Herança Real

35 Amor É...


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Capítulo 32 — Amor É...

"Amor é (...)

É um não querer mais que bem querer

é um andar solitário entre a gente

é nunca contentar-se de contente

é um cuidar que ganha em se perder."

Luis de Camões

— Pai, tem certeza de que está confortável? — eu perguntei pela milésima vez.

— Minha filha, se acalme — ele deu um pequeno sorriso e segurou minha mão. — Estou bem, estou pronto para voltarmos e será o que Deus quiser.

Somente balancei a cabeça, possivelmente mais nervosa que ele que estaria passivo de prisão ao ser reconhecido na capital.

— Tio Jean — eu chamei meu tio assim que ele terminou de arrumar as malas e botá-las no carro. — Como será?

Eu não sei se ele compreendia que minha perguntava abrangia um universo de possibilidades, desde anunciarmos para a mídia sobre minha genealogia até eu recusar o cargo às escondidas.

Aquilo me deixava paranoica. Como assim eu teria que ser a princesa regente de um lugar sem ao menos ser ensinada a isso? Sem ter conhecimento dessa família por tantos anos? Era surreal.

— Já encaminhei para meus amigos juristas e meus apoiadores do Conselho o laudo que comprova a sua ligação genética com a família Grimaldi, querida. Sei que te disse que não divulgamos a sua história para a mídia, mas tive que entrar em contato com alguns membros e contei nossa versão. Tenho certeza de que está sendo tudo mantido dentro da câmara e de toda a burocracia.

Suspirei.

— Serena, sei que é difícil para você. Minha filha, pela ordem de sucessão você seria a princesa de Mônaco, mas sabe que se não quiser, tentaremos fazer de tudo para manter sua vontade.

Meu Deus! Princesa de Mônaco! Nem em meus sonhos mais mirabolantes aquela ideia pairava em minha cabeça.

— Pai, eu... Arg! Eu não queria nada disso! Fiquei feliz em saber da sua história com mamãe e do amor de vocês, mas eu simplesmente não me encaixo neste mundo, entende?

Meus olhos suplicavam por ajuda ao intercalar entre tio Jean e meu pai.

— Sabemos sim, mas você também tem noção do que está em jogo, não é?

Tio Jean havia conversado comigo uma vez sobre a condição de meu pai. Primeiramente, a de saúde. Ele estava mal, precisava de um aparato hospitalar que demandava muito custo e teria na capital. Tio Jean ainda disse que, nessa parte, ele podia bancar todo o necessário. Todavia outra questão nos incomodava: a lista de procurados do principado. Meu pai e minha mãe foram postos nela e a punição seria a prisão perpétua. Tudo isso por uma dor de cotovelo de Jorge!

Embora ele dissesse que sentia amor por Saskia...

Mas na minha opinião, amor não fazia isso, não aprisionava e nem te submetia ao inferno.

Dessa forma, quando voltássemos e noticiassem sobre a identidade de meu pai, com certeza o levariam. E aquilo não era uma opção para mim, eu tentaria de todas as formas evitar aquilo.

— Eu não queria ser... Bem, ser isto. Não temos alternativa?

Tio Jean me olhou compadecido.

— Louis é irmão de Jorge, Serena querida, com toda certeza não revogaria uma decisão do antigo monarca que tivera uma sólida reputação.

— Mas e Pierre?! — questionei, com a voz esganiçada, desesperada por uma solução. — Ele será o proximo monarca e tenho certeza que revogaria! Tio Jean, ele me ajudou quando precisei, ele é meu amigo.

— Serena, Pierre só seria uma alternativa depois de ser coroado oficialmente. E tem mais, por ser filho de quem é, temo que ele não teria apoiadores no Conselho devido à má fama e administração do próprio pai. Ninguém quer ser culpado por apoiar um péssimo governante.

— Mas ele seria ótimo! Tenho certeza disso. — eu exclamei e fui interrompida.

Meu pai tossiu e apertei mais forte sua mão, tentando passar confiança.

— Ei, fica calmo, vamos ficar bem. Eu prometo. — eu o assegurei quando me ajustei melhor no banco de trás do carro.

— Não podemos contar com a dúvida, Serena. É questão de horas para prender alguém e questão de meses para uma coroação.

Tio Jean me olhou com aquela cara.

Nossa, eu sabia o que ele estava dizendo nas entrelinhas: você tem que reivindicar o trono para salvar seu pai.

Eu percebia o panorama, só não queria aceitá-lo. Porém estava tarde demais para reclamações. Então respondi:

— Se assim for, eu reivindicarei.

— Vamos para a estrada em rumo ao palácio Grimaldi. — meu tio sentenciou.

Ao meu lado, meu pai me olhava com culpa.

— Se não me fará infeliz, pai, vou salvar você. Não é culpa sua, nem me olhe assim.

— Desculpe, filha, mas é que... Você já está infeliz.

Não respondi, só aperte os olhos e olhei para a janela, com uma voz familiar soando em minha cabeça.

"Te peço pra voltar porque se você aceitar, Serena, eu te juro que te protegerei com a minha vida se for necessário, eu serei o seu guardião, serei seu protetor e nada nesse mundo seria capaz de quebrar isso mais uma vez, então... Por favor, volte pra mim."

Eu estava voltando.

§ * § * § * §

Como havíamos saído do interior no comecinho da manhã e a viagem não durava mais que 3 horas, chegamos ainda com um sol brilhante. Para ser sincera, eu estava com saudades de olhar todas as familiaridades daquelas vielas. O dia estava tão bonito que nem deixava transparecer o caos que modificara a sociedade.

Dentro de um carro muito discreto e com vidros fumês, estávamos passando pelo centro e eu consegui observar aglomerações de pessoas em diferentes pontos, a maioria desses grupos era composto por pessoas que pareciam humildes, então eu supus que vieram mais do interior do principado. Seguravam cartazes e, em coro, reivindicavam algo. A foto do príncipe soberano Louís (meu tio, que eu ainda não conseguia associar a ideia...) estivera diversas vezes estampada com um grande X no meio. Muitos veículos com diferentes símbolos da mídia tanto nacional quanto internacional estavam posicionados em todos os lugares do centro até o caminho do palácio.

Algo que espantou foi ver o rosto de Pierre associado ao pai com também, em alguns cartazes, um X em vermelho.

— Parece que fizemos bem em nos reclusar quanto pudemos. Aqui está em pólvora. — tio Jean comentou.

— Todas essas pessoas... São aqueles movimentos que foram estampados nos jornais que o senhor sempre escondia de mim? — indaguei, me lembrando das ocasiões em que tio Jean sempre guardava o que estava lendo, embora eu tivesse visto a capa de alguns, mas naquele momento, tão confusa, eu nem fui procurar saber.

— Sim. Estão saindo nos jornais de Londres, Bélgica e Áustria. Mas não é de se espantar, parte considerável da família Grimaldi deriva desses países.

Fiquei absorta em conjecturas sobre como essas pessoas estavam protestando e se durante todo aquele tempo. Estivemos fora por quase uma semana e a cidade parecia horrível.

Ao se aproximar dos portões do castelo, ladeado por uma tropa de homens fardados, os veículos midiáticos acharam uma movimentação perigosa e tentaram se aproximar para saber quem estava entrando.

— Pode se esconder, Serena, nunca sabemos o quão escuro ou seguros são esses vidros. — tio Jean me alertou.

Comecei a ficar nervosa e ansiosa com o movimento. Meu pai segurou minha mão gelada.

— Vai dar tudo certo, Serena, seja só você mesma e será incrível.

Não sei como tio Jean se identificou na frente dos soldados no portão do velho palácio, porém conseguimos entrar. Como eu só estivera algumas vezes ali, ainda assim no salão especificamente, não sabia como era a estrutura, porém tio Jean nos guiou até uma parte rodeada por muros e soldados, igualmente, para estacionar perto de uma escadaria.

— É aqui onde acontece as cerimônias da família real. — meu tio disse e desceu do carro. — Vamos, Serena?

Olhei para meu pai.

— Mas e ele?

— Não podemos ainda entrar com John, sabe disso. Temos que guardá-lo o quanto for possível para ter vantagem caso algo saia fora do previsto. Agentes que tratavam da minha segurança irão levá-lo para outro local fora a minha casa e ele ficará bem.

— Ficar sozinho? Ele não pode ficar sozinho.

— Marie já está esperando-o, Serena. — tio Jean me estendeu a mão. — Venha, temos muita coisa para encarar hoje.

— Pai, qualquer coisa fala com ele, tá? — apontei para tio Jean. — Nós daremos um jeito de ajudá-lo. Fico mais aliviada em saber que Marie cuidará de você, depois estarei por lá.

Ele me sorriu fraco e percebi que estava mais apático que o costume.

— Não se preocupa, menina. Segue que você tem alguns deveres para enfrentar.

Eu o abracei querendo absorver alguma força que ele tentava transmitir.

Quando desci do carro, sob os olhares de vários homens armados que estavam cuidando da proteção real, tio Jean me amparou pelos ombros.

— É muito difícil enfrentar tudo isso, eu sei, mas eu conheço você e sei que não existiria ninguém melhor para isso.

Encarei meu tio com um riso espantado.

— Só pode estar de brincadeira.

Cinco homens com ternos pretos se aproximaram, falaram com tio Jean e entraram no carro.

— Confia nesses homens?

— Há mais de dez anos, querida. Já fui irmão da princesa, sei como lidar com algumas coisas. Vamos?

Ao fitar todas aquelas escadas, saber que alguma hora eu teria que passar por aquilo e assumir como meu, me deixou enjoada.

— Quem está nos esperando?

— Todo o Conselho Nacional de Mônaco, o príncipe soberano e seu regente.

— Pierre estará? — arqueie a sobrancelha, com o coração apertado. A última vez que eu vira meu amigo foi quando passei por uma humilhação internacional. Pierre havia me olhado, quase tentando me ajudar de alguma forma, mas devido a sua posição precisou assumir o comando que sei pai já não possuía do principado.

— Oh, sim. Louís anunciou ontem que o filho se casará em algum tempo para assumir permanentemente a coroa.

— Mas temos que resolver a minha questão, não é?

— Bem... — tio Jean falou pensativo e me conduziu pelas escadas. — Daremos um jeito de ajustar tudo isso. Para o bem do povo, Serena.

Fui acometida pelas pessoas que vi no meio do caminho. Elas eram como eu, tinham anseios como eu tive uma vez e dessa vez eu estava em uma posição que poderia dar suporte.

Era mais que difícil imaginar tudo aquilo.

(....)

Aquele lado desconhecido do Palácio era ainda mais suntuoso que todo o resto. Eu não tinha palavras para descrever tudo que via. E também não estava no meu estado normal.

— Você está tremendo, Serena.

— Não é pra menos. Iremos ter uma audiência político-administrativa para pedir uma coroa com a qual eu nunca nem sonhei!

Tio Jean deu uma pequena risada nasalada para acalmar a tensão.

— Espero que não crie expectativa. Não se parece nada com o que falam, é bem mais uma discussão com pessoas influentes e poderosas de um lugar.

— Era isso mesmo que eu imaginava.

E eu no meio disso dizendo "quero ser a dona desse lugar!". Minha nossa.

Como tio Jean não era um desconhecido nem ali e nem em qualquer do principado, todos os empregados por quem passamos nos davam boa olhada, dos pés a cabeça, e cochichavam quando passávamos. Todos deveriam falar de nós.

— Estou um pouco nauseada, isto é normal?

— Você poderia desmaiar com toda essa situação, querida, e aí sim seria uma reação normal.

Eu ri um pouquinho das palavras de tio Jean. Ele continuou a falar coisas sérias misturadas com comédia para dar um tom mais ameno a toda situação, e estava funcionando comigo.

Chegamos a um mais um corredor imenso e com tapeçaria dourada e vozes foram ficando audíveis à medida que nos aproximávamos de duas enormes portas de mogno.

Alguns homens mais velhos, todos bem vestidos, discutiam com papéis na mão e pastas a tiracolo.

— Meus amigos — tio Jean cochichou, risonho. Entendi que eram membros do Conselho.

Quando chegamos perto, as vozes cessaram e todos nos olharam.

Todos me olharam.

Acho que pensavam que o príncipe Jorge poderia ter tido uma filha com mais cara de princesa, devido a seus olhares.

— A sessão já pode começar — tio Jean quebrou o silêncio, mas todos permaneceram calados. Alguns segundos depois, um outro homem saiu pela porta e chamou a todos. O barulho de sapatos e vozes voltou enquanto todos entravam.

Tio Jean tentou falar mais uma brincadeira para mim e eu ia sorrir para acalmá-lo quando meu olhar captou uma movimentação do começo do corredor e o avistei.

Conrad parecia mais lindo. Quase sete dias distante tiveram um efeito de anos para mim ao vê-lo.

Estava penteado, vestido elegantemente, mas não consegui desviar mais os olhos do verde que brilhava. Ele parou de andar quando também me olhou. Intensamente.

Engoli a seco, mas não desviei o olhar.

Parecia que queríamos dizer tanta coisa em um simples olhar. Eu sufocava para dizer o quanto meu coração doía por ele mesmo quando eu tinha decidido me afastar. Doía porque eu queria dizer sim a seu pedido em que fui obrigada a desligar se não choraria e não falaria nada, de toda forma. Eu queria transmitir que eu queria ao menos tentar com ele, nem que fosse uma aproximação amigável porque tê-lo às vistas novamente me trazia um turbilhão de sentimentos que eu tentei calar e destruir.

Mas não tinha dado certo.

Conrad piscou várias vezes, quebrando o contato. Alisou a frente do terno e respirou fundo.

Foi suficiente para eu sair do meu transe e encarar meu tio novamente, só para perceber que ele tinha me deixado à porta da sessão. Virei rapidamente para procurar por Conrad novamente, mas sua figura alta e delineada por cada contorno daquele terno claro já estava se afastando para o lado oposto do corredor.

E eu só vi seu cabelo preto desaparecer das minhas vistas. Um nó se formou na minha garganta.

Ele provavelmente estava magoado demais comigo depois da ligação.

Resignei-me com minhas decisões e respirei fundo para entrar na sala à minha frente e fechar as portas em um baque surdo.

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