preenchesse tão solicitamente o vazio, a solidão. Ela aceitou que o álcool penetrasse suas veias e a levasse para longe da realidade, que fizesse das cores os tons mais brilhantes que seus olhos já enxergaram. Contudo, Hinata sabia que haveria um preço, e ele veio – era alto demais. Depois, aquela espiral para o fundo tornou-se tão mais funda, e ela não conseguia ver a luz, por mais que se esforçasse. Eram as consequências. Naruto, talvez, não fosse realmente culpado por toda aquela catástrofe em sua vida, mas era impossível, para ela, não querer que ele assumisse toda a responsabilidade – não quando seu coração irracional ainda o amava como há quatro anos, não o culpando, nem mesmo um pouco.
Ela só queria se livrar de todas aquelas sombras que a engoliam.
Respirou fundo, cessando o choro descontrolado, tentando admitir um pouco mais de dignidade para si mesma. Levantou a cabeça, limpando o rosto com as costas da mão e secando na calça. Aprumou os ombros, arrumando o cabelo para trás das orelhas, tirando da testa suada. Piscou, livrando-se de algumas lágrimas alojadas em seus cílios, e procurou por Naruto. Quase sentiu pena – ele a fitava, imóvel, com os olhos queimando. Era culpa, era remorso? Talvez ele só estivesse caindo na real.
Hinata quis rir. Para Naruto, era apenas preciso conquistar seu perdão e seu amor. Sentia-se um pouco lisonjeada por ele amá-la tão intensamente quanto ela mesma o fazia, mas sua ingenuidade era quase irritante. Se ela fosse a mesma de quatro anos atrás, aquela seria a melhor abordagem, e depois de algum tempo de resistência, ela se entregaria feliz. Mas Hinata não era. Nada era como antes. Suas feridas não eram superficiais, não era algo que se consertava como Naruto imaginava que fosse. Ela não poderia mais ser reconquistada – talvez, não poderia, nem mesmo, ser remediada.
— Pelo amor de Deus, desfaça essa cara de retardado. – resmungou, coçando os olhos e respirando fundo. Naruto não emitiu grandes reações, abrindo e fechando a boca diversas vezes, a procura do que dizer. Quem sabe a verdade tinha sido dura demais – Olha, eu agradeço muito que tenha me ajudado hoje. Mesmo. – expressou sinceramente, e ele a fitou, esperando – Não vai voltar a acontecer. – quem sabe – Mas nós não podemos ficar juntos, Naruto. – não havia nada de rude ou ofensivo em sua voz aveludada. Tentou dizer aquilo da forma mais suave que conseguiu, embora ela mesma estivesse sofrendo – Você voltou, e isso é ótimo, mas eu não sou a mesma de quatro anos atrás, e você muito menos. Eu tive minha própria bagagem, e meus próprios erros – seu tom embargou – e você também. Você acha que me ama, mas você ama a projeção de uma Hinata que você deixou para trás. – não pretendia ser cruel, mas aquilo soou bastante cru – Você não sabe mais nada sobre mim. – tornou a repetir, agora mais calma, sua cabeça trabalhando com maior clareza.
— Então me deixe saber! – Hinata não esperava por aquela. Naruto, em um instante, cruzou a sala, sentando-se na beira do sofá há poucos metros de onde ela estava. Suas mãos puxaram as dela, entrelaçando-as em um aperto um tanto desesperado. A garota, desarmada, tentou ignorar os arrepios, encarando aquele rosto novamente. Tampouco gostava de admitir que conhecia aquela obstinação teimosa em seus olhos – Me deixe te conhecer de novo! – talvez seu estado abalado tenha contribuído para soar tão verdadeiro quanto aquilo – Você ainda me ama. – não era uma pergunta – Você me ama, tanto quanto eu te amo. E você sabe disso. – oh, ali estava. O biquinho em seus lábios era quase fofo. Hinata sentia que estava perigosamente perto da linha tênue que separava os sentimentos que devia ter dos sentimentos que queria ter. Naruto não ajudava, segurando suas mãos tão determinadamente. Ele parecia ignorar tudo que Hinata tinha vomitado minutos antes. Não. Não ignorado. Processado, e deixado de lado, por enquanto. A questão era que seu coração estava batendo muito rápido – Eu não estava aqui, e eu entendo que ele estava. – por um momento sua voz se tornou meio agressiva – E eu sei que fui a causa de grande parte dos seus problemas. Eu não me orgulho disso. Mas você sabe, melhor do que ninguém, que eu não desisto. – ela sabia – Eu vou continuar lutando, Hinata. Eu vou continuar tentando, enquanto você me permitir tentar. – um meio sorriso se abriu, repuxando sua bochecha, e a Hyuuga lutou com todas as forças contra a parte que queria estender a mão e acariciá-la. Ela não estava esperando por aquela parte. De qualquer maneira, não poderia impedi-lo de tentar, mesmo que quisesse – Eu só preciso de um sinal.
Que tipo de sinal Naruto precisaria, àquela altura do campeonato? Hinata estava ali, totalmente entregue. De que adiantava lutar, negar que cada célula de seu corpo respondia a seus estímulos quando estavam há menos de cinquenta metros um do outro? Não havia um ponto. Ela era uma perdida, viciada, precisava de remédios para conseguir dormir uma noite inteira. Naruto já a havia visto chorar, enlouquecer, gritar com ele, acusá-lo de coisas terríveis, mas ele também não tinha ido embora. Eram dois arruinados na mesma sala de estar, então por que parecia tão certo
Bastava saber se Hinata o culpava por aquele acontecimento.
Ela não sabia a resposta – mas aquilo era uma coisa boa. Significava que a resposta poderia ser não.
Suspirou. Livrou-se delicadamente do aperto de mãos, e, por um instante, Naruto ficou confuso, encarando-a. Hinata se aproximou, deslizando pelo sofá, e elevou suas mãos até que tocassem o rosto do Uzumaki. Ele fechou os olhos, relaxando os ombros, se entregando. Com um pensamento de rezar para não estar tomando a decisão errada, ela esticou-se, até que seus lábios tocassem os dele em um beijo casto. Não aprofundou o contato. Para o que pretendia, era o suficiente.
Desde o começo, Naruto sentira que estava andando sobre uma corda bamba muito fina, e ele poderia cair, ou ela poderia estourar. Era impossível, claro, controlar os próprios hormônios, contudo, se desarmava a menor possibilidade de Hinata começar a chorar. Nunca tinha lidado bem com pessoas chorando – quem dirá ela –. As palavras que ela jogou de volta, parecendo feri-lo, cumpriram demasiadamente bem seu papel. Parou, pensando em tudo que ela tinha dito, enquanto a via se desfazer no sofá, as mãos segurando a cabeça como se fosse tudo que ela conseguisse segurar. Era a verdade, a mais pura e sincera verdade. Para ele, voltar significava reconquistar Hinata – a garota que ele nunca tinha deixado de amar, mesmo em quatro anos. Porém, ele não conseguia imaginar a profundidade de sentimentos que Hinata tinha. Quantas vezes ele a fizera sofrer? Quantas decisões ela tomou apenas por achar estar fazendo o certo? Hinata era tão vítima quanto ele poderia ser. Duvidava de que, um dia, pudesse recompensar todas as merdas que aconteceram, mas ele iria tentar. Aquele beijo teve um gosto melhor do que qualquer outro. Era molhado, salgado, o toque inseguro. Mas era uma promessa.
— Eu preciso ir para casa agora. – Hinata sussurrou, ainda com os narizes se tocando, e Naruto assentiu, tornando a abrir os olhos. De relance, conseguiu encarar de perto, mais uma vez, aquelas pérolas cheias de intensidade que amava tanto. Ela se afastou completamente, torcendo as mãos sobre o colo. Naruto se levantou.
— Você tem certeza de que está bem? Pode ficar o quanto quiser. – não havia nenhuma intenção implícita na frase, ele estava simplesmente preocupado, e sabia que, se ela estivesse em seu apartamento, poderia fazer mais para ajudá-la. Hinata assentiu, firme, e ele concordou – Então eu vou te dar uma carona. – não adiantaria discutir, então a morena apenas aceitou. Naruto pegou a carteira e as chaves, deixando o apartamento aberto.
Juntos, esperaram pelo elevador. Naruto reprimiu a vontade absurda de segurar sua mão ou acariciar seu cabelo – simplicidades que, agora, ele percebia como sentia falta. Em vez disso, ficou observando Hinata. Ela estava diferente, bastante diferente. Não só fisicamente, embora a mudança fosse significativa – ele não se acostumava com o cabelo de pescoço a mostra e as outras coladas e provocantes –. Sua atitude era outra. Como se a garota determinada e corajosa ainda estivesse no comando, mas sob uma máscara de frieza e auto preservação. Naruto não imaginava o que teria acontecido para deixar Hinata daquela maneira, mas as coisas não deveriam ter sido tão fáceis. Sentiu-se ainda mais culpado.
Entraram, voltando-se para frente, e o reflexo deles refletiu na porta espelhada. Naruto, com as mãos nos bolsos e postura altiva, com suas roupas casuais e americanas. Hinata, ao seu lado, um palmo mais baixa, com os pés descalços e uma camiseta agressiva de banda. Pareciam se encaixar perfeitamente.
— Nós formamos um belo casal. – Naruto provocou, apontando, e Hinata não conseguiu conter um riso, levando a mão na boca antes que ele percebesse.
— Não seja convencido. – respondeu, murmurando.
Aquela equação era realmente linda, mas havia uma incógnita particularmente preocupante – em anos, aquela era a primeira vez que Hinata pensava, seriamente, em terminar com Kiba.
Nas demais vezes, mesmo com tudo que já acontecido entre eles, a raiva sempre acabava passando e ela voltava para casa, porque sabia que não teria coragem. Não era uma toxidade unilateral – ela já o ferira tanto quanto ele o fez –. Não era o certo – de fato, era bastante covarde – pensar da maneira que Hinata pensava, mas a verdade era que grande parte do motivo por ela ainda não ter se afastado era o medo de ficar sozinha. Não era mais autossuficiente, e Kiba, com todos seus defeitos, era quem a apoiava, quem a suportava enquanto todo o resto parecia ficar insuportável. O medo a tinha encolhido, unido do sentimento constante de não ser satisfatória, esse sendo, realmente, causado por Naruto. Ser abandonada incrustou nela a sensação de não ter sido o bastante para fazê-lo ficar, e isso perdurou ao longo dos anos, alimentado com as acusações sempre gentis de Kiba em seus momentos de raiva. Agora, era diferente. Naruto estava ali, e Hinata sabia que podia correr para ele quando não pudesse mais se segurar, e o amor que nutria começava a afastá-la do namorado.
Hinata não queria ser uma traidora barata – já tinham passado daquela fase no segundo ano de namoro –. Faria as coisas bem feitas, mas era claro que não seria tão simples. Dependia muito de Kiba, mais do que gostaria, mesmo não pessoalmente. Estava no segundo ano de Administração, um curso que odiava com todas suas forças, e não tinha perspectiva de trabalho, embora o professor Asuma pudesse ser uma salvação para ambos os problemas. Se fosse sair, teria que sair de cabeça erguida, com o bastante para não ter que implorar ajuda depois.
Isto é, se sobrevivesse até o dia seguinte.
Chegaram ao subsolo, e Hinata subiu no carro alto e chique de Naruto – o gosto caro realmente era algo de família. Lembrar de Minato e Kushina a deixou nostálgica. Distraída, colocou os pés para cima do painel, olhando pela janela, o vendo manobrar para a rua.
— Você fazia isso o tempo todo no carro do seu pai também. – Naruto comentou, de repente, apontando para seus pés, e ela sorriu um pouco, deixando morrer gradualmente conforme as lembranças apareciam. Sentia muita falta do pai. Naruto percebeu que o clima ficara subitamente pesado, e, sem insistir, mudou de assunto: – Onde você mora?
— No Shinjuku. – respondeu, mantendo os olhos firmes no horizonte ou em sua própria janela. Naruto ficava muito gostoso dirigindo.
— Bom, temos bons dez minutos de estrada. – anunciou, satisfeita, e Hinata gemeu internamente – Por que está fazendo Administração se você claramente poderia ganhar o próximo nobel de física? – sua pergunta tinha um toque divertido, e Hinata resolveu entrar na dele, mas sem deixar suas barreiras caírem, ao menos por enquanto.
— Próxima. – retrucou, sem parecer rude. Naruto a fitou de soslaio, segurando uma risada.
— Ok. Como está seus pais?
— Próxima. – suspirou.
— Por que não fala mais com seus antigos amigos?
— Porra, Naruto, que tal eu fazer as perguntas? – propôs, começando a ficar irritada, e Naruto gargalhou, tirando a mão do volante para cutucar sua perna. Hinata rolou os olhos – Como foi na América? – estava curiosa, internamente, para saber aquilo. Embora ainda sentisse um pouco de raiva e tampouco entendesse os motivos que o levaram a simplesmente desaparecer, nunca tinha muito além de Tóquio.
— Ah, foi incrível. – ele suspirou, imergindo em lembranças. Hinata gostou de observar aquelas reações – Nós ficamos em Los Angeles na maior parte do tempo, mas eu conheci quase todos os estados, até mesmo Washington. Meu inglês era deplorável – bufou – então eu precisei de ajuda nos primeiros meses. E a escola é tão diferente! – virou uma rua errada, por estar animado – Opa. Eu terminei o ensino médio, mas era estranho, e tive que estudar em casa também, por não estar entendendo muita coisa. Depois, é claro que eu entrei em Artes. – revirou os olhos – A Universidade da Califórnia é enorme, e tem pessoas de todas as partes do mundo. Eu amava minha turma, mas, então, meus pais decidiram que iam se mudar de novo, e eu podia escolher entre ficar sozinho, ou voltar para o Japão e transferir minha matrícula. Estava com saudades daqui. – deu de ombros, terminando seu relato. Hinata assentiu, atenta.
— E por que seus pais se mudaram de novo? – perguntou, curiosa, e ele sorriu, um tanto quanto saudosista.
— Papai está abrindo filiais em todas as partes do mundo. – sua voz era inconfundivelmente orgulhosa, e Hinata também gostou daquilo – E fazendo sociedade com galerias famosas. A próxima seria na França, e ele levaria a mamãe como uma segunda lua de mel. – fingiu uma careta, arrancando uma risada da garota – Acho que eles não se incomodariam em me levar também, mas não ficariam mais de dois meses até a próxima cidade, e atrasaria a faculdade. Eu queria me formar. – acabou, e Hinata identificou sua rua. Desejou, secretamente, que ele começasse a dar voltas no quarteirão, apenas para poderem conversar mais. Sem acusações, sem segundas intenções. Quase como amigos casuais – Pronto, entregue. – estacionou na frente do prédio, que parecia medíocre se comparado ao condomínio em que ele morava. Tirou o cinto, virando todo o tronco para a Hyuuga.
— Hm, eu... – começou, um pouco nervosa. Respirou fundo – Muito obrigada. Não só por me trazer. – acrescentou, dando a entender que agradecia também por mais cedo. Naruto sorriu aquele sorriso lindo, cheio de dentes brancos e felicidade cegante.
— Sempre que precisar. – todo galanteador – Me empresta seu celular. – estendeu a mão, e Hinata ficou olhando para ela, insegura – Empresta logo a porcaria do celular. – bufou, e ela, meio rindo, meio preocupada, puxou o aparelho do bolso, estendendo para ele, desbloqueado. Se Naruto reparou na tela de fundo, fingiu muito bem. Digitou algumas coisas e devolveu – Pronto. Agora meu número está salvo e na agenda de emergência. – falou, garboso, e Hinata revirou os olhos de novo, se perguntando como a cabeça dele aguentava um ego tão grande – Pode me ligar a qualquer hora, de dia, de noite. Se quiser ajuda, conversar, alguém para cometer um crime. – falou sugestivo, e ela riu, sentindo que aquilo era mais errado do que parecia – Não, agora falando sério. Pode me ligar. – diminuiu o sorriso para algo confiável, e Hinata assentiu, por fim.
— Já vou indo. – havia uma espécie de relutância para abrir a porta.
Naruto se inclinou, beijando sua bochecha, rente ao canto de sua boca, e uma corrente passou por sua coluna. Hinata saiu antes que cometesse uma besteira, e ficou na calçada até que o carro buzinasse e saísse. Pensou em acenar, mas não o fez. Enquanto andava, com os pés descalços, sentiu que estava em um tipo de transe, flutuando. Cumprimentou o porteiro, subindo pelas escadas para não esperar o elevador vagaroso. Agradeceu por sempre ter uma cópia das chaves com ela, onde quer que fosse. Abriu o apartamento, sentindo o ar frio e solitário atingir seu rosto, outrora quente da luz do sol.
Decidiu começar por um bom e merecido banho. Se despiu, deixando as roupas no cesto já quase cheio, o que significava uma ida à lavanderia. A água atingiu seus músculos tensionados, e ela gemeu, satisfeita. Ensaboou-se duas vezes, para garantir que a sujeira saísse toda, embora suspeitasse de que não se tratava unicamente das manchas de carvão em sua pele. Saiu, enrolada em uma toalha parcialmente limpa, secando o cabelo com outra. No quarto, agradeceu por estar quase tudo organizado. Colocou uma camiseta de algodão simples e se jogou na cama, todo o peso da noite anterior caindo sobre ela. Era perto do meio dia, e ela deveria estar saindo da aula. Evitou pensar na vergonha de mais cedo. Teria que lidar com aquilo mais tarde. Por ora, só queria dormir. Deixou os olhos se fecharem, mergulhando em um sono curiosamente leve.
Hinata foi acordada pela fome. Quando despertou, imaginou que muito tempo tinha se passado, mas eram apenas cinco horas. Se espreguiçou, o estômago rugindo, implorando por comida. Se levantou, tentando lembrar do que tinha em casa que fosse comestível e livre de álcool. No fim, encontrou apenas alguns ovos, queijo suspeito e cebola. Decidiu fazer um grande omelete, aplicando toda sua habilidade de morar sozinha. O cheiro estava agradável, o gosto mais ainda. Devorou todo o conteúdo da frigideira, e, apenas por garantia, tomou um remédio para dor de cabeça com suco envelhecido.
Distraída, ficou na mesa, mexendo nas redes sociais. Alguns comentários, vídeos engraçados, mensagens dos grupos de trabalho. Nenhuma menção ao seu surto, mas era óbvio que aquilo seria comentado por baixo dos panos. Perto das seis, esperou que Kiba chegasse, mas depois se lembrou de que ele iria direto para a aula, e ela tinha cabulado o estágio. Suspirou. Sua vida estava virando uma bagunça difícil demais de ser administrada.
Teria que conversar com Shizune, mas a doce supervisora ficaria feliz ao saber que seguiria em frente com a iniciação científica – um dos outros problemas –. Asuma era um anjo em sua vida, e trabalhar com física era seu grande sonho, além do Congresso Nacional, que esperava desde o primeiro ano, mas não conseguia se sentir plenamente feliz enquanto não contasse para Kiba – e lidasse com as consequentes brigas.
Depois de limpar tudo, decidiu deixar uma torta de restos pronta, com o pouco de farinho que encontrou. Arrumou o quarto e a suíte, guardando as roupas limpas e organizando sua parte do guarda-roupa. Ouviu o álbum novo de uma banda que gostava, enrolou um pouco, cochilou na poltrona. Por fim, quase nove e quinze, a porta foi aberta, e ela se sentou, sobressaltada, enquanto tentava ler um livro chato qualquer. Colocou um sorriso grande no rosto, mas foi ver o semblante de Kiba que ela previu o que seguiria. A noite seria longa.
— Oi, amor. – cumprimentou, cautelosa.
— Oi. – suspirou internamente. Kiba deixou a pasta em cima do balcão, desabotoando a camiseta que usava para trabalhar. Puxou o cabelo rebelde para trás, respirando fundo – Eu escutei uma conversa engraçada hoje, na sala. – começou.
— Sim? – Hinata se fingiu de desentendida.
— Que você surtou no corredor, e teve que ser segurada por Sasuke Uchiha e outro cara. – seu rosto tinha uma feição sombria que a luz da lâmpada fluorescente não pode iluminar. Hinata engoliu em seco – Um cara loiro, que ninguém conhecia. Quem era? – foi incisivo, cruzando os braços, os músculos saltando. Hinata não sabia se era pelo dia estressante ou por todos os outros acontecimentos, mas não estava com medo; estava com raiva.
— Não faço a menor ideia. – respondeu, mantendo os olhos suspensos.
— Ele te carregou no colo! – sua mão desceu contra o balcão, produzindo um barulho estridente – Eu não estou brincando, Hinata, acho melhor me dizer quem ele era. – sua voz era cortante, e, por algum motivo, isso despertou na Hyuuga seus instintos de rebeldia mais primitivos. Se colocou de pé em um salto, sem romper a comunicação visual, e parou bem perto, com os ombros empertigados.
— Já disse que não sei! – falou, quase no mesmo tom, frio. Kiba, em um movimento rápido, segurou seu pulso com força. Hinata sabia que ficaria marcado, porque os dedos quase se fechavam em torno da circunferência.
— Você está me enfrentando? – se aproximou, sibilando, mas aquilo não a intimidou.
Havia momentos, raros momentos, em que Hinata sentia uma necessidade quase patológica de revidar. Não media os riscos ou as circunstâncias, apenas retrucava as injúrias, gritava e, por vezes, protagonizava cenas nada agradáveis de arranhões e empurra-empurra. Não conseguia ser sempre passiva ou submissa, mesmo que seus sentidos a avisassem que correria perigo caso não acatasse. Nada mais importava, a não ser responder a altura.
— Me larga. – deu um puxão grosso, soltando-se, e Kiba a encarava com fúria. Antes que pudesse dizer algo, ouviu o celular apitando alto, do sofá. Deu as costas com rapidez, alcançando-o primeiro, e acendeu a tela, vendo uma notificação solitária. Era nove e meia, e só havia uma pessoa que lhe mandava mensagens de três letras. Imediatamente, a fúria se dissipou, sendo substituída pela pressa. Contornou os móveis, correndo para o quarto.
— Hinata! Volta aqui! – Kiba gritou, a seguindo e parando no batente. A garota não deu a mínima, puxando uma calça qualquer e os tênis. Se vestiu, sem se importar em pegar jaqueta, enfiando a carteira no bolso e a chave que ficava com ela. O garoto a encarava inconformado, e, quando Hinata tentou passar, ele a segurou pelos ombros – Onde você está indo? Não terminamos ainda! – estava colérico, mas a Hyuuga simplesmente o empurrou no peito. Uma garota do seu tamanho não conseguiria mover um cara do tamanho de Kiba, mas a surpresa o fez desequilibrar, dando espaço para ela escapar pelo corredor. O Inuzuka a seguiu, puxando-a pelo pulso no momento em que abriu a porta. Hinata o encarou furiosa, tentando se desvencilhar. Seu rosto estava vermelho, os olhos injetados e o maxilar travado – Onde pensa que está indo? – rosnou.
— O que você vai fazer, hein? Me diz! – Hinata desafiou, aproximando seu rosto até que seus narizes se tocassem – Vai me bater? Vai em frente, me bate! – gritou, exibindo a bochecha direita, e Kiba a fuzilou – Mas você sabe quais são minhas prioridades, e nada é mais importante que isso, agora! – aproveitou a hesitação para puxar o braço, arrumando a camiseta velha de algodão. Kiba a encarava como se pudesse realmente matá-la, mas Hinata não se importou – Se quiser conversar depois, tudo bem. Mas eu vou sair, e você não vai me impedir. Sempre foi assim, meu amor, e sempre vai ser. – falou, ácida até o último, e, batendo a porta em suas costas, deixou o apartamento.
Respirou fundo, descendo pelas escadas de dois em dois. Estava preocupada, precisava chegar lá o mais rápido possível. A noite estava escura, sem estrelas ou lua. Hinata correu rua abaixo, descendo o quarteirão, não pensando em mais nada – Naruto, Kiba, nenhum deles tinham relevância naquele momento. Já tinha desejado não sentir mais aquela urgência, nem receber mais aqueles torpedos secos, todavia, como todo o resto, Hinata sabia que se repetiria. Só tinha que se apressar.
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