Herdeiros da Guerra
59 XXXV – Interlúdios
Notas iniciais
Mel suspirou, a seda deslizando pelos seus dedos à medida que o tecido tomava a forma de um belo vestido. Estava triste e preocupado com a nova viagem que sua irmã e seu namorado fariam no dia seguinte. Apesar de saber que era o trabalho deles, não se conformava de ter que ficar dias, semanas, talvez meses sem notícias e sem saber o que estava acontecendo do outro lado do mundo. Era frustrante e desesperador.
Aquela era a vida de um civil da Aliança; a eterna espera pelo pior quando seus amados estavam lá fora, lutando. Como a irmã Lina, Mel não cresceu com o ódio que muitos tinham da Horda. Eram uma exceção na vila e uma maior ainda em Ventobravo. E como alguém que sofrera com preconceitos e olhares tortos na maior parte da vida, Mel era um dos poucos que se perguntava se todos aquele ódio que tinham pela Horda era realmente necessário, afinal, ele era odiado por ser o que era sem nunca ter feito nada de mal a ninguém. Irritado com aquilo, a tesoura passou direto e pegou seu dedo. Praguejando, ele afastou a mão rapidamente, para não sujar o tecido e levou o dedo à boca, sugando o sangue.
— Por isso que odeio quando o Fey não tá aqui… — murmurou ele com o dedo na boca – Odeio ficar sozinho com meus pensamentos.
Balançou a cabeça, sem querer pensar nada e deixou o trabalho de lado, torcendo para que o irmão voltasse logo.
O sino da porta indicou que alguém entrava e Mel saudou, animado:
— Bem-vindo a loja Wood, em que posso… — mas assim que olhou na direção da porta, viu que não era um cliente. Seu coração se aqueceu quando percebeu que era Vincent que entrava, sorrindo, no ateliê – Vin... — Mel murmurou surpreso e feliz – Não esperava te ver pela manhã…
— Devo ir embora, então? — perguntou o paladino com as sobrancelhas erguidas e apontando para a porta.
— Claro que não! — ele se aproximou do namorado e o abraçou com força – Estou muito feliz!
Vincent retribuiu o abraço e depois afastou Mel e o encarou. Os dois eram quase da mesma altura, mas o paladino era um pouco mais alto. Ele segurou o rosto de Mel com as duas mãos e falou, a voz baixa e preocupada:
— Eu sei que você deve estar preocupado com a minha volta a Pandaria, por isso decidi fazer uma surpresa e reforçar que tudo vai ficar bem.
— Eu amei a surpresa. — disse e colocou as mãos em cima das de Vincent.
— O que é isso? — perguntou o paladino pegando a mão de Mel e vendo o sangue que ainda escorria.
— Cortei o dedo. — explicou o alfaiate – Uma besteirinha.
Apesar de a pouca importância dada por Mel, Vincent pegou a mão dele e curou o corte sem nenhum esforço. Mel deu uma risada.
— Ótimo, agora posso voltar ao trabalho, já que Fey está demorando uma vida! — exclamou enquanto voltava para a mesa de trabalho
— Para onde ele foi? — quis saber Vincent.
— Tirar umas medidas de uma cliente. — Mel suspirou voltando a cortar o tecido – Mas provavelmente ficará uma eternidade batendo papo com ela, tomando um chá gelado, enquanto eu trabalho feito um condenado aqui!
— Então… Ele vai demorar. — Deduziu Vincent, interessado.
— Provavelmente. — falou Mel concentrado no trabalho – Aquele lá, quando pode, foge das obrigações...
Vincent nada falou, mas deu um sorriso malicioso que Mel não viu, entretido como estava no trabalho. O paladino andou até a porta da frente a abriu por um momento, o suficiente para virar a placa de “Aberto” para “Fechado”, fechar a porta e trancá-la. Caminhou até o namorado, segurou a mão dele que cortava o tecido, tirou delicadamente a tesoura da mão dele e a colocou em cima da mesa. Mel o encarou, sem entender.
— O que…
Mas ele não terminou a frase. A boca de Vincent cobriu a sua em um beijo ardente e apaixonado. Quando o beijo foi interrompido, Mel respirou fundo, sem folego, mas não teve tempo de recuperá-lo. Vincent o empurrou para a parede e começou a despi-lo, puxando sua camisa para cima, com agilidade.
— Vin! Vin! — protestava Mel – Alguém pode chegar….
— Eu tranquei a porta, disse o paladino antes de beijá-lo mais uma vez.
Uma das coisas que Mel mais gostava em Vincent era que o paladino, na intimidade, era exatamente o oposto de quando estava sem erviço. A única coisa em comum era a intensidade e passionalidade com qual fazia as coisas. O sério e sisudo paladino dava lugar a um homem sensual e libidinoso e Mel tinha certeza que metade da Ordem dos paladinos teriam um infarto se soubessem o que os dois costumavam fazer a sós. Como o que ele fazia naquele momento.
Depois de tirar a camisa de Mel, Vincent passou a língua em seu pescoço e depois desceu para seus mamilos. Mel gemeu e agarrou nos cabelos de Vincent, despenteando-o. O paladino, sem perder tempo, meteu a mão dentro da calça do namorado, que gemeu ainda mais, enquanto era acariciado.
— Temos que fazer uma despedida apropriada… — murmurou Vincent enquanto ficava ajoelhado e despia Mel completamente.
O alfaiate teve que se segurar em um cabideiro quando Vincent colocou seu membro na boca e o sugou. A língua do paladino brincava fazendo círculos em sua glande e depois ele o colocava todo na boca, fazendo a vista de Mel perder o foco de tanto prazer. Quaisquer pensamentos sumiram da mente do alfaiate enquanto seu namorado trabalhava de forma tão eficaz em seu membro. Quando Mel achou que nada poderia melhorar, sentiu os dedos de Vincent penetrá-lo habilmente e foi quando ele não conseguiu mais segurar-se e atingiu o clímax rapidamente, com um gemido rouco.
Vincent sorriu enquanto deixava o prazer de Mel deslizar para seu interior e levantou-se, segurando o namorado, que parecia ter perdido a força nas pernas. Ótimo para ele, o que queria agora não precisava que ele estivesse em pé. Enquanto segurava Mel com um dos braços, com o outro passou pela mesa de trabalho dele, derrubando tudo no chão, antes de deitá-lo lá.
— Vin… — tentou falar Mel, certo que alguém poderia chegar a qualquer momento.
— Shhh… — falou Vincent colocando o dedo na boca dele – Não importa se aparecer alguém… Eu quero você agora… Você me quer?
— Sim… — murmurou ele deixando-se relaxar nos braços de Vincent, que se inclinou sobre ele e o beijou com vontade, enquanto tirava a própria roupa.
Trocaram carícias e beijos, alheios a tudo, ansiosos apenas para provar do amor um do outro, sem admitir que tinha tanto medo do que podia acontecer no mundo, que morriam de medo que algo só separasse. Vincent nunca se sentira assim por alguém antes, tão dependente, tão faminto… Mel já tivera seus amores pela vida, mas nunca recebera uma retribuição à altura dos seus sentimentos. Era tão estranho que, na idade em que estava, pudesse ter achado tal felicidade, que era aterrorizante a partida dele.
— Eu te amo, Vin… — murmurou ele no ouvido do paladino.
— Também de amo, Mel... — respondeu de volta, no momento em que o penetrou.
Mel gemeu alto e agarrou-se nos ombros fortes do paladino, enquanto ele mexia-se dentro dele. Vincent queria que aquele momento nunca acabasse, que nunca precisassem se separar, que pudesse sempre ver a expressão de prazer de Mel quando faziam amor. Ele movia-se devagar, querendo aproveitar o máximo possível, querendo atrasar a partida, querendo que o mundo fosse um lugar melhor. E quando finalmente não aguentava mais, ele atingiu o ápice, gritando o nome dele, enquanto sentia as unhas de Mel afundarem em sua carne.
— Mel… — chamou Vincent, a respiração ofegante.
— Sim?
— Case comigo.
Mel o encarou com os olhos arregalados.
— Tá falando sério?
— Pareço está brincando? — indagou o paladino.
— Não… Mas eu esperava um pedido um pouco mais romântico. — Reclamou o outro, fazendo uma careta – E não com nós dois nus em cima da minha mesa e você ainda dentro de mim.
Vincent deu uma risada e o abraçou com força.
— Certo, vou fazer o pedido depois, da forma apropriada. — Garantiu.
— Acho bom! — exclamou Mel – Quero flores. Bebida. E um anel, claro.
Vincent caiu na gargalhada.
— Você terá tudo que quiser, meu pote de Mel…. — Murmurou beijando o pescoço dele.
— Me chame assim te novo e arranco suas bolas. — Ameaçou o outro – Sei manejar bem uma tesoura, lembre-se disso.
Sem levar a ameaça a sério, Vincent o beijou e voltou a acariciar seu corpo e Mel o sentiu crescendo novamente dentro de si. Começariam novamente, já sem nem lembrar que alguém podia chegar. E sem perceberem que Fey havia chegado, ouvido tudo pela porta e saído de fininho, louco para contar a alguém sobre as aventuras de seu irmão e o sisudo paladino.
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O clima agradável daquele dia foi o que impulsionara Kassyeh a sugerir à sua irmã mais jovem que atendesse as demandas em um local mais iluminado, no caso, a varanda do grande salão, para aproveitar a luz e o frescor. Karen relutara um pouco, achando que o vento levaria os papéis embora, mas, por fim, foi convencida por Kassyeh que garantiu que apenas alguns pesos de papel seriam suficientes para manter tudo em ordem.
A mudança não apenas agradou Karen como a fez trabalhar muito mais animada. Com o vento fresco batendo em seu rosto e o sol cálido iluminando tudo, ela conversava alegremente com a Kassyeh, enquanto organizava os pedidos da nova incursão por Pandaria, bebericava chá gelado e passava os pés nas mascotes de Kassyeh, que brincavam embaixo da mesa.
Kassyeh observava a irmã tagarelar e pensava em como ela já lidava com aquela burocracia toda com a mesma desenvoltura com a qual manuseara seus brinquedos até pouco tempo atrás. Sentia uma mistura de orgulho e preocupação, vendo como aquela vida, uma vida de tantas obrigações e responsabilidades já se tornara normal para uma menina tão jovem. Lembrava de seu pai, que detestava qualquer coisa que envolvia nobreza e que provavelmente não teria aceitado a coroa nem permitido que nenhuma das filhas o fizesse. O que ele diria vendo sua caçula imerso no mundo que ele se esforçara tanto para manter afastado?
— Kass! — a exclamação de Karen a tirou dos pensamentos – Você está prestando atenção?
— Desculpe, Karen. Me perdi em pensamentos. — Admitiu a maga – Poderia repetir, por favor?
— Queria saber se essa sua requisição está correta mesmo. Me parece uma quantidade muito pouca de suprimentos.
— Pandaria é bem suprida. — explicou Kassyeh pegando seu copo de chá gelado – A maior parte do que estou levando é para presentear os pandarens com novidades. Eles acham nossa comida exótica e muito doce. — Ela riu – Podemos trocar essa quantidade de produtos por bem mais suprimentos quando voltarmos. Talvez mais que o dobro.
— Mas isso não é injusto? — perguntou Karen franzindo o cenho – Trocar pelo dobro?
— Depende. Lembre-se que os mantimentos que estou levando só são feitos aqui, em Luaprata. — explicou pacientemente — Até que estabeleçamos uma rede de comércio que facilite tanto que vendamos a eles quanto o contrário, tudo vai girar em torno do que eles estão dispostos a pagar pelas novidades. Quando deixar de ser novidade, não será tão valioso.
Karen ainda não estava muito convencida da explicação que a irmã dera, mas não insistiu. Continuou o trabalho e pegou o próximo documento, franzindo o cenho assim que o leu.
— Algum problema? — quis saber Kassyeh.
— O Chefe Guerreiro quer mais soldados. — respondeu a menina desgostosa – Ele está preparando uma grande expedição com o início previsto para três meses e especificou uma quantidade mínima de pessoas que quer que enviemos. — Pela expressão de Karen, ficou evidente que ela não queria atender a demanda.
— Não temos o número de soldados que ele quer? — Kassyeh se perguntava se Garrosh lembrava que seu povo quase tinha sido dizimado e não passara tanto tempo para recuperar a população. Talvez ele soubesse e simplesmente não se importasse.
— Temos, mas não quero desperdiçar a vida de todos sem, pelo menos, uma tentativa de armistício. — A jovem rainha colocou o papel em cima da mesa.
— Duvido que haja qualquer tentativa de armistício, de qualquer uma das partes. — Lamentou a maga – Um novo território é valioso demais para ser negociado.
— Um território que tem dono! — exasperou-se Karen – Os pandarens estão lá! É a casa deles! Não podemos simplesmente entrar e pegar as coisas!
— Concordo. Por isso temos que fazer tudo ao nosso alcance para minimizar o sofrimento dos pandarens, já que não temos como impedir essa investida. E… — Kassyeh hesitou um pouco – E talvez precisemos fazê-la.
Karen encarou a irmã, surpresa.
— Não em entenda mal, Karen. — pediu Kassyeh – Não quero guerrear. Queria poder ficar em casa, com vocês, babando minha sobrinha e tentando ter meus filhos. Porém, se deixarmos que a Aliança ocupe Pandaria, quanto tempo até que eles usem os recursos de lá contra nós?
Diferente da irmã, Kassyeh sabia que os recursos de Pandaria eram muito, muito valiosos, porque não consistia em apenas suprimentos; havia uma quantidade imensa de artefatos mágicos lá. E uma magia antiga, ainda desconhecida para os magos de ambas as facções. Talvez até mesmo para os pandarens. Porém, os nativos daquela ilha não tinham o interesse dominar esse poder, pelo simples motivo que eles sabiam ser perigoso e não estavam dispostos a tanto risco. Eles conheciam aquele poder. Sabiam do perigo. Só que agora, Horda e Aliança brigavam por esse poder como dois urubus disputam uma carcaça. Uma disputa que determinaria o futuro de ambas as facções.
Por mais que detestasse a guerra, Kassyeh entendia o perigo de deixar a Aliança conquistar Pandaria, apesar de odiar a ideia de meter os pandarens naquela disputa. Pensou nas crianças que conhecia, em sua inocência e curiosidade e teve uma ideia.
— Que tal mandar uma carta para os outros líderes da Horda, perguntando se eles apoiariam um armistício? — propôs à irmã.
Os olhos de Karen se iluminaram.
— Eu posso fazer isso? — perguntou, animada – Não seria ir contra os desígnios do Chefe Guerreiro?
— Depende de como você faça. — Kassyeh se levantou e foi até a varanda – Você pode falar que entende a importância, que sabe que estamos em risco e não colocar em dúvida a necessidade da ação. Porém… — a elfa se virou para a irmã e levantou o dedo – Se você falar de sua preocupação com nosso limitado número de gente desde o Flagelo, do temor por Pandaria e da desconhecida magia que existe na terra, poderia convencer os outros a, pelo menos, pensar na possibilidade. Se você tiver apoio, será mais fácil de tentar.
Karen ficou muito animada, mas logo sua animação mingou.
— Grito Infernal pode ver isso como fraqueza e exigir mais gente nossa. — a menina se encostou na cadeira – Ou fazer outro tipo de exigência que não possamos cumprir. — Karen tamborilou os dedos na mesa antes de exclamar, revoltada – É muito difícil tomar decisões!!
— Sim, é. — concordou Kassyeh, sem conseguir oferecer nenhum consolo à sua irmã.
— Tudo é um risco, não é? — Karen suspirou – Seja numa luta, seja na política… No final tudo é arriscado…
— É.
— Por isso o papai não queria ser da nobreza? — perguntou a menina, encarando a irmã – Por causa disso?
— Nosso pai não sabia que era filho do rei, então acho que teve menos a ver com política e mais com politicagem. As maquinações da corte, jogos de poderes, essas coisas. Ele queria nos preservar disso. Se ele estivesse vivo talvez estivesse no trono apenas porque estamos tão ocupados sobrevivendo hoje que nem temos tempo para essas futilidades. Talvez aceitasse apenas porque precisamos sobreviver, no final das contas.
— Tem razão… — murmurou Karen.
As duas ficaram em silêncio por um momento e Karen relanceou os olhos mais uma vez para a requisição do Chefe Guerreiro. E decidiu.
— Vou arriscar. — falou, decidida, puxando um pergaminho – Vou tentar esse armistício. Que a Nascente do Sol nos proteja!
E se pôs a escrever furiosamente, sob o olhar satisfeito de sua irmã.
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Lina conferiu a lista de solicitações enviada pela Almirante do Céu Rogers e se perguntou como o imbecil do Crowe estava lidando com o temperamento da sua superior. Pela missiva enviada, onde a almirante requeria diversas coisas que ela podia facilmente conseguir em Pandaria, se tivesse uma pessoa responsável ao seu lado a quem pudesse delegar tal função, não estava sendo fácil.
Aquilo dizia muito sobre a opinião da Almirante do céu em relação ao general Crowe.
Para a sorte de Rogers, Lina já tinha adiantado muitas coisas da requisição: sabia que a Aliança precisava de determinados suprimentos e já começara a mobilizar as encomendas desde que voltara a Ventobravo. Com a ajuda de Cláudia, tudo estaria terminado no dia seguinte, quando voltaria a Pandaria.
Voltar ao exótico continente lhe deixava com um gosto agridoce na boca: estava louca para ver como Pandora e Anduin estavam e garantir que continuavam vivos e inteiros e, ao mesmo tempo, estava triste por deixar a família para trás, sabendo que não acompanharia o começo do desenvolvimento de Liana, nem o treinamento de Theo e também que provavelmente estaria ocupada até o Véu de Inverno e faltasse a comemoração na fazenda. Todavia, o pior de tudo era voltar a Pandaria sem ter resolvido sua pendência com Varian.
Ele ainda estaria chateado? — Perguntou-se enquanto caminhava pelos corredores da Bastilha. Doía o coração pensar que fizera algo para decepcioná-lo, por mais que soubesse que não havia muito o que pudesse ter feito para trazer Anduin de volta para casa. Era uma mistura de frustração com dúvida: deveria ter trazido Anduin à força? Provavelmente sentir-se-ia mal por magoar Anduin. E ficariam naquela espiral infinita de magoar um ou o outro. Que inferno!
Abriu a porta de sua sala e entrou, a cabeça ainda em parafuso. Varian estava sentado na cadeira em frente à sua mesa e virou-se para encará-la quando ela entrou. Lina estacou, surpresa.
— Muito ocupada? — perguntou ele se levantando, sem tirar os olhos dela.
Lina engoliu em seco, se recuperando do susto.
— Não. — falou se encaminhando rapidamente para a mesa e colocando as listas da Almirante Rogers lá – Já requisitei tudo que preciso para voltar a Pandaria amanhã.
Varian olhou para a lista em cima da mesa e depois a encarou.
— Venha comigo. – Chamou – Já se encaminhando para a porta.
Lina assentiu e o acompanhou.
Caminharam pelos corredores, sendo cumprimentados por soldados e servos, até chegarem no jardim que ficava ao lado da biblioteca. Varian sentou-se em um dos bancos e fez um gesto para Lina fazer o mesmo. Ela sentou-se ao seu lado, sentindo o sol cálido em seu rosto e a brisa daquela manhã. O cheio das rosas dominava o lugar e os dois se encararam por um momento. Lina estava nervosa e teve que usar todas suas forças para permanecer impassível.
— Eu pensei muito no que aconteceu, sobre Anduin querer ficar em Pandaria e sobre você o ter deixado lá. — Começou ele – Acho que não pensei em nada mais esses dias.
Lina não o interrompeu, deixou que ele falasse.
— Eu acho que fui duro demais com você. — Admitiu Varian – Eu conheço meu filho. Eu sei que, quando quer algo, nada impede Anduin. Mesmo que você o tivesse trazido à força, ele daria um jeito de voltar a Pandaria, mesmo passando sobre minhas ordens. — O rei suspirou – E se isso acontecesse, se você o trouxesse a força, a relação de vocês seria abalada. E eu não quero isso. Você é muito importante para Anduin.
— Anduin é muito importante para mim. — falou Lina finalmente – Eu não me perdoaria jamais se algo acontecesse com ele por eu tê-lo deixado lá, mas sei que fiz o melhor que pude. — Ela se ajeitou no banco e passou a mão nos cabelos – Eu me arrependo de não ter te avisado antes que eu o tinha encontrado. É algo que eu devia ter insistido para que ele me deixasse fazer. Fui muito mole com ele.
— Nisso, eu te entendo. — Afirmou Varian com um meio sorriso e Lina riu – Apesar de eu achar que, ao contrário, sou duro demais. E, se você tivesse me avisado que ele estava lá, eu teria largado tudo e ido ao encontro de vocês. E nós dois brigaríamos, como sempre brigamos nessas horas. — Varian balançou a cabeça – Seria mais um conflito desnecessário.
Absorvidos na conversa, Lina e Varian não viram quando alguns soldados chegaram e pararam na entrada do jardim, indecisos se deviam avisar de sua chegada ou não. Mas eles sabiamente preferiram manter distância e não atrapalhar a conversa que se desenrolava. Não podiam ouvir o que era dito, mas sabiam que aqueles dois conversavam sobre algo importante.
— Vocês dois são muito parecidos, nesse ponto. — lembrou-lhe Lina, alheia aos soldados – Por isso me senti péssima. Tomar partido de um de vocês é muito difícil. — E ela balançou a cabeça, como se quisesse esquecer aquilo.
— Então fique sempre ao lado de Anduin. — pediu Varian – Eu não vou gostar, com certeza não, mas Anduin é jovem. Eu sei lidar com a frustração, apesar de tudo.
— Quando ele fizer algo errado, eu não ficarei do lado dele. — garantiu Lina seriamente – Não serei cega aos erros dele.
— O que eu quis dizer é: ajude-o sempre, mesmo que isso signifique me deixar para trás. — Afirmou o rei.
— Farei de tudo para que eu nunca mais precise passar por isso. — Lina suspirou – Quero ficar ao lado de vocês dois, não importa o que aconteça.
Varian sorriu diante da fala dela e pegou em sua mão.
— Estamos bem? — quis saber ele.
— Estamos bem. — respondeu ela.
— Que bom. — Ele apertou mais a mão dela – Pois queria te fazer uma proposta.
O estômago de Lina apertou-se e seu coração acelerou repentinamente. Lembrou-se imediatamente do que Lady Cláudia falou, sobre a oficialização do casamento dela e de Horatio. Lina sentiu o sangue fugir do rosto e perdeu totalmente a voz. Varian, contudo não percebeu de imediato. Os soldados, ao contrário, perceberam e murmuraram entre si, cogitando o que o rei falara que deixara a general tão pálida.
— Quero jantar com você hoje. — Revelou ele – Apenas nós dois. No mesmo local onde jantamos no dia do baile quando ficamos juntos. E prometo que, dessa vez, eu saberei que você é você.
Lina soltou o ar de repente, percebendo que prendera a respiração. Deu uma risada nervosa e ao mesmo tempo aliviada e Varian levantou uma das sobrancelhas. Os soldados também ficaram aliviados. Varian e Lina já eram o casal favoritos de todos.
— Já tem outra coisa para fazer? — perguntou ele, sem entender a reação dela.
— Mesmo que tivesse, eu largaria tudo para jantar com você. – Confessou com o sorriso – Eu apenas… estava lembrando daquela noite.
Era mentira, claro. Por um momento ela pensou realmente que Varian lhe proporia casamento. Casamento não era algo que passava pela cabeça de Lina. Ela o amava muito, era verdade, mas, não apenas os dois haviam assumido seu relacionamento publicamente há pouco tempo (e de forma involuntária), como também havia o fato que ele era o rei. Casar com ele era casar com a coroa também e isso era amedrontador. Mas, para seu imenso alívio, era apenas um jantar.
— Se você tivesse me reconhecido naquela noite, teria feito sexo comigo mesmo assim? — perguntou ela, tentando pensar em outra coisa.
— Não faço ideia. — Admitiu ele – Quero pensar que sim.
— Podemos reviver essa noite hoje. — Propôs ela com um tom malicioso na voz – Menos a parte de você não me reconhecer. Quero ouvir você chamar meu nome hoje à noite em seu quarto.
Varian deu uma risada e ficou visivelmente encabulado com a proposta dela.
— Sabe o que mais gosto em você, general Wood? Você está sempre um passo à frente dos meus desejos. — brincou Varian.
— Apenas fazendo meu trabalho, majestade. — falou Lina em tom pomposo e fez uma mensura.
Ambos riram, satisfeitos por terem resolvido aquela situação.
Foi só então que os dois repararam nos soldados os rodeando, com papéis nas mãos, e fingindo que não estavam reparando no momento íntimo do rei com a general.
— Sabe, general, entendo que é seu trabalho, mas é um pouco difícil ter que dividi-la com tantos soldados. — brincou ele se levantando e oferecendo a mão para ajudá-la a levantar.
Lina aceitou a mão e levantou-se.
— Devo lembrá-lo, meu rei, que preciso te dividir com toda a Aliança. — Ela levantou uma das sobrancelhas – Acho que eu saio ganhando nessa. Ou perdendo, depende do ponto de vista.
— É, acho que sim. – E sem largar a mão dela, perguntou – Hoje à noite, naquele local, às oito badaladas da catedral?
— Esperarei ansiosamente. — Admitiu ela antes de se aproximar dele e lhe dar um singelo e rápido beijos nos lábios – Até mais tarde, Varian.
— Até mais, Lina.
Ela soltou a mão dele, encarando-o e sorrindo, antes de se afastar dele na direção dos soldados, que a rodearam no mesmo instante, falando todos ao mesmo tempo. Varian sorriu. Lina se tornara tão importante para ele quanto para aqueles soldados, de modos distintos, mas igualmente profundos. Era um pensamento assustador, percebeu. Não havia apenas os dois em seu relacionamento, mas todo um mundo. Esperava que os dois nunca precisassem escolher entre um e outro.
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— Você devia estar na praia com os meninos, Rukiah. — falou Doroteya docemente – E não nessa cozinha, cortando legumes.
— Ah, eu gosto de ajudar na cozinha. — disse a sacerdotisa, cortando cenouras.
— Mas faremos um jantar em sua homenagem. — lembrou-lhe a druidesa – Você não devia nem estar aqui.
Rukiah deu uma risadinha.
— Pelo contrário, não existe homenagem maior do que me deixarem ajudá-los no preparo da comida. Tenho aprendido muito com suas técnicas e adorei seus temperos. — e parando de cortar por um momento, perguntou — Tem certeza que não haverá problema se eu levar algumas sementes para plantar na minha horta?
— Claro que não! Mas vou cobrar as receitas de sua terra. — Avisou Doroteya sorrindo.
— Quando você nos visitar, lhe darei todas. — Garantiu Rukiah.
As mulheres sorriram uma para outra e continuaram a cortar os legumes, enquanto Liana dormia placidamente em seu cesto. Estavam apenas as três em casa. Mel e Fey estavam no seu ateliê e Tommy foi acompanhar os meninos em um último passei à praia antes de Pietro voltar para Pandaria e dar continuidade aos seus estudos de sacerdote de Chi-Ji. Doroteya preferiu não ir, pois estava quente e Liana ainda era pequena demais para tanta exposição ao sol. Rukiah decidiu ficar com a druidesa, pois adorara sua companhia e a da pequena humana e estava ansiosa para aprender mais sobre a culinária de Doroteya, que fundia seus conhecimentos da cozinha guilneana e aqueles que ela aprendera em Ventobravo. Rukiah já imaginava que colocaria elementos de Pandaria naquela já bem-sucedida mistura feita pela druidesa.
— Pretendo ir a Pandaria assim que Liana estiver maior. — falou Doroteya, enquanto descascava batatas – Ela ainda é muito pequena para viagens assim.
A pandarena a encarou por cima dos legumes.
— Era você quem sempre acompanhava Lina nas aventuras, não é mesmo?
Doroteya sorriu, saudosista.
— Sim. E confesso que sinto falta. Amo a vida tranquila... – ela olhou para filha no cesto – Mas a emoção da caçada, da batalha… é inebriante. Acho que tem a ver com minha maldição de worgen.
Rukiah conhecera a história do povo de Guilnéas, ficara triste pela maldição e admirada pela resiliência daquele povo em transformar algo maligno em algo que pudesse ser usado em batalha. Além de aliviada que a maldição não acabara com as esperanças de uma vida melhor. A existência de Liana era a prova daquilo.
Sair de Pandaria abrira os olhos da sacerdotisa para um novo mundo e ela não estava se referindo a simplesmente os continentes de Kalimdor e Reinos do Leste. As histórias que ouvira, as pessoas que conhecera… tudo aquilo era muito maior do que o mundo de guerras que lhes foram apresentados por Kassyeh e Pandora. Entendia que o conflito marcava as gerações daqueles povos, pois estavam tão imersos em rancor e remorso que esqueciam que podiam oferecer muito mais que alianças militares e armas para os pandarens. Que poderiam oferecer receitas culinárias. Histórias. Podiam oferecer amizade.
O problema, e Rukiah pensava nisso enquanto continuava cortando os legumes com Doroteya, era que tanto Horda quando Aliança cobravam lealdade dos pandarens, a um ou a outro, e escolher um lado não estava nos planos de Rukiah. Gostara muito de Kassyeh e Tewdric e pretendia visitar Luaprata assim que pudesse. Seu avô e as crianças queriam conhecer Ventobravo e viriam quando pudessem também. Permanecer neutro naquela longa e insana guerra seria uma batalha e tanto.
— Eu gostei muito de Ventobravo. — falou Rukiah, sorrindo – É tão diferente de tudo que já vi…
— Tenho uma ideia de como você se sente. — comentou Doroteya – Eu nunca havia saído de Guilnéas antes da maldição. E me surpreendi em como aqui é ensolarado. Em Guilnéas estava sempre nublado e úmido, principalmente na floresta.
— Tenho certeza que você vai amar Pandaria! — garantiu a sacerdotisa – Nós faremos um banquete para vocês, as crianças vão amar o Theo e a Liana! Nós iremos…
Rukiah não concluiu sua fala pois o sino da porta tocou. Doroteya franziu o cenho, estranhando. Não esperavam visitas e as cartas chegavam pelo correio mágico. Pensando que podia ser algum cliente de Fey e Mel que não os achara no ateliê, Doroteya levantou-se e enxugou as mãos. Não era usual que os clientes dos alfaiates os procurassem em casa, mas acontecera algumas vezes. Quando a druidesa abriu a porta e viu um imenso worgen parado do lado de fora, entendeu que tinha se enganado. O worgen era grande, até mesmo para os padrões dos worgens. Sua pelagem era negra e brilhante e o worgen se vestia com esmero, a capa esvoaçando ao seu redor.
— Senhora Doroteya? — perguntou ele com a voz grossa e rouca dos worgens.
Por um instante, todos os medos de Doroteya voltaram como uma avalanche e ela sentiu as pernas fraquejarem, imaginando que o imenso worgen estava ali para levar Theo a força. Só não desmaiou ali pois lembrou que seu filho não estava em casa. Ainda assim, seu rosto denunciou o que ela sentia e o worgen apressou-se em dizer:
— Desculpe chegar sem avisar, senhora, mas o rei Greymane me mandou para conversar com a senhora para uma proposta que ele tem a fazer. E já adiantou que nada fará sem seu consentimento. — Ele disse com a voz educada e calma, um tom que ninguém esperaria do imenso worgen – Eu me chamo Benedictus Tobias, é um prazer conhecê-la. — E fez uma mensura, educadamente.
Doroteya assentiu e respirou fundo, se recuperando do susto. E percebeu que estava sendo mal educada em não convidar Benedictus para entrar, afinal ele fora educado demais para alguém que vinha sequestrar seu filho. Por isso, deu um passo para o lado e fez um gesto para que ele entrasse na sala.
— Entre, por favor, senhor Tobias.
O worgen assentiu e entrou na sala. Rukiah apareceu na porta da cozinha e franziu o cenho.
— Está tudo bem, Dorô? — perguntou.
— Sim, está. — respondeu Doroteya – Pode continuar cortando os legumes para mim, por favor?
— Claro. — E sumiu novamente na cozinha.
Doroteya fez um gesto para o worgen sentasse e depois sentou-se em frente a ele. Ele fez um gesto para afastar a capa que usava e sentou-se com um floreio. A druidesa o observou, ainda desconfiada.
— Então… — começou ela – Por qual motivo ele o enviou? — perguntou educadamente.
— Vossa majestade tem uma proposta, mas para isso precisa de sua autorização. — falou Benedictus – É algo que envolve a educação do seu filho e do príncipe Liam.
Doroteya o observou por um momento.
— Quantos já sabem? — quis saber.
— Como assim? — indagou ele, confuso.
— Quantos de Guilnéas já sabem que Theo é filho de Liam?
Aquela era uma preocupação que sempre ocorrera a Doroteya; não era apenas os reis que ficariam agitados com a descoberta de um herdeiro de Liam. Toda a população de Guilnéas seria colocada em um estado de êxtase e preocupação. Pelas leis do reinado, Theo seria o segundo em sucessão do trono; a primeira ainda era a princesa Tess, pois Liam morrera antes de ser rei, logo cabia à segunda filha o direito ao cargo. Aquilo confortava Doroteya, pois, a menos que a princesa Tess viesse a falecer sem ter filhos, Theo estaria livre das obrigações do trono. Ainda assim, ele era da família real. Muitos perigos rondavam sua vida, a partir do momento em que o menino saíra das sombras.
— Apenas os mais leais ao rei e à rainha sabem do menino. — falou Benedictus – Eles preferem assim, para preservar o jovem Theodore e a senhora. Contudo, sabemos que, com a aproximação do menino com os avós, especulações surgirão e, com elas, a atenção.
— Sim, eu sei. — falou Doroteya, resignada.
— Então, é justamente por isso que estou aqui, senhora. O rei Greymane está pedindo a sua autorização para que eu seja tutor do jovem Theodore. Dessa forma, não apenas posso ensiná-lo tudo que ele precisa saber sobre os deveres reais que ele terá, quando posso protegê-lo.
Diferente do que imaginava, Doroteya não ficou chateada com a situação. Afinal, Greymane não empurrara ou obrigara que Theo tivesse um tutor, muito pelo contrário. Benedictus estava sendo transparente e sincero, Doroteya podia sentir, ao afirmar que o rei queria a autorização dela, a mãe, para que ficasse ao lado do menino. Ainda assim, a situação a deixava um pouco desconfortável.
— Senhor Tobias… — começou.
— Por favor. — pediu ele levantando a mão – Chame-me de Benedictus. Não há necessidade de tanta formalidade de sua parte, senhora.
— Então, me chame de Doroteya e não de senhora. — Devolveu ela com gentileza – Pode ser uma via de mão dupla, não acha?
Ele deu uma leve risada.
— Concordo.
— Retomando o que eu falava, Benedictus, eu aprecio que o rei queira minha autorização nessa situação e reconheço que, em breve, haverá uma pressão sobre Theo que eu não gostaria que houvesse. — Ela apertou um pouco as mãos no colo – Contudo, meu filho quer ser paladino. Então, não vejo como o senhor pode ser tutor dele. A menos que o senhor seja um dos raríssimos paladinos que já houve em nossa terra.
— Infelizmente não tivesse a honra. — Admitiu Benedictus – Sou apenas um guerreio duas armas, como a maioria dos nossos combatentes. Porém, acredito que haja uma forma de equilibrar o desejo do jovem Theodore com as preocupações do rei e da rainha com relação à sua segurança e educação. E, como já falei, isso só acontecerá com a sua autorização.
Doroteya assentiu.
— Precisarei de um tempo para decidir. — falou a druidesa, por fim – Quero conversar com Lina e com meu marido. E claro, com meu filho. Ele já tem idade para opinar sobre as coisas de sua vida.
— Repassarei a sua resposta para o rei Greymane. — Garantiu Benedictus – Ele aguardará sua resposta.
— Agradeço a compreensão.
Os dois se levantaram, prontos para se despedir, quando a porta da casa abriu e Fey entrou intempestivamente. Assim que bateu os olhos em Doroteya começou a falar:
— Dorozinha, você não vai acreditar no que o Mel estava aprontando no ateliê… — e foi só quando fechou a porta que percebeu que havia alguém mais na sala – Oh! Desculpe a interrupção.
— Está tudo bem, Fey. O senhor Tobias já está de saída. — E olhando novamente para o worgen, continuou – Agradeço mais uma vez a compreensão e assim que tiver uma resposta, avisarei.
O worgen fez uma mensura e se dirigiu pela porta. Ele e Fey trocaram breves olhares e o worgen acenou com a cabeça para o alfaiate antes de sair. Assim que a porta da casa foi fechada e os passos de Benedictus se afastaram, Fey perguntou a Doroteya, interessado:
— O que eu perdi?
A druidesa sentiu-se novamente, respirando fundo e colocou as duas mãos no rosto, antes de falar:
— O rei Greymane quer colocar o senhor Tobias como tutor de Theo e está pedindo minha autorização.
— E isso é ruim? — perguntou Fey sentando-se onde o worgen sentou-se anteriormente – Oh, ele tem o bumbum quente. — Gracejou.
Doroteya deu uma risada, seu semblante ficando mais leve.
— Não é que seja ruim. — Começou a druidesa – Apenas… Eu não esperava por isso. Mas é bom ver que o rei está pedindo minha autorização e não impondo. A melhor coisa que me aconteceu foi ter me reunido com a rainha….
— Bem, o que você respondeu? — perguntou o alfaiate.
— Que vou conversar com Lina, Tommy e com o Theo, para que decidíssemos juntos. Claro, vamos levar em consideração a opinião de todos. — Ela sorriu para o Fey – O que você acha?
— Se ele for tão bonito como humano quanto é assustador como worgen, vou gostar de tê-lo por perto. — falou Fey animado.
Doroteya riu novamente.
— Seria ótimo, pois aí você poderia usar a desculpa de verificar Theo para ficar de olho nele. Em todos os sentidos.
— Não me dê ideias Dorô! – protestou, mas com um sorriso no rosto – Estou solteiro a tempo demais e posso pensar seriamente nisso! — ele riu.
— Já que você chegou cedo, venha ajudar na cozinha. — falou Doroteya se levantando e sentindo-se mais calma – Daqui a pouco Liana acorda e Rukiah precisara de mais um par de mãos.
— Eu posso ficar com Lili. — Ofereceu-se Fey animado.
— Adoraria. Ela está tão pesada… — Doroteya sorriu – Mais um pouco e eu precisarei ficar de worgen pela casa, para aguentar ela no braço.
— Ah, não fala em worgen que agora quero saber como é a cara daquele bumbum quente. — falou Fey animado.
Rukiah fitou Doroteya e Fey quando os dois entravam na cozinha, rindo animadamente. Àquela altura, Liana já estava acordada, mas permanecia calma, acomodada nos braços da pandaren.
— Parece que você perdeu a vez, Fey. — Anunciou Doroteya vendo a filha aconchegada a Rukiah – Agora, esqueça o bumbum quente lá e vamos cozinhar.
— Bumbum quente? — perguntou a sacerdotisa, curiosa.
E o resto da manhã foi cheia de conversas que Liana não tinha idade para ouvir, mas fortuitamente, não tinha também idade para entender.
*********************
Anduin estava fascinado. Aquelas inscrições eram muito antigas, mas ele não demorou muito para ter uma noção do que estava escrito nelas. Apesar de não ter estudo muito tempo a antiga escrita dos pandarens, ele tinha uma facilidade muito grande em aprender idiomas, e pode entender, por algo, que aquelas tabuletas diziam o que ele procurava saber. As pegou com gentileza, embrulhou em uma manta grossa de lã e as colocou em sua bolsa.
— Essas foram as últimas? — perguntou Pandora, parada um pouco atrás dele.
— Sim. — Afirmou o jovem animadamente, se levantando – Duvido que ainda tenha alguma tabuleta nessas ruínas. Já podemos passar para o próximo local.
— Amanhã. — Determinou a jovem – O dia logo vai embora e não queremos andar por aqui a noite.
Pandora achou que Anduin fosse reclamar, mas o príncipe apenas assentiu com a cabeça e pôs a bolsa trespassada no tronco.
Desde que chegaram no Monte Kun-Lai, aquela era a rotina dos dois: assim que sol nascia, saiam para procurar as ruínas mogus onde tinham as inscrições sobre artefatos mágicos que pudessem ser utilizados tanto para o bem quanto par ao mal; o jovem príncipe estava decidido em garantir que eles não fossem usados para o mal. Até agora, só haviam achado relatos que falavam dos artefatos, mas nenhum deles. Ainda assim, Anduin estava tão animado que chegava a ser irritante. Pandora, todavia, ainda não havia batido nele novamente e achava que merecia uma medalha pela paciência.
— Aqui. — Ela falou jogando um cantil com água para ele – Está seco demais. Beba um pouco de água.
Anduin assentiu e bebeu um grande gole do cantil, só então percebendo o quanto sua boca estava seca. O problema do Monte Kun-Lai era que o frio não deixava que se percebessem o quão sedentos se estava até beber água. Os lábios dos dois havia ressecado muito nos primeiros dias, até os pandarens lhes darem uma pasta para se passar nos lábios e eles perceberam que podiam passar em toda a pele exposta ao frio, impedindo assim que desenvolvessem queimaduras naquele clima. Porém, a falta de umidade cobrava seu preço. Anduin até que era bem resistente, mas Pandora tinha, pelo menos, um sangramento nasal cada vez que saiam.
— Como está o nariz? — perguntou Anduin enquanto desciam a colina, se segurando nos pilares das ruínas – Precisa que eu cure você?
— Não precisa. — Pandora se segurou em uma raiz enquanto escorregava pela encosta – Esses sangramentos são comuns quando fico em lugares secos. Afinal, fui criada na floresta, né? Sempre que a umidade do ar caia, o sangue caia do nariz também. — Ela deu uma risada – Pietro dizia que era o medidor de umidade mais confiável que existia.
Anduin riu também.
— Estou ansioso pela volta do Pietro, mas temeroso de ter que encarar Lina. — Admitiu o príncipe.
— Bem, pelo menos ela ainda não sabe da nossa escapada. — falou Pandora, animada – Eu devia ter imaginado que tragariam a poderosíssima vaca general assim que ela pisasse na bastilha.
Quando receberam a carta de Lina, dizendo que demoraria mais tempo do que previa em Ventobravo, os dois respiraram aliviados. Já estavam se preparando para a maior bronca de suas vidas, mas a Luz os ajudara e atrasara a volta da general. E havia um bônus: ela iria primeiro para a Vila Sri La antes de seguir para o Templo de Chi-Ji. Aquilo dava tempo mais que suficiente para eles voltarem e esperá-la inocentemente, como se nada tivesse acontecido.
— E, pelas minhas contas, só falta uma ruína para vermos na região. — Acrescentou o príncipe, compartilhando a animação de Pandora – Se terminamos amanhã e viajarmos logo em seguida, chegaremos antes dela!
Naquele ponto, Pandora e Anduin eram iguais: queriam fazer as coisas de seu jeito e de preferência não esperar pacientemente pelos outros. Ainda que tivessem tido problemas no começo, conseguiram chegar a um consenso e trabalharam em harmonia aqueles dias: Anduin cuidava de procurar as tabuletas com as informações e Pandora cuidava de protegê-lo. Até então, o mais perigoso que havia acontecido foram os dois terem sido atacados por alguns lobos, mas conseguiram matá-los sem muita dificuldade. Pandora já pensava em adestrar algum animal, para ter uma vantagem nos combates.
Tinha acabado a descida, quando algo chamou a atenção de Pandora. Seus olhos bem treinados logo visualizaram duas figuras se aproximando, do lado oposto ao que estavam. Imediatamente ela se abaixou e puxou Anduin pelo braço, quase derrubando-o no processo. O rapaz fez menção de perguntar algo, mas Pandora o interrompeu, tapando sua boca. O olhar de Pandora foi o suficiente para ele entender e assentir com a cabeça. Ela tirou a mão da boca dele e puxou o capuz sobre o rosto do rapaz. Ainda bem que havia convencido Anduin a vir com roupas mais modestas que não denunciavam seu status real. Todavia, todos sabiam que o príncipe era loiro dos olhos azuis, características incomuns entre os humanos. E a presença dele em Pandaria era conhecida. Melhor não arriscar.
Os dois ficaram agachados e não ouviam nada mais do que algumas pedras rolando, muito levemente, que podia ser apenas o vento. Eram pessoas experientes em se mover furtivamente, pensou Pandora. Caçadores, provavelmente. A jovem queria dar uma olhada, mas tinha medo de ser vista. Respirou fundo e prestou atenção na direção do vento; eles estavam contra o vento, então qualquer cheiro não seria sentido. Por isso, se focou nos sons.
Nada.
Isso significava uma coisa: elfos.
O coração de Pandora disparou. Seria… não, não podia pensar nisso. Seria muita coincidência encontrá-lo duas vezes seguidas no Monte Kun-Lai, mas era uma possibilidade que ainda existia…. Não! – se criticou ela. Não devia pensar nisso. Mas sua mente ficava voltando e voltando, admitindo que, apesar de tudo, queria encontrá-lo. Era um sentimento tão errado… A pessoa que ela mais queria encontrar era a pessoa que ela mais deveria evitar. Todavia, seu coração não dera trégua e batia tão forte que ela teve medo das pessoas que estavam ali pudessem ouvi-la. Sentiu um puxado levemente na sua manga e olhou para Anduin. Ele estava pálido, visivelmente preocupado e apertou seu braço. Imaginava se estava com a expressão tão desesperada quanto a dele.
— Vocês. — falou uma voz que ela não reconheceu – Não temos interesse em batalha. Revelem-se.
Anduin apertou ainda mais seu braço. A mente de Pandora trabalhava rápida. Podia ser um blefe, eles nem saberiam que estavam ali. Porém, se ela os viu, claro que eles a viram também. Seria estupidez acreditar que eles não queriam conflito, mas, por outro lado, se quisessem atacá-los, já teriam feito.
Enquanto Pandora se debatia sobre o que deveria fazer, uma outra voz falou:
— Deixe-os, Revas. Como você bem disse, não queremos conflito. Vamos andando.
A voz era inconfundível. Era Halduron. O coração de Pandora se descompassou e, quando percebeu, estava de pé, com o arco na mão, apontado para os recém-chegados. Anduin ficou abismado quando ela se levantou, mas acabou fazendo o mesmo, puxando bem o capuz para seu rosto não aparecer.
Assim que os viu, percebeu que eram realmente dois elfos e Halduron era um deles. Os olhos do elfo se arregalaram quando a viram, mas ele nada falou. O outro elfo que estava com ele, o que fora chamado de Revas, puxou rapidamente o arco, apontando-o para Pandora. Os dois ficaram se encarando, as cordas dos arcos retesadas. Porém, Halduron colocou a mão no ombro do outro, na tentativa de acalmá-lo.
— Não há necessidade disso, Revas. — falou o general-patrulheiro – Lembre-se, não estamos aqui para lutar.
— Nem nós. — falou Anduin, olhando para baixo, sem revelar o rosto – Só queremos ir embora.
Halduron olhou para Anduin, estreitando os olhos. Pandora se perguntava se ele estava achando o jovem familiar em algum aspecto. Não podia sequer mentir dizendo que ele era seu irmão: Halduron saberia na hora que era uma mentira. Tinha que pensarem alguma coisa, rápido.
— Como meu primo disse, não queremos lutar. — falou ela, torcendo para acreditarem – Só nos deixem ir.
Halduron ficou em silêncio por um instante, onde olhou de um para o outro e então assentiu com a cabeça.
— Vão, jovens humanos. Para todos os efeitos, eu não os vi e vocês não nos viram. — E dizendo isso, voltou a andar rumo ao interior das ruínas, de onde Pandora e Anduin saíram.
Pandora baixou o arco, relutante, mas não se moveu. Seus olhos estavam presos em Halduron. Porém, Anduin pegou seu braço e a puxou, tirando-a de seu devaneio. E sabendo o que era o certo a se fazer, ela guardou o arco e saiu dali seguindo os passos apressados de Anduin e tendo a certeza que não seria a última vez que se encontraria em Halduron em suas andanças por Pandaria.
Aquele pensamento fez um surgir um pequeno sorriso em seus lábios.
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— Não há nenhuma tabuleta nessas ruínas.
A fala de Revas fora simples, mas seu tom estava carregado de desapontamento e um pouco de frustração. A forma como o elfo lhe olhava, deixava evidente para Halduron o que ele pensava: os jovens humanos chegaram primeiro e levaram as tabuletas com eles. Havia também uma crítica velada, pois sabia que Revas se arrependia de tê-los deixado ir pensando que deveriam ter previsto aquilo e os detido, tomando as tabuletas. Porém, Revas era leal demais e treinado o suficiente para expor suas dúvidas em voz alta, então deixaria aquelas críticas apenas em sua cabeça, sem questionar as ordens do general-patrulheiro. Porém, seus olhos o denunciavam.
— Não havia evidências que as tabuletas estavam aqui. — falou Halduron encarando as ruínas – Tudo que sabemos é que havia rumores de sua presença. Além do mais, não somos arqueólogos, Revas. As tabuletas podem estar bem aqui, diante de nossos olhos e nós não as veremos.
Revas assentiu com a cabeça, e a dúvida desapareceu de sua face. Halduron sentiu-se um pouco incomodado, pois acabara de mentir para o jovem. Halduron tinha certeza que não apenas houvera tabuletas ali, como os jovens humanos as levaram. Todavia, se comprovasse as suspeitas de Revas, o jovem elfo insistiria em uma perseguição, que Halduron não podia impedir a menos que explicasse ao jovem elfo o porquê de sua atitude. E como explicaria quando ele nem mesmo entendia?
“Claro que entendo.”, rebateu ele dentro de sua própria mente. “Eu nunca quis conflito desnecessários com a Aliança, e atacar dois jovens sozinhos é definitivamente desnecessário!”. Todavia, aqueles jovens tinham coisas que eram do interesse da Horda. Informações que seriam vitais para evitar mais perdas dentro de sua facção. Aquilo não seria motivo suficiente para que eles tivessem, ao menos, revistando-os?
“Ela não permitiria.”, pensou Halduron. Pandora era afoita e duvidava que ela aceitasse quaisquer imposições sem entrar em um conflito. Principalmente se houvesse uma pessoa que ela precisasse proteger. Claro, mal conhecia a jovem, porém, tinha a sensação de que poderia decifrá-la perfeitamente, com as poucas informações que tinha. E, como uma pessoa que se dedicava tanto ao seu irmão, duvidava que ela deixasse qualquer um sob sua responsabilidade em perigo. E o menino que a acompanhava, mais jovem que ela, não parecia ser do tipo que lutava. Pandora não deixaria nem ele nem Revas chegar perto do primo.
“Mas eu teria como neutralizá-la, pegar as tabuletas e liberar os dois.” insistiu sua mente. “Por que não fiz isso?”
Para aquela pergunta, Halduron não tinha uma resposta.
— Por via das dúvidas e para evitar encontros desnecessários, amanhã visitaremos a próxima ruína mais cedo que hoje. — Avisou Halduron, tentando desviar os pensamentos para outra direção – E vamos levar um dos estudiosos do Relicário. A presença de um deles vai nos ajudar a localizar as tabuletas, onde estivermos.
— Sim, general. — falou o jovem, animadamente.
A fala de Halduron dissipou quaisquer dúvidas que Revas ainda tivesse. Ficou aliviado de ter contornado a frustração do jovem, mas sentia-se culpado por não ter sido sincero com ele. Todavia, uma longa vida e uma longa carreira o ensinara que às vezes, o melhor caminho para manter a motivação dos subordinados era deixando-os na ignorância.
Depois que terminaram as últimas checagens, decidiram encerrar as buscas. Os dois não tiveram dificuldades em vencer as inclinações da encosta, nem precisaram se apoiar em nada para manter o equilíbrio. Os elfos sangrentos não apenas tinham passos leves, como também sua agilidade permitia que vencessem os obstáculos naturais com muita mais facilidade que os humanos. Mas também sofriam com o clima frio e seco e logo após saírem das ruínas, tomaram água, cada um em seu cantil e voltaram em silêncio para seu acampamento.
Enquanto voltavam, a mente de Halduron foi povoada de pensamentos sobre Pandora. Encontrar a jovem uma vez em meio aquele continente desconhecido fora um choque; encontrá-la duas vezes, com poucos dias de diferença, fazia parecer que o destino debochava dos dois. E tinha certeza que se encontrariam novamente. Aquela certeza o deixava num misto de exasperação e expectativa.
Pandora era muito mais jovem que ele, de outra raça, de uma facção oposta e, ainda assim, ele a achava intrigante. Talvez fosse apenas porque nunca vira alguém tão abdicada quanto ela com relação ao irmão. Quando os vira em Dalaran, anos atrás, lembrou-se imediatamente dele próprio e sua irmã. Era ele quem a mantinha na linha, que cuidava dela, que sofrera tanto com sua partida. Sim, ele a admirava por isso. E ele estava curioso. Onde estaria Pietro? Quando perguntara por ele, a reação dela fora de raiva, por ele tocar no nome do irmão. Era provável que ela não dissesse nada sobre Pietro, mesmo que perguntasse, mas Halduron se pegou querendo saber o que acontecera com o menino. Era óbvio que Pandora jamais levaria seu irmão para um lugar perigoso, mas também não se distanciaria dele tanto. Pietro deveria estar por perto. Talvez não ali em Kun-Lai, já que o terreno era acidentado e a cadeira do menino não conseguiria se mover com facilidade. Deveria haver outro lugar, um lugar seguro.
O silêncio se impôs no local e Halduron sentiu que algo estava estranho. Relanceou a vista para Revas, que o olhava com uma expressão interrogativa, como se esperasse uma resposta. Será que o jovem havia perguntado algo que ele deixara passar, preso nos próprios pensamentos?
— Eu estava preso em meus pensamentos, Revas. — ele achou necessário explicar – Isso costuma acontecer quando temos experiência demais e tempo de menos. — Ele deu um sorriso simples – Você perguntou algo?
— Sim, senhor. Perguntei. Mas não quero incomodá-lo com minhas dúvidas.
— Bobagem, Revas. Você é meu comandado, minha obrigação é esclarecer suas dúvidas. Vamos, pergunte.
Por um momento, Halduron viu a curiosidade nos olhos do jovem e chegou a pensar que Revas perguntaria sobre os pensamentos do general, aqueles que o levaram para longe, todavia, mostrando novamente o quão fiel e bem treinado era, Revas apenas perguntou o que lhe foi solicitado.
— O que faremos se encontramos os humanos novamente amanhã? — foi a pergunta.
Halduron considerou a pergunta por um momento, seu coração pulando ante a possibilidade de encontrar Pandora novamente.
— Teremos que fazer algumas perguntas a eles, perguntas que talvez eles não queiram responder. — falou por fim – Mas não quero machucá-los ou fazer deles reféns. — alertou – Isso apenas jogaria as forças da Aliança em cima de nós aqui no Monte Kun-Lai. E, com certeza, nossos aliados pandarens não concordariam com isso. Por isso, Revas, se prepare para colocar toda sua diplomacia à prova. Acha que consegue?
Aquela provocação fora proposital. Qualquer jovem elfo sangrento detesta ter suas habilidades questionadas. Revas não era diferente. Estufou o peito e, com a expressão decidida, falou sem hesitação:
— Absolutamente, general.
— Então, prepare-se.
Revas assentiu, empolgado.
Chegaram no acampamento e a primeira coisa que Halduron fez foi procurar os integrantes do Relicário e informá-los que um deles os acompanhariam no dia seguinte. Mas uma vez, não houve questionamentos, apenas aceitação.
— Escolham quem vocês quiserem para a incursão. — Halduron avisou – Sairemos antes do sol nascer.
E, com sorte, pensou Halduron teriam não apenas as tabuletas, mas também algumas informações que seriam úteis, não apenas para a Horda quanto para a própria curiosidade dele.
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Vivithi não era uma pessoa que passava despercebida. Onde quer que ela entrasse, algo emanava da elfa que fazia todos virarem a cabeça para olhá-la. Talvez fosse a dureza em seu olhar, sua postura ou sua armadura reluzente. A questão era que Vivithi impressionava. Por isso, trabalhos mais sutis, como espionagem, não eram seu forte.
Pelo menos era o que as pessoas pensavam.
De certo modo, era verdade. Vivithi não servia como espião, simplesmente porque ela não tinha paciência para aquilo. Ela estragaria qualquer missão muito fácil porque já tivera sua cota de jogos mentais para o resto de sua vida. Inclusive, havia um líder de espionagem em Luaprata. Contudo, isso não significava que ela não soubesse fazer uma coisa e outra como, por exemplo, usar sua própria visibilidade para encobrir um encontro com um espião. Afinal, ninguém pensaria que ela, logo ela, fosse a pessoa que transmitia as informações ao seu tio e às princesas.
“O melhor lugar para esconder uma árvore é no meio da floresta.”. O velho ditado do seu povo veio à sua cabeça no momento em que entrava na taverna dos pais de Saba, em Orgrimmar, o que atraiu muito olhares, como sempre. Ela encaminhou-se para o balcão e Morag sorriu para ela.
— Minha cara Vivithi! — cumprimentou o orc, já pegando um copo e a servindo – Você está com a cara de quem precisa de uma dose daquelas.
— O que mais gosto em você, Morag, é que você sempre sabe o que me servir. — falou a elfa com um sorriso e pegando o copo cheio – Obrigada. — E tomou o shot de uma vez só, franzindo o cenho – Essa é da boa, hein?
— Eu sirvo o melhor destilado de Orgrimmar. — falou o orc enchendo o copo dela mais uma vez – Podem pensar o que for, mas orcs não gostam só de cerveja.
— Graças aos seus ancestrais por isso. — disse ela levantando o copo e sorrindo, antes de virar mais uma vez.
Morag deu uma risada, antes de perguntar:
— Então, o que a traz a Orgrimmar?
— O de sempre. — respondeu ela pousando o copo no balcão – Entregar informes ao Chefe Guerreiro que minha rainha não confia enviar por correio mágico.
— Karen é uma menina prudente. — O orc era uma das poucas pessoas em Orgrimmar que tinha intimidade o suficiente para se referir à rainha de Luaprata pelo apelido – Os cães da Aliança são cheios de artimanhas! Não duvido nada que Orgrimmar esteja fervilhando de espiões.
— Nem eu. — Concordou a elfa – Principalmente depois de Pandaria. — Ela suspirou – Sinto pena dos pobres pandarens, sabe? Jogados no meio desse conflito, sem nem entender o que está acontecendo.
— Se eles forem espertos, ficarão do lado certo. – Decretou Morag.
— Esperemos por isso.
— Mais uma? — perguntou o orc pegando a garrafa.
— Primeiro, me arrume algo para pôr no estômago. Não quero chegar em Luaprata trocando os pés.
— Pode deixar! — riu-se o orc.
Logo Morag colocou um prato com queijo e frutas na frente da elfa e os dois começaram a conversar animadamente, colocando o papo em dia. Vivithi descobriu que naquele dia a esposa do orc não estava lá pois tinha ido visitar a filha e levado as comidas preferidas da menina, além de agrados para a mestra dela.
— Saba está cada dia mais forte! — falou Morag cheio de orgulho – A senhora Shikrik diz que há muito tempo não encontra alguém com tanto talento quanto ela! Mas disse que não era para elogiar muito, senão Saba começa a fazer corpo mole.
— Saba é uma menina responsável, não vai fazer corpo mole, não importa a quantidade de elogios que receba. — Vivithi foi em defesa da menina – Pelo contrário, ela vai se esforça muito só para tirar mais dias de folga para visitar Karen.
— A pequena rainha é uma excelente influência! — o orc deu uma risada.
Os dois conversaram mais um pouco, até que a taverna foi enchendo cada vez mais e ele precisou sair de trás do balcão para servir os novos clientes, deixando Vivithi petiscando prato que lhe fora servido e bebericando do destilado. Quando a taverna estava bem cheia, um imenso tauren sentou-se do lado dela e Morag correu para atendê-lo. Com a voz mansa e própria de sua raça, o tauren pediu uma cerveja e foi atendido prontamente, antes do orc sair para atender mais um chamado. Vivithi e o tauren ficaram em silêncio por um tempo até que ela falou, a voz baixa sendo encoberta pelo barulho do local:
— Como ele está?
— Já teve dias melhores. — respondeu o tauren no mesmo tom de voz – A pressão só aumenta. Alguns dos demais acham que ele pode ser quebrado a qualquer momento.
A mão de Vivithi apertou o copo. Aethas estava sendo empurrado ao seu limite e os Fendessol temiam por sua capacidade de liderar naquele momento. Para algum deles, a inveja podia falar mais alto e não seria difícil que começassem a agir sem o consentimento do seu líder.
— Alguma reviravolta à vista? — quis saber a elfa.
— Nenhuma. Preferem ficar no sossego.
Vivithi relaxou um pouco mais. Quem quer que estivesse descontente dentro dos Fendessol não chegaria a dar um golpe em Aethas, de jeito nenhum. Preferiam agir na surdina, deixando o arquimago ficar na linha de frente do Kirin Tor. Além do mais, o próprio Kirin Tor não permitiria que Aethas fosse destituído da liderança dos Fendessol. Afinal, era melhor lidar com quem já se conhecia e com quem eles conseguiam para negociar.
— Há interesse em quebrá-lo. Interesse do alto. Para usá-lo contra os outros. — Continuou o tauren.
O estômago de Vivithi revirou. Devia desconfiar. Grito Infernal estava por trás dos elfos descontentes nos Fendessol. Seria fácil manipular aqueles que tem ganância e interesse no poder. Desde a traição de Thalen Tececanto, na queda de Theramore, pode-se ver a influência que Garrosh Grito Infernal tinha entre os elfos sangrentos dos Fendessol, principalmente aqueles ambiciosos e sem escrúpulo. E, com o acirramento dos ânimos em Dalaran por causa da descoberta de Pandaria, mais e mais elfos como Tececanto apareceriam para engrossar as fileiras do Chefe Guerreiro.
— E os outros? — perguntou a elfa.
Agora ela queria saber de Dalaran. Do Kirin Tor. Eles também tinham seus espiões. Estariam eles focados apenas em Aethas?
— Os outros desconfiam. Sabem que há interesses divergentes, mas não vão interferir a menos que algo saia do controle. — E, dando uma pausa, o tauren acrescentou – Dividir para conquistar.
Vivithi teve vontade de jogar o copo que segurava na parede. O Kirin Tor deixaria Aethas ser corroído dentro dos próprios Fendessol sem fazer nada. Esperaria para ver até onde tudo iria e só agiriam se os interesses da própria cidade estivessem em jogo. Nesse meio tempo, o arquimago ficaria se equilibrando entre manter a paz dentro de sua facção, atender os interesses do Kirin Tor e zelar pelos assuntos da Horda junto a estes. Mesmo com séculos de experiência em política, quanto tempo até Aethas chegar ao limite?
Esperou o tauren falar mais alguma coisa, mas o relatório havia terminado. Nenhum dos dois fez menção de sair, cada um agindo normalmente, comendo e bebendo calmamente. Vivithi foi a primeira a terminar sua refeição e fez um gesto para Morag, que corria para atender os clientes.
— Tenho que voltar para Luaprata enquanto ainda posso andar. — Gracejou ela – Quanto te devo?
— É o mesmo preço que da última vez, Vivithi. — lembrou-lhe o orc.
— Ah, claro. — Ela separou as moedas e deu uma gorjeta vultuosa – Aqui, por sempre saber o que me servir.
Morag gargalhou.
— E é por isso que jamais vou esquecer. Queria que todos os outros fossem agradecidos como você.
A elfa deu uma risada, apenas para manter as aparências, já que seu interior queimava de indignação e frustração.
— Aproveite que vou demorar para vir aqui. — falou ela – Há muito a ser feito em Luaprata.
Era uma deixa para o espião. Dariam um tempo nos encontros até que algo acontecesse.
E Vivithi esperava que nada acontecesse ou talvez não mantivesse a calma da próxima vez.
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— Então, o cachorro doido quer um tutor para Theo? — perguntou Lina cruzando os braços.
Tommy estava surpreso com a calma com a qual sua irmã recebeu a notícia da visita da Benedictus Tobias. Assim que Lina chegou da Bastilha, Doroteya a chamou para o terraço e contou tudo sobre a visita. Tommy já ouvira a mesma história da esposa assim que chegou em casa e não recebeu a notícia tão bem. Se estivesse em casa no momento em que o worgen foi lá, não teria sido tão educado quanto a esposa foi. Contudo, sabia que não cabia a ele a decisão final do que fazer naquela situação.
A tarde estava quase chegando ao fim e o declínio da luz do sol projetava sombras que se alongavam pelo terraço. Lina estava encostada no pergolado e observava a expressão insatisfeita de seu irmão. Doroteya estava sentada, inquieta e a encarava com ansiedade. Os três esperavam a chegada de Theo, que estava lanchando depois de ter chegado da praia com Pietro e os filhotes de pandaren. Doroteya queria conversar apenas quando seu filho chegasse, porém, seu nervosismo era imenso. Torcia as mãos e olhava para a amiga e para o marido.
— O que você acha, Lina? — perguntou a druidesa, por fim.
— Eu acho que a decisão é sua, Doro. — falou Lina com sinceridade – Você melhor do que ninguém pra dizer o que é melhor para o Theo.
— Theo quer ser paladino. — lembrou Tommy, sentado em frente a esposa – O que um tutor guerreiro pode fazer por ele?
— Na verdade, muita coisa. — respondeu Lina, para a surpresa de ambos.
— Lina, você está concordando com essa ideia? — Tommy se inclinou para frente a encarou, incrédulo.
— Calma lá, Tommy. — Ela levantou a mão – Eu não estou concordando com nada. Me ouça antes de jogar pedras.
Tommy não falou mais nada e a irmã continuou:
— Olhem, por mais que a gente não queira, Theo tem sangue real. Se ele decidir, sei lá, fazer qualquer coisa que tenha a ver com aquelas coisas chatas que a nobreza faz, é importante que saiba de algumas coisas. Ou ele pode ser jogado nesse mundo sem preparo. — Lina balançou a cabeça – E seria comido vivo pelos nobres.
Doroteya ficou visivelmente apavorada.
— Porém, — continuou Lina – Theo quer ser paladino e não pode ser privado disso. Para ter aulas com esse tutor, teria que ser em outro horário. Na verdade, eu acho que é possível que Greymane queira que o senhor Tobias more aqui.
— Ah, de jeito nenhum! — exclamou Tommy – Alguém de Greymane aqui?!
— Poderíamos ficar de olho nele. — falou Lina que claramente não achava aquela ideia tão absurda quanto seu irmão – E ele pode acabar se tornando um dos nossos e não um deles.
— Você está calma demais com tudo isso. — disse Tommy, com desconfiança – Por que?
— Porque eu vejo como a nobreza pode sufocar uma pessoa, mesmo ela estando preparada, Tommy. — Revidou Lina – Imagine um menino inocente como o Theo, no meio daqueles… daquele tipo de gente.
— Ele pode não querer ter contato com eles. — Sugeriu o homem.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Mas é a família dele. — lembrou-lhe Doroteya – Ele vai querer contato com os avós… com a tia… acho que vai ser inevitável que acabe se envolvendo de alguma forma. — O tom de Doroteya era triste, mas conformado.
Tommy sabia que Doroteya estava certa, por isso calou-se. Por mais que não gostasse de Greymane, ele ainda era avô de Theo. E se ele estivesse disposto a uma relação amigável com Doroteya e se aproximar de Theo, não seria ele quem atrapalharia. Mas não podia dizer que apoiava, tampouco.
— Não sei porque estamos discutindo. — falou Lina sacudindo a cabeça – Nós três sabemos que, no final, faremos o que o Theo quiser. Somos três fracotes.
Aquela fala quebrou o clima tenso e os três riram.
— Me chamou, mãe?
A cabeça ruiva de Theo apareceu na porta e Doroteya fez um gesto para que ele entrasse. Theo atendeu ao chamado e sentou-se ao lado da mãe, olhando para os lados.
— Cadê Liana? — quis saber.
— Tá com Fey. — respondeu a druidesa – Ele disse que precisava testar novos ‘looks’ nela. Mas daqui a pouco ela começa a chorar com fome e ele vem correndo com ela.
Theo sorriu para a mãe, que sorriu de volta.
— Theo… — começou Doroteya ficando séria – Tem uma coisa que queremos conversar com você.
— O que eu fiz? — perguntou o menino, assustado.
— Roubou meu coração, foi o que você fez. — Gracejou Lina.
— E eu preciso devolver? Porque ele tá aqui juntinho do meu. — respondeu Theo colocando a mão no peito.
— Pela Luz, porque você é tão fofo?! — Lina exclamou indo até o menino e o apertando com força – Não, meu amor, o coração é seu!!
Doroteya esperou que Lina apertasse Theo o quanto quisesse para só depois falar o motivo de tê-lo chamado ali.
— Theo, querido. — falou e o menino a olhou – Nós o chamamos aqui porque… Bem, seu avô enviou uma pessoa aqui hoje para conversar comigo.
A druidesa explicou detalhadamente ao filho tudo que acontecer apela manhã, além de relatar também a opinião que Lina e Tommy expressaram antes dele chegar. Theo ouviu tudo em silêncio, acenando com a cabeça a medida que sua mãe perguntava se ele estava entendendo e no final da narrativa, quis saber:
— Se eu tiver um tutor, vou ter que deixar de frequentar as aulas de paladino? — havia preocupação em sua voz.
— Não, querido, você não vai fazer nada que não queira. — Tranquilizou Doroteya.
— Então, como seria?
— Isso seria discutido com o senhor Tobias e com o rei Greymane. — falou a mãe – Mas, como disse, só se você quiser…
O menino ficou calado por um momento.
— Ah, não sei… — falou Theo por fim – Se eu concordar e esse senhor Tobias não gostar de mim? E se ele não gostar da Liana?
— Acho difícil alguém não gostar de você, campeão. — falou Tommy carinhosamente.
— Se ele não gostar, eu o chuto de perto de você sem nenhuma cerimônia. — Avisou Lina com seriedade – Além do mais, e se você não gostar dele? Essa é uma possibilidade também.
Vendo a indecisão do seu filho, Doroteya passou a mão na cabeça dele.
— Não precisa decidir agora. Pense um pouco. Até porque essa é uma decisão que vai impactar muito sua vida.
— E se não quiser, deixe bem claro, não se sinta mal de dizer não para seus avós. — disse Tommy – Sei que você quer se dá bem com eles.
— Será que eu posso conversar com o senhor Tobias antes de decidir? — perguntou Theo olhando para a mãe – A gente podia convidar ele para visitar. Quero saber as ideias dele, se ele vai gostar de Liana, o que o tio Mel e o tio Fey vão achar.
A menção a Fey fez Doroteya dar uma risada e todos a olharam, sem entender.
— Bem, um dos seus tios já tem uma opinião sobre o senhor Tobias. O Fey o achou bem… interessante. — Ela não ia falar do bumbum quente para seu filho, mas sabia que Lina e Tommy tinham ideia do tipo de coisa que o Fey podia ter falado.
— Ahh, que bom! — Theo se animou – Já é uma coisa boa né? O tio Fey ter gostado dele? — e olhou para Tommy.
— Errr… Sim. — Concordou Tommy, sabendo que a forma de gostar que Fey era bem diferente do imaginado pelo menino.
— Vou convidá-lo então! — decidiu o menino – Vou conversar com ele e depois penso no que fazer!
— Ótima ideia, querido. — Doroteya alisou a cabeça do filho.
— Escreva o convite, Theo, que eu levarei até a Bastilha hoje à noite. — Avisou Lina.
— A senhora ainda vai trabalhar, tia? — perguntou o menino.
— Não. Jantarei com Varian. — Um sorriso imenso tomou o rosto de Lina.
— Ah, então não vai jantar com a gente? — Theo ficou um pouco triste – Vai ter um jantar de despedida pra Rukiah!
— Oh, querido, não fique assim, que vou me sentir culpada! Mas a titia aqui precisa muito namorar um pouco. — explicou – Além do mais, Rukiah vai entender. Vou estar com ela por um bom tempo ainda.
— Mas você ainda vem se despedir da gente amanhã de manhã? — quis saber o menino.
— Claro que sim! — confirmou e Theo ficou mais feliz – Estarei em casa para tomar café com vocês e pegar minha bagagem, não se preocupe!
Satisfeito com a promessa, o menino se levantou e avisou:
— Vou escrever o bilhete! — e saiu correndo porta afora.
Tommy olhou para a porta por onde o menino havia saído e franziu o cenho. Ele não estava convencido da ideia do tutor, mas não queria se meter na relação de Theo com a família do pai. Afinal, por tanto tempo, aquela família fora motivo de medo tanto para Doroteya quanto para o menino e agora os Greymane queriam interagir com eles como se nada tivesse acontecido. Não acolheram e conviveram com Theo como a família Wood. Será que o menino acabaria se afastando da família do padrasto? Não… Theo jamais faria isso. Ainda assim, era difícil lidar com aquele sentimento.
— Ei. — Lina o chamou e Tommy a encarou – Não precisa ficar com essa cara. Sei que você deve estar se roendo de ciúmes…
— Eu não estou com ciúmes! — defendeu-se ele. E virando-se para a esposa, reforçou – Eu não estou com ciúmes.
— Claro que não, Tommy. – Falou Doroteya com suavidade – Você só está preocupado…
— Com ciúmes ou sem ciúmes, nós três estamos preocupados. — lembrou Lina se dirigindo à porta do terraço – Antes de Theo se encontrar com esse senhor Tobias, eu vou pedir para Horatio pesquisar um pouco pobre ele, saber que tipo de pessoa ele é. Mas acredito que a rainha Mia não deixaria nenhuma pessoa perigosa perto do Theo.
— Acho que a principal questão é se não é uma forma deles empurrarem Theo para uma vida que ele não quer. — Reforçou Tommy – Não é porque ele tem sangue real que ele será obrigado a fazer parte de tudo isso. Isso eu não vou permitir.
Doroteya sorriu, feliz com a preocupação e pegou as mãos do marido. Lina revirou os olhos. Não estava pronta para ver romantismo, já que ela própria estava privada disso há um bom tempo. Para sua felicidade, o choro agudo de Liana cortou o ar e Doroteya ficou imediatamente alerta. Fey subiu para o terraço, com a menina no braço que estava com o rosto vermelho de tanto chorar. Doroteya se adiantou e pegou a filha, colocando-a imediatamente no peito. Tommy ficou feliz que seu irmão tivesse aparecido; precisava perguntar algo a ele.
— Fey, você conheceu Benedictus Tobias, não foi?
— Isso. — falou Fey sentando-se ao lado do irmão – Vocês já decidiram o que farão?
— Theo vai mandar uma carta para o senhor Tobias, pedindo para se encontrar com ele e conhecê-lo. — explicou Lina – Depois, ele vai decidir.
— Ah, me avisem o dia em que ele virá aqui! — pediu Fey animado – Eu realmente quero me encontrar com ele!
Os irmãos o olharam, curiosos.
— Ele tem o bumbum quente. — explicou Fey, com o rosto corado.
Tommy franziu o cenho, fazendo uma careta enquanto Lina caia na risada. Aparentemente, o worgen havia deixado fortes impressões em sua visita.
Se Benedictus Tobias não se cuidasse, não demoraria muito para ele ser engolido pela família Wood.
************
Um dos poucos momentos de paz que Aethas tinha era quando chegava em casa, após um longo dia no Kirin Tor. O vazio do casarão lhe dava uma sensação de solidão, mas também de paz. Era o lugar onde podia tirar sua máscara de confiança e se permitir sofrer um pouco.
Todavia, assim que pôs os pés na sala, ele sentiu que havia algo errado. Era uma sensação tênue de magia que fora conjurada naquele local. Mas Aethas não conjurara nada antes de sair. Isso significava que alguém esteve ou ainda estava em sua casa.
Tentando manter a calma, Aethas não adentrou na casa, ficou na porta, os olhos percorrendo o ambiente. Se fosse para ser morto, teria sido atacado diretamente assim que entrara em casa. Porém, não sabia qual magia tinha sido conjurada, então poderia ser algo que pusesse sua vida em risco. Só havia uma forma de saber.
Sem fazer alarde, Aethas colocou a mão na parede da sala. A magia saiu discretamente de suas mãos e percorreu todo o ambiente. Ali estava: uma armadilha mágica. Não era letal, percebeu, e provavelmente só serviria para assustá-lo ou atordoá-lo. A pessoa não o queria morto. Aethas já estava quase acabando sua procura, quando entendeu que fora muito fácil identificar a armadilha. Quem quer que tivesse entrado ou estivesse em sua casa, saberia que estava lidando com o arquimago Aethas Fendessol. Ou a pessoa era muito mais forte que ele ou contava que estivesse cansado e distraído. Por isso continuou sua busca, desatando todos os nós mágicos que achava um por um, numa busca lenta e demorada. Não tinha pressa. E lá estava. Uma armadilha dentro da outra. Se tivesse dissipado a primeira magia sem encontrar a segunda, outra armadilha se ativaria. E, como todo cuidado era pouco, Aethas só parou quando sua aura já havia coberto toda a sua casa e achado todo e qualquer resquício de perigo.
Ao terminar o serviço, muito mais cansado do que estava quando chegara em casa, ele respirou fundo e falou:
— Saia. Eu já sei que você está aí.
Uma risada que ele conhecia muito bem se fez ouvir, deixando-o chocado. Era a última pessoa que ele esperava ver em sua casa. E, diante de seus olhos, Thalen Tececantos surgiu, sorrindo.
— Esplêndido, como sempre, mestre.
O sangue subiu à cabeça de Aethas. Thalen Tececanto não era um mero mago; ele era o mago que traíra o Kirin Tor, se aliando a Garrosh Grito Infernal para a sabotagem das defesas de Theramore, quando a Horda atacara a cidade. Rhonin e Aethas haviam escolhido o elfo para defender a cidade da Aliança porque seria uma forma de mostrar a neutralidade dos Fendessol, que a facção dentro do Kirin Tor não tomaria partido no imperialismo do novo chefe Guerreiro. Fora a pior escolha que fizeram, que culminou na destruição da cidade e na morte do antigo líder do Kirin Tor. Mas como ele e Rhonin saberiam que Thalen estava do lado de Garrosh? O elfo nunca dera mostras que era infiel ao Kirin Tor!
— Não precisa fazer essa cara, mestre. — falou Thalen tranquilamente – Eu só vim-
Antes dele terminar a frase, Aethas o jogou na parede, numa onda de energia arcana, arrancando gemido e sangue do elfo. Depois, o ergueu no ar, pelo pescoço, uma mão invisível apertando a traqueia de Thalen. Os olhos do arquimago estavam injetados de raiva.
— Um motivo, Thalen… — vociferou se aproximando dele – Me dê um único motivo para eu não te matar agora!
Thalen tossiu, cuspindo sangue e Aethas afrouxou o aperto só um pouco, apenas o suficiente par ao elfo falar.
— A ra-inha… — ele murmurou.
O rosto de Aethas desfigurou-se de ódio e ele e voltou a apertar a garganta do elfo.
— Não ouse falar da minha sobrinha!
Era questão de tempo até que a fúria de Aethas matasse seu antigo aprendiz. Só não o fez porque sua parte racional lhe dizia que Thalen não estava ali com a intenção de fazer mal. A opção que restava era que ele era um tipo de mensageiro. E não era um mensageiro de Luaprata. Só restava então uma opção.
Aethas o soltou de repente e Thalen caiu no chão, tossindo sofregamente. Aethas não baixou a guarda. Ficou encarando o jovem elfo caído no chão, que massageava a garganta, sem um resquício do afeto que sentira por ele anteriormente. A causa de seus problemas com o Kirin Tor, de não poder ver suas sobrinhas como queria, do acirramento das tensões naquela que devia ser o centro de toda a neutralidade estava ali, no chão de sua sala. Devia chamar a guarda e entregá-lo à Jaina Proudmore. Sim, era o que devia fazer. Mas ele falara que Karen era um motivo de estar ali. Sentia que devia ouvi-lo antes de fazer qualquer coisa.
— Fale. — Ordenou Aethas – Que depois eu lhe entregarei para os guardas do Kirin Tor. Você vai passar uma bela temporada no Castelo Violeta.
Thalen não falou nada no primeiro momento, recuperando o fôlego. Depois, limpou o filete de sangue em seu queixo. Apesar do ataque, Thalen estava calmo, calmo até demais, percebeu Aethas. Em uma disputa de magia, Thalen não teria como ganhar dele. Sua calma poderia ser por causa de algum aliado dentro da casa que lhe desse cobertura. Porém, Aethas não achara mais ninguém ali. Então, porque ele estava tão confiante? Aethas teve um mal presságio.
— Como percebeu que havia alguém, mestre? — Thalen perguntou, curioso – Eu tive certeza que escondi os meus rastros….
— Não escondeu bem o suficiente. Você encobriu bem a primeira armadilha, mas a segunda deixou um resquício de mana. Você se esforçou muito para me surpreender, mas não o suficiente para apagar seus rastros.
— Então esse foi o meu erro? Falta de atenção? — ele foi se levantando aos poucos.
— Seu erro foi trair o Kirin Tor, Thalen.
— Traí mesmo? — provocou o elfo, ajeitando sua roupa – Há traição quando há lealdade envolvida. E nós dois sabemos que não estamos no Kirin Tor por mera lealdade. Estamos por questão de sobrevivência. Apenas isso.
— Então, já que temos esse laço apenas para sobreviver, temos que cortá-lo?! — perguntou Aethas sem acreditar no que ouvia – Thalen, isso é insano!
— Insano é continuarmos com a cabeça baixa ao Kirin Tor! Nós dominamos a magia há mais tempo que os seres humanos existem! Por que temos que baixar a cabeça a eles?! — o elfo apontou o dedo para o lado, como se apontasse para o próprio Kirin Tor.
Aquela não era uma atitude rara entre os elfos sangrentos. Porém, era a primeira vez que Aethas via alguém fazer algo que deliberadamente colocava seu povo em risco por aquela ideologia.
— Eu não vou discutir isso com você, Thalen. Você sabe meu posicionamento. Não mudei de ideia. Me diga logo o que você veio fazer aqui e o que minha sobrinha tem a ver com isso.
O jovem elfo o olhou de cima a baixo, a atitude respeitosa sumindo se suas maneiras.
— Grito Infernal ordena que você se prepare para servir a Horda, como deve ser. — falou Thalen, por fim.
Aethas arregalou os olhos, surpreso. Não esperava por aquilo. Garrosh lhe ordenar qualquer coisa? Ele, um membro do Kirin Tor? Era tão absurdo que o arquimago se pôs a rir. Thalen, no entanto, continuava a encará-lo, com seriedade.
— O Chefe Guerreiro não tem poder nenhum sobre mim, Thalen. — falou Aethas – Minha lealdade está com o Kirin Tor. Eu não sou membro da Horda.
— Mas suas sobrinhas são. — falou o elfos em rodeios – E Grito Infernal manda dizer que pode tornar a vida delas… difícil…
O sorriso de Aethas morreu e agora era Thalen quem sorria.
— Ele não se atreveria… — murmurou Aethas.
— Não? — perguntou-lhe Thalen – Você pode afirmar, com certeza, que Grito Infernal não faria nenhum mal às suas sobrinhas se você não colaborar? Não apenas a elas… Qual nome da outra? Sim, Vivithi…
A menção à Vivithi foi a gota d'água. Aethas atirou novamente Thalen na parede, mas dessa vez o elfo revidou. Fez diversos ataques mágicos contra o arquimago, que se defendeu sem dificuldade. E a próxima magia de Aethas o elevou do chão mais uma vez e o prendeu à parede.
— Agora eu vou chamar a guarda e você irá preso. — Avisou Aethas enfurecido indo em direção à porta.
— Ah sim… irei… — continuou Thalen sorrindo – E não mandarei minha resposta ao Chefe Guerreiro. Quando chegar a notícia a Orgrimmar… Quanto tempo até ele agir? — e dando uma pausa, completou – O Kirin Tor é mais importante que sua família e sua amada Vivithi? Vai deixá-las para trás, como fez com sua irmã Samanthah?
Aethas estacou. Virou-se devagar, apenas para ver Thalen sorrindo, cheio de si.
Era um blefe, Aethas sabia. Tinha que ser um blefe. Garrosh arriscaria perder todo o apoio da Horda atacando abertamente Luaprata? Seria ele louco o suficiente para achar que os outros chefes ficaram sentados vendo ele atacar a mais jovem líder? Sylvana Correventos aceitaria? Claro que não. Garrosh não faria abertamente. Por isso ele enviara Thalen para dar o recado. Se ele pudera infiltrar alguém dentro do todo poderoso Kirin Tor, não seria difícil infiltrar alguém dentro da Torre Solfúria e atentar contra suas sobrinhas. Mesmo que ele, Aethas, entregasse Thalen ao Kirin Tor e alertasse Luaprata, o que aconteceria? Garrosh negaria as acusações e depois? Imporia sanções? Obrigaria suas meninas a irem para a frente de combate para provar a lealdade? E Vivithi? Ela não tinha a proteção de um título real. Ela podia simplesmente sumir. Desaparecer. Morrer em combate. Seria tão fácil encobrir a morte de alguém numa frente de combate…
Thalen ainda estava preso à parede, mas sabia que era questão de tempo até Aethas libertá-lo. Vir no momento em que a tensão estava no ápice dentro do Kirin Tor fora acertado: Aethas já estava cansado de lutar contra a desconfiança dos demais membros do conselho e ao mesmo tempo estava privado há tanto tempo de suas sobrinhas, que fora fácil manipular seus sentimentos. Evocar a imagem de sua falecida irmã também for acertado. Não era segredo para ninguém que o arquimago ainda sentia a morte de Samanthah.
Aethas não queria ceder. Não podia ceder. Ceder seria ser exatamente a pessoa que Vereesa Correventos proclamava que ele era. Se cedesse às exigências de Garrosh Grito Infernal, seria igual a Thalen. Suas mãos seriam manchadas pelo sangue de inocentes. Porém, se não aceitasse, seria o sangue das pessoas que mais amava no mundo que mancharia suas mãos. Quem ele estava disposto a sacrificar?
Sentando-se pesadamente no seu sofá, Aethas cobriu o rosto com as mãos, desolado. Depois, fez gesto na direção de Thalen, mas não virou para olhá-lo quando o elfo caiu sentado no chão, após ser libertado.
— Vá embora. — Foi tudo o que falou Aethas – Apenas… vá.
Thalen levantou-se mais uma vez, com um sorriso que seu antigo mestre não viu, pois continuava fitando um ponto fixo a sua frente, o olhar perdido.
— O Chefe Guerreiro mandará notícias, quando chegar o momento. — E fazendo uma breve reverência, falou, animadamente – Até mais, mestre.
E sumiu numa explosão de magia arcana.
Aethas desejou poder sumir também e deixar aquele mundo para trás. Se pudesse, trocaria de lugar com suas sobrinhas e Vivithi, morrendo por qualquer uma delas sem pestanejar. Porém, sua atitude sem dúvida, condenaria outros à morte. Quando chegasse o momento esperado, Garrosh cobraria dele a lealdade requerida. Porém, ainda assim, havia algo dentro dele que parecia alívio. Sim, se tornaria aquilo que tentou evitar com afinco nos últimos anos, contudo, daquela vez, protegeria as pessoas que amava. Daquela vez, ele não falharia.
Ainda que isso custasse a sua alma.
**********
Pandora encarava o teto da tenda, insatisfeita com sua própria decisão. Detestava ser uma pessoa responsável, admitiu. Ter sido responsável por seu irmão por tanto tempo a empurrara para um amadurecimento precoce e a fazia pensar muito antes de qualquer coisa, pois sempre tinha que ponderar o que era bom para Pietro e não. Agora, ela percebera que levara aquela característica para outras coisas da vida.
Ver Halduron duas vezes em tão pouco tempo deixara um sabor agridoce em suma boca. Era uma mistura de felicidade, raiva e confusão, pois esperara tanto tempo para vê-lo, mas definitivamente não da forma como ocorrera. Só que agora o problema não era seus sentimentos, era a segurança de Anduin.
Pandora tinha certeza que Halduron e o outro elfo – Revas, se estava bem lembrada – estavam em busca das tabuletas que ela e Anduin pegaram. Era hilariante que, enquanto do lado da Horda um general-patrulheiro estava procurando os tesouros de Pandaria, do lado da Aliança era uma soldada raso e um príncipe sem noção. Halduron poderia facilmente vencê-los e fazer deles prisioneiros. Tiveram muita sorte que aquela não era a intenção dele. Todavia, a sorte deles poderia acabar.
Por isso, decidira que devia levar Anduin embora sem ir para nenhuma ruína naquela manhã. Anduin protestaria; era esperado. Mas tentaria não pegar a cabeça dele e bater no chão até desmaiá-lo. Precisaria convencê-lo sem partir para a violência. Torcia para que o príncipe entendesse o perigo. Finalmente, levantou-se e foi em busca de Anduin.
O sol estava se levantando, mas ainda estava um pouco escuro. Um pandaren cozinhava um mingau para café da manhã numa fogueira e também fervia água para o chá. Pandora queria pedir um café, mas não era uma bebida comum em Pandaria; teria que esperar sua tia voltar, já que ela prometera trazer um monte de café de Ventobravo.
Anduin ainda não se levantara, então Pandora aproveitou para sentar em uma mesa, tomar um chá e pensar em Halduron. Se fosse uma garota normal da sua idade, já teria jogado a cautela para o alto e iria nas ruínas querendo encontrá-lo, apesar do perigo. E como queria fazer aquilo, como queria ser irresponsável e passional… Por que não podia pensar um pouco no que ela queria em vez de pensar no que seria mais seguro fazer?
Anduin apareceu na porta de sua tenda, coçando os olhos e bocejando. Pandora acenou e o jovem caminhou até ela, com a cara amassada e a expressão que não dormira nada na noite anterior. O que teria tirado o sono do príncipe? Será que quase ter sido capturado pela segunda vez o deixara temeroso?
— Bom dia. — falou ela quando Anduin se aproximou.
— Bom dia, Pandora. Dormiu bem? — perguntou ele se sentando em frente a ela.
— Não muito. E você?
— Também não. — Ele deu uma pausa, como se seu cérebro ainda estivesse acordando – Eu não gosto muito de café, mas algo pra me manter acordado cairia bem agora….
— Tem chá-preto. — falou ela apontando para a própria caneca – Dizem que mantêm você acordado também.
— Ótimo. Vou pegar um pouco.
Anduin pegou uma caneca de chá-preto para si mesmo e voltou para sentar. O pandaren que estava cozinhando trouxe duas tigelas com mingau para eles, que agradeceram e comeram em silêncio. Quando terminaram de comer, Pandora pôs a colher de lado e se inclinou para a frente. Anduin parou de comer e a encarou.
— Eu acho que devíamos voltar para o Templo de Chi-ji e desistir da última ruína. — falou Pandora sem rodeios – Aqueles dois Hordas ontem sabiam que estávamos atrás dos artefatos e nos deixaram ir apenas para não iniciar um incidente. Não duvido que hoje eles estejam lá também e talvez não sejam tão simpáticos.
Anduin não lhe respondeu imediatamente e Pandora estava dividida em dois sentimentos: a sua parte racional queria que Anduin aceitasse sua sugestão e eles voltassem para a selva de Krasarang, mas sua parte irracional gostaria que ele dissesse não e a convencesse a ir nas ruínas, com a esperança que Halduron os encontrassem novamente.
“Não, tenho que ser responsável!”, disse para si mesma. “Não posso arriscar esse idiota dessa forma…”
— Tudo bem. Vamos voltar. — falou Anduin, sem apresentar nenhuma resistência.
Pandora piscou, incrédula.
— Sério?
Anduin assentiu.
— Eu já fui capturado uma vez pela Horda. Ontem, podia ter sido capturado de novo, e dessa vez levaria você junto. Isso na melhor das hipóteses. Eu poderia ter sido refém e terem matado você. Como eu encararia Pietro, Lina e a mim mesmo no espelho, se você morresse por minha causa?
Pandora acreditava, ou queria acreditar, que Halduron não a mataria. Porém, era apenas um sentimento, tinha que admitir que não era possível saber como as coisas teriam acontecido se eles tivessem reconhecido Anduin e decidissem capturá-los. Se estivesse sozinha, Pandora se renderia. Com Anduin, lutaria para que ele fugisse. No final das contas, ambos perceberam a sorte que tiveram no dia anterior e que era melhor que a busca tivesse um fim. Pelo menos, por enquanto.
— Vamos ajeitar as cosias, então. — falou Pandora se levantando – Com sorte, chegaremos rápido no templo. E minha tia nunca vai descobrir de nossa escapada.
— Pela Luz, espero que esteja certa. — Desejou Anduin se levantando também.
Não demoraram a partir, foi só o tempo de arrumarem as poucas coisas que tinha e prender bem as tabuletas para que estas não quebrassem, se despedirem dos pandarens e alçarem voo. Da mesma forma que a viagem de ida a Kun-Lai, a volta foi tranquila. Pararam basicamente nos mesmos lugares para descansar. A diferença era que havia muito mais estrangeiros em Pandaria do que quando chegaram. Era nítido pelos rastros que encontraram e até mesmo pela vista que tinham de cima das serpentes das nuvens. Felizmente, os recém-chegados não dispunham da habilidade de voar como eles, senão, estariam em um perigo constante.
Quando finalmente chegaram à Selva de Krasarang, Pandora foi a primeira a notar que as coisas pareciam estar erradas. Como vieram pelo Vale dos Quatro Ventos, pegaram uma rota que ia direto para o Templo de Chi-ji e, durante o percurso, a jovem notou muitos pandarens aglomerados, em acampamentos improvisados, coisa que não havia antes. Anduin também percebeu.
— O que será que está acontecendo? — perguntou o príncipe – Será que eles foram expulsos de suas casas pelo conflito entre as facções?
— É possível. — Concordou Pandora – Mas, porque nas outras regiões não encontramos nada assim? Será que descobriram alguma coisa em Krasarang que atraiu o interesse da Horda e da Aliança?
A resposta para aquela pergunta não demorou a aparecer e não era nada do que eles esperavam. Assim que o Templo de Chi-Ji apareceu em seu campo de visão, eles notaram a fumaça branca e preta que desprendia do chão e uma infinidade de shas andando pelo terraço do templo. Viram também corpos de pandarens caídos e um tanto de outros lutando. Até estrangeiros lutavam contra os shas. O que teria acontecido?
— Pela Luz, os shas tomaram conta do Templo! — exclamou Anduin abismado.
Pandora ficou sem voz. A única coisa que conseguia pensar era que, pelo menos, Pietro não estava lá. Sentiu-se péssima de estar aliviada, quanto tantos pandarens que os receberam deviam estar mortos lá embaixo. Sua cabeça estava ainda tentando entender a situação quando percebeu que Anduin direcionava sua montaria para baixo.
— Ei! Ei! O que está fazendo? — gritou Pandora.
— Vou ajudá-los! — exclamou o príncipe, já se afastando velozmente.
— Volte aqui, doido! Não temos como lutar contra isso!
Como Anduin a ignorou, o jeito foi Pandora começar a descida também. Assim que emparelhou com ele, a energia dos shas se ergueu do chão e envolveu a montaria de Anduin, puxando-a para baixo. O príncipe gritou, assustado, segurando-se firmemente para não cair. Pandora preparou uma flecha explosiva e atirou direto nos tentáculos de energia que prendiam o príncipe. Com a explosão, Anduin foi solto e sua montaria ficou instável por um momento devido ao barulho da explosão. Nesse meio tempo, Pandora se emparelhou com ele e pegou as rédeas da serpente das nuvens.
— Vamos embora! Agora! — gritou sem cerimônia.
Anduin relanceou mais uma vez seu olhar para o templo e por fim, assentiu. Pandora o tirou o mais rápido que pode dali.
Não muito longe, eles avistaram um acampamento. Precisando saber o que havia acontecido, Pandora nem precisou perguntar a Anduin o que ele achava. Direcionou sua serpente até lá e foi acompanhada pelo príncipe. Assim que aportaram, reconheceram muitos dos pandarens que estavam lá, todos habitantes do Templo de Chi-Ji.
— Anduin! Pandora!
Koro Andarilho da Névoa estava sentado, cuidado de um ferido, quando os viu e os chamou. Aliviados de verem o pandarens bem, os dois jovens foram na direção dele.
— Koro! — o príncipe se agachou, ao lado do pandaren – O que aconteceu?
— O sha… Ele tomou o templo e espalhou-se por Krasarang! Mas conseguimos fugir! Só cheguei até aqui porque estrangeiros nos ajudaram. — E ele apontou para dois grupos que se encaravam com desconfiança. De um lado, alguns membros da Horda, do outro, da Aliança – Só que muitos foram mordidos por cobras enquanto fugíamos e estou tentando cuidar disso…
— Minha cura pode ajudar. — Ofereceu o príncipe.
— Sua magia consegue curar todos? — perguntou o pandaren olhando ao redor.
Pandora seguiu o olhar dos dois. Gente demais doente. A magia de Anduin não daria conta. O príncipe ainda era um sacerdote em treinamento e ainda não dominara toda a magia de cura. Ele também percebeu isso, pois perguntou em seguida.
— O que posso fazer então?
— Temos que tirar as glândulas das cobras pra fazer o remédio. Eu matei algumas. — o pandaren apontou para algumas cobras mortas – Mas precisamos de mais.
— Eu vou buscar! — ofereceu-se Anduin.
— Não. — Cortou Pandora – Eu vou buscar. Você fica aí e faz o remédio.
— Mas… Pandora… — começou ele.
— “Mas” nada! Você não sabe lutar como eu. Além do mais… — ela olhou os dois grupos que estavam no acampamento – Vou convencer alguns deles a me ajudar. Você será de mais ajuda aqui… pode usa sua magia para diminuir as dores dos feridos.
— É uma excelente ideia, Pandora. — Concordou Koro – Seria ótimo ter um par de mãos extras para aliviar as dores dos feridos.
Diante da fala do pandaren, Anduin assentiu.
— Tome cuidado, Pandora. — pediu ele quando ela foi caminhando na direção do grupo da Aliança.
— Pode deixar. Não sou doida que nem você. — falou com um sorriso debochado no rosto.
Anduin sorriu também.
Enquanto o príncipe ajudava Koro Andarilho da Névoa a tratar dos feridos, Pandora falou com os membros da Aliança que estavam lá e os convenceu a ajudá-la. Com o canto do olho, viu que Anduin fora até o grupo da Horda e pediu ajuda também. Revirou os olhos. Aquele menino não tinha um pingo de senso do perigo. Não queria nem imaginar o que ele faria quando fosse rei. Esperava que, com sorte, demorasse muito tempo para ele herdar a coroa, tempo o suficiente para ele criar algum senso.
Demorou um dia todo para conseguirem as glândulas das cobras. No meio do caminho, Pandora caçou e uma de suas acompanhantes pegou ervas. Quando voltaram, tinham comida e suprimentos para remédios. Percebeu, surpresa, que os membros da Horda fizeram o mesmo. Quando a noite chegou, havia uma fogueira preparando uma farta quantidade de comida, os feridos foram tratados e estavam fora de perigo. Pandora finalmente percebeu que sua tia arrancaria os cabelos quando a notícia se espalhasse que o Templo estava tomado pelos shas. Talvez fosse melhor dizer que eles tinham escapado para Kun-Lai e escaparam do ataque no Templo. Quem diria que a desobediência deles os salvariam?
Exausta, a jovem pegou um copo de chá oferecido pro Koro e uma porção generosa de carne e foi se sentar do lado do príncipe, que também comia. Ficaram em silêncio por um tempo até que Anduin falou.
— Pandora… quero te pedir algo.
— Pela Luz… — ela murmurou, já prevendo o pior – Qual a ideia doida dessa vez?
Para sua surpresa, ele riu.
— Realmente é uma ideia doida, mas é por isso que preciso de sua ajuda… — ele deu uma pausa, bebendo um gole de chá – Quero ler essas tabuletas com calma, mas pelo que já li… bem, acredito que há um artefato extremamente poderoso em Pandaria. Se os membros da Horda acharam as outras tabuletas que não pudemos pegar em Kun-Lai, irão em busca dele. Mas eu não quero permitir que caia nas mãos de Grito Infernal.
— Você quer ir em busca desse artefato. — Concluiu a jovem.
Anduin assentiu.
— Gostaria que você acompanhasse. — pediu ele, finalmente.
Pandora não escondeu sua surpresa.
— Eu? Por que eu? Não era melhor minha tia?
— Você acha que a Lina vai me deixar fazer isso? — questionou ele.
— De jeito nenhum. Ela vai te amarrar.
— Por isso preciso que alguém me acompanhe, em vez alguém que tente me impedir. E sei que posso confiar em você.
— Pode mesmo? Eu te enchi de porrada uma vez. — lembrou a jovem.
— Acho que exatamente por isso que posso contar com você. — disse ele, fazendo-a encará-lo, incrédula – Sério, você me trata… me trata como amigo, e não como príncipe.
— Eu te trato como príncipe na maior parte das vezes. — Retrucou Pandora – Se não fizesse isso, você já teria apanhado muito mais.
Os dois deram risadas, cientes que era uma verdade inquestionável.
— Bem, obrigado por se segurar o máximo possível. Ainda assim, prefiro alguém que enxergue mais que um simples príncipe, certo?
Pandora entendia o que ele queria dizer. Ela estava disposta a ser muito mais maleável com ele do que a maioria das pessoas, inclusive sua tia. E se aquele príncipe doido queria sair por Pandaria procurando algo extremamente perigoso, ninguém o impediria.
— Tudo bem. — Concordou ela – Só vamos esperar você ter certeza sobre esse artefato, ok?
— Ok. Eu também quero ajudar a recuperar o Templo de Chi-Ji e cuidar dos feridos.
— Ótimo. Você pode ficar aqui e eu vou até a vila mais próxima mandar uma carta para a vaca. Ela precisa saber que estamos seguros. E também para ela não trazer Pietro para cá.
Terminada a conversa, os dois não demoraram para se recolher e dormir. Pandora, contudo, demorou a adormecer. Os últimos dias tinham sido intensos e ela desconfiava que não teria tranquilidade tão cedo. Estava disposta a entrar naquela jornada com Anduin, porque já o via como um amigo, mas também porque sabia que, em algum momento, seu caminho cruzaria novamente com Halduron. Esperava que o encontro não fosse hostil e que pudesse, talvez, conversar um pouco. Com esse pensamento em mente, finalmente adormeceu.
****************
Enquanto Pandora e Anduin decidiam ir embora do monte Kun-Lai, Halduron e os estudiosos do Relicário já haviam chegado às ruínas e esperavam apenas o dia clarear para começar as buscas. Assim que chegaram ao local, o general-patrulheiro acompanhado por Revas, investigaram toda a redondeza, para prevenir possíveis emboscadas e encontros indesejados. Com a certeza que estavam em segurança, apenas aguardaram. Assim que o sol começou a despontar no horizonte, os arqueólogos começaram seu trabalhando, restando para Halduron e Revas observarem.
Pandaria era uma terra antiga e enigmática, um prato cheio para o Relicário, pensava Halduron vendo os arqueólogos animados. Conjecturou que, se os elfos não vivessem tanto, seria sua própria sociedade que despertaria o interesse dos estudiosos. Imagine viver tão pouco como os humanos e pandarens, que a cada nova morte por velhice perdia histórias e relatos, muitos dos quais imprescindíveis para a sociedade, mas que era confundida apenas com lembranças fúteis. Quantas coisas um estudioso que vivia mil anos não descobria, coisas que, alguns séculos antes lhe pareceriam um absurdo para depois provar-se certo. Uma possibilidade que raças de vidas curtas não tinham.
Em compensação, deter tanto conhecimento os deixara presunçosos. Ergueram sua cidade, beberam de seus sucessos e pensaram que nunca, ninguém, acabaria com eles. Esqueceram-se que, dentre os próprios elfos, haviam aqueles mesquinhos, que não vendo em si próprio nenhum dom a ser desenvolvido, nenhum talento a ser apreciado, entregaria sua estupenda sociedade por poder. Talvez devessem ter procurado mais suas falhas do que ter louvado suas qualidades.
— Revas. — chamou ele de repente, sem encarar seu comandado – Qual sua idade na queda de Luaprata?
O jovem se surpreendeu com a pergunta e não respondeu de imediato. Quando Halduron o encarou, o rosto do rapaz estava rubro.
— Dez anos, senhor. — respondeu Revas com a voz um pouco embargada.
— Muito jovem. Não lembra de muita coisa, não é mesmo?
Revas concordou com a cabeça.
— Tenho apenas uma lembrança vívida, anterior à queda. — Revas falou – O último Véu de Inverno. O rei Anasterian andava com dificuldade, se apoiando com o cajado, mas quando chegou na árvore no centro de Luaprata, conjurou luzes com uma agilidade quase sobrenatural, que deixou a neve colorida como um arco-íris. — Os olhos dele brilhavam e Halduron se perguntou se era emoção ou lágrimas – Meu pai me colocou nos ombros, então eu vi tudo. Foi lindo.
— Eu lembro desse dia. — falou Halduron sorrindo – Eu estava de folga e fui arrastado por minha irmã para o centro. Estava tão cheio e quente… Eu reclamei o tempo todo. Ela só me mandava calar e aproveitar o espetáculo. Se soubesse que seria o último, teria aproveitado mais….
— S-sinto muito… Por sua irmã… — falou o jovem, a voz embargada.
Halduron também sentia. Não pode salvá-la.
— Quem você perdeu? — perguntou o general.
Fazia tempo que ele parara de perguntar se a pessoa com quem ele conversava perdera alguém. Todos em Luaprata perderam. Até mesmo Dhomm e Samanthah, que conseguiram salvar as filhas, não ficaram com a família intacta. Os pais de Samanthah e Aethas morreram, bem como os três servos da família Fendessol, que Dhomm considerava mais família que os sogros. Era triste pensar que ninguém escapara ileso do ataque, mesmo tendo sobrevivido.
— Minha mãe e meu irmão mais velho. — Revelou Revas – Me perdi do meu pai, mas o reencontrei depois. Ele perdeu um braço, mas está vivo.
— Ele deve temer muito que você não esteja com ele. — Supôs Halduron.
— Pelo contrário, ele me incentivou a me alistar. — Revelou Revas – Disse que os sin’dorei não podem se dar ao luxo de viver em Luaprata como se nada estivesse acontecendo no mundo. Quem pode lutar, deve lutar. Gosta de dizer que, se fosse mago, estaria conosco aqui. Mas ele perdeu o braço da espada.
— É uma pena. Tenho certeza que seria uma excelente aquisição para nosso grupo. — Lamentou o general.
— Ele é um velho teimoso. — Riu-se Revas.
— E quem não é, em Luaprata?
Os dois riram da piada de Halduron.
— Sabe, Revas, esse é nosso problema. — Começou Halduron – Vivemos demais, trazemos rancor demais dentro de nós. Me pergunto se nossa raça vivesse tanto como os seres humanos e orcs se seriamos ainda tão rancorosos…
— Bem, humanos e orcs são rancorosos também, mesmo vivendo pouco. O problema é que eles não sabem de onde vem o rancor e o ódio, apenas o reproduzem.
Halduron o encarou, admirado.
— Veja só, tenho um filósofo comigo. — Gracejou o general.
Revas voltou a ficar ruborizado.
— Ah, eu converso muito isso com meu pai… Ele é muito incisivo em algumas opiniões deles. Ele gosta de dizer que só não dominamos o mundo na época do rei Anasterian porque éramos festeiros demais e que se tivéssemos número de pessoas, lideraríamos a Horda e destruiríamos a Aliança. — Revas balançou a cabeça – Ele nutre um rancor muito grande pelos humanos não terem vindo ao nosso socorro quando Arthas nos atacou.
— Acho que ele seria uma boa companhia para Rommath e Lor’themar. — comentou o outro.
— Seria um sonho para ele conhecer vocês. — Revas ficou um pouco encabulado ao falar – Ele fala o quanto o trabalho dos três manteve Luaprata de pé. Está muito animado com a rainha também. Diz que ela o lembra do rei Anasterian, só que mais fofa.
Pessoalmente, Halduron achava que Karen nada tinha do antigo rei de Luaprata. Tudo na menina o lembrava seus pais e, que a Nascente os protegesse, Tewdric. Se perguntava o que Kael’thas diria se soubesse que o trono era ocupado por uma menina que fora praticamente criada por um orc. Todavia, sabia que as pessoas da cidade precisavam de algo para acreditar e estavam espelhando suas expectativas de uma volta aos tempos áureos do rei Anasterian em sua neta. Não queriam ver que aqueles tempos jamais voltariam.
— Tudo que podemos fazer é tentar construir um futuro com o que temos. — Ele falou, talvez mais para si do que para Revas – Um futuro que não precisemos que ninguém deseje poder lutar, mas que as pessoas apenas vivam em paz.
— Por isso o senhor liberou aqueles humanos ontem?
Halduron ficou surpreso com a menção inesperada a Pandora e seu primo. Sua reação ficou bem evidente, porque logo em seguida, Revas se desculpava.
— Perdoe-me general. Não devia ter sido tão impertinente. — e baixou a cabeça.
— Tudo bem Revas. — tranquilizou-o – Você tem direito de perguntar. Sim, foi por causa disso. Eu não quero lutas desnecessárias. Se você lembra do que aconteceu em Luaprata, sabe que nosso povo já teve lutas demais por todas as nossas longas vidas.
— Permite-me perguntar mais uma coisa? — quis saber o jovem.
— Pergunte o que quiser, Revas.
— As tabuletas… acredita que eles acharam?
— É uma possibilidade. Nunca saberemos.
— Isso não o preocupa? Essa terra tem muito poder…
Antes que Halduron respondesse, houve uma comoção entre os arqueólogos e logo diversas tabuletas começaram a surgir, em meio às ruínas. À medida que os artefatos eram encontrados, uma das elfas do Relicário só organizava. Interessados no porquê da excitação, Halduron e Revas se aproximaram.
— Isso é incrível… — dizia a elfa – Está faltando partes, mas dá pra perceber que falam de um artefato muito poderoso. — A elfa encarou Halduron – Extremamente poderoso.
— Ei, achamos mais uma! — gritou um dos estudiosos e a elfa correu para buscar a nova tabuleta.
Halduron olhou para os artefatos aos seus pés e depois encarou Revas.
— O que o preocuparia mais, Revas: as tabuletas na mão daqueles dois jovens, ou essas aqui, que chegarão às mãos de Garrosh Grito Infernal?
Os olhos do elfo se arregalaram, surpreso com a pergunta. Ele demorou alguns instantes e então respondeu:
— B-em… A-acho que… Grito Infernal é nosso Chefe Guerreiro, não é? Ele protege Luaprata…
Halduron encarou-o por um momento, podendo ver a dúvida nos olhos do rapaz, mas ele jamais a admitiria. Por isso, bateu no ombro dele e sorriu.
— Que esse poder nos conduza a um futuro melhor, não é mesmo?
— Sim, senhor! — afirmou, mais confiante.
Ao contrário, Halduron estava preocupado. Quando as tabuletas fossem recolhidas e enviadas à Orgrimmar, ele faria uma rápida visita a Luaprata. O que gostaria de falar jamais deveria ser dito por carta.
**************
A mesa havia sido posta no mesmo lugar que anos atrás, quando ficaram juntos pela primeira vez. Varian fizera questão de reproduzir aquele detalhe em seu jantar com Lina. A noite não estava tão iluminada quando na noite do baile em que ficaram juntos, mas lanternas arcanas faziam a luz brilhar e tremular elegantemente na varanda. O vinho fora escolhido a deda, a melhor safra que achara na adega real. Lina tinha um paladar muito mais apurado que o dele e queria dar a ela o melhor.
Nunca imaginou que estaria na posição de ser a pessoa a esperar em casa enquanto a pessoa que amava ia para a guerra. Sabia que em breve estaria a caminho de Pandaria também, só que esse pensamento não o acalentava. Lina estaria lá, se colocando a perigo, enquanto ele ficava na segurança da bastilha. Aquele sentimento despertou nele uma preocupação maior com seu povo; agora, ele conhecia a sensação que se apoderava dos que ficaram para trás, que esperavam notícias todos os dias, temendo pelo pior e rezando pelo melhor.
“Devo pensar em algo que ajude na angustia dessas famílias.”, conjecturou ele, com as mãos na sacada, olhando para o movimento noturno da bastilha. O que poderia ser feito?
O som das portas da varanda se abrindo o tiraram do devaneio e ele virou-se. Lina entrou, sorrindo e seu coração se aqueceu. Ela estava linda, usando um vestido bem mais simples do que no baile quando ficaram juntos, mas uma simplicidade elegante e sensual. Ela trazia um vinho em suas mãos e relanceou a vista para a mesa, ficando um pouco decepcionada.
— Ah, já tem vinho? — foi o que disse.
— Podemos tomar os dois. — falou ele se encaminhando para ela e pegando a garrafa
— Planejando me embebedar, Varian? — perguntou, provocativa.
— Talvez. — respondeu ele sorrindo maliciosamente e depois encarando a garrafa – Da fazenda de seus pais?
— Sim. Uma reserva da uva Mariana.
— Ah, como a que ganhei do seu pai? — Lina confirmou a cabeça – Um excelente vinho. Vou guardar esse aqui para depois. Tenho um que quero que você experimente.
— Já estou interessada. — Ela olhou enquanto ele colocava a garrafa na mesa – Uau… está linda…
— Que bom que gostou. O mérito não é meu, é de Will.
Will era o servo pessoal de Anduin, um velho senhor, originário de Lordaeron. Quando o príncipe não estava em casa, Will fazia questão de fazer tudo que pudesse pelo rei.
— Vou dizer a Will depois que ele fez um excelente trabalho. — Garantiu Lina.
Os dois sentaram-se a mesa e Lina percebeu que não havia ninguém para servi-los. Varian teria pedido privacidade? Feliz por estar apenas eles dois, abriu a garrafa de vinho trazida por Varian enquanto ele os servia. Colocou vinho nas taças e depois aspirou o aroma.
— Incrível. — Foi o que ela disse – Quantos anos têm esse vinho? Quinze? Vinte?
— Vinte e dois, pelo que sei. — falou Varian sorrindo – É incrível como tem vinhos com essa idade na minha adega e eu nunca tinha reparado.
— Você tem pessoas para fazer esse serviço. — Ela girou a taça e então experimentou – Perfeito…
— Se você diz, eu acredito. — Ele cheirou o vinho e depois provou – É excelente, sem dúvida.
— Eu já te contei porque minha família começou a fazer vinho? — perguntou Lina.
Varian se inclinou para frente, interessado. Adorava as histórias da família de Lina.
— Não, nunca contou.
— Meu avô era um alcoólatra. — Revelou Lina – Ele bebia tanto que quase perdeu as terras para pagar dívidas das bebedeiras... Minha avó então teve a ideia de plantar uva e fazer ela mesma o vinho, para que o marido pudesse encher a cara e não deixar os dois na miséria.
— Sério? — perguntou Varian, achando o motivo tão absurdo que não quis acreditar.
— Sério. — Ela tomou mais um gole de vinho – Meu avô era bem problemático. Meus tios saíram de casa porque não aguentavam a bebedeira dele. Só meu pai ficou, porque não queria deixar a mãe sozinha. E tudo que ele sabe de vinho, aprendeu com ela.
— E como sua avó aprendeu de vinhos? — quis saber Varian.
— Ah, ela trabalhava de lavadeira desde criança, nas fazendas por perto. Ela adorava o processo de fazer vinho e aprendeu tudo só observando. Uma pena que nunca conheci minha avó.
— Incrível… Sua avó era formidável.
— Era sim. — Ela o encarou por cima da taça – Você chegou a conhecer a sua?
— Ah, sim. Varia. — Ele riu – Meu nome é em homenagem a ela. Uma mulher extremamente rígida. Eu morria de medo dela. — Confessou o rei.
— Não consigo imaginar isso. — Riu-se Lina – Você com medo de alguém?
— Eu era uma criança e ela era muito rigorosa. Nem meu pai costumava a desafiá-la. Penso que, se ela quisesse ter tomado o poder para si própria, teria conseguido. Mas preferia ficar nos bastidores, cuidando que tudo estivesse funcionando. Se alguém nasceu para política, era Varia Wrynn, meu pai dizia isso constantemente.
Varian não costumava falar de sua família com tanta fluidez, então Lina ficou feliz que ele estivesse à vontade para falar com ela. Sabia que a avó de Varian, assim como a mãe e o pai, haviam morrido na queda de Ventobravo. Lina não conseguia imaginar a dor de uma criança ao perder pessoas tão importantes repentinamente.
— Conte-me alguma história sobre sua infância. — pediu Varian inesperadamente.
— Ah, eu já contei várias para você.
— Tenho certeza que você tem muitas outras. Crescer com dezessete irmãos não foi monótono, com certeza.
— Dezessete irmãos e um monte de sobrinhos. — lembrou-lhe Lina – Nossa, nem sei por onde começar.
— Comece por onde achar melhor. — Incentivou Varian – Sinto que precisaria de muitos jantares para você ficar sem nada para me contar.
— Ah, com certeza!
Conversar sobre coisas triviais, como família e lembranças era algo incomum para os dois. Suas conversas sempre envolviam Ventobravo, Anduin, guerra e, em último lugar, seu relacionamento. Já haviam tido conversas semelhantes, mas foram bem raras. Decidida a aproveitar a oportunidade, Lina foi puxando pela memória fatos que aconteceram em sua infância. Varian ouvia tudo fascinado e com uma ponta de inveja. À medida que contava sobre como crescera, Lina também lhe dizia algumas histórias de quando mudou para Ventobravo e como era a dinâmica entre ela e Bolvar Fordragon. Varian tinha a sensação que Bolvar aprovaria a relação dos dois, se estivesse ali e não vivendo amaldiçoado como o Lich King.
A noite foi passando e o jantar seguiu entre histórias, risos, boa comida e vinho. Varian se sentiu à vontade para compartilhar mais algumas coisas sobre sua própria infâncias, coisas agradáveis, de antes da queda de Ventobravo e Lina percebeu que a avó dele teve muita influência sobre o pequeno Varian. Ao mesmo tempo que a temia, ele a admirava imensamente. A conversa se estendeu por um bom tempo, mas quando o vinho acabou, Lina estava ansiosa por provar outra coisa que o rei tinha para lhe oferecer.
— Você sabe que eu parto amanhã cedo, não sabe, Varian? — ela começou dizendo.
A expressão dele foi de uma tristeza contida.
— Sim, sei. Acredito que queria descansar. — falou ele compreensivo – Devo pedir para meu cocheiro deixá-la em casa?
— Na verdade, eu pretendo descansar… aqui. Mas talvez demore um pouco mais. — Ela sorriu, maliciosa – O que acha?
— Eu acho uma excelente ideia. — falou ele retribuindo o sorriso. Depois, se levantou e estendeu a mão para ela – Venha.
Lina aceitou o oferecimento e apertou com força a mão dele. Adorava a forma como suas mãos se encaixavam tão bem, ambas grandes e calejadas. Caminharam pelos corredores, só soldados os cumprimentando e Lina teve certeza de ouvir risadinhas maliciosas. Adentraram na câmara interior e ela percebeu que seria a primeira vez que entraria pela porta da frente do quarto dele.
— É um passo e tanto. — Se pegou dizendo.
— O quê? — perguntou ele, abrindo a porta.
— Entrar no seu quarto sem ser escondida. — Ela riu – Parece até que a primeira vez que eu entro aqui.
— Vamos imaginar que seja. — falou Varian, afastando-se para ela entrar.
Foi com o coração aos pulos que ela entrou. Não estava brincando quando falara que sentia como se fosse a primeira vez ali. Tão logo a porta fechou-se, Varian a abraçou e a beijou com voracidade. Lina passou os braços no pescoço dele, pressionando seu corpo contra o dele. Mas mãos de Varian deslizaram por suas costas e apertaram seu traseiro, levantando-a. Lina passou as pernas nos quadris dele, pendurando-se no beijo que trocava, enquanto ele caminhava às cegas pelo quarto até bater na cama e jogar-se nela, sem soltar Lina.
As mãos fortes dele logos e infiltraram por baixo do seu vestido, fazendo o caminho por sua coxa até seu traseiro, que ele novamente apertou. Lina mordeu suavemente o lábio dele, ouvindo sua respiração pesada, deixando que ele explorasse seu corpo como quisesse. Estava com fome do toque dele, sedenta pelos seus beijos, ansiosa por recuperar todo o tempo perdido, todos os momentos em que estivera fora do alcance de seu amor. Com as mãos ansiosas, abriu a camisa dele com tanta força o tecido cedeu, rasgando. Varian deu uma risada e a afastou um pouco, para tirar a roupa.
— Não vou demorar, prometo. — falou ele enquanto ia se despindo.
Lina começou a fazer o mesmo, primeiro chutando os sapatos de seus pés, tirando as meias, mas quando foi puxar o vestido para cima, Varian a impediu.
— Não. Eu quero tirar. — falou, com a voz rouca.
— Eu nem pensaria em desobedecê-lo, meu rei. — Murmurou, com a voz aveludada.
Varian grunhiu algo e a beijou, antes de começar a tirar as botas e o restante da roupa. Logo, ele estava completamente nu e deitou-se do lado dela, seu membro ereto, ansioso por entrar em seu corpo. Se beijaram novamente, as mãos de Lina percorrendo o peito nu de Varian delicadamente até chegar em seu membro. Começou a manipulá-lo com suavidade e parou o beijo para descer os lábios pelo peito de Varian, passando pelo abdômen até chegar onde queria. Ela o colocou na boca, sugando-o com delicadeza, os gemidos roucos de Varian chegando até seus ouvidos. Ele deslizou os dedos para dentro dos cabelos dela e segurou sua cabeça com força, enquanto ela continuava a deslizar seu membro para dentro de sua boca, fazendo movimentos com sua língua, e não demorou para que, com um grito, Varian atingisse o clímax, inundando-a com o sabor dele.
Com a respiração pesada, Varian a puxou para perto dele, abraçando-a, enquanto beijava seu pescoço lentamente. Seus dedos encontraram o laço do espartilho e ele os puxou, afrouxando o vestido. Primeiro, libertou os seus dela, para acariciá-los e beijá-los demoradamente, brincando com a língua em seus mamilos enquanto Lina suspirava. Varian demorou-se nos seios dela, saudoso do toque aveludado da pele do local, enquanto suas mãos encontravam as cicatrizes que Lina ganhara ao longo da vida. Ele ficava impressionado como a mesma mulher podia ter uma pele tão sensível e delicada ao mesmo tempo que a mostrava-se áspera em outros. Ah, como amava aquela dualidade!
O corpo de Lina não demorou a ser liberto do vestido e, a medida que Varian continuava a acariciá-la, seu corpo latejava, querendo que ele acabasse logo com aquelas sensações. E quando a língua dele tocou o ponto sensível de seu corpo, ela arqueou os quadris, gemendo de satisfação, À medida que ele deslizava sua língua em toda extensão dos eu sexo e dentro dele. Não demorou para que Lina também atingisse o ápice, com um gemido abafado, resquícios de seu medo de ser descoberta no quarto dele.
Varian percebeu aquilo. Percebeu que Lina ainda se segurava. Por isso, quando subiu em cima dela, colocando-se no meio de suas pernas, ele exigiu:
— Quero você gritando meu nome.
— Quê? — Lina ainda estava grogue das sensações.
Ele aproximou a boca do ouvido dela e murmurou:
— Grite meu nome… — e a penetrou.
Lina mais uma vez abafou o gemido, apertando os lábios. Era tão instintivo para ela fazer aquilo.
— Vamos general… — ele continuou em seu ouvido enquanto movia-se lentamente dentro dela – Obedeça a seu rei…. Grite meu nome….
— Ahh…. — Ela murmurou passando as pernas nos quadris dele – V-Varian… — gaguejou e foi nada mais que um sussurro.
Varian continuou a mover-se lentamente dentro dela.
— Vamos… — ele disse – Você consegue fazer melhor….
— Mais rápido… — pediu ela mexendo-se ansiosamente embaixo dele.
— Não… — disse pressionando o corpo contra o dela, fazendo-a parar – Não até você me obedecer, general… — e deu uma estocada mais forte.
— Ah! — o gemido dela saiu mais alto – Varian… Por favor… — sua voz era um pouco mais que um sussurro, mas ele sorriu, aumentando um pouco a velocidade.
— Isso… vamos… — ele incentivava.
— Varian… Varian... Por favor… — ela implorava, a voz aumentando gradualmente de tonalidade.
— Muito bem, muito bem general. Grite por mim. — Exigia ele.
— Ah! Varian! — ela finalmente gritou.
Sorrindo, ele passou a penetrá-la com rapidez e vigor e, cada vez ela gritava mais e mais alto, enquanto ele murmurava em seu ouvido, até que Varian mal podia se ouvir diante dos gemidos e gritos de Lina. E quando os dois atingiram o ápice, juntos, seus gemidos se misturaram, confundindo-se numa expressão de puro prazer que ressoo pelas paredes do quarto dele. Depois, exaustos, desabaram lado a lado.
Ficaram abraçados, Varian passando os dedos pelos cabelos dela, até que, quando recuperou o fôlego, Lina murmurou:
— Pela Luz Varian, o que você me fez fazer…. — Ela estava passada de vergonha – Todos na bastilha devem ter me ouvido.
Varian esboçou um leve sorriso antes de falar:
— Não pense nisso. Apenas durma. Amanhã você terá um dia longo pela frente.
Sabendo que ele tinha razão, Lina aconchegou-se nele e fechou os olhos. Se tivessem ouvido, não importava. Havia muito mais para se preocupar no mundo do que as reações que sua noite de amor poderia causar.
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A partida de Kassyeh e Ash, junto com Tewdric e os pandarens deixou a Torre Solfúria quieta e silenciosa. Daquela vez, Karen não chorou e mostrou-se madura na ida das irmãs. Tinuviel fora a responsável por todo o choro da partida e foi acalentada pela mãe. Quando a comitiva finalmente partiu, Luxuriah acalmou a filha, que adormeceu cansada de tanto chorar. Depois, deixou-a aos cuidados de Rommath enquanto fazia algo que evitava há tempos, mas acreditava que seria melhor fazer enquanto tudo estava mergulhado em uma calma inquietante.
“Estou com um mau pressentimento…”, pensava Luxuriah enquanto seu falcoztruz, Debonzi, vencia distâncias a largas passadas. “Eu sinto que algo está para acontecer…”
Talvez fosse apenas a partida das irmãs que a deixara angustiada, já que não as acompanhara. Era um desafio imenso permitir aquilo, mas Tinuviel precisava dela. Era uma das situações sobre ser mãe: fazer escolhas pensando não em si, mas não cria. E por isso, ficara. E era por isso também que estava a caminho de visitar o túmulo dos pais pela primeira vez.
Em alguns anos Tinuviel começaria a fazer perguntas sobre os avós. Era inevitável. Ela mesma perguntara tanto sobre Lady Luelly ao seu pai, que perdera a conta de quantas vezes ouvira a mesma história e amava a cada vez. Mesmo os pais de sua mãe, distantes, eram lembrados constantemente. Sabia então que, em breve, chegaria o dia que seria ela a contar as histórias. Não queria que esse dia chegasse e tivesse que admitir para sua única filha que nunca fora prestar as devidas homenagens aos avós dela.
Luxuriah sabia que era apenas um protocolo, algo para acalentar os vivos, pois onde estavam seus pais nãos e interessavam por flores ou orações. A visão que tivera, que considerava tão real quanto o vento que batia em seu rosto naquele momento, lhe mostrara que tudo que eles queriam era que elas ficassem bem. E para ficar bem, para encerrar aquele triste ciclo de sua vida, devia fazer aquela visita.
A única vez que fora até o jazigo da família Fendessol foi quando fora com seu pai visitar o túmulo de Lady Luelly. Sabia que seus pais haviam sido colocados ali também, mas não participara da cerimônia na época do acontecido, pois estava se recuperando da violência que sofrera. Nos anos seguinte, se recusar a ir porque não queria aceitar de fato a morte dos dois. Após vê-los naquele lugar maravilhoso, sabia que não precisava mais ter medo.
Apeou no seu falcoztruz e o amarrou em uma árvore. Fez o mesmo caminho que Lor’themar fizera anos antes, quando visitar ao amigo para falar de seus sentimentos sobre Ash. Ela pegou o mesmo barquinho que pegara quando criança, o barquinho que sabia ter sido encantado pela sua mãe. Por isso, à medida que navegava pra a pequena ilha onde ficava o mausoléu, as lembranças de seus pais aflorando em sua mente. Mesmo após o barquinho parar na ilhota, ela ficou algum tempo, se acalmando, antes de finalmente se levantar e caminhar.
Abriu as portas sem dificuldade. O mausoléu estava iluminado, limpo e havia flores frescas no túmulo. Apesar de não ser maga, Luxuriah teve a impressão de sentir resquícios da magia de Kassyeh naquele local. Claro, sua irmã visitara o túmulo dos pais antes de partir para Pandaria. Sentiu-se mal por não ter trazido nenhuma flor.
— Pai… M-mãe… — ela gaguejou, pensando em falar alguma coisa.
Porém, não conseguiu. As lágrimas brotaram de seus olhos e Luxuriah só conseguia chorar. Caiu de joelho em frente aos túmulos de seus pais e de sua avó e chorou muito, por um tempo infindável. Chorou as lágrimas que imaginava que já haviam secado, chorou as dores que imaginava já terem passado. Porém, sabia que aquela dor nunca passaria por completo, então esperava que elas ao menos aliviassem. Por isso, deixou-se chorar pelo tempo que precisou.
Depois que foi consumida pelas lágrimas, Luxuriah permaneceu no chão, respirando fundo, até que percebeu que não choraria mais. Levantou-se, caminhou até os túmulos em direção aos bustos que os adornavam. Depositou um beijo em cada um dos bustos, como se beijasse realmente sua família. Mais uma vez, pensou em falar algo, mas sabia que não era necessário. De sua parte, seus pais não precisavam nem de flores, nem de palavras, pois ela havia depositado ali seus sentimentos e suas lágrimas. E tudo que precisava ser falado, já havia dito quando as almas deles se encontraram.
Quando saiu do mausoléu, Luxuriah não se sentia uma pessoa diferente. Não. Porém, estava mais leve, como se o peso do mundo tivesse sido tirado de seus ombros. Estava feito. Poderia se dedicar agora aos eu futuro e não mais ao passado. Aquele fechamento era necessário, pois sabia que, há muito, suas irmãs se libertaram e ela continuava presa. Devia deixar o passado para trás, devia deixar suas irmãs alçarem voo e apenas orientá-las. Porque, um sentimento além do alivio a invadiu enquanto se despedia do mausoléu: a certeza que havia algo se aproximando. Sentia que era um aviso que recebera e devia se preparar, que devia estar pronta para voltar a Pandaria para lutar não apenas pela Horda, mas pelo futuro de sua filha, pois os ventos da guerra estavam apenas começando a soprar.
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