Here Without You
1 It's nice to see you again
Notas iniciais
??”Notas no final do capítulo.
Peter Brown não se conseguia lembrar de alguma vez ter chovido tanto no estado de Michigan. Para ele, parecia que até o céu se emocionava com as suas tragédias. Não sejas dramático, Peter!— dir-lhe-ia a sua mãe- O mundo não gira à tua volta. Mas mesmo já tendo ouvido esse ralhete milhares de vezes, ele não conseguia convencer-se do contrário. Porque, afinal, quem é que não iria chorar sabendo da sua história? Só um monstro sem coração, de certeza.
Tendo alguma coisa a ver com ele ou não, continuava a chover lá fora. A casa estava gelada e Peter não tinha coragem de tirar as cobertas que o cobriam até ao topo. Pedacinho a pedacinho, o rapaz lá foi tirando o cobertor que lhe tapava os olhos. Não foi uma boa decisão. O seu quarto encontrava-se num estado completamente deplorável. A bagunça estava instalada e tudo parecia fora do sítio: desde roupa espalhada por todo o lugar a caixas de comida do dia anterior.
A secretária de estudo, que se encontrava no cantinho mais escondido do quarto, era o reflexo da sua vida naquele momento. Confusa, desorganizada e apilhada de tarefas para fazer. Contudo, para Peter, continuar a stalkear as redes sociais do seu ex, debaixo de cem camadas de cobertores, parecia a única coisa sensata a fazer. E chorar, é claro.
—Peter!- a voz doce da sua mãe ecoou no quarto- não queres mesmo comer nada?
—Mãe, não tenho fome...- Peter respondeu-lhe, rouco por causa de ter estado a chorar, o que provavelmente só agravou a preocupação de Sophia Brown.
—Querido, tu não me pareces nada b-
—Mãe, não te preocupes. Só preciso de algum tempo sozinho. Eu vou ficar bem, garanto-te.
Ouviu-se um suspiro de desespero vindo do outro lado da porta e Peter não conseguiu evitar sentir-se culpado por entristecer a mãe daquela maneira.
—Tudo bem, meu docinho com mel- Peter sorriu, Sophia Brown e os seus nomes carinhosos— mas sabes que podes sempre contar comigo quando quiseres desabafar, certo?
—Claro, mãe.
—Amo-te muito- Sophia sussurrou, como se fosse algum tipo de segundo- nunca te esqueças disso.
—Também te amo- Peter sussurrou de volta- e mãe, por favor, não te preocupes comigo. Não vale a pena.
—Vale sempre a pena, amorzinho- os passos da mãe a afastar-se da porta fizeram-se ouvir no quarto- Ah! E, Peter? Não te esqueças de estudar, sim? Tens exame amanhã.
Foda-se. Como é que me esqueci de estudar para aquela merda? A indignação subiu-lhe pela garganta. No entanto, Peter obteve rapidamente a resposta quando pegou, da cabeceira, o seu livro de Literatura. O que antes era como arte para ele, agora parecia apenas um emaranhado de palavras sem sentido. A sua cabeça estava enevoada e as suas dores musculares não o deixavam concentrar.
Vamos lá, Peter! Não podes falhar nesta merda de exame!
Chegando à conclusão que as dores não iriam passar por magia e que, com elas, não ia conseguir estudar, Peter acabou por decidir telefonar a Emmie, que tinha uma mãe médica, à procura de solução. Parecia a ideia perfeita. Resolveria o seu problema e não teria que preocupar ainda mais a sua mãe. Tudo iria ficar melhor, certo? Errado.
Peter sabia que não devia ter voltado a tocar no telemóvel.
Nova notificação- Instagram: Scott Thompson acabou de publicar uma foto.
E Peter também sabia que não devia ter ido ver a tal foto. Mas ele fê-lo na mesma.
Quando me diziam que um dia eu iria encontrar alguém que faria o meu coração andar aos saltos pelo mais tolo dos motivos, eu não acreditava. Agora que estou contigo, percebo o que eles me tentavam explicar.
Acompanhada da legenda, uma fotografia, que devia ter sido tirada com a câmara profissional (e cara) do pai de Scott, retratava uma menina ruiva, muito sorridente, e um rapaz belíssimo, que a abraçava por trás.
E o que doía mais a Peter naquilo tudo? Scott tinha lhe dito as mesmas palavras, apenas uns meses atrás.
O calor apertava e os dois rapazes, de mãos dadas sobre a mesa, comiam um gelado para os refrescar. O lugar escolhido dessa tarde tinha sido uma pequena esplanada abandonada, bem longe dos olhares curiosos, bem longe do pai de Scott.
—Hey!-Peter olhou-o de sobrancelhas erguidas- podes me explicar o porquê desse sorriso idiota?
Scott abanou a cabeça, como se tivesse saído de um transe.
—Oh, nada! É só que...- Scott voltou a sorrir- ficas fofo com a boca coberta de gelado.
Peter sentiu a sua pele ficar três tons mais escuros.
—Também ficas fofo assim, todo envergonhado.
—Scott!- Peter tentou esconder a sua cara, rosada no momento, entre as mãos- Para com isso!
—Pronto, pronto! Não era a minha intenção deixar-te nesse estado- aquele sorriso torto, que Peter tão bem conhecia, dizia precisamente o contrário.
—Uh uh...
Gentilmente, Scott retirou as mãos que outro rapaz usava para tapar a cara, sorrindo com carinho.
—Não imaginas o quanto toda essa fofura afetou o meu sistema interno.
—Meu Deus, Scott! É só gelado!
—Pois, mas é porque és tu- Scott olhou-o, pensativamente- Sabes, costumavam-me dizer que, um dia, eu iria encontrar alguém que faria o meu coração andar aos saltos, apenas pelo mais tolo dos motivos e eu não acreditava. Agora que estou contigo, percebo o que eles me tentavam explicar.
Peter sentiu o seu coração pulsar mais rápido.
—Desde quando é que te tornaste tão lamechas?
—Desde quando é que tu não gostas de coisas lamechas?
O jovem corou, olhando para baixo.
—Bem, eu não disse que não gostei...
—Ótimo! Então agora cala-te e deixa-me tirar o gelado que tens ao redor da boca.
—Uh...? Espera, Scott! Tu não vais mes-
Scott selou a boca de ambos num beijo e Peter deu-se conta que limpar a boca nunca tinha sabido tão bem.
Os seus olhos voltaram a ficar marejados, e os soluços que se seguiram foram inevitáveis. Peter enterrou a cabeça na almofada, para tentar abafar os ruídos, e voltou a esconder-se debaixo do seus cobertores. O escuro, como sempre, funcionava como um aconchego para ele. Sem se dar conta, os seus olhos, agora inchados, começaram a fechar-se, e o rapaz de coração partido acabou por cair no sono.
—_________________♡__________________
—Meia hora, crianças!
A voz aguda e extremamente irritante da sua professora acordou-o do sono leve. O mundo parecia andar à roda e Peter reparou que se tinha babado para cima da folha de exame. Espera, exame?
Oh, merda. Peter nem queria acreditar que tinha adormecido no exame!
Ah, foda-se! Que se foda este caralho! Peter pensou, batendo com a cabeça na mesa, num ato de desespero.
—Peter?- a voz agora preocupada da professora, que sempre gostou muito do rapaz, chegou-lhe aos ouvidos- Está tudo bem?
A turma estava toda a olhar para ele, muitos com um sorriso torcista, alguns com um olhar preocupado e Emmie, que de sobrolho franzido lhe fez um sinal com as mãos: o que se passa contigo?
—Hum, ma'am— Peter ajeitou os óculos que lhe tinham escorregado da cara durante o sono- eu não me estou a sentir bem...posso sair, por favor?
—Mas, Peter!- a professora estava atónita- E o exame?
—Eu sei, desculpe-me ma'am— a voz saia-lhe com dificuldade- mas eu não o estou mesmo a conseguir realiza-lo.
A professora suspirou.
—Muito bem, então. Não quero que estragues a tua nota por causa de um exame. Podes sair. Mas amanhã tens que vir ter comigo para combinarmos uma nova data. De acordo?
Peter sentiu uma onda de alívio a percorrer-lhe o corpo.
—Muito, muito obrigada ma'am— o jovem agradeceu, enquanto guardava os óculos na mochila e a punha às costas- muito obrigada.
Apressadamente, virou as costas à sala e saiu a correr daquele lugar infernal.
—Faltam 25 minutos, apressem-se!
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As duas crianças, sentadas no banco de madeira do parque, jogavam ao peixinho. Era um jogo merdoso, secante e, para o pequeno Peter de nove anos, bem inútil. Mas depois de uma tarde toda a jogar futebol e a brincar no amplo relvado, o menino só queria descansar. Preferivelmente, ao lado do seu melhor amigo.
—Tens alguma valete?- Peter olhou o outro rapaz com um sorriso torto, eu sei que tens.
—Porra, Peter!- Scott atirou-lhe três cartas de valete, frustrado.
Eram nestes momentos que Peter não odiava o jogo do peixinho. Ele adorava o facto que Scott acabava sempre por perder e por se enervar, como consequência.
—Peixinho! Oh, e já agora Scott, olha a linguagem! O que faria o teu pai se te ouvisse?
—Bem, ele não está aqui...- o amigo ofereceu-lhe um sorriso cúmplice- não precisa de saber.
—Não imaginas o orgulho que m-
—Scott! Anda cá, rapaz!- uma voz grave e praticamente gritante, interrompeu-o.
Peter rolou os olhos. Fala-se no diabo e ele aparece.
O homem de cabelos escuros e bigode, de terno e gravata, olhava para os dous com uma expressão raivosa e severa. Esse homem, que agora Scott chamava de pai, sempre lhe tinha passado energias negativas. Sem saber explicar muito bem porquê, Peter odiava-o.
Por isso o rapaz nem se despediu quando, pai e filho, se afastaram lado a lado. E mesmo tendo se sentido um pouco triste por ver o melhor amigo partir, Peter tinha sempre um pensamento a que se agarrar. Sempre vou vê-lo amanhã.
Os seus dedos pálidos contrastavam com a madeira escura do banco do parque. Ele e Scott tinham essa mania. De comparar o tom de pele de cada um com a cor do banco do parque. Scott, com a sua pele morena, era sempre o que mais se aproximava da cor da madeira. Peter sorriu à recordação da brincadeira idiota. Era irónico a quantidade de memórias que aquele banco e aquele parque lhe traziam. O jovem sentia como se eles fossem testemunhas da sua história de amor.
Cautelosamente, Peter sentou-se no banco. Olhando para o parque, o rapaz apercebeu-se da falta que Scott fazia lá sentado e o quanto ele faria para que ele realmente estivesse ali. As lágrimas voltaram a mancharam-lhe os olhos. Eu amo-o tanto! Não é justo! Os soluços vieram logo a seguir mas não pararam tão rápido como começaram. Tudo o que ele conseguia pensar era no quanto amava Scott e no quanto toda aquela situação era injusta.
—Peter?- o rapaz nem precisava de se virar para saber quem o tinha chamado. Grave, bonita e bondosa, a voz dele só contribuiu para agravar a sua crise de choro.
—Credo, Peter!- o rapaz sentiu-o aproximar-se, com receio, quase como se ele tivesse alguma doença contagiosa ou algo do género. Esse pensamento deu-lhe vontade de vomitar.
—Peter, olha para mim!
Contrariado, Peter acabou por encara-lo. E lá estava ele. Scott Thompson, mais bonito do que nunca, olhava-o de pé com um semblante cansado.
Notas finais
Gostaram do primeiro capítulo? Querem saber o que acontece a seguir? O que acham que preciso de melhorar? Contem-me tudo isso nos comentários!
Já tinha esta história na cabeça à algum tempo, e sentia que estava na hora de a partilhar com alguém. Acham que fiz uma boa decisão? ;p
Como esta é a minha primeira história everrrr, era muito importante para mim ter algum incentivo por parte dos leitores. Preciso de saber se alguem quer mesmo que eu continue a escrever :)
Bem, por hoje é tudo. Beijos unicornianos ♥
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