Herdeiros do Império - (Reylo)
5 O Baile
"Estou desmoronando." A voz de Kylo Ren, agora Ben Solo diante de seu pai, ecoou. "Eu quero me livrar dessa dor." Lágrimas enchiam seus olhos. Seu coração estava realmente apertado. Em anos aquela fora a primeira vez que demonstrou sentimentos depois de ter sido seduzido ao lado sombrio por Snoke. "Eu sei o que devo fazer, mas não sei se tenho forças!"
Han Solo se aproximou de seu filho. Rey agora os observava com Finn ao seu lado. Eles estavam todos parados. O Sol do Sistema Hosnian estava quase que completamente sugado pela Starkiller.
"Você vai me ajudar?" Ben diz, e Han Solo se aproxima ainda mais de seu filho, lhe respondendo com um tom calmo e suave: "Qualquer coisa."
Tudo fora tão rápido naquele segundo. O Sol agora já nem era mais tão perceptível. O corpo de Ben Solo fora tomado completamente pela fúria e raiva de Kylo Ren. Seu sabre estava atravessado sobre o torso de seu pai. Eles se olhavam tão profundamente e Kylo o agradeceu.
"Não!" Rey gritou. Ela quis sumir dali. Sua tristeza não estava apenas no fato de Han Solo ter sido morto pelo seu próprio filho, mas sim por todas as suas esperanças na redenção de Kylo Ren terem sido esvaziadas. Era o fim, não havia mais solução. Decepção tomou conta de seu corpo. Era como se ela sentisse que Ben Solo gritasse pela ajuda dela mas que, ao mesmo tempo, Kylo Ren sugava sua vida quase que completamente, acabando com um mínimo de chance de existência de luz.
Kylo sabia que aquilo era o certo a fazer, mesmo assim sentia-se impotente por ainda ter os sentimentos de Ben Solo gritando em sua cabeça. Ele sentia medo, luto, ele odiava a parte que Snoke lhe transformou, era a maior luta interna que alguém poderia passar. A luta entre a luz e a escuridão. A luta entre Kylo Ren e Ben Solo.
Kylo avistou Chewe e no mesmo momento o wookie lhe atinge com um tiro de blaster. Ele se desequilibra caindo de joelhos no chão de metal. Ele olha para cima, avista Rey, a garota. Seus olhos se encontram novamente e um calafrio sobe pelo corpo da mulher. Ela sentiu tanta tristeza. Era como se ao mesmo tempo em que ela o odiasse, ela quisesse o ajudar, ajudar a derrotar aquela parte horrível de sua vida. Salvar Ben Solo, seu Ben Solo... O sentimento de posse sobre aquele homem tomava conta de seu corpo, e ela nem sabia o motivo.
Era o fim. Em honra de Han Solo ela teria de mata-lo, mas ela se odiava por isso.
***
Aquele dia fora a mesma coisa. Após uma longa noite de pesadelos consecutivos, e a maioria contanto com a mesma temática em que uma criança era arrancada de seus braços por Snoke, Rey finalmente conseguiu acordar e agradecer por isso. Era ótimo estar longe daquele sonho agora. Ela só não entendia o que tinha acontecido. Aquele bebê usava um penteado parecido com o dela quando criança, os clássicos três coques dispostos um por baixo do outro, em ordem como uma espinha dorsal. E era fantástico o modo como aquilo parecia lhe ter tanta importância no sonho. A questão familiar que lhe fora apresentada, as pessoas felizes. Ela se perguntou se aquilo fora alguma memória de sua infância, de seus pais, de pessoas que ela pudera ter conhecido, mas nada, nada fazia sentido.
Para Kylo Ren a noite havia sido normal como todas as outras, ele não dormia muito e quando dormia era inundado de vislumbres horríveis de seu passado. Ele passava por todas as suas memórias novamente. O dia em que fora deixado por seus pais para ser treinado com seu tio Luke, um dia marcado em sua memória. O pequeno Ben se sentiu tão sozinho. Ele se sentiu um monstro, como se todos tivessem medo dele, e, tecnicamente, isso em partes era realidade. Após consecutivos distúrbios com a força seus pais chegaram à conclusão de que ele precisava de ajuda. Ben era muito sensitivo com a força e, sua mãe, Leia, podia sentir os genes sombrios de Vader circulando por seu sangue. Ele destruía coisas quando bravo, ele machucava seus colegas quando brigavam, ele, definitivamente, era diferente... Seus pensamentos também eram invadidos pelo dia do massacre no templo jedi, ele se sentia tão culpado. Snoke também aparecia em seus sonhos, tentando o controlar. Ele também via uma mulher, ela agonizava em dor e ele a via, todas as noites... mas não podia ajudar. Ele tinha vontade de acabar com a dor dela mas sempre que ele chegava perto Snoke aparecia e lhe impedia, mandava ele parar de ser fraco. Aquela figura feminina o acompanhou por muito tempo, até hoje. Todas as noites.
Ele não sabia o que ela significava. Eram sonhos preenchidos por dor e terror. Por morte, por chamas, por destruição. Ele via os cavaleiros de Ren, a mulher, seus pais, Snoke, e uma criança... Ele também via uma criança. E mais do que isso, ele sentia uma necessidade avassaladora de protegê-la toda vez que ela lhe aparecia. Ele se sentia tão fraco diante dela.
Ele se levantou naquela manhã se sentindo diferente, com um tipo de enjoo, tontura. Seus músculos estavam fracos, seus olhos estavam embaçados, sua garganta ardia e sua cabeça doía muito. Ele estralou o corpo e se levantou da cama que se localizava no centro de um grande e luxuoso quarto. O quarto dos cavaleiros de Ren eram um tanto especial. Possuíam todo o luxo que poderiam desejar. Tinha um lavabo bem grande e espelhos por toda parte.
Ben vestiu seus trajes escuros após se alimentar em seu próprio quarto. Uma mesa cheia de frutas e todos os tipos de pães lhe aparecia a frente e, ao lado, dois serviçais, enquanto outros dois permaneciam na porta. Ele tinha toda a segurança da qual ele precisava, mesmo assim se sentia sozinho. Aquelas pessoas eram como postes, não ousavam falar nem sequer olhar diretamente nos olhos de Kylo. Toda possibilidade de evitar contato era aproveitada, só faziam o que lhes era mandado. Isso de certo modo o incomodava, mas Snoke fora quem planejou tudo. Era bom que Kylo se sentisse isolado, sem contato humano, isso aumentaria a falta de piedade perante a eles. Um dos poucos contatos que Kylo tinha era com o General Hux que, em partes, era quase invisível também, não acrescentava em nada, suas conversas eram na maioria num sentido técnico. No fundo, Kylo já não sabia mais se relacionar normalmente com alguém.
Ele se olhou no espelho. Aquela cicatriz enorme atravessava seu rosto e toda vez que ele olhava para a mesma se lembrava dela. Da catadora de lixo. Da garota que uma vez o derrotou. O derrotou! Ele havia mentido para ela. Era obvio dentro dele de que ele estava fraco naquela noite. Era obvio dentro dele que ele tentou o seu máximo para impedi-la, mas ele não conseguiu, e isso o deixava mais intrigado ainda. O que tinha nela? O que ela era? Por que ele sentia que a conhecia de algum lugar?
Naquele dia na luta, quando Rey conseguiu apunhalar o sabre de Luke com a força, ele sussurrou: "É você!" Naquela hora ele sabia o que estava passando em sua mente. Um flash de memórias invadiu sua cabeça e ele pensou te-la reconhecido mas, tempos depois, Kylo se atreveu a contar a Snoke que pensava ter se lembrado da existência de Rey e então o líder supremo o convenceu de que tudo aquilo era loucura de sua cabeça, e ele acreditou. Ele nem mais se lembrava do que pensou naquele dia. Era tudo branco novamente. A lavagem cerebral de Snoke funcionara novamente, principalmente na mente de Kylo Ren. A única memória daquele dia que vinha à sua cabeça estava no formato de um sentimento. Kylo não conseguia de jeito nenhum odiar Rey. Ele a venerava tanto que sua morte talvez fosse a única solução, então ele se rendeu aos planos de Snoke. Matar a garota. Ele a venerava sem saber o porquê, ele só o fazia. Ele se achava tão imbecil por isso, e mais imbecil ainda por fingir estar treinando a garota quando, no fim, ela morreria do mesmo jeito.
"É só questão de paciência e tudo voltará ao normal." Kylo pensou, conversando consigo mesmo diante do espelho. "A garota morrerá e ninguém nunca mais ouvirá seu nome, e será como se ela nunca tivesse existido." Quando Kylo olhou finalmente para baixo, para a pia, gotas de sangue caíam entre a água. Quando se olhou novamente no espelho, seu nariz sangrava. E muito.
Ele fez um bolo de papéis e limpou aquela imensidão vermelha que saía de suas narinas. Seus dedos já estavam todos inundados de sangue. Fazia tempo que aquilo não acontecia. A ultima vez fora quando mentiu a Luke sobre Snoke. Quando fora perguntado sobre os pesadelos e à sedução do lado sombrio. Ele negou com todas as forças e semanas depois Snoke conseguiu entrar totalmente em seus pensamentos.
Aquilo era a expressão de sua mentira, de sua fraqueza.
Aquela manhã se seguiu como de costume. Rey arrumou suas roupas, colocou seu uniforme cinza, se dirigiu ao salão para seu café e seguiu para seu treinamento com Kylo Ren. Eles mais uma vez treinaram a resistência de Rey, tanto física quanto mental. Kylo lhe ensinava defesa pessoal e como usar a força para derrotar o oponente. Pode-se dizer que eles estavam começando a se entender melhor agora, um entendia os movimentos do outro, a aprendizagem do outro, um se surpreendia com o outro. Rey era apresentada à força e Kylo era apresentado à técnicas de sobrevivência já que Rey vivera no deserto e sabia melhor do que ele técnicas de camuflagem e defesa física. Já Kylo lhe ensinava a defesa mental, aquela da qual dependia de técnicas telepáticas.
O treinamento acabara consideravelmente mais cedo naquele dia uma vez que Kylo Ren, Rey e o resto da equipe, precisariam se preparar para a grande noite, o Baile. Ela estava tão nervosa. Ele também.
Rey passou o resto daquela tarde dentro de seu quarto. Ela se dirigiu ao lavabo e tomou um banho bem quente. Todas as suas células mortas puderam ser substituídas por outras. Seus cabelos estavam molhados e dali a pouco estariam secos, perfeitamente presos em um coque delineado. Uma trança em sua volta o acompanhava. Rey estava com outras garotas se aprontando. As garotas que estavam sendo treinadas por cavaleiros de Ren. Elas tinham mais experiência com maquiagem e cabelo, coisa que Rey nunca sequer havia presenciado.
Leonora VanHale se aproximou de Rey.
"Você não vai começar a se arrumar?" Ela sorriu e tocou em uma mecha do cabelo de Rey que lhe caia sob os olhos.
"Eu não sei como fazer." Rey sorriu enquanto segurava em suas mãos um pó compacto. "Eu não sei para que essas coisas servem" ela sorriu timidamente.
"Você nunca se maquiou?" Hale riu, "você realmente nunca?" Ela foi interrompida por uma expressão frágil em Rey.
"Sabe, em Jakku não temos essas coisas."
"Ah! Você é de Jakku?" Impressionada Hale respondeu. "O deserto..." E com uma expressão de curiosidade Hale retornou seu olhar para a catadora de lixo. "Então eu vou te ajudar."
Hale começou a pegar vários utensílios do qual Rey não podia identificar. Ela só obedeceu os comandos da garota e em um tempo considerável ela foi convidada a se olhar no espelho. Quando abriu os olhos Rey não se reconheceu. Na verdade, ela parecia outra pessoa, e ela parecia identificar essa outra pessoa. A surpresa foi tão grande e enquanto ela se apreciava imagens distorcidas passavam por sua cabeça. Imagens estranhas. Ela via um lugar claro, pétalas brancas passarem por sua mente, caindo do alto. À sua frente várias pessoas, ela fechou os olhos. No fundo havia um rapaz trajado em roupas cinza médio. Ela se sentiu feliz, imersa de compaixão. Ela sorriu. A suavidade das flores que caiam tocavam em sua pele e um enjoo começou a tomar conta de seu corpo. Ela cambaleou e quase caiu quando finalmente abriu os olhos e Hale a segurava pelos braços. Rey se deparou novamente com sua figura no espelho, trajada em seu vestido preto com flores púrpura. Ela se achou tão incrível. Tão bonita...
"O que aconteceu? Você está bem?" Hale perguntou.
"Está tudo bem, é só que..." Ela fixou o olhar em seus olhos no espelho. "É como se eu já tivesse visto esse rosto em algum lugar..."
"É claro que já viu, é o seu rosto menina!" Hale caiu em risadas. "Agora vamos, não quero me atrasar." Hale entrelaçou seu braço no de Rey e então no meio do caminho paralisou. "Aliás, quem é seu par essa noite?"
Um calafrio subiu pela espinha de Rey.
"Par?" Ela sussurrou.
"Sim! Ninguém te convidou?" Ela se espantou. "James, o garoto de olhos puxados, me convidou para ser seu par essa noite, foi ele quem me enviou o meu vestido."
Quando Hale soltou aquela frase Rey se deu conta de que quem enviava os vestidos era quem seria o par para a noite.
"Lord!" Ela exclamou, "então quem manda os vestidos são os rapazes que irão nos acompanhar?"
"Mas é claro! O que você achou?" Hale sorriu, "Ah, por Lord!!!! Quem te enviou o vestido?"
"Kylo Ren!" Rey falou baixo.
"O que??? Kylo Ren? O mestre Kylo Ren???" A empolgação de Hale era extremamente visível, o que tirou o conforto de Rey.
"Fale baixo!" Rey exclamou.
"Não acredito que o mestre finalmente resolveu ter um par! Ele nunca escolhe ninguém." Ela disse. "Todos os anos ele vai sozinho ao baile. É o que se comenta..."
Rey ficou tão confusa naquela hora, tão horrorizada e amedrontada. Tinha medo do que aquilo poderia significar.
"Eu espero que isso não seja ruim." Ela sussurrou e Hale quase não ouviu.
"Garota! Isso é ótimo!" Ela ria e não conseguia se conter. "Você não imagina a quantidade de garotas que todos os anos dariam tudo o que fosse necessário para ser o par de Kylo Ren, não imagina o tamanho da frustração que é quando ele aparece sozinho na festa." Ela olhou fixamente nos olhos de Rey. "Menina, parece que hoje será seu dia!"
***
Kylo Ren estava em seu quarto, quase pronto. Ele vestia um traje escuro, um traje social mas que ao invés de terno se era utilizado uma capa longa. Ele estava deslumbrante.
Por baixo da capa ele vestia uma camisa e uma calça social preta. Calçava sapatos também pretos.
Ao se olhar no espelho Kylo respirou fundo. Ele encarou sua imagem por longos segundos e respirou fundo. Ele estava diferente. Ele não se sentia como Kylo Ren, mas sim como Ben Solo. Sua face estava clara, como se estivesse iluminada revelando a luz que ainda existia dentro dele.
Ele tentou matar essa imagem de sua cabeça, tentou se livrar de todos aqueles sentimentos e impulsos para o lado da luz. Ele lembrou-se de sua mãe, de o quanto ela amava vê-lo em trajes sociais, e como ele a achava linda em seus vestidos nas festas que eles casualmente frequentavam. Ele se lembrou dos tempos em que ele ainda era apenas o jovem Ben Solo. O jovem que acompanhava sua mãe em todas as ocasiões, que era apresentado como padawan e aprendiz de Luke Skywalker quando já mais velho, por volta de uns 17 anos de idade. Ele se lembrou de como seu pai tinha orgulho de suas conquistas a cada dia e como tio Luke se vangloriava em relação aos aprendizados como jedi. Ben Solo era um jovem promissor, o primeiro de sua linhagem, o mais novo jedi, o percursor de uma nova era de jedis.
Ele fechou os olhos e os apertou. Um nó se tornou presente em sua garganta. Logo ele teria de buscar Rey em seus aposentos e ele precisava estar melhor apresentado. Quando chegou em seu quarto se deparou com a ausência da garota.
"Mestre!" A voz de Hux o alcançou por detrás de seu corpo.
"Diga, General." Ele respondeu e Hux pôde olhar em seus olhos mais uma vez em tão poucas vezes em que o rapaz estava sem a máscara.
"A garota já está no grande salão. Ela foi acompanhada por uma das aprendizes de Mera Ren."
"Qual o nome?" Ele indagou.
"Segundo minhas informações, Eleonora VanHale." O ruivo respondeu.
"Desconheço." A imparcialidade na voz de Kylo era perceptível.
Kylo então seguiu em direção do grande salão, o local em que ocorreria o baile. Hux o acompanhava. Quando chegaram uma grande porta cor mogno com arabescos em ouro se abriu, revelando a luxuria da decoração. Havia grandes lustres de cristal. Eles reluziam as luzes. O salão tinha uma cor puxada para o ouro. Era um dos poucos lugares claros da base StarKiller. A luz da lua entrava no salão dando um toque alvo misturado com dourado à decoração. Havia bastante gente, cavaleiros de Ren, seus aprendizes, representantes dos sistemas que apoiavam à Primeira Ordem, guardas imperiais. A musica cessou e todos pararam para olhar Kylo Ren, todos o reverenciou. Era como se ele fosse um tipo de imperador, os aprendizes veneravam o mestre dos cavaleiros de Ren, as garotas então, mal podiam se conter. Ele era um ser notável.
Kylo cumprimentava todos por que ia passando, até que a música voltou a tocar e todos retomaram sua atenção à seus acompanhantes. Haviam diversos pares, diversos homens, moças, mas ele só procurava uma pessoa, Rey.
No centro do salão a garota estava acompanhada de Hale e James. Eles conversavam e pela expressão facial deles, estavam se divertindo bastante. O olhar de Rey então desviou de seus amigos e quando olhou para o outro lado do salão, seus olhos e coração se encontraram com os de Kylo Ren. Seus olhares de cruzaram, Rey sentiu pouco antes sua presença, antes de encontra-lo ela sabia que ele estava lá. Era uma conexão tão estranha entre os dois.
A feição de Rey pulou de um sorriso para um semblante fechado, mas o olhar permanecia fixo nos olhos escuros de Kylo Ren. Ele estava tão divino, pensou. Rey pensou o quanto aquele homem por debaixo de todas aquelas vestes e semblante imperial podia ser tão humano, como ela. Naquele momento ela viu nada menos que Ben Solo. Ele andou em sua direção e o coração de Rey começou a se acelerar. Ela não sabia o que fazer, não sabia se permanecia parada no lugar ou se andava em sua direção. A verdade era que a cada passo de Kylo Ren em sua direção as pessoas acompanhavam ainda mais o desenrolar daquilo. Todos o olhavam fixamente, percebendo que ele ia em direção à garota.
Finalmente ele chegou. Kylo não disse nada, ele apenas continuou seu olhar fixo na garota e então com um gesto delicado beijou as costas de sua mão. Os olhos avelã de Rey estavam tão esverdeados naquela noite, como esmeraldas, verdadeiros cristais. Ele sentiu um pulsar mais rápido passar por sua jugular. Ele engoliu em seco e desviou seus olhos dos da mulher. Ela respirou fundo.
"Vejo que fiz uma ótima escolha para seu traje." Ele falou com certa calma na voz. "Você está deslumbrante, purpura é uma cor perfeita para você." Ele sorriu. "É bom que todos vejam o quão fascinante minha aprendiz é, melhor que qualquer uma daqui."
Hale estava ao lado de Rey, paralisada, quado Kylo lhe lançou um olhar tão penetrante que ela entendeu o recado e saiu de perto deles. Todos no salão ainda os olhavam. Kylo Ren se aproximou um pouco mais da garota a oferecendo seu braço para que ela pudesse o cruzar com o seu. Os dois começaram a andar pelo salão em movimentos lentos enquanto Kylo Ren acenava com a cabeça para aqueles que os cumprimentavam, Rey fazia o mesmo.
"Estou me sentindo um tanto desconfortável." Ela confessou.
"Não há necessidades para tal sentimento." Ele a respondeu, em um tom de voz tão baixo que apenas ela poderia ouvi-lo. "Não minto quando digo que está bela, a mais bela desse salão. Então, não há motivos para se sentir desconfortável."
"Imagine! Delicadeza sua." A voz de Rey saiu num tom suave.
"Olha só que ironia, como o tempo é algo engraçado. Há meses atrás você estava tentando me matar, agora você está de braços cruzados comigo e corando a cada elogio que eu te faço." Ele sorriu, ela ficou mais sem graça ainda e apenas soltou um riso.
Os dois continuaram caminhando. Era tanta gente. Rey ficou maravilhada com a beleza das pessoas que passavam, com a quantidade exótica de genes. Eram pessoas de todas as partes da galáxia, todas apreciando o momento e venerando à Primeira Ordem afim de benefícios.
Uma mulher alta com cabelos louros e pele pálida se aproximou dos dois e começou a conversar com Kylo Ren. Rey ficou escutando tudo, parada. Não se atreveu se intrometer na conversa. Eles falavam sobre negociações, sobre os benefícios que a Primeira Ordem estava trazendo para a galáxia, sobre como os apoiadores da Republica precisavam ser destruídos e sobre como a Ordem de Ren estava crescendo cada vez mais.
"Apesar dos rebeldes terem explodido a antiga base StarKiller nós sabemos que aquilo não fez nem cócegas perante ao império que estamos construindo." Kylo Ren concordou gentilmente e os dois esboçaram risos. Rey engoliu em seco. "Ora, mas e quem é você?" Ela perguntou se dirigindo à Rey.
"A me desculpe, essa é Rey, ela é minha..."
"Temos uma futura imperatriz?" Ela o interrompeu antes que pudesse completar a frase e Rey corou. "É uma bela moça, uma bela escolha, rapaz." Ela deu um leve tapa no ombro de Ren.
"Ah, não, a senhora está enganada." Ele sorriu timidamente, "Essa é Rey, minha aprendiz. Muito apta com a força e futuramente uma das melhores da Ordem De Ren!" Ele sorriu olhando para a garota e ela estendeu sua mão para a senhora a cumprimentando.
"Muito prazer, Madame." A suavidade no tom de voz de Rey era tão bela.
"Ah, que falha a minha, eu poderia jurar que vocês dois formavam um belo cas... Ah, me desculpe, que constrangimento." Ela ria mas Rey percebera que ela estava um pouco alterada devido à quantidade de bebida que devera ter ingerido. "Se me dão licença." Ela seguiu em frente deixando os dois sozinhos novamente. Era perceptível o constrangimento na face de Rey.
"Eu lhe peço desculpas, mas espero que entenda que até o anunciamento oficial muitos acharão que você é, digamos..." Ele pigarreou. "Minha futura, é... noiva, ou algo do tipo..."
Rey corou mais ainda e um calor subiu por seu corpo, ela ficou furiosa.
"Eu entendo." Ela olhou para o chão e percebendo que sua aprendiz estava muito desconfortável Kylo parou em frente a ela e com um toque suave de seus dedos no queixo de Rey a fez o olhar nos seus olhos novamente. Rey ardeu perante aquele toque.
"Hey! Não se chateie com isso! É só até Snoke anunciar que você será minha aprendiz perante a comissão, não é comum os cavaleiros treinarem garotas, muito menos terem contato com elas por aqui, ainda mais para mim que sou o mestre. Eu lhe peço profundas desculpas." Eles permaneceram alguns segundos se olhando e o olhar sereno de Rey foi substituido por um olhar determinado, foi quando ela afastou a mão de Kylo de seu queixo e deu um passo para trás, quebrando a proximidade entre eles. Ela não falou mais nada.
Ela odiava aquilo, quem ele pensava que era para poder tocar seus dedos no rosto dela sem ao menos pedir permissão? O incrível porém era que apesar de toda aquela raiva que sentia subindo de seus pés até a cabeça passava e a fazia se sentir como se aquela proximidade e toque fosse familiar. Ela se apavorava com isso, tinha medo do que podia significar, mas ela seguiu adiante fingindo não se importar com os olhares e aproximações de Ren.
Depois de um tempo de muita bebida, dança e alguns aperitivos, o salão recebeu um toque de escuridão. Toda aquela claridade fora substituída por um sentimento estranho dentro de Rey. Ela começou a enjoar e ficar tonta. Kylo percebeu quando ela perdeu as forças na perna e cambaleou, ele a segurou, preocupado.
"Está tudo bem?" Perguntou com atenção.
"Sim, é só uma tontura..." Ela dizia com a mão na testa. Ele sentiu a temperatura dela com as costas de sua mão mas percebeu que ela estava normal. O problema mesmo era a presença de Snoke. Ele apareceu a partir de um holograma presente no salão, todos o reverenciou. Ela fez o mesmo com um certo incômodo. Ele não estava fisicamente presente. Ele não se sentia seguro para tal, apenas Kylo e General Hux sabiam da localização do líder supremo.
Rey não sabia o motivo mas em todas as vezes que ela estava na presença de Snoke ela sentia um desconforto enorme. Ela lembrava de seus sonhos, do quanto aquele ser a assombrava e trazia sentimentos de morte para dentro dela. Ela já o odiava mais que qualquer coisa na vida.
"Bem vindos, iniciados!" A voz distorcida de Snoke se propagou sobre aquele meio. "Bem vindos a mais um ano de treinamento." Ele estava sentado em seu trono, sua projeção era bem grande e Rey se perguntou se o homem tinha realmente aquela estatura, não era possível.
"Se estão aqui é porque concordam que a república já não é mais o sistema de governo adequado à nossa galáxia. Se estão aqui é porque de tal forma sabem dos benefícios que o lado sombrio traz à paz galáctica. Se estão aqui é porque de tal forma querem devotar sua vida ao novo Império e se tornarem cavaleiros de Ren e dar continuidade e honrar a luta de Palpatine e Vader, impedidos por aqueles assassinos e rebeldes." Todos aplaudiam e gritavam, eufóricos. Todos ali gritavam palavras de ordem e atacavam a República com palavras.
"Vocês serão treinados pelos melhores para que apenas os melhores continuem a linhagem de cavaleiros de Ren! Devemos ampliar barreiras. Vocês serão testados o tempo todo, tanto física quanto emocionalmente. Precisamos dos mais fortes ao nosso lado, o resto..." Ele sorriu ironicamente, "vocês sabem! Serão descartados." Rey sentiu um frio a barriga, o que ele quis dizer com descartados!? "Façam bom proveito dessa comemoração pois raramente presenciarão novamente momentos como esse!" Ele se levantou e por fim, terminando o discurso, falou: "Não há ordem sem a Primeira Ordem!" Todos urraram e repetiram a frase, inclusive Kylo Ren.
"Não há ordem sem a Primeira Ordem!" As vozes ecoaram.
Quando por fim da imagem de Snoke se desfez, Kylo puxou Rey para seu lado novamente a conduzindo até o centro do salão, onde todos dançavam e conversavam. A música era lenta e Kylo Ren se aproximou de Rey com cuidado, ela não hesitou.
"Me permite?" Ele perguntou fazendo um gesto de dança.
Rey não entendeu muito bem mas antes que pudesse responder sua cintura já estava nas mãos de Kylo. Ela corou novamente e seu coração acelerou. O rapaz a aproximou suavemente de seu corpo.
"O que é isso?" Ela perguntou baixo se afastando imediatamente do rapaz.
"É valsa." Ele a respondeu.
"Precisa de toda essa proximidade?" Ela rosnou.
"Olhe ao seu redor, todos estão dançando como normalmente duas pessoas dançam uma valsa." Ele sorriu tentando se reaproximar. Rey também se aproximou com uma expressão mais leve em seu rosto. "Às vezes eu esqueço que você é de Jakku, catadora de lixo." Ele sorriu docemente para ela.
Rey respirou fundo e novamente a mão de Kylo agarrava a sua cintura. Sua mão esquerda segurava a direita de Rey. Quando finalmente suas mãos se tocaram Rey sentiu um calafrio, uma sensação estranha subir por seu corpo. Kylo pegou a mão esquerda de Rey e colocou sobre seu ombro, retornando logo após a segurar na cintura da moça, agora com um jeito mais agressivo a aproximou de si. Seus corpos se encostaram suavemente. Ela perdeu o ar. Estava tão próxima dele. Ela olhava em seus olhos enquanto ele fazia o mesmo, a fulminando e sorrindo timidamente. Rey aos poucos foi se soltando e se entregando àquele sentimento bom que estava dentro dela. Rey nunca tivera contato humano antes, era difícil pra ela essas coisas agora. Rey não pode evitar em analisar toda a face de Ren. Ela deslizou sua visão dos olhos do rapaz até sua boca. Analisando o caminho da cicatriz. Rey ousou tocar nela, com um toque muito suave, a desenhou. Por fim seus dedos estavam tocando os lábios do rapaz. Ele ardia por dentro, fechava os olhos ao toque dela. Ele não sabia o que estava sentindo, mas estava. Aquilo parecia tão surreal, ele sentiu aquele toque como se já o conhecesse. Ao fechar os olhos imagens distorcidas de Rey dando gargalhadas passavam por sua mente. Ele sorriu. Ela sentia o mesmo. Tudo desaparecera, em um segundo não havia mais primeira ordem, Snoke, as pessoas no salão. Só havia o próprio salão, mais claro do que nunca, e pétalas brancas caindo sobre os dois. Mas, repentina e infelizmente, Rey voltou a seu estado sóbrio e se afastou do rapaz mas continuou a dança tentando desviar seu olhar do dele. Ele não esboçou nenhuma expressão, ficou apenas quieto, fazendo todos os movimentos que os outros também estavam fazendo.
Aquela noite continuou com várias outras tentativas de aproximação entre os dois. Todas com cautela e muita ternura. Uma certa intimidade estava começando a ser construída e, a partir daí, a vida de Rey e Kylo Ren se tornaria um verdadeiro caos.
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