Herança de Ódio : O Som do Silêncio

3 ​Capítulo 3: O Fantasma da Ala Sul



​A mansão Vancamp à noite não era apenas uma casa; era um labirinto de sussurros. Aria não conseguia dormir. O silêncio era interrompido pelo estalo da madeira antiga e pelo som do vento uivando nas chaminés. O rosto de Dante, o toque áspero de seus dedos e a promessa de uma verdade oculta queimavam em sua mente.

​Perto das duas da manhã, Aria decidiu que não ficaria mais parada. Ela pegou um robe de seda — um dos "presentes" de Dante que ela detestava usar — e saiu do quarto. Ela precisava de água, ou talvez apenas de ar.

​Enquanto caminhava pelos corredores mergulhados na penumbra, um som a parou. Não era o vento. Era um murmúrio baixo, uma melodia desconexa sendo cantarolada em um tom quase inaudível. O som vinha da ala sul, uma parte da casa que Dante explicitamente a proibira de visitar, alegando que eram "quartos de hóspedes em reforma".

​A curiosidade, alimentada pelo ódio, foi mais forte que o aviso.

​O Encontro Proibido

​Aria seguiu o som até o fim de um corredor onde a luz de uma única vela escapava por baixo de uma porta de carvalho maciço. Ela girou a maçaneta lentamente. A porta não estava trancada.

​O quarto estava repleto de flores brancas, mas o cheiro não era doce; era o cheiro de hospital misturado com gardênias murchas. Sentada perto da janela, observando o nada, estava uma mulher. Ela parecia uma versão mais velha de Dante, com os mesmos traços aristocráticos, mas sua pele era quase translúcida e seus olhos estavam perdidos em um tempo que Aria não conhecia.

​Era Elena Vancamp, a mãe de Dante, que o mundo acreditava estar vivendo em um sanatório na Suíça.

​— Você veio para o concerto? — a mulher perguntou, a voz frágil como vidro quebrado, sem se virar.

​— Eu... eu sinto muito. Eu me perdi — Aria sussurrou, o coração batendo forte.

​Elena virou-se lentamente. Quando seus olhos encontraram Aria, algo neles pareceu brilhar com uma lucidez dolorosa.

— Cabelos de fogo... olhos de esmeralda. Você é a menina Moretti. A pequena Aria.

​Aria deu um passo à frente, chocada.

— Você me conhece?

​— Eu conheci seu pai, querida. Ele era um homem bom. — Elena estendeu uma mão trêmula. — Dante me disse que você viria. Ele disse que o som do seu violoncelo traria a luz de volta para esta casa. Mas ele mente. Ele mente para se proteger.

​— O que ele esconde, Elena? — Aria perguntou, segurando a mão gelada da mulher. — O que aconteceu naquela noite?

​Elena abriu a boca para responder, mas antes que a primeira palavra saísse, a porta foi escancarada.

​O Furor do Lobo

​Dante estava parado no portal, a respiração pesada, os olhos brilhando com uma fúria selvagem que fez Aria recuar. Ele parecia ter saído de um pesadelo.

​— Fora. Agora! — ele rugiu.

​— Dante, eu só estava...

​Ele atravessou o quarto em dois passos, segurando Aria pelo braço com uma força que não chegava a machucar, mas que era absoluta. Ele a arrastou para fora do quarto, fechando a porta atrás de si e prendendo-a contra o corredor escuro.

​— Eu disse para você não vir aqui! — Ele estava tão perto que ela podia sentir o tremor em seu corpo. A máscara de controle de Dante havia caído, revelando um homem desesperado e vulnerável.

​— Por que você a esconde aqui, Dante? — Aria gritou de volta, sem recuar. — O mundo acha que ela está louca em outro país! Você a mantém presa como um segredo sujo! É por causa do que ela sabe? É por causa do que seu pai fez?

​Dante socou a parede ao lado da cabeça dela, o som ecoando como um tiro.

— Eu a mantenho aqui para protegê-la! Meu pai a quebrou, Aria! Ele a destruiu mentalmente para que ela nunca pudesse testemunhar contra ele! E agora você entra aqui, como um anjo vingador, tentando reabrir feridas que você não tem ideia de como curar!

​Aria viu uma lágrima solitária brilhar nos olhos dele antes que ele a desviasse. O ódio dela oscilou violentamente. Ela viu o peso que Dante carregava — o peso de proteger uma mãe quebrada e manter um legado de sangue.

​— Ela disse que meu pai era um homem bom — Aria sussurrou, sua voz amolecendo involuntariamente. — Ela disse que você mente para se proteger. Do que você tem tanto medo, Dante?

​Dante olhou para ela, e a tensão entre eles mudou. Não era mais apenas raiva. Era uma atração crua, alimentada pela dor mútua. Ele deslizou a mão do pescoço dela para a nuca, puxando-a para mais perto.

​— Eu tenho medo de que, se você descobrir a verdade toda, você me odeie ainda mais. E, por algum motivo infernal... eu não acho que consiga suportar isso agora.

​Antes que ela pudesse responder, ele a beijou. Não foi um beijo de amor, mas um beijo de desespero, de silêncio forçado. Tinha gosto de uísque e de uma verdade que ambos temiam. Aria tentou resistir por um segundo, mas a química devastadora entre eles a traiu. Ela agarrou a camisa dele, retribuindo o beijo com uma intensidade que era metade ódio e metade uma sede que ela não sabia que tinha.

​Eles eram dois inimigos se destruindo no escuro, enquanto o fantasma de Elena Vancamp permanecia atrás da porta, guardando o segredo que poderia libertá-los ou acabar com tudo o que restava das famílias Moretti e Vancamp.

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