Herança Real
7 'Serène' quer dizer Sereia
Capítulo 7
Eu não conseguia dormir.
Jean e eu chegamos a casa ainda na escuridão, porém não tardou ao sol nascer. Por algum estranho motivo, eu revivia em minha mente o baile daquela noite várias e várias vezes, como um filme no repeat. Desde minha chegada sob os olhares de todos, nossa apresentação a tão famosa Alexandra da casa Hanôver, bem como a breve conversa que tive com seu filho. E também o desastre que ocorreu com Adrien DuVille.
A sensação de agonia e euforia estava intrínseca dentro de mim, e eu não sabia como acalmá-la e ter um bom sono. Na verdade, eu me sentia agoniada por motivos óbvios, porém a euforia estava me desconcertando. Como eu podia me sentir impulsionada por aquelas pessoas? Provavelmente a maioria delas seria fútil tal como Blaire.
Mas existem pessoas diferentes, você sabe, você quer conhecê-las.
Bufei e apertei o travesseiro no rosto para suprimir aquela vozinha na minha cabeça. Não, eu não podia nem me apegar a quem quer que fosse, pois meus dias ali eram contados. Eu não sabia o motivo de estar ali, tampouco quem eles eram de verdade, então não fazia sentido me sentir estranha.
Mas eu me sentia. E sabia que se me permitisse o contrário, não acabaria bem.
Nesse dilema, vi pela janela o sol nascer e um novo dia ser começado e, de alguma forma, consegui dormir.
(...)
Marie teve que me acordar no horário do almoço, pois eu estava totalmente apagada.
— Serena! Sei que a festa deve ter sido boa, mas seu padrinho queria acompanhá-la no almoço! – a governanta ralhou comigo.
Aprontei-me para descer, mas não tinha humor nem para conversar com a pessoa que era prioridade na minha lista de interrogatório. No entanto, para minha perplexidade, Jean não puxou conversa e somente quis saber se eu estava bem.
— O que achou das pessoas, querida? – foi a única pergunta de meu padrinho e ele parecia muitointeressado.
— Bom, eu não sei diferenciá-los, mas parecem inofensivos. – respondi, evasiva. – Só posso dizer que conheço Victorine Beaumont.
Ele pareceu refletir e aquietou-se. Eu não.
— Jean, meu pai deu alguma notícia?
Pelo silêncio que se seguiu, eu entendi.
— Meu pai falou com você. O que ele disse, Jean?
— Serena, eu não comentei nada porque...
— O que ele disse? – quase me senti mal por interromper Jean, mas não me detive com o meu coração batendo tão rápido e tão alto quase me deixando surda.
— Ele só telefonou. Perguntou como você estava e o que tinha feito, depois desligou, não me deixou perguntar nada nem como entrar em contato. Provavelmente utilizou um telefone público.
— Droga! – exclamei. – Por que não tinha me dito?
— Serena, porque simplesmente eu não ia te dar esperanças de algo que só durou cinco minutos!
— Eu preciso falar com ele! O que raios ele quer que eu faça aqui?
Jean arregalou os olhos quando bati as mãos na mesa ao levantar.
— Querida, seu pai é sensato e deve ter um motivo. Esperemos o tempo dele.
— Eu não quero esperar! Eu quero respostas, Jean!
Mesmo que eu aparentasse estar furiosa com aquela movimentação pelas minhas costas, Jean não se abalou.
— Eu não posso dá-las. Seu pai tem esse dever, então o espere.
Remoí as palavras do meu padrinho e balancei a cabeça. Claro.
Eu não tinha mais apetite.
— Com licença.
Subi rapidamente as escadas decidida a ir atrás de Victorine assim que saísse correndo daquela casa.
°°*°°*°°*
Eu me sentia diferente das pessoas na rua porque eu estava de shorts, o que parecia apropriado para andar na orla da praia, mas ninguém ligava. As mulheres usavam vestidos finos e os homens eram engomados. Infelizmente, aquilo parecia um pouco sufocante.
Eu estava perdida na praia há alguns minutos, pois somente depois de sair furiosa de casa eu percebi que meu plano era patético. Tudo bem que eu quisesse ir logo ao encontro de Victorine, mas eu não sabia andar sozinha por ali. Era esperado que eu estivesse perdida, mas até que estava aproveitando a bela visão do mar e suas ondas que refletiam um sol poderoso.
Sentei-me na areia e observei o movimento de algumas pessoas que passeavam ali perto. Uma figura alta, de bermuda simples, com uma regata branca suada e boné, passou pela minha frente e o rosto do rapaz me fitou. Eu o reconheci, pois era a segunda vez que nossos olhos se cruzavam e, como da primeira vez, ele sorriu. Também me reconheceu.
Conrad, filho da duquesa de Hanôver, se aproximou de mim e não pude conter o divertimento ao vê-lo naquele traje tão simples comparado ao da noite passada.
— Serena? – ele me cumprimentou com uma respiração descompassada. Retirou os fones de ouvido e sentou ao meu lado. – Ora, ora, está tendo um momento de reflexão na praia, senhorita.
— Nem tão reflexão assim. – respondi. – Eu me perdi mesmo.
Pela primeira vez, ouvi uma forte risada do rapaz ao meu lado e ri junto ao vê-lo surpreso.
— O que esperava? Sou turista aqui, sai de casa sozinha e me perdi.
— É uma consequência bem imaginável.
Olhei para o boné sobre os filhos pretos desalinhados, o rosto vermelho decorrido do esforço e os braços, definidos, desnudos pela camiseta.
— O que não é bem imaginável é a sua figura estar correndo disfarçado pela praia!
— Poxa, você descobriu meu disfarce. – Conrad passou as mãos sobre o próprio corpo. – Se eu não viesse assim, muito provável que fosse atacado por fotógrafos. Não é agradável, Serena.
— Entendo. Mas por que corre aqui se sua casa é enorme, diga-se de passagem, eu soube do jardim dela – eu o inquiri com os olhos e ele sorriu. – E logo aqui, sendo distante dos morros.
— O proibido é melhor – ele sentenciou e dessa vez eu gargalhei. – Brincadeiras à parte, eu sou particularmente um fã do mar. É incrível, não vê?
Assenti com a cabeça porque, de verdade, acho que nem lá de cima alguém poderia ter uma melhor visão da rebeldia das ondas do que onde estávamos.
— Quer dizer que você além de ser um maratonista, é também um nadador.
— Sou fã do mar! Não tanto nadador, veja bem – Conrad comentou e tirou o boné para empurrar os fios pretos para trás. – Já que estamos falando do mar, preciso confessar à senhorita que, mesmo que seja de origem francesa, é a primeira vez que vejo alguém com seu nome. Serena.
— Não posso acreditar. – fingi uma cara de surpresa que o divertiu. – Meu nome se deve mais ao meu pai, que é de um lugar fora da Europa, mas era apaixonada pela palavrra sereia, então procurou um nome que, ao francês, fosse parecido. Serena parece com 'serène'.
— Seu pai é admirador de sereias, então, Serena— Conrad disse e meu coração se contraiu ao vê-lo citar meu pai. – É um nome bonito e combina com você, não sei por que.
Senti uma leve vergonha ao ouvi-lo dizer aquilo.
— Obrigada. – respondi. — Acho.
Ele riu.
— Eu sou suspeito para falar disso, já que, como sabe, sou apaixonado por mar, consequentemente, por coisas que o envolvem.
— Vou guardar seu segredo, senhor Hanôver.
— Conrad. – ele me corrigiu. – Sabe, não gosto muito de cerimônias com pessoas da mesma idade que a minha.
— Exatamente isso! É tão estranho olhar pra você e te chamar de senhor, por exemplo, mesmo que seja por respeito já que tem um título.
Conrad, ao meu lado, respirou fundo.
— Esse negócio de título é uma sobrecarga tremenda, às vezes.
Olhei para ele, solidária. Eu poderia imaginar como tinha sido a vida dele.
— Principalmente se sua família não é somente uma casa ducal. – ele prosseguiu e seus olhos verdes (de um tom pavorosamente brilhante, como o da mãe) me prenderam. – Meu segredo, Serena, é que é um saco ser primo do príncipe.
A última fala foi dita num sussurro com som de divertimento, porém me surpreendi sinceramente.
— Você é primo do príncipe? Fala sério!
— Falo sério! – Conrad imitou minha exclamação. – O que você pensaria de mim se eu dissesse que cresci brincando com o futuro soberano deste principado?
— Sabe o que é pior? Eu não duvidaria se você falasse isso. Coitado de você.
Conrad gargalhou.
— Ele até que sabia bem como jogar tênis e quebrar meus carrinhos. – ele continuou com uma certa nostalgia contida. – Sinto falta do meu convívio com Pierre. Fomos afastados quando o dever nos chamou.
— Que triste, Conrad, você ficou dessa vez com toda sua coleção de carrinhos intacta.
— Você é uma graça – ele me respondeu quando rimos.
O silêncio pesou entre nós quando o assunto acabou e viramos para olhar o mar, cada um com seu próprio universo sendo criado na cabeça.
— Serena, eu preciso ir antes que sintam minha falta lá em cima. – Conrad me olhou depois que ficamos em transe olhando a praia. – Como você disse que estava perdida, eu tenho que ser cavalheiro e te oferecer ajuda. Para onde deseja ir?
— Eu tinha combinado de me encontrar com Victorine Beaumont, então poderia me deixar na casa dela? – eu mordi o lábio inferior num reflexo com medo de estar pedindo demais a Conrad.
— Não será incômodo, Serena, até porque os Beaumont moram perto de minha própria casa. Podemos ir.
Soltei o ar, aliviada, por saber que não teria que voltar para a casa de Jean e ainda poderia prosseguir seguramente com meu plano com Victorine.
O que eu não planejara foi subir o monte ao lado de um futuro duque disfarçado, ouvindo suas histórias com o futuro príncipe soberano e me divertindo como eu nunca fizera antes.
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