Herdeiros de Illea
4 Meus Selecionados
Notas iniciais
POV's Juliette Schreave
Eu mal pudia conter minha animação.
– Ora, Juliette, se você não parar de andar de um lado para o outro, irá criar um buraco no meio do quarto.
A voz de Stacy ecoava na minha mente. Eu a ouvia, mas não conseguia distinguir e entender o que falava. Não tinha espaço para mais nada em minha mente.
Era hoje. Depois que Gregory deu o nome de Rachel a meu pai, e ele acatou seu pedido, as cartas foram enviadas. Três semanas depois, 210 criadas novas foram chamadas para o palácio, que foi dividido em 4 partes. Uma para a familia, uma para as visitas, uma para os selecionados, e outra para as selecionadas. E, hoje a noite, os nomes dos nossos novos hospedes seriam divulgados.
Desde a confusão meu pai proibiu, temporariamente, é claro, a entrada de Cory no palácio e o seu contato comigo. Mas, tudo isso iria acabar em breve.
Eu já estava em meu vestido violeta, e faltavam menos de trinta minutos para o começo do Jornal Oficial.
– Juliette!
O tagarelar rápido de Stacy me deixava frustrada as vezes. Será que nem um momento com meus pensamentos eu podia ter?
– Você ao menos está me ouvindo?
– Desculpe, Stacy. Estou um pouco nervosa com tudo isso.
– Nervosa com o que? — Ela disse, cruzando as longas pernas na poltrona rosa clara no meio do meu quarto — Todos sabemos o que irá acontecer. A seleção irá começar, você vai passar 2 meses enrolando, "fingindo" que conhece os outros rapazes e então escolherá Cory. Com o que está nervosa?
Sentei ao seu lado. Eu não sabia bem como explicar.
– Com os outros.
– Ora, você não disse que estava apaixonada, Juli? Mamãe uma vez me disse que a paixão nos cega. Só conseguimos ver a nossa paixão e ninguém mais. Apenas mantenha a calma. Tudo dará certo.
O resto da noite correu bem. O Jornal Oficial foi do jeito que esperávamos que fosse. A cada novo rosto e novo nome, podia sentir a curiosidade de todos e a minha própria curiosidade surgir. Aquele é bonito. Aquele tem cara de ser simpático. Uau, casta 4 e lindo. Este ai parece ser inteligente.
Eu apenas formava frases definindo os garotos, sem realmente me interessar por nenhum. Mas, dentre todos havia um que traria meu interesse a tona.
– Cory Leger
E meus olhos vidraram no telão enorme a minha frente. Pude sentir o olhar de mamãe e papai, observando minha expressão.
– Casta 2, Carolina.
Na foto, seu sorriso parecia querer saltar de seu rosto. Parecia bastante convencido. Não era um sorriso de selecionado. Era um sorriso de escolhido.
Não prestei muita atenção nos selecionados seguintes. Apenas olhava para tela, pois era meu dever mostrar interesse para Illea.
Até que um me chamou atenção.
– Peter Scotbell
Seus cabelos eram de um castanho tão escuro que quase chegavam ao preto. Seu olhar era um azul tão claro que quase chegava ao cinza. Sua pele clara exibia sardas nas bochechas. Ele era, de longe, o mais bonito da minha seleção. Me desculpe, Cory.
– Casta 4, Stanford.
Mas, o que me chamou atenção, por incrível que pareça, não foi sua aparência. Quer dizer, isso me chamou atenção, também, é claro. Mas sua expressão chamou mais. Ele parecia muito triste. E, se eu observasse bem, poderia ver uma pequena gota ameaçar cair de seu olho esquerdo. Aquilo me pegou desprevenida.
Na vez de Greg ele tentava conter sua surpresa e interesse a cada nova foto que surgia. E eu sabia que, para ele, aquilo seria divertido. Deveria ser para mim também. Mas eu não via a seleção como uma competição. Via apenas como um ritual que eu tinha que passar para casar com Cory.
Não ouvi quando Gavril passou a palavra para meu irmão, mas soube que logo depois eu teria que falar.
– Gavril, elas são... — Seus olhos brilhavam. — Uau... São... Especiais. Irei adorar tê-las em minha casa. E ter uma delas como esposa será uma honra. Será uma escolha difícil.
– Vejo que aprovou as suas selecionadas, Senhor Gregory. — Gavril ria com a reação de Gregory — Mas, e a senhorita, Juliette? Está pálida, querida. O que achou dos seus selecionados?
Minha mãe teve de me cutucar duas vezes para que eu me desse conta de que deveria responder.
– Ah. Gavril... Eles são... Diferentes. Foi uma ótima escolha. Será uma honra hospedá-los aqui. Creio que será muito difícil escolher, é claro, e espero que eu faça a escolha certa.
Meu irmão gargalhava de um jeito que eu cresci ouvindo ser "indecente e indecoroso". Quando as câmeras voltaram a focar em toda a familia real, ele voltou a sua " pose real".
Depois de alguns minutos, ouvi Gavril dar o seu famoso "Boa noite, Illea", e as câmeras foram desligadas.
– "Eles são... Diferentes. Foi uma ótima escolha. Será uma honra hospedá-los aqui. Creio que será muito difícil escolher, é claro, e espero que eu faça a escolha certa."
Gregory me imitava enquanto caminhava ao meu encontro. Pelo canto do olho, vi que meu pai disfarçava a gargalhada com uma tosse, e recebia um leve tapa da minha mãe.
– Ora, Juliette. Que discurso foi esse? Eles são diferentes? Meu Deus.
Levantei-me da cadeira e marchei em direção ao meu quarto. Dispensei a criada que esperava para ajudar-me a trocar, tirei meu vestido e deitei.
Que droga, pensei, será que toda vez que tenho que falar em público, eu tenho que gaguejar e passar mais vergonha ainda?
– Juli?
Ouvi batidas na porta. Como estava apenas em meus trajes íntimos, pulei da cama e corri ao banheiro. Era meu pai.
– Estou no banheiro.
– Troque-se logo. Quero conversar com você.
– Um momento.
Coloquei o primeiro vestido que vi pela frente e corri para abrir a porta. Meu pai estava com um semblante sério. Entrou, e sentou-se ao meu lado, na cama.
– Você deveria mudar este quarto de vez em quando. E acrescentar algumas fotos neste mural.
Ele apontou meu mural que, ha algum tempo, continuava o mesmo.
– Não tenho tido muito tempo para fotografar.
Passamos alguns minutos em silêncio. Estava começando a me perguntar se ele viera apenas para comentar sobre o mural, quando ele começou:
– Gostou de algum?
– Bom, aquele Cory Leger, da casta 2 me parece um bom candidato, o que acha?
Ele arqueou uma das sobrancelhas. Ele já sabia. Meu pai me conhecia mais do que qualquer outra pessoa. Talvez mais do que eu mesma.
– Quem foi?
Suspirei.
– O nome é Peter Scotbell. Não prestei muita atenção na casta ou na província.
A postura de papai mudou no mesmo instante. Em um momento ele estava relaxado, com os braços apoiados em meus ombros. No minuto seguinte estava com a coluna reta e seus braços não estavam apoiados em meus ombros, estavam me protegendo de algo.
– Ora, filha. Não gostou daquele Scott, da casta 2? Ou daquele Harry, da 5? Aparentam ser muito legais... Comunicativos... E também são bonitos, se quer minha opinião.
– Pai, ha algo errado com o Peter?
Ele franziu a testa e fechou os olhos. Como se quisesse dizer algo e não pudesse.
– NÃO, JULIETTE. NÃO HA NADA DE ERRADO.
Ele gritou. Meu pai gritou comigo.
Passamos alguns minutos calados. Eu repassava a conversa e tentava ver se tinha falado algo de errado. Mas eu não encontrava nada que pudesse ter despertado este lado agressivo.
– Juliette, veja, uma nova fase da sua vida está começando. Não quero aparentar ser um "pai protetor" ou pegar muito no seu pé durante a sua seleção. Então irei dar-lhe alguns conselhos agora.
Apenas concordei com a cabeça, sem saber bem como responder.
– Bem, primeiro. A Seleção serve para conhecer pretendentes. Sei que está apaixonada e tudo mais, mas não se prenda ao Cory, filha. Os rapazes estarão aqui por você. Entendeu?
– Sim, papai.
Ele respirou fundo duas vezes e prosseguiu.
– Outra coisa. Cuidado com o nível de intimidade que terá com os garotos. Tenho certeza que sua mãe irá ter esta conversa com Gregory também. Não quero ser avô antes desta seleção acabar, está ouvindo?
Sorri, de leve. Obvio que não chegaria aquilo.
– Não deixarei que chegue a este ponto, pai.
Ele acariciou meus cabelos. E beijou o topo da minha cabeça.
– Eles chegarão daqui a duas semanas. Durante este período, sua mãe lhe ensinará mais algumas coisas. Boa noite, Juliette.
E saiu do quarto.
Durante a noite me peguei pensando em como seria a seleção, Cory e Peter. Me peguei pensando em uma mulher vestida de branco sendo levada ao altar. Não parecia ser eu, mas era. Me peguei pensando em crianças correndo pelo palácio.
Resolvi me levantar para tomar algo, quando olhei pela janela. O sol fazia seu incansável trabalho e brilhava na janela. Já havia amanhecido. E eu sequer havia notado.
Seriam as duas semanas mais aterrorizantes da minha vida.
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