Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro;
a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.

(Platão)

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Jakku, tempos presentes.

Bem cedo naquele dia, quando o Sol nascia anunciando o fim da intensa escuridão da noite mal iluminada, as malas do senhor Lorenzo balbuciavam por suas costas à medida que ele voltava para cada cômodo de sua habitação harmonicamente improvisada, procurando por mais um de seus pertences que ele faria questão de não esquecer na casa.

Afinal, ele estava partindo, mesmo sem saber a rota ou o destino, tudo que fazia era, desesperado, tentar sair de lá. Precisava fugir, ou como preferia dizer a si mesmo, ausentar-se temporariamente. Não havia mais segurança para ele em Jakku, em questão de segundos o destino da galáxia poderia ser corrompido devido sua falta de atenção.

Até mesmo a existência de sua morada já não seria mais concisa nem lógica. Estava ali de favor, pela sorte de possuir genes aristocráticos de sua importante família correndo por seu sangue, pela existência de sua prima, a última pessoa viva de seu nome da qual se lembrava. Apenas aquilo lhe garantiu a sobrevivência. Vivia de favor, cuja única responsabilidade era guardar um bem precioso para a jovem, mas apesar de seus mínimos esforços e desta ser sua "única" e "simples" responsabilidade, ele conseguiu perder este bem.

Dirigiu-se mais uma vez até o quarto até se lembrar da última gaveta que não havia vasculhado. Quando a abriu encontrou o boneco feito algodão e retalhos que representava um piloto da resistência, o antigo companheiro de sono da sua companheira de moradia, Kira. Nunca imaginara o quanto a menina, tão inútil e insignificante como ele mesmo dizia, faria falta em sua vida.

Por fim apanhou o boneco e seguiu apressado em direção à porta com todos os pertences amarrados em sacos ao corpo. Estava determinado e ao mesmo tempo desesperado, quase sufocando-se com sua respiração acelerada. Olhou mais uma vez para trás e então abriu a porta. Mas não foi apenas a areia do deserto que viu quando o fez, mas também a personificação do demônio em seus sonhos, a própria razão pela qual estava fugindo, Melyrane Devift, sua prima, ou Mera, como exigia ser chamada agora.

Houve um tempo em que Mera Ren era uma pessoa agradável. Apesar de sempre ter tido uma grande tendência ao lado sombrio, Mera soube conviver harmonicamente com seus companheiros da Ordem no início.

Melyrane Devift pertencia a uma família abastada e muito influente de Hosnian. Seus pais pouco tinham tempo para se dedicar aos filhos, motivo pelo qual, somado às influências de seu próprio irmão, Aquil, Melyrane desenvolveu sua tendência nata para o mal.

Com uma habilidade enorme de persuasão, Melyrane logo cedo aprendeu a se virar sozinha. Ela era ótima com as palavras, uma oradora nata. Tirava proveito de seu dom todas as vezes que lhe fosse necessário.

Ela e seu irmão viviam por si sós, desde muito cedo aprendendo a se virar sozinhos quando não podiam contar com a ajuda dos pais. Seu irmão possuía tendências ainda maiores para o mal, fazendo com que ela o seguisse em todos os seus planos. Se não fosse por infortúnios do futuro, talvez hoje ele seria um dos maiores cavaleiros da Primeira Ordem.

Melyrane fora sempre muito ambiciosa. Sempre tivera habilidades além de seu compreensão. Com o mito dos jedi crescendo cada vez mais, o temor de que se existissem novos seres ditos mágicos perambulando pelos planetas, seus pais não souberam administrar os eventos especiais que aconteciam em torno dos filhos, não lhes dando a devida assistência da qual necessitavam.

Quando finalmente ouviram falar sobre um tal templo jedi em Alfheimr já era muito tarde, ambos deixaram-se levar pelos pensamentos sombrios com a influência e auxílio de Snoke.

Quando deixou sua família, sem remorso algum, Melyrane decidiu deixar para trás qualquer ligação que pudesse ter com os pais, assim, adotou o pseudônimo Mera, uma metáfora à Dama Aristocrática que era. Assim, nasceu Mera Ren. Mera foi, no fim, a mais fácil a se desapegar da vida antiga, a mais sedenta por poder, a mais maleável de todos e a que menos acreditava no equilíbrio advindo da união entre o bem e o mal. Para ela, o lado sombrio supria todas as suas vontades.

"Está pronto, Ben?" Indagou Mera, ainda muito jovem na Primeira Ordem. "Sabe que não pode voltar atrás, não sabe?"

"Não precisa reforçar, Melyrane!" Exclamou Ben, ainda apenas Ben. "Estejam preparados." Ele dizia se dirigindo aos companheiros, que na época eram oito sem contar com Ava e Kendrick, que ainda não haviam aderido à Primeira Ordem. "Vocês já sabem sobre minha conversa com o líder Supremo e ele os orientou, fiquem longe das duas!" Disse firmemente. "Ouviu Devift?" Mera assentiu com desprezo. "Eu não quero que se comuniquem com elas, Snoke as levará para a base antes que terminemos nossa missão."

"Está bem, So-lo!" Ela soletrou para seu futuro mestre andando em direção à nave que os levaria até o planeta.

"Você escutou!" Advertiu uma última vez segurando firmemente em um dos braços dela. "Fique longe delas!"

"Solte-a!" Disse Aquil firmemente protegendo a irmã. Ben a soltou e então lhes deu um olhar sombrio, mostrando-lhes que estaria de olho em todas as suas ações em Gesin.

Quando chegaram ao planeta, seus cavaleiros imediatamente puseram-se a destruir tudo que viam pela frente. Sem alguma piedade, os cavaleiros de Ren matavam qualquer coisa que se mexia do local, nada lhes era páreo.

Ben, no início, não sabia exatamente o que estava fazendo, apenas seguia as ações de seus companheiros, destruindo casas, o abastecimento de comida, tudo. Chovia muito no dia e com a escuridão da noite ele não conseguia se orientar muito bem.
Após andar por algum tempo e tentar reconhecer as pessoas que estavam sendo mortas, Madame Pomfrey lhe surpreendeu aparecendo logo a sua frente. Ben estava mascarado, não esperava ouvir tais palavras:

"Ben Solo." Direcionou-se ao rapaz. "Vai mesmo se esconder por trás de todo esse traje?"

Seu coração bateu mais forte sabendo que seu teste só seria concluído se ele matasse aquelas pessoas com quem convivera, mas a Madame era diferente, ela auxiliou a mulher que ele amava em seu momento mais difícil, trouxe sua filha ao mundo e tirar a vida daquela mulher lhe parecia impossível.

"Não precisa se esconder de mim, Solo... se é o perdão que precisa então saiba que eu o perdoo!"

Um nó se formou na garganta do rapaz que não dizia nada.

"Alguns precisam se sacrificar pra que a paz na galáxia um dia chegue. Eu sempre vi em você, o lado sombrio, sempre esteve lá, não é mesmo? Sempre tentando te tirar qualquer resquício de luz. Mas você sabe que não conseguirá se livrar dela para sempre. Precisa dessa provação, Solo, para que no futuro entenda que não se pode escolher entre o bem ou o mal, mas sim trabalhar para o equilíbrio..." e então sua expressão parecia cansada. "Tudo fará sentido um dia, assim como fez ao povo Maverins. Você não aprendeu nada com as histórias de nossos antepassados? O mal dizimou metade daquela população, e só souberam se reestruturar quando encontraram o equilíbrio."

"Está errada." Ele arfou, então respirou fundo. "Eu tentei trabalhar com a luz e ela não me deu nada, não me levou a lugar algum!" Ele olhou para p chão. "Pelo contrário... fui rejeitado por aqueles que eu seguia simplesmente por amar demais. Estou errado em amar demais, Madame Pomfrey?"

E então ela foi atravessada por um sabre, Ben urrou ao perceber que alguém lhe apunhalara, ele, o irmão de Mera, o mais sanguinário.

"Droga!" Gritou e então o garoto apenas saiu correndo seguindo seu caminho.

O corpo de madame Pomfrey jazia no solo de Gesin. Ele a viu tomar seu último suspiro, viu as últimas gotas de sangue saírem por sua boca.

"Droga!" Murmurou com ambas as mãos em suas têmporas e então respirou fundo. Ben seguiu seu caminho de encontro com os cavaleiros sem olhar para trás. Por mais que a dor em seu peito estivesse crescendo ele sabia que não poderia voltar atrás. Sabia que o dia chegaria, sabia que teria de matar aqueles que havia convivido, mas não sabia que seria tão doloroso.

Ele avistou uma nativa correndo em sua direção com um bastão em suas mãos, ineditamente e sem pensar ele tirou seu sabre vermelho do cinto e a atravessou.

Ela morreu pendendo sobre seu corpo, ele seria a última pessoa que ela veria. Quando seu corpo colidiu com o chão e o sangue deu cor às suas luvas, Ben avistou quem realmente ele procurava, Rey.

Ele correu em sua direção, sua noiva corria com Kira nos braços envolta por um lençol. Podia sentir, mesmo de longe, a dor e falta de compreensão no coração de Rey. Seu peito se apertou, o ar pareceu mais pesado. Ela corria tanto, agarrava-se ao corpinho da filha desesperada. Pela força! Pensou.

Ele seguiu correndo em direção às duas quando avistou Aquil, parece que o rapaz foi mais rápido. Foi então que tudo desabou.

Ben viu o corpo de sua mulher cair no chão e Kira ser arremessada a poucos metros de sua mãe. Ela grunhiu de dor e Aquil se aproximava dela com seu bastão em punhos.

"Não!" Ben gritou correndo em direção à Rey. Seu mundo acabaria no momento em que o bastão de Aquil colidisse contra a cabeça de sua esposa. Seu coração disparou, doía para respirar, a adrenalina circulando entre suas veias. Ben não pensou duas vezes, apunhalou seu sabre e permitiu que a luz se fizesse ardente iluminando a noite. Rey estava caída de bruços no chão enquanto gritava para que Kira corresse. Ela obedeceu e Ben não sabia se sentia-se aliviado ou mais confuso por isso, não haveria chances para aquela garotinha sozinha.

Ben se sentia tão culpado, quantas vezes ela deve ter procurado por ele, quantas vezes procurou pelo socorro de seu marido?

Aquil levantou o braço e segurou firme em seu bastão, fazia o movimento, a qualquer momento tiraria sua vida, mas Ben o impediu. Seu sabre dilacerou o rapaz, o atravessando. Ele apenas ouviu o grito de Aquil ao sentir o sabre sangrento de Ben o rasgando. Então ele caiu no chão agonizando quando Ben ouviu o grito deturpador de Mera invadir seus ouvidos.

Ela parou tudo o que fazia e jogou-se sobre o corpo do irmão ainda com algum resquício de vida. Em contrapartida, Rey desesperadamente se levantou, o observando sem compreender o que aquele homem, um inimigo, pretendia salvando uma vida invalida para eles.

Ele tentou se aproximar, tentou algum contato. Ele podia tirar aquela máscara ali mesmo e desistir de tudo, mas era tarde demais, ela jamais o perdoaria se soubesse que ele participou da carnificina. O plano era perfeito, ela não deveria saber de nada, não poderia ter conhecido aquela máscara, sua nova "face" a partir de entao.

Ben planejava explicar tudo a Rey quando estivessem já na base, mas tudo foi por água baixo quando Snoke traiu o acordo entre eles. Quando ele as pegou e levou-as a nave, ao invés de levá-las até à base da Primeira Ordem, mudou a rota e as abandonou a própria sorte em Jakku, mãe separada de filha em locais diferentes do planeta árido.

Sua intenção era cortar toda a relação que Ben poderia ter com seu passado, pouco depois retirando toda sua memória. Ele já não se lembrava mais de Rey ou Kira. Por fim, esperava que as duas definhassem no deserto, mas não foi o que aconteceu.

O coração de Lorenzo disparou, a garganta seca mal conseguia cumprimentar Mera. Ela o fez voltar alguns passos, até que passasse a sua frente em direção à cozinha. O rapaz olhou para a porta aberta, a areia, a imensidão vazia de Jakku, pensando em correr, mas em questão de segundos seu pescoço estaria sendo enforcado pelas mãos de Mera. Resolveu segui-la, o mais sensato.

"Parece que não mudou tanta coisa aqui. A mesma velha decoração de sempre." Comentou a jovem ao manusear algumas esculturas em latão que davam vida ao ambiente. Tudo feito pelas mãos de Lorenzo.

"Tem uma boa memória." Respondeu o homem em tom ameno, desconfortável, então se sentou em uma cadeira na ponta da mesa, ao contrário de sua prima, tentando permanecer o mais distante que fosse possível.

Mera tornou seu olhar ao jovem, sua íris quase sem cor penetrando os olhos do primo. Poderia enxergar sua alma ali, se ela tivesse uma.

"Vim em má hora!? Percebi que estava apressado, ia a algum lugar?" Mera apanhou uma maçã do centro da mesa e ajustou-se a cadeira, ao mesmo tempo que começava a descascar a fruta com uma faca que Lorenzo nem se lembrava de ter deixado lá, e isso possuía um tom perigoso.

"Não." Engoliu em seco enquanto fixava o olhar no objeto cortante em sua mão. "Digo, estava saindo para uma caminhada, uma rotina nesse planeta monótono."

"Caminhada?" Ela sorriu. "Quem sai para caminhar com tanto trambolho nas costas?"

"Estava indo buscar suprimentos." Baixou o olhar. "Mesmo com sua ajuda as vezes me falta recursos aqui. Sabe, esse planeta é uma droga."

"Entendo." O respondeu, e em seguida Lorenzo a observou fazendo algum gesto estranho com o nariz, como se estivesse tentando sentir algum cheiro enquanto movimentava o rosto para todos os cantos da habitação. "Que cheiro... agradável." Ela tossiu. "Areia e pó, não tem limpado esse lugar?"

O jovem mais uma vez baixou o olhar e então coçou a testa.

"Temia que estivessem mortos." Continuou a falar, agora com o olhar fixado em seu primo. Lorenzo, que mastigava um pedaço velho de pão, diminuiu a velocidade de suas ações, levantando o olhar lentamente à mulher. "A galáxia é um lugar perigoso para quem possui algum tipo de magia."

"Não tem sido fácil." Ele respondeu, a voz fraca.

"Para nenhum de nós." Respondeu voltando sua atenção à maçã.

"Magia assusta as pessoas, e não foi fácil deixá-la em segredo. Temi que pudessem tentar usá-la devido suas habilidades especiais. É muito jovem."

"Oh, sim. Você tem noção das coisas." Mera respondeu.

"Depois que me trouxe a menina, tive de aprender a ter noção. Ela é praticamente incontrolável." Mera então parou suas ações e focou toda sua atenção no prima novamente. "Fiz tudo que me pediu, me esforcei ao máximo para não deixar que nada a acontecesse. Protegê-la daqueles que poderiam querer queimá-la ou explorada para ganhos pessoais."

O clima da conversa ficava cada vez mais intenso, e o sangue de Mera começava a borbulhar de uma forma que lhe deixava preocupada. Sentia o perigo.

"Isso tudo mudará, a Primeira Ordem reinará a galáxia toda e aqueles que se atreverem..." ela parou, olhou novamente ao redor. "Mas para isso... preciso que Ben Solo e sua família não estejam mais aqui."

Lorenzo, que possuía uma feição amena, agora comprimia o rosto em preocupação, olhando para baixo e focando toda sua atenção nas mãos.

"Sabiam que tínhamos Kira em nossas mãos..." Mera não entendeu o tom da frase, levantando o olhar e transformando a feição de seu rosto em algo sério. "Ela escapou."

Ela engoliu em seco, olhou ao redor, e com a fala trêmula, seca, perguntou:

"Você a deixou ir?"

"Ela fugiu."

"Como? Quem a deixou escapar?"

"Foi um acidente." Respirou fundo, o ar mal entrando em seus pulmões quando viu os artefatos que repousavam sobre a mesa voarem para o canto da habitação com a súbita reação de Mera, que levantou-se em um estalo e com a Força lançou tudo pelos ares.

Havia ódio em sua fala, e pouco polimento:

"Mantê-la em segurança era tudo que precisava ter feito." Disse num tom alto e agressivo. "Incompetente, você tinha apenas um trabalho a fazer."

"Mera..." Tentou apartar.

"Sou grande na ordem de Ren, Snoke conta comigo para guardar a criança, não tê-la em minhas mãos só dará poderes à mãe da criança, à Ren, à Snoke, irão continuar me desafiando!" Respirou fundo e em seguida sentou-se.

"Mera, acalme-se."

"Eu os quero aniquilados, Lorenzo! Quero suas cabeças em uma lança, e ver os corvos devorarem seus olhos." Ela sorriu com prazer. Olhou para o lado, onde podia ver, através da janela, o Sol quente iluminando o dia. "Iremos atrás dela. E você vai encontrá-la!"