Notas iniciais
Demorei um pouquinho mais a escrever este capítulo porque queria dar-lhe um toque especial, mas a verdade é que acho que falhei e não como não sabia que mais volta lhe dar, assim ficou.
Espero que não tenha ficado assim tão mal, mas sinto que me desiludi a mim própria com este capítulo, mas enfim, só posso contar com a vossa opinião.

Está a chover outra vez. Londres é assim, imprevisível. Se a agitação citadina já é grande em dias normais, agora ainda pior com os Jogos Olímpicos quase a começar. As pessoas correm pela rua, alheias a tudo. E eu fico a vê-las pela janela. Como podem elas andar assim tão despreocupadas?

Elas não sabem que talvez o amanhã possa ser tarde de mais?

Tenho tantos pedidos de desculpa a fazer. Tenho tanto a dizer, tanto a confessar. Eu peço para que esta noite me chegue para tudo isso.

Tenho que pedir desculpas ao George. Ele sempre foi o mais novo, e por isso sinto que não lhe dei devido apreço. Ele sempre foi, para todos, um cachopo, e o Ringo sempre foi o adulto, já que quando o conhecemos ele tinha carta de condução no bolso do fato e uma barba rija. Eu sempre tratei o George como um miúdo, toda a minha vida. E mesmo tendo estado ao lado dele a segurar-lhe na mão, não consegui admitir esse meu erro. Ele estava no leito da morte e não quis falar. Mas se calhar ele teria partido (ainda) mais em paz, e a verdade é que me deixaria mais descansado a mim.

Tenho que pedir desculpas ao John. Na verdade eu não consigo estar feliz por o ver de novo. Todo eu estou cheio de medo e aflição. A última conversa que tivemos foi pacífica, mas…e se ele me odeia? E se ele partiu sentindo isso por mim? Eu não consigo, nem nunca consegui o odiar. Na altura era errado e quase que proibido dizer a alguém do mesmo sexo que o amávamos, mas eu amava muito o John. Ainda hoje o amo e vou-lhe dizer isso mesmo. Sem receio, sem vergonha. Vou dizer-lhe mesmo que o amo e sempre amarei como amigo que foi para mim. Como líder, como irmão, como companheiro. Eu amo-o porque ele sempre esteve lá para mim, e eu sinto-o a meu lado, seguindo cada passo meu.

Não foi só uma vez, porque não será a única, em que olharei para o lado e o verei ali.

Por fim tenho que pedir desculpas ao Ringo. Antes que seja tarde de mais ou para mim ou para ele. Por vezes posso parecer um idiota que só quer tirar dele as luzes da ribalta e o protagonismo, mas eu não o faço por querer. Ele sabe que eu o adoro e que não era capaz de tal maldade, mas eu gosto de ver as pessoas rir e saber que elas aplaudem o que faço. Gosto que as pessoas riam como o John conseguia fazê-las.

Eu sinto a falta dele todos os dias. Não há um em que eu não pense nele. Às vezes dou comigo a pensar: “O que seria que ele faria neste momento?”. Tenho a sensação de sentir a mão dele sobre o meu ombro, de ouvir as gargalhadas histéricas dele e sinto-me sortudo por ter conhecido o interior terno e frágil dele, que tentava a todo o custo esconder do mundo. Mas que não conseguia esconder de mim; eu sabia lê-lo nos olhos. E ele sabia ler-me a mim.

No entanto, ao lado dele eu sempre era o mais delicado porque deixava transparecer assim a minha personalidade. Então quando ele via nas minhas feições uma certa insegurança, especialmente nos últimos anos, quando eu sentia que o estava a perder, ele punha os óculos na ponta do nariz e deixava-me olhá-los nos olhos, assegurando que ainda era ele. O John que sempre conhecera.

Mas isso não era verdade. Ele sabe que mudou. Ele sabe que a banda se desmoronou por causa da morte do Brian, do gerenciador da nossa carreira, porque todos quisemos ser os líderes e mandar. Porém, as nossas amizades ficaram um pouco minadas por causa dela. Ele sabe bem disso. Mas o que mais me metia nervos não era ela, bem ela também me irritava, mas eu ficava fora de mim ao ver o John segui-la como um cachorrinho. Agora não sei como encará-lo. Tenho tantas saudades dele, mas se por causa de tudo isto ele me odeia?

Eu já estou no Wembley, para evitar os jornalistas que vão estar pior que a sarna. Eu não consigo verbalizar nada, por mais que tente. Não quero repetir aquele episódio das declarações sobre a morte do John. A minha cabeça estava num rodopio, e não conseguia sequer pensar. Dizem que os homens não choram, mas eu chorei muito assim que soube da morte do John. Chorei assim que deixei o hospital após ter visitado o George pela última vez.

E agora estou sentado com o baixo no colo e uma lágrima caiu sobre ele. Ontem a vida parecia tão fácil, e eu acredito nesse ontem. Só que para mim, o “ontem” aconteceu há meio século. É assim que sei que estou velho, meio século…Sinto saudades da Linda, foi algo que também não consegui ultrapassar. Como eu quero tanto viver no amanhã. Mas o mundo continua a girar e eu tenho que seguir a minha vida.

Daí a pouco eles chegam e eu continuo-o inseguro. Não quero que eles me odeiem, não quero. Enquanto tento parar de chorar começo a ouvir pessoas a falar do lado de fora. Uma leve batida fez-se ouvir e logo entrou o Ringo. Ficamos uns segundos a entreolharmo-nos e ele por fim entrou.