"Pensei ter encontrado um caminho;
Mas você nunca vai embora;
Então eu acho que tenho que ficar agora."
(Billie Elish — Lovely)

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Rey despertou no susto, respirando de forma acelerada e assustada com todas as coisas que ouviu Ben dizer. Não conseguia concluir se houvera sido uma sonho ou uma manifestação de sua conexão.

Ao amanhecer, então, ela foi conversar com Ava, dizendo que tinha visto Ben em um sonho. Queria saber se a companheira de ordem tinha alguma opinião sobre isso, mas não. Disse que Ben falou sobre Kira estar viva, mas quando Ava perguntou o que ela achou disso, respondeu que não acreditaria nele, não mesmo. Ele havia mentido pra ela, feito isso por muito tempo, e agora só a queria por conta da criança.

A Primeira Ordem era o local onde seu filho conquistaria tudo que era seu por direito. A Resistência, na mente de Rey, não a deixaria treinar a criança a sua maneira. Ele seria limitado, e ela estava cansada das limitações.

Já em relação a menina, Kira, a conversa com Dana e alguns dias refletindo a ajudaram a tentar se reaproximar do pai. Ela chegou até ele de modo tímido, singelo. Ele estava fazendo alguma coisa, ajudando a mãe com os preparativos para finalmente poderem seguir em direção a Crait e então Kira o pegou de surpresa.

É claro que o sorriso lhe estampou a face. Por mais que soubesse de todas as dificuldades, ter a criança perto dele o fez reagir desta forma, mas em seguida se policiou, tentando não demonstrar nenhum tipo de reação que pudesse interferir. Mas Kira não disse nada, do contrário, ela seguiu até os braços do pai e o abraçou, com força e cumplicidade. Não precisou dizer nada para que ele entendesse que ela estava tentando começar de novo, tentando perdoa-lo.

"Não sabe o quanto, pela Força, do fundo de todo meu coração, eu gostaria de ter a chance de voltar atrás e nunca ter deixado você e sua mãe sozinha! Não sabe o quanto eu peço para que tudo se ajeite e possamos ser uma família de novo." Ele disse abaixado olhando nos olhos da filha. "Kira, eu amo você, você é tudo o que eu tenho!" Ele a abraçou por fim.

Em seguida ela disse que o amava, e que teria de lidar com o passado infame de seu pai, e pediu sua ajuda para que ela aprendesse a manejar. Ele a pediu perdão por todas as coisas, por Lor San Tekka, e ela podia sentir, do fundo do coração de Ben, que as palavras pesadas vinham de forma verdadeira. Seria difícil, mas ela aprenderia a ponderar o passado do pai.

As coisas começariam a se ajeitar. A Resistência recomeçou sua base no planeta Crait, crentes de que ficar em D'Qar seria muito arriscado a partir do principio de que Rey sabia a localização da base. Mas Rey, por si, ainda não estava interessada em revelar a origem da base. Na verdade, o sistema todo da Primeira Ordem estava começando a mudar.

Os meses se passaram. A Resistência estava se fortalecendo enquanto Rey, manipulada por seus sentimentos de vingança e ódio, aceitava cada dia mais a proposta de Snoke para se vingar de Ben. Que melhor vingança se não a destruição de seu maior inimigo pelo filho?

Seus pais a deixaram em Alfheimr com medo de ela se tornar aquilo que ela estava se tornando agora. Mas e se fosse exatamente isso que ela quisesse, se tornar poderosa no lado sombrio? Por que seus pais quiseram tanto lhe tirar as chances de reinar no lado negro? Mas ela sabia ainda que apenas um lado não a faria satisfeita. Ela aceitou o lado das sombras, mas ao mesmo tempo ainda servia a luz.

As coisas na Ordem inclusive mudaram sob a influência dos ideais de Rey. Snoke via o filho da jovem como um potencial herdeiro do Império, e de fato esta criança era. Então a Primeira Ordem deu um passo atrás na ânsia por retomar Kylo Ren e agora, depois de meses, Ben Solo parecia cada vez mais iluminado e inclinado a participar dos planos na Resistência.

Rey agora era conhecida majoritariamente por Renesmy, e exigia ser chamada desta forma. Ela sabia que Snoke precisava dela mais do que nunca, entendia que ele queria seu filho de toda e qualquer forma. E os planos sobre a destruição da Resistência dariam certo agora que ela tinha um arsenal bélico e uma Ordem ao lado dela para fazer isso.

Ela então propôs novas alterações na Primeira Ordem. Primeiro se extinguiu o sistema de treinamento de Hux a partir de bebês sequestrados de planetas escravistas. Sob sua participação na reconstrução do Império, Rey exigiu que se acabasse com qualquer tipo de escravidão na Primeira Ordem. A partir daí retornaram ao projeto da utilização de clones para as tropas, mas nem chegou a ser tão necessário, pois num surto de liderança, Rey estava conseguindo montar um exército só dela, de seres livres e que honrariam a luta por ela.

Além disso, havia o fato de que o exército de Hux já estava bem estruturado, e foi oferecido aos troopers a chance de se desvencilharem da ordem. Alguns agarraram a oportunidade, mas a maioria não, estavam todos fadados àquela vida, era a única coisa que sabiam fazer, e a segurança que a Primeira Ordem lhes conferia era suficiente para mantê-los em devoção.

Ainda haviam os aprendizes de Ren, eram muitos jovens que por si haviam decidido se unir a Primeira Ordem. Eles foram treinados, continuaram sendo, e enquanto alguns eram selecionados e treinados para servir como a guarda pretoriana de Snoke, o resto continuava o treinamento para se tornarem as tropas especiais da Ordem.

Tempos antes, Rey visitou os principais planetas escravistas. Hux houvera tomado a frente com seu discurso de que a República não mais existiria e que a Primeira Ordem visava por uma galáxia mais justa, pacífica e sem escravidão. De início as populações não deram muito atenção ao comissionado de Hux, e quando Rey percebeu que só de palavras nada conseguiriam, ela tomou perigosamente o lugar a frente do general e começou seu discurso:

"A paz não existe, não como o Universo é hoje. Eu sei que devem estar confusos, não devem entender quais as intenções da Primeira Ordem, mas sei que também não sentem que podem confiar na Resistência. O que eu quero é construir um novo mundo, um mundo pacífico onde nenhum ser perderá sua liberdade." Ela olhou para trás, procurando o olhar de Hux, e ele não a advertiu no momento, ele afirmou com a cabeça pois de fato ela estava gerando curiosidade. "Eu também fui como vocês um dia, eu fui uma escrava em Jakku. Eu tive minha liberdade roubada e enquanto eu estiver viva eu estarei lutando pela liberdade de todos."

"Como vai fazer isso?" Ela ouviu a voz de um cidadão no meio da multidão, a enfrentando, como quem já houvera escutado aquele discurso diversas vezes. "Que poder você tem para isso?"

Rey então olhou para o horizonte, olhou para as tropas especiais, antigos aprendizes de Ren, postados ao redor da multidão e então continuou: "Tropas do Império." Ela olhou para Hux pedindo sua autorização, como ele continuou parado ela prosseguiu. "Eu lhes peço que destruam qualquer pessoa que esteja segurando um açoite, ou acorrentando algum ser." Então um burburinho começou, todos confusos, e ao analisarem Hux acenar com a cabeça as tropas seguiram a ordem de Renesmy.

De início alguns começaram a correr, tentando levar seus escravos consigo, mas as tropas atiraram contra os senhores de escravos, acabando com qualquer um que desobedecesse os intentos da jovem. Renesmy começaria uma guerra, mal sabia, mas pelo momento ninguém ousaria atentar contra a Primeira Ordem, então não existiriam mais opositores.

"Vocês podem ser livres!" Disse num tom singelo, sorrindo para si mesma pois Hux havia confiado nela. Ela tornou a olhar para o General e viu a expressão dúbia e tensa na face dele, um pouco abismado e sem saber o que deveria sentir. Então ela voltou para a multidão e deu seu último pronunciamento: "estão livres para ir, agora. A Primeira Ordem os oferece abrigo e auxílio caso queiram unir-se as nossas tropas. Juntos podemos fazer muito mais pela galáxia, podemos libertar mais povos e não existirá mais injustiça. Também entendo caso não queiram se unir a nós. Todos devemos possuir o direito de escolha."

De início poucos se uniram a ela sob esse discurso, mas com o passar do tempo e Rey continuando seu percurso por outros planetas escravistas, os rumores começaram a se difundir, e todos os seres não livres ansiavam pela chance de poder conhecer a mulher que houvera libertado seus iguais em outros planetas.

Ela foi para varios lugares, e a cada um que passava mais pessoas se uniam ao seu exército pessoal. Rey afirmava a eles que juntos construiriam uma nova Ordem, algo além da Resistência e da Primeira Ordem. E de fato, o exército que ela juntou a obedecia de olhos fechados por honra e gratidão.

Tinham uma vida digna agora, tinham abrigo, tinham alimentação, a Primeira Ordem agora crescia como nunca antes, e Snoke viu essa atitude dela como uma incrível oportunidade para dominar a galáxia.

Ele deixou que ela tomasse os passos a frente ao mesmo tempo que continuava com seu treinamento. A jovem estava cada dia mais forte. Agora se alimentava direito, estava ansiosa com a ideia de uma nova criança ao seu lado que construiria uma nova Ordem além do fato de saber que ele lhe daria a vingança que tanto queria.

Mera era quem não estava satisfeita com isso. Já bastava Kylo Ren em seu caminho, agora ela dividia a Ordem com Rey, a sucateira, o motivo pelo qual seu irmão houvera morrido. Mas Snoke a impediu de tomar atitudes impulsivas. Em uma reunião entre ela, Eslo e Snoke o velho líder explicou que suas intenções era deixar que Rey sentisse o poder, e que estava sendo ótimo ela criar um exército que a obedecesse por amor. Assim, quando o filho nascesse, Rey poderia ser assassinada, e tudo pareceria como uma morte natural, mas então a criança cresceria e seria controlada por Snoke, e o exército, em honra a mãe, seguiria seu Herdeiro.

A criança seria dona do maior exército já visto antes, e Mera teria o que finalmente ela queria, Rey morta, Ben Solo morto, e a resistência extinta. Finalmente ela teria seu lugar como Imperatriz, como tanto sonhou.

Ela agora estava em seu quarto, olhando-se no espelho ao admirar a barriga saliente de pouco mais de sete meses de gravidez. Ela acariciou o ventre e ousou sorrir para a imagem. "Estou montando um exército só para você, bebê!" Ela disse.

Mas foi naquela noite que ela teve sonhos perturbadores. Sonhos bonitos, lindos, sobre um futuro de luz e prosperidade, sobre ela ao lado de Ben com seu novo filho nos braços, o sorriso estampado em ambas as faces. Não, ela não podia sentir aquela felicidade.

Ela acordou num susto, soltando um grito de fúria e ódio. Ela apertou os lençóis com força e continuou aos berros, então rasgou o tecido e levantou-se abruptamente indo em direção ao espelho novamente.

Ela levantou a barra da camisola. Não, por que estava fazendo isso com ela? Ele estava destinado a ser um ente maligno, devidamente criado no lado sombrio, mas aquele ser a trazia a luz, e isso estava mexendo com sua sanidade.

Ficou andando de um lado pro outro dentro do quarto, pensando, pensando e pensando... ligando as hipóteses.

"O ser concebido em período de trevas será gerido com luz. Quando ele nascer, então, iremos mudar tudo isso." Havia uma chance, ele não era só luz ou só trevas, então poderia ser modificado. Agora ela se assustava com a possibilidade do filho não cumprir com seu propósito quando em vida, e todo seu esforço, todo o exército que ela juntou, tudo teria sido em vão.

Assim Rey passou a ser conhecida como a grande matriarca. Ela era recebida nos planetas já com ansiedade pois eles sabiam que ela iria até o fim para libertar todos eles. Rey era poderosa, eles sabiam disso, sua participação nas questões da Primeira Ordem agora eram decisivas, e Rey agora era mais habilidosa com a força do que nunca, os escravistas nem ousavam desafiá-la. Desafiar a mulher era desafiar a própria estabilidade do Universo.

O mais profundo disso tudo era que Rey, em seu interior, acreditava mesmo estar criando uma nova ordem, uma ordem distante do que a Resistência ou a Primeira Ordem era.

Além de tudo, agora Rey era admirada na galáxia, e isso fazia com que a Resistência perdesse a força e destaque cada vez mais. Ninguém mais esperava pela Resistência para se sentir livre, pois eles sabiam que Rey, a grande matriarca, a líder, os ofereceria muito mais do que apenas a vida miserável e pseudo-liberta.

A Resistência estava ocupada demais com seu arsenal bélico. Eles não se sentiam mais importantes. Mas para Rey não, por ela eles se sentiam amparados pois ela havia sido como eles, abandonada, escravizada, violentada. Ela sabia o que era sofrer, o que era estar na pele deles, e havia libertado diversos irmãos.

E Rey estava gerando um novo filho, então vê-la como matriarca e construir uma imagem acima disso não foi algo difícil. Rey era muito mais importante do que um dia imaginou que seria, e isso despertou avareza em muita gente.

"Acalme-se Mera," Snoke dizia. "Estamos dando a ela o gosto do poder, da liderança, a faremos se afundar em seu próprio anseio. Ela está construindo um exército muito maior do que jamais fomos capaz de fazer, tudo por essa ideia vendida de que os libertará. Precisamos dessa força e do herdeiro, pois, caso a descartemos agora iremos iniciar uma rebelião. O exército de Rey a segue por empatia, porque sentem que devem a ela sua vida. Esperemos o filho nascer e então a descartaremos pois as suas tropas irão garantir sua lealdade ao herdeiro de Renesmy, e ele será treinado por nós, líder de um novo Império, e então ganharemos um exército pronto para proteger o nosso Imperador. Teremos a galaxia em nossas mãos mais uma vez."

Mera não queria enxergar, o líder a houvera dito isso diversas vezes, e Snoke a garantiu que após a morte de Rey, Mera poderia assumir o lugar que tanto esperou pela vida toda, o de imperatriz, como uma nova matriarca para o exercito do herdeiro. Inimigos do herdeiro que se cuidem, inimigos de Mera... bem, não há muita condolência.

A fama de Rey, é claro, chegaria ao conhecimento da Resistência. E agora eles não podiam nem tentar pará-la pois não havia motivos. Como você vai parar alguém de tentar libertar os povos escravizados? Isso nunca seria bem visto, seria péssimo para Resistência, mas eles sabiam, principalmente Ben sabia, que Snoke não era aquele poço de bondade que aceitaria calado que uma mulher como Renesmy comandasse a ordem que era dele. Havia alguma coisa por trás de tudo isso, e Rey estava cega demais para ver...

"Está fazendo um bom trabalho." Snoke disse a sua aprendiz em uma reunião individual.

"Obrigada, Senhor." Renesmy não ousou expressar reações. "Eu disse a você que esta seria uma das melhores formas de se construir uma unidade. A Resistência só funciona porque sua equipe possui motivações fortes."

"Estava certa. Gosto do modo como administra e como construiu um exército grande em tão pouco tempo." Ele a estava rodeando.

"Eles ainda estão sendo treinados, muitos acabam indo para outras funções mas em maioria estão seguindo bem no treinamento." Ela acrescentou.

"Mas precisa manter o controle. Precisa ter certeza de que estão sob seu comando. Precisam, acima de tudo, saber que estão servindo a Primeira Ordem, apesar de você."

"Eles sabem." Ela engoliu em seco. "Eu garanto, meu lorde. E enquanto estiverem sob meu comando, eles irão obedecer. Eles não irão trair a Primeira Ordem, pois eu não irei trair." Ela piscou rápido evitando contato visual com Snoke.

"Esse não é o maior dos problemas." Disse com a voz grave, preocupada.

"Ben Solo." Rey acrescentou."

"Sim. Ele deve estar dando informações privilegiadas para a Resistência."

"Nós temos uma composição muito maior do que eles agora. Não vão ousar nos atacar, não enquanto possuírem aquele número de tripulação."

"Espero que esteja certa." Ele cruzou os braços atrás do corpo. "Agora, mais do que nunca, ele irá tentar manipular você. Vai tentar acessar sua mente, entrar sem permissão, e precisa saber resistir."

"É claro." Ela estava ficando tensa.

"Ele tentou algum tipo de contato?" Perguntou Snoke.

"Não." Seu coração acelerou, ela engoliu em seco encarando o horizonte a sua frente enquanto cada vez mais a face de Snoke se aproximava.

"Tem certeza?"

"Sim." Sua garganta agora estava seca, a voz mal saia. "Está tudo bem quieto." Ela tentou respirar fundo de forma calma, tentando esconder de Snoke que Ben tinha entrado em seu sonho.

Snoke circulou sua localização por mais algumas vezes, agora encarando o ventre saliente, e ela percebeu o que ele estava fazendo, de certa forma sentiu medo, medo que ele pudesse sentir a luz como ela e Ben sentiam.

"Demora muito a nascer? Já está bem grande."

"Dorn acredita que mais um ou dois meses."

"Ótimo." Snoke agora possuía uma malicia no olhar. "Nosso pequeno herdeiro precisa vir ao mundo logo!"

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