Heroína
13 É o passado que lhe precede, é o presente que você não quer ver
Notas iniciais
Dezessete anos e fugiu de casa
As sete horas da manhã do dia errado
Levou na bolsa umas mentiras pra contar
Deixou pra trás os pais e o namorado
Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar
— Natasha, Capital Inicial
—Capítulo XIII–
É o passado que lhe precede, é o presente que você não quer ver
Hinata alcançou a escada em tempo recorde, saltando os degraus de dois em dois. A porta clássica estava apenas encostada, e feixes de luz despontavam pela fresta. Empurrou, entrando sem se anunciar, e, quando seus olhos encontraram a garota, soltou um palavrão.
— Puta merda, o que aconteceu com você? – exclamou, jogando-se no chão e deslizando com o joelho.
Shion não estava há um metro da entrada, o que a fez imaginar que ela teria entrado e tentado caminhar, caindo quase que imediatamente. Estava caída, de bruços, uma das pernas esticadas e a outra curvada para dentro. Havia respingos vermelho-vinho no carpete. Um dos braços apoiava a cabeça, o outro permaneceu estirado ao lado do corpo. Ela usava roupas brilhantes e sofisticadas, a bolsa de mão jogada poucos centímetros a frente. Os fios dourados espalhavam-se ao seu redor, a maior parte caído sobre os ombros, mas havia um hematoma no alto. No geral, não era uma cena agradável.
Hinata se ajoelhou-se do seu lado, sem se importar em fechar a porta. Seu coração martelou, falho, implorando para que ela estivesse consciente. Afastou o cabelo, deixando seu rosto a mostra, e, se não tivesse um estômago forte, teria vomitado. Parecia impossível distinguir o verde cintilante de suas íris. O olho esquerdo estava inchado, com um aspecto doentio, manchas para todos os lados e um sangramento, agora seco, que traçava uma rota desde a têmpora até a bochecha. Cortes no supercílio e nos lábios, e concentração de sangue no nariz. A Hyuuga engoliu a vontade absurda de chorar, acariciando suavemente o lado menos afetado. Estava prestes a executar uma reza desesperada quando o olho que não estava inchado piscou. Shion se mexeu, erguendo os ombros ligeiramente, e Hinata a acompanhou, as mãos em postos para apoiá-la.
— Não consegui chegar na cozinha. – ela resmungou, irritada, e a morena suspirou aliviada. Retirou o braço debaixo de seu tronco, erguendo-se rapidamente.
— Calma, vou fechar a porta. – correu pelo corredor, batendo-a, imaginando que se sentiria melhor com privacidade. Voltou para onde a garota estava, abaixando quase totalmente desta vez – Devagar, vou te puxar pelo braço. Isso, joga o peso. – instruiu, enquanto a rodeava na altura do busto, apertando a mão do outro lado, enquanto impulsionava lentamente, a erguendo. Shion não era pesada, e, com esforço, ela dobrou o próprio joelho, tornando o movimento mais fácil – Não se esforça. Aqui, peguei. – Hinata ficou de cócoras, puxando-a para cima com o braço de alavanca. Passou o braço da loira por seus ombros, ajudando-a a distribuir o volume. Era poucos centímetros mais alta, o que facilitou, quando arrumou totalmente a postura – Vamos, até o balcão. – arrastou-a devagar, com medo de escorregar. A cozinha não estava longe, e as luzes estavam todas acesas. Chutou a bolsa para o lado, colocando-a sobre o granito e puxando a banqueta para suspender seus pés.
Ao menos Shion conseguia manter-se sentada sem dificuldades. Apoiou contra as mãos, tentando normalizar a respiração, enquanto Hinata corria para o banheiro, buscando a caixa de primeiros socorros embaixo da pia com o espelho maior. Voltou para o cômodo único tão rapidamente quanto saiu, deixando a maleta manchada do seu lado. Com cuidado, puxou um elástico do bolso e juntou o cabelo da loira, acariciando onde estava sobressalente. Prendeu rente ao pescoço, mas, fino como era, escapou alguns fios, que contrastavam contra os pontos escuros. Em algum momento, havia maquiagem em seu rosto, mas os traços pretos desaparecem por um fio não completamente, deixando para trás poucos rastros de sua existência. O batom, por outro lado, sumira por inteiro. Hinata não se concentrou no rosto. Com um suspiro, abaixou-se, puxando para baixo a saia desabotoada, procurando por possíveis ferimentos. Nada. Apenas a pele branca, pálida, com pequena alergia nas coxas.
— Vou precisar tirar sua blusa. – falou, doce, e Shion assentiu, erguendo os braços. Era um bom sinal, conseguia se mover sem maiores problemas. Talvez tivesse caído por ter tropeçado, sem fôlego. O celular, usado para chamá-la, jazia, esquecido, junto da bolsa. Hinata retirou a peça pela cabeça, deixando o sutiã de renda branca a mostra. No colo, algumas marcas, mais parecidas com chupões que machucados.
Em silêncio, abriu a caixa, sempre abastecida dos principais remédios. Puxou gazes, molhando em álcool, e limpou o mais proeminente. Shion era forte – não reclamou nenhuma vez, embora suas sobrancelhas tivessem se arqueado um pouco quando Hinata passou por um corte –. Tinha que desinfetar, para não causar infecções. Trocou as gazes duas vezes, por sujarem demais. Quando terminou, o aspecto estava muito mais limpo, quase satisfatório. Limpou os cortes e ao redor do olho inchado, tirando o pus e o sangue ressecado. Pegou band-aids, rindo sozinha quando virou as tiras de bichinhos desenhados. Colocou um na boca e dois nas maçãs. Jogou os panos, procurando pelo algodão, para fazer uma limpeza mais cirúrgica. Sua pele já estava mais corada quando terminou, e apenas o olho mantinha a aparência assustadora. Deu a volta, molhando um pedaço de pano com água quente. A compressa ajudaria a desinchar, por ora, mas demoraria alguns dias – experiência própria.
Todo o processo levou muitos minutos. Quando terminou, Hinata não saberia dizer se já passava das dez ou onze. Ignorando a sujeito em seus ombros e braços, Shion estava com um feitio bem mais saudável – talvez aquela não fosse a palavra adequada para a situação, mas gostava de ser positiva, para variar –. Guardou os medicamentos, deixando uma cartela de analgésicos para fora, e fechou a maleta. Estava de pé, no meio das pernas oscilantes da loura, que, em nenhum momento, olhou para cima ou reclamou. Hinata admirava sua força. Sempre soltava exclamações de dor ou lamúrias, mas Shion era diferente. Ela nunca falava sobre o que estava sentindo, mesmo quando agonizada.
A morena, em pé, movia seus dedos suavemente para cima e para baixo, em suas pernas nuas. Fez desenhos aleatórios, marcando quando pressionava um pouco mais forte. Deixou que Shion tomasse seu tempo – não seria ela a forçar alguma comunicação –. Observou se respirava com dificuldade ou ofegava em algum momento. Tinha erguido os braços e mexido as pernas, então, na melhor das hipóteses, os estragos se concentravam apenas em seu belo rosto.
— Obrigada. – Shion falou, depois de um tempo, quebrando a atmosfera silenciosa. Hinata balançou a cabeça, bem-humorada, na medida do possível.
— Pronta para um banho? – perguntou, e ela concordou com a cabeça.
Hinata voltou a apoiá-la pelo tórax, sustentando a maior parte do peso para que pudesse saltar do balcão. Apoiando-a, caminharam, com mais facilidade, atravessando o quarto rumo ao único banheiro da casa. A Hyuuga ligou o chuveiro, mantendo a água bem quente, e ajudou a garota a desabotoar o fecho da peça de cima, abandonando-a no chão, do lado de fora do box. Os seios, redondos e despontados, arrepiaram-se em contato com o vapor, e ela mergulhou de cabeça, molhando cabelo, rosto e curativos improvisados.
A morena a deixou por alguns instantes para voltar ao quarto, apagando os abajures desnecessários e arrumando os cobertores da cama, não sabendo se Shion gostaria de se deitar ou de comer. Pegou uma camiseta de algodão no armário, e uma calcinha limpa nas gavetas. Voltou para o banheiro, e Shion se ensaboava distraidamente, soltando uma ou duas caretas de dor. Hinata deixou a roupa e foi ajudá-la, passando duas vezes por toda a extensão. Tampouco trocaram palavras. Cada uma tinha seus próprios pensamentos, e, depois de enxaguar, Hinata a auxiliou com a toalha. Passou a camiseta pela cabeça, tirando as gazes molhadas e trocando por curativos próprios.
Sua camiseta estava molhada com respingos, mas não se importou. Carregando-a, sentaram-se na cama. Shion encostou na cabeceira, na diagonal, e Hinata puxou a escova do criado-mudo, penteando o cabelo molhado, devagar, como um ritual sagrado. A loira suspirou, sentindo-se infinitamente melhor. Seu psicológico não poderia ser curado com água quente e álcool, mas era algo com que podia lidar. Por um milagre, conseguiu chegar em casa viva, e destrancar a porta, mas, quando percebeu que iria cair, puxou a bolsa imediatamente. Em outras ocasiões, se orgulho seria uma forte armadura, que não a deixaria pedir ajuda – mas não naquela situação. Não com Hinata.
— O que aconteceu dessa vez? – a morena perguntou, a voz despretensiosa, quando terminou seu trabalho e bateu em seu ombro. Shion se arrumou, voltando-se para ela, cruzando as pernas nuas em índio. Sua expressão desmanchou-se em algo que se assemelhava a cólera e desgosto.
— Foi aquele maldito do Ryuu. – resmungou, e Hinata cruzou os braços, rolando os olhos, desacreditada.
— Pensei que tinha dito que nunca mais ia sair com ele! – acusou, e loira fez uma careta, puxando um travesseiro para abraçar. Hinata tentava fitar unicamente seus olhos, mas era impossível não engolir seco com aqueles hematomas piscando desesperadamente.
— Não me julgue, ele me ligou, e tinha realmente mudado. – se defendeu, mas sua voz parecia magoada. Hinata suspirou, descruzando os braços para poder alcançar sua mão, brincando com os dedos finos e gelados – Disse que conhecia um restaurante novo e que estava com saudade. O que eu poderia dizer? Você sabe, conhece a história. – infelizmente Hinata sabia. Ela não julgava, não porque elas não se julgavam, mas também porque ela não estava em posição de repreender atitudes que cometia a todo momento – Então, nós começamos a discutir por alguma coisa estúpida, o cardápio, a gorjeta, eu não faço ideia. A próxima coisa que eu me lembro é ele me arrastando para o carro. – Hinata tinha visto a marca de dedos que se fechavam em torno de seu braço, agora mais fraca, mas ainda ali – Você pode imaginar o resto. – terminou, um tanto mórbida, e a Hyuuga apertou seus dedos com mais força – Está muito ruim?
— Você continua linda. – ela respondeu, sorrindo de orelha a orelha, e Shion rolou o olho, rendendo-se a um sorriso também, o semblante agradecido. Esticou o corpo, deitando-se, e Hinata se apressou para deitar com ela, fazendo seu braço de travesseiro. A loira acomodou-se junto a seu tronco, abraçando-a de maneira que os curativos não raspassem nos lençóis.
— Odeio como continuo cometendo os mesmos erros. – comentou, sussurrando de um jeito doloroso. Hinata suspirou contra o alto de sua cabeça, fazendo carinho em seus ombros.
— Não é culpa sua. – retrucou, convicta.
— É, eu sei que é. – ela respondeu, mais rápido, balançando a cabeça – Eu sei como o Ryuu é, sei que as coisas terminam assim, e continuo voltando, e voltando, e acreditando nas mentiras dele, como uma cadelinha adestrada. – esbravejou. Hinata deixou que ela desabafasse. Eram poucos os momentos em que se livrava daqueles pesos.
— Quem vai te criminar por amá-lo? – murmurou, com a garganta fechada. O clima se tornou, subitamente, pesado demais.
— Você não ama o Kiba. – ela disse, depois de algum tempo. O braço que estava por cima do tronco da Hyuuga movia-se abstraidamente. Hinata não ficou com aquela sentença. Limitou-se a ciciar, apertando o corpo menor contra o seu.
— Acho que eu amo, no final de tudo.
Hinata tinha consciência de que, muitas vezes, seu relacionamento era uma merda. Ela sabia, mais que ninguém. Não era cega, ou burra, ou masoquista. Contudo, as outras sabiam apenas o que ela lhes permitia saber. Pessoa alguma era testemunha dos momentos de carinho e cumplicidade, que a sustentavam, sobretudo quando o mundo parecia desabar. Nos dias bons, nos dias realmente bons, Kiba era gentil. Ele se importava. Tinha um sorriso brilhante, que iluminava todo o ambiente. Ele comprava doces e enrolava seu cabelo entre os dedos, formando pequenos cachos que se desmanchavam rápido. Deitavam no sofá e assistiam horas de séries policiais, pediam pizza e tiravam os tomates, porque nenhum dos dois gostava dele quente e derretido. Quando estavam sóbrios – era raro, mas acontecia –, dormiam cedo, abraçados, e, se tivessem tido uma noite genuinamente espetacular, fariam amor – não qualquer sexo vagabundo de três minutos, amor de verdade. Quando pensava em todas aquelas lembranças, não via muitas saídas. Ela sempre acabava voltando para uma casa que podia chamar de sua, para um cara que cuidava dela e se importava, do seu jeito.
Ninguém que não conhecia a história inteira poderia julgá-las – e quem conhecia não o fazia, porque conseguia entender.
— Eu fiquei totalmente chapada, e Naruto me levou para o apartamento dele. – comentou, alto, e Shion, em choque, ergueu o rosto, encarando-o em pura inconformidade. Hinata ficou satisfeita, em partes, por ter tirado sua atenção do, bem, incidente, mas não queria falar sobre aquela vergonha.
— Como é que é? Vocês transaram? – perguntou, a voz estridente, e Hinata estremeceu apenas de pensar na possibilidade.
— O que, claro que não! – negou também com a cabeça – Aparentemente, eu passei a maior vergonha na UK, e ele me ajudou. Me levou no colo e tudo, me esperou acordar. – suspirou, derrotada – Mas não fique tão animada. – se apressou, reprimindo a careta quase contente que se formou no rosto da loira – Nós tivemos uma briga daquelas. Aquele idiota. – bufou.
— Sinto que você não está com raiva suficiente dessa briga. As coisas devem ter se acertado. – Shion opinou, e Hinata assentiu, a contragosto.
— Ele ainda pensa que eu estou com raiva dele, e por isso não voltamos. – revirou os olhos, e a outra remexeu sobre seu braço, sacudindo a cama, tamanha indignação.
— E eu achava que ele tinha algum potencial. Ridículo. – fumegou, e Hinata riu, tremendo os dois corpos abraçados.
— Sim, mas eu comecei a gritar e falar algumas coisas. Ele pareceu ter se tocado, ao menos, disse que vai se esforçar. – franziu a testa – Eu duvido muito. Não vou ficar alimentando esperanças frustradas com algo que não tem futuro.
— Você culpa ele?
Hinata não respondeu de imediato. Aquela pergunta tinha se instalado em sua cabeça desde o começo da manhã – ela ainda não tinha uma solução. Internamente, sempre assumira total e completa culpa, mesmo pelas coisas que estavam fora de seu alcance. A questão era que, inconscientemente, queria atribuir a alguém, para se livrar daquele peso sufocante que a envolvia. Se não fosse por Naruto, não teria precisado ir naquela maldita festa, e, bem – nada teria acontecido, afinal.
— Não sei. – retrucou, tentando ser sincera. Shion assentiu, silenciosamente. Apertou a barra da camiseta de algodão.
— Março está acabando. Logo é dia primeiro. – para qualquer outra pessoa, Hinata rosnaria e despejaria insultos que não deveriam ser, sequer, pensados. Mas era Shion, e Shion a conhecia como a si mesma.
— Foi um ano difícil. – foi seu único comentário, antes que a garganta embargasse – Queria que estivesse na faculdade, comigo. – confessou, virando o corpo de maneira que seu braço continuasse servindo de travesseiro, mas seus troncos se tocassem frontalmente. Estavam na mesma altura, e a loira não retirou o braço que a envolvia, movendo-o para sua cintura. Seu olho estava pior visto de perto, todavia, ainda pareciam irritantemente perspicazes.
— Você sabe que o diploma nunca foi meu forte. Ainda quero ir para Paris, desfilar grandes estilistas, ser famosa. – sua voz era sonhadora e divertida, e Hinata riu, baixo. Elas sempre riam, agora.
Shion falava três línguas, teve aulas de piano, canto, dança e modos. Sabia costurar e jogar xadrez, já tinha lido livros de todos os grandes autores. Seu sonho sempre fora ser uma grande modelo – sonho este bastante incentivado por sua avó, que a tinha criado desde criança –. Shion era o arquétipo perfeito para a capa das maiores revistas de moda e propagandas comerciais que ilustravam outdoores das cidades chiques que viam pela televisão. As mulheres que posavam com joias e lingeries, roupas sofisticadas, sapatos luxuosos. Mas que também faziam a diferença, deixando sua marca. Ela era alta, loura e inteligente. Tinha postura e personalidade, era carismática e determinada. Era perfeita.
Um dia, surgiu na cidade um olheiro de agências. Shion tinha catorze, quase quinze, e ficou deslumbrada por sua primeira oportunidade – Konoha era uma vila pequena, apenas um estrangeiro poderia tornar seu sonho realidade –. Realizou todos os testes, desfilou em todos os eventos, tirou fotos e respondeu perguntas de concursos. Encantou o olheiro, como esperado. Sua avó, no entanto, teria de se mudar, no meio da seleção, e aquilo era inviável. Shion teimou, brigou e conseguiu – moraria sozinha até que o olheiro escolhesse as garotas que o acompanhariam para a capital, e, em seguida, decidiriam o que fazer.
O tempo passou, e Shion foi aceita. Sua avó deixou que viajasse para Tóquio, onde estrearia seu primeiro desfile. Era perfeito – quase perfeito demais —. O olheiro, acompanhado de dez garotos de três vilarejos diferentes, desembarcou em um bairro sombrio, assustador. Apresentou homens sombrios e assustadores, que exigiam tarefas estranhas para modelos mirins. A partir deste momento, é possível imaginar o rumo que se tomou.
Shion nunca pensou que tinha sido ela a culpada por seu próprio futuro. Uma sucessão de fatores, munidos da mentalidade obstinada de uma garota que ansiava por tornar seu sonho realizado. Ela apenas acatou todas as ordens, engoliu todo o choro e todas as outras coisas, aguentou a pressão. Se tornou mais velha, mais experiente e mais amarga. Tinha o corpo perfeito, o rosto perfeito, a modelo perfeita, para a profissão errada. Nunca teve coragem de contar para a avó, que esperava, ansiosa, mês após mês, suas cartas. Voltou para Konoha, com dezesseis, e continuou a trabalhar no ramo, morando e, posteriormente, restaurando a velha casa da família. Entrou e saiu da faculdade, mas nunca deixou de sonhar com as passarelas iluminadas do exterior.
Hinata admirava muitas coisas em Shion, mas nada se comparava à sua força. Era uma mulher forte, que exibia cada cicatriz sem medo de julgamento. Tinha seus próprios fantasmas, seus próprios erros, e, ainda assim, conseguia ser a garota mais linda que Hinata já tinha conhecido. Infelizmente, Konoha era mesmo pequena demais, e nem todas as pessoas eram boas. Não tinham muitas opções para recomeçar, e Shion conhecia a maior parte dos canalhas – ossos do ofício.
— O pai do Naruto está viajando pela Europa, abrindo galerias. – comentou, aleatoriamente, sussurrando já atingida pelo sono repentino – Quem sabe ele não te leva junto?
— É, seria uma ótima solução. – riu, deixando morrer. Com preguiça, puxou o cobertor sobre suas pernas, acomodando-se junto ao calor de Hinata – Boa noite.
Ela não respondeu. Mesmo com a cabeça repleta de pensamentos, não teve pesadelos, embora seu sono tenha sido particularmente agitado. Em alguma parte de seu cérebro, pensaria que o ambiente contribua mais que sua mente auto-sabotadora. Gostava do apartamento singelo de Shion, mesmo que só o visitasse em situações extremas. Era acolhedor, quente e familiar. Gostava de Shion, de como ela dormia a abraçando, ressoando em seu pescoço. A noite se passou como um piscar de olhos, e foi desperta pela luz excessiva que entrava pela varanda aberta.
Foi impossível se mexer sem acordar a outra garota. O olho parecia ter diminuído, mas as cores amarela e roxa se intensificaram, e tinham aspecto doloroso. Os cortes estavam cobertos por algodão, mas, aparentemente, tudo estava bem – ou o quão bem se poderia estar. Ela se mexeu, estalando um ou dois membros, e gemeu baixo quando a dor a atingiu mais claramente.
— Está tudo bem? – Hinata se apressou, erguendo o peso para poder fitá-la do alto. Shion balançou a cabeça, tranquilizando-a.
— Está, só o efeito do analgésico que passou. Preciso de outro. – fez uma careta, levando a mão aos lábios cobertos de band-aid.
— Ok, primeiro o café da manhã. – Hinata retirou o braço debaixo de seu pescoço, rindo quando o percebeu dormente. Saltou da cama, alongando-se também, e desamarrotando as roupas que usava desde a noite anterior. Sem relógio e sem celular, não conseguiu distinguir as horas, mas, de qualquer maneira, não pisaria na universidade. Era melhor deixar a poeira baixar.
Foi ao banheiro, realizando seus rituais matinais, e – tentou – penteou o cabelo para trás, organizando a fúria de fios para todos os lados. O clima tinha esquentado, e arregaçou as mangas da camiseta. Voltou para o outro cômodo, e Shion ainda enrolava, deitada, mexendo no próprio aparelho. Hinata foi para a cozinha, limpando o balcão com camadas de desinfetante, para que pudessem comer. Gostava daquela área da casa. Era a única separada do resto por uma divisa de granito, e todos os eletrodomésticos sempre brilhavam de limpos. O fogão, talvez o mais moderno, era acoplado a uma chapa – Hinata já tinha proposto a mudança em sua própria casa, mas Kiba recusara –. Juntou uma frigideira e alguns ovos. Pegou frutos para um suco e colocou o pó de café para ferver. Parecia a refeição de vinte soldados feridos, quando as colocou na mesa.
— Tudo bem, vamos lá. – voltou para a cama, jogando seu peso sobre ela para ajudar Shion. A loira virou-se, aceitando o braço de Hinata. Descansada, as dores nas juntas tinha aumentado bastante. Caminharam até o balcão, e ela se sentou em uma das banquetas, enquanto Hinata foi servir, do outro lado.
— Você cozinha muito melhor que eu. – a loira gemeu ao colocar um pedaço do omelete na boca. Hinata riu, comendo pedaços da salada de frutas – Quer saber, esqueça os homens. Eles são inúteis. Vamos morar juntas. – propôs, arqueando a sobrancelha, e Hinata suspirou com a possibilidade.
— Seria um sonho se tornando realidade. Mas nós não conseguiríamos viver juntas por mais de um dia sem querer matar uma a outra. – apontou-lhe o garfo, e Shion também riu.
— É, nossos encontros casuais precisam de todo aquele fetiche paciente e enfermeira. – o humor negro não deixou o clima mais pesado. Em manhãs como aquela, conseguiam brincar com a própria desgraça – Ei, lembra quando Kiba nos pegou no banheiro, naquela festa? – Hinata fez uma careta azeda.
— Claro que eu lembro. Direita poderosa. – esfregou o rosto. Havia sido um belo soco. Inchou por duas semanas, umas das primeiras vezes em que Kiba fora agressivo.
— Você devia ter largado dele naquela época. – a loira comentou, a voz mais suave. Bebeu um gole de café, enquanto Hinata assentia, pensativa. Fora há mais de um ano.
— Devia mesmo. – concordou, devaneando. Sua vida teria sido bem diferente. Shion já tinha proposto que morassem juntas, porém, ela voltou para Kiba, mediante suas desculpas infindáveis e os presentes de agrado. Era mais nova e mais imatura. Não tinha experiência ou discernimento. Parecia irônico pensar naquelas coisas, na situação onde estavam, mas era inevitável. Eram duas perdidas – Espero que você não volte a sair com aquele babaca. – apontou, desviando o assunto, e Shion rolou o olho bom.
— É, eu vou ter que ficar de molho por enquanto. Não dá para trabalhar assim. – cutucou um pouco de comida, parecendo revoltada, e Hinata suspirou de novo.
— Eu odeio esse seu trabalho. Você é tão linda, inteligente. – resmungou, e a garota agradeceu com o olhar.
— Você sabe, é uma cidade pequena. Não tenho dinheiro suficiente para ir embora, e todo mundo já me conhece por aqui. Conservadores de merda. – mesmo com as boates afastadas do centro comercial, as fofocas corriam rápido por ali, e Shion tinha uma fama que a precedia.
— Eu te dou dinheiro, se quiser ir embora. – Hinata estava sendo sincera, embora a probabilidade de perder a única e verdadeira amiga que tinha no momento fosse lancinante.
— Você é um amor, Hina. Mas eu vou conseguir com minhas próprias forças. – deixou o garfo para procurar sua mão, acariciando-a – Além disso, alguém precisa estar aqui para abrir seus olhos. Eu te disse que não queria mais te ver. – ironizou, e a morena riu.
— É, claro. Você quem me chamou, deixando bem claro. – deixou o humor se esvair, voltando a falar com a voz mais terna – Nós nos vimos semana passada. Parece que está ficando pior. – comentou, um pouco triste – O que me lembra, posso tomar um remédio para dor de cabeça? – pediu, levando seu prato, vazio, para a lavadora.
— Claro. Está incomodando? – não pestanejou. Hinata se virou, com uma máscara azeda.
— Não, deixei Kiba falando sozinho ontem a noite. – a explicação foi suficiente para Shion imitar sua cara contraída.
— Boa sorte.
Enfrentar Kiba estava na última linha de sua lista de pretensões, mas não tinha como fugir. Inevitavelmente, acabariam se encontrando, pela tarde ou a noite. Fugiria para a faculdade, depois do almoço, para conversar com Shizumi e falar sobre sua demissão. A iniciação científica com Asuma lhe daria boas dores de cabeça, em algum outro momento.
— Hina, você pode ir, se quiser. – Shion a tirou de seus pensamentos, caminhando, sozinha, até o sofá. Jogou-se, puxando o controle da televisão – Eu vou ficar aqui, meditando, e passando uma compressa nessa droga. – apontou para o próprio lado esquerdo, inchado.
— Você tem certeza? Não me importo de ficar. – insistiu, mas a loira negou.
— Sim, pode ir. Não quero atrapalhar suas coisas. Se precisam, eu ligo. – estava sendo sincera, e a Hyuuga acreditou.
Reuniu suas coisas, a carteira, o celular e as chaves do apartamento. Pegou os sapatos e arrumou a cama e o banheiro, mantendo tudo em ordem para a loira. Passou pela varando, parando para admirar as flores coloridas. No sofá, ela parecia bem, apoiada em sua almofada e assistindo atentamente a um programa qualquer de reality show.
— Eu vou indo, então. – abaixou-se, beijando sua testa. Shion segurou seu rosto próximo do dela, movendo os dedos pela bochecha.
— Obrigada. – soprou, e a morena sorriu.
— Sempre que precisar, mas eu espero que não precise. – riram. Hinata passou pelo curto corredor e saiu para a rua quente.
Estava movimentada, ao contrário da noite anterior. A calçada estava apinhada de pessoas indo e voltando, e ela se pôs a caminhar, subindo o quarteirão. Lamuriou, sozinha. Não sentia-se cansada fisicamente, mas sua cabeça estava cheia. As duas aspirinas que tomou tampouco faziam efeito ainda. Mais uma noite que passava com a loira, e o sentimento era sempre controverso. Na maior parte das vezes, Shion ligava no meio da madrugada, por conta de algum cliente bêbado ou mal encarado. Poucas foram as vezes que seus próprios companheiros fizeram aquilo, mas também acontecia. Em sua pele alva, cicatrizes se escondiam em seu pescoço, colo e braços. Se observasse atentamente, seria como uma pintura. Shion era realmente bonita, e igualmente miserável. O mundo era um lugar de merda.
Chegou em seu prédio, largando as coisas em cima da mesa e desabando no sofá. Pensou em ver algum filme. O silêncio era acolhedor. Por enquanto, não teria que pensar nas desculpas que teria de dar para o Inuzuka. Se livrou dos sapatos, se encolhendo no sofá. O cheiro amargo de sangue e álcool sempre impregnava seu nariz depois daqueles episódios, e ela não sabia se era uma coisa ruim estar acostumada àquilo. Deveriam ter ido à delegacia na primeira oportunidade – mas, como sempre, Konoha era pequena. O delegado de polícia era, convenientemente, amigo próximo de Kiba e seus compatriotas. Não adiantaria muita coisa. Uma fiança, quem sabe, mas e depois? A morte? Se sobrevivesse, uma fama que a acompanharia por toda a vida? Que chegaria em seus pais?
Grunhiu, sozinha. Se recusava a pensar em seus pais. Voltou-se para a televisão, procurando algum filme açucarado o bastante para fazê-la esquecer da realidade.
Longe dali, Naruto se esforçava para prestar atenção na aula de literatura avançada. Grandes nomes das artes contemporâneas, mas seus pensamentos estavam longe. Há algum tempo isso vinha acontecendo. Não era nenhuma surpresa, apesar de tudo. Os mesmos olhos perolados rondando seus sonhos, e, agora, enquanto estava acordado também. Ficou esperando-a no estacionamento, mas ela não veio. Compreensível, embora decepcionante.
O dia anterior tinha sido, no mínimo, intrigante. Hinata tinha sido crua e direta, falando sobre coisas que ele não entendia, mas sabia que representavam um grande peso em sua vida. Ter partido, há tanto tempo, certamente teria efeitos – mas quais? Hinata não estava disposta a lhe dizer, e seus amigos não sabiam muito mais que ele, além do relacionamento agressivo. Tinha que descobrir, de algum jeito, alguma ponta solta, alguma luz. Tinha que reconquistá-la.
O professor os dispensou, e Naruto foi um dos primeiros a sair correndo. Desceu as escadas para o andar térreo, procurando, ávido, pela turma que saía do bloco B. Localizou Sasuke com uma facilidade notável – se lembraria, mais tarde, de gabar-se por aquilo –. O garoto trazia pastas e a bolsa versátil a tiracolo, conversando com um outro que não conhecia. Se aproximou, tocando seu ombro. Ele se virou, cumprimentando-o, e se despediu do colega de sala.
— Pensei que nos encontraríamos mais tarde, para o almoço. – voltaram a caminhar lado a lado, rumo ao estacionamento, já cheio de estudantes.
— Eu tinha que te perguntar uma coisa. Não vou almoçar agora. – gesticulou, nervoso, e Sasuke o olhou com aquelas íris ônix intensas.
— O que está aprontando, Dobe? – tentou decifrá-lo, e Naruto, incomodado, não manteve o contato visual.
— Você sabe se os pais de Hinata ainda moram em Asakusa? – respondeu com outra pergunta, e Sasuke, surpreso, parou de andar. Naruto se virou, tentando manter a postura determinada.
Em suas memórias, a família Hyuuga era perfeita, como aqueles comerciais de manhã. Se amavam e se suportavam. Nunca tinha visto Hiromi brigar com as filhas, embora ralhasse bastante, transformando as rugas de sorriso em expressões complacentes. Hiashi era justo e atencioso. Ele amava Hinata mais que tudo. Naruto não entendia porque Hinata não morava mais com eles, e, bem, tinha que começar por algum lugar. Rezava para que o recebessem, apesar de não contar muito com isso.
— Você acha uma boa ideia conversar com os pais dela? – Sasuke fez parecer como se fosse uma péssima ideia, o que, talvez, era.
— Não. – respondeu imediatamente – Mas eu preciso tentar. – não se defendeu muito, no entanto, algo que sua voz fez Sasuke se convencer, suspirando pesadamente e afastando o cabelo dos olhos.
— Sim, eles moram. – disse, por fim – Nenhum de nós teve coragem de procurá-los, nem Sakura. – Naruto assentiu, compreensivo – Não seja um idiota, tudo bem. – aconselhou, por fim, e Naruto abriu um sorriso brilhante.
— Pode deixar.
Se despediu, correndo até seu carro, animado. Se lembrava do caminho, nos pontos altos da cidade. Em sua mente, treinou diálogos para abordar quem quer que atendesse. Era pouco menos de meio dia, não sabia se Hiashi estaria em casa. Depois de tanto tempo, seu estômago revirava ao pensar no patriarca. Gostava dele como um pai – passava tempo suficiente em sua casa para considerá-lo daquela maneira –, e, mesmo depois do episódio daquela manhã, a última que passou em Konoha, nunca deixou de se sentir culpado por ter partido sem se despedir deles também.
Rodou com os vidros baixos, perdido em pensamentos. Alcançou a rua íngreme, avistando as casas sofisticadas se erguendo pelos muros. Eram elegantes, de vários andares e jardins, reluzentes com o sol que as atingia do alto. Deixou que as lembranças se desfizessem a medida que chegava próximo a residência Hyuuga. Estacionou na rua paralela, ativando o alarme, embora não precisasse. Aquele bairro era a imagem contrastante do resto da cidade, mas todos exaltavam seus moradores como deuses. Afinal, era seu dinheiro que movimentava a economia daquela vila.
Parou diante da casa Hyuuga, analisando atentamente seus detalhes. O jardim era aberto, direto para a porta principal. Estava cuidado, mas não vívido. A grama cortada era opaca, as flores, murchas. Havia uma árvore, onde ele e Hinata costumavam ficar deitado sob a sombra, mas ela estava sem folhas, mesmo que a época do ano começasse a esquentar. A pintura estava desbotada, sem vida. Como se tivesse perdido sua essência.
Naruto respirou fundo, atravessando o caminho de concreto, enquanto mexia os dedos, nervoso. Parou diante do batente, com vasos de plantas abandonados. Nervoso, ajeitou as roupas, o cabelo e, finalmente, tocou a campainha.
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