Herança Real
5 Olhos de ressaca
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."- Machado de Assis
CONRAD
Eu terminava de ajeitar a minha gravata no terno quando Adrien entrou em meu quarto.
— Pelo amor de Deus, ainda nisso, cara? – ele se jogou em minha cama, que já estava arrumada.
— Levanta daí, Adrien, tive que arrumar esse quarto todo hoje.
— Isso que dá ser acostumado a ter um monte de gente arrumando as coisas, né – Adrien retrucou quando o puxei pelo braço e o soltei na poltrona mais próxima. – Conrad, sua mãe pediu para descer logo. O salão já tá cheio, cara, e as meninas estão deslumbrantes!
Revirei os olhos, mas não evitei a risada.
— Você é impressionante.
— Você deveria estar dizendo isso pras garotas, meu chapa! – meu amigo se aproximou e se olhou no mesmo espelho em que me fitava. – Somos tão gatos, como isso é possível?
Observei o rosto de Adrien se contorcer em um sorriso, cujo poder surtia efeito em milhares de garotas com quem ele se relacionara.
— Vamos logo descer.
Empurrei meu amigo porta afora e fizemos o caminho até o salão.
Eu entendia a necessidade de minha mãe em realizar festas grandiosas para se expor à sociedade, mas não era capaz de gostar de todas elas. Mesmo que uma alguma pessoa gostasse de passar a noite conversando, comendo ou dançando, eu estava saturado de uma vida regada a festas. Pior! A maioria das festas era ideia de minha queridíssima mãe, ou seja, eu fazia parte da comissão 'anfitriã'. Tínhamos que cumprimentar a todos, dar conversa aos mais velhos para que se gabarem de seus feitos, deveríamos soltar comentários inteligentes acerca da política e ainda ouvir gracejos de algumas moças não tão admiráveis. Não eram festas tão boas assim.
Desci a escadaria de minha casa ao lado de Adrien, que fazia comentários sobre cada garota que punha os olhos, e preparei meu sorriso.
— Conrad, querido! – fui parado por alguma tia desconhecida. – Como está crescido! E continua lindo.
Como fui bloqueado pelos braços da mulher, vi Adrien rir da minha situação e me abandonar. Imaginei que tivesse achado alguma garota interessante para ficar no pé dela.
A tia puxou conversa comigo e ficamos bons minutos falando sobre como meu cabelo mudara – "do tom loiro de seu pai transformou-se no preto da família de sua mãe, meu querido" – ou como eu tinha ficado mais alto que meu pai. Mas como explicar para uma tia que você não é mais um jovem de dez anos? O tempo passa e mais dez anos são capazes de mudar muitas coisas, inclusive cabelo, mas não disse isso para ela.
Fiquei sorrindo e até me interessei pelo assunto que ela começava a abordar quando fomos interrompidos.
— Senhor Hanôver! Senhora – a garota nos cumprimentou. – Desculpe atrapalhar, senhora, mas gostaria de roubar Conrad um pouco. Importa-se?
A tia que me alugara não resistiu ao sorriso inocente instalado no rosto de Blaire.
— Claro que não, querida Blaire. Mande lembranças a seu pai.
— Mandarei – ela respondeu e a mulher se afastou. – Conrad! Há tempo que não o vejo!
Fitei Blaire, confuso.
— Acho que nos vimos em um jantar essa semana, Blaire. Como vai?
Blaire sorriu sem parecer afetada e sua mão pousou em meu braço.
— Estou bem, querido. E você?
Respondi e ela iniciou uma conversa sobre como fora difícil achar um vestido a altura de um evento de minha mãe e algumas coisas assim. Não deixei de notar que à medida que andávamos juntos pelo salão os outros nos fitavam admirados, e eu podia imaginar a imagem que representávamos. Um rapaz alto, com o cabelo preto quase brilhando penteado para trás, e ao seu lado uma figura esguia, tão loira que denunciava a característica de sua família, dona dos olhos mais azuis que poderiam existir em todo território monegasco. Simplesmente o herdeiro de um duque e a filha de outro.
Suspirei disfarçadamente até as amigas de Blaire nos alcançar. Victorine e Michele estavam com Adrien.
— Conrad, que prazer vê-lo. – Victorine, a ruiva, sempre tinha um doce sorriso pronto. Cumprimentei-a levemente mais alegre do que quando entrara na festa e passamos a conversar em grupo.
Em um dado momento, a chegada de algum convidado chamou quase toda atenção do salão e vi minha mãe se movimentar ao encontro deles.
— Vic, diga a Conrad o quão difícil foi convencer a estilista de nossos modelos exclusivos! – Blaire comentou.
— Ah... – Vic pareceu envergonhada. – A senhora estava com muita encomenda, vocês devem saber, muito atarefada...
Victorine entrou no assunto de Blaire e percebi Michele e Adrien fitando algo do outro lado e segui o rastro com o olhar.
Uma figura loira, trajada com um vestido prateado rodeando o corpo em brilho, nos olhava com uma altivez desconhecida, o queixo erguido e a curiosidade estampada nos olhos.
Olhos que nos encaravam, e não pude deixar de lançar um sorriso para a novata da sociedade.
Para minha surpresa, o rosto da loira curvou-se em um meio sorriso, mas ela virou para seu acompanhante, que reconheci ser o senhor Jean Burnier.
— Conrad! Conrad! – a voz de Blaire soou estridente ao meu lado, fazendo-me olhá-la.
— Perdão. – respondi porque achava que ela me chamava antes.
— Oh, querido, continuando...
Blaire não queria que eu participasse de sua conversa, mas a escutasse, então fiz isso até Adrien sair, depois Michele e por fim Victorine. Ficamos eu e Blaire diante dos olhares dos membros da alta roda.
—*-*-**-*-*-*-*-*-*-
Eu estava no meio de uma conversa com os funcionários do Conselho Nacional de Mônaco quando as luzes do salão se apagaram. O som de conversas subitamente diminuiu e depois estrondou na mesma rapidez em que as pessoas pareciam querer sair de seus lugares. Porém dois minutos depois, o gerador pareceu ser ativado e a luz voltou. O que tinha acontecido? Era a primeira vez que algum acidente elétrico ocorria em casa.
— Com licença, senhores, irei procurar meu pai. – declarei me despedindo do grupo para sair em busca de respostas.
Como o gerador havia sido ligado, alguém deveria estar na sala no andar de cima para ajeitar tudo, então rumei para as escadas a fim de atravessar o longo corredor.
Quase pulei os degraus de dois em dois até trombar em alguém.
— Oh, me desculpe! – a pessoa pediu e me estendeu a mão a me ver no chão. – Meu deus, me desculpe mesmo, senhor.
A figura que provavelmente estava correndo e trombou comigo era da mesma garota que acompanhava Jean Burnier e não evitei rir perante o horror que visualizei em seus olhos arregalados.
— Você está bem? Eu fui muito desastrada em sair correndo, mas achei que estivesse sozinha, já que tem uma festa e...
— Calma, senhorita – eu interrompi sua tagarelice. – De fato, foi imprudente correr perto de uma escada, poderia cair.
Acho que ela entendeu minha fala como uma indireta pelo fato de eu ter caído e não a real intenção em possibilitar um acidente nas escadas.
— Eu nem acredito que te derrubei – o rosto dela tingiu-se de vermelho rapidamente. – Me desculpe de novo.
— Não precisa se desculpar. Devo confessar que foi inusitado para uma apresentação já que a moça geralmente é a vítima.
A garota aparentou diminuir o nervosismo e sorriu de leve.
— É verdade.
— Não que eu tenha sugerido que fosse a senhorita a cair. Claro que não.
Dessa vez ela soltou uma risada.
— Eu entendi, sem problemas, foi uma apresentação bem diferente mesmo.
— Podemos dizer que sim. – respondi. – Sou Conrad.
— Oh, claro, o nome da minha vitima. – ela pareceu revirar os olhos. – Sou Serena.
— Prazer conhecê-la, Serena – estendi a mão e beijei a mão oferecida da moça. Os olhos castanhos de Serena eram instigantes, pareciam tragar tudo a sua volta, por isso balancei a cabeça antes de prosseguir.
— Vi que estava acompanhada do senhor Burnier.
— Ah, sim! Sou afilhada dele.
Este era um fato inusitado. Franzi o cenho.
— Ele nunca comentou que tinha uma afilhada, mas seja bem vinda.
Serena apertou os lábios e ia me responder quando a figura de Adrien nos interpelou vinda do final do corredor.
— Cara! – ele me olhou. – Serena!
— Vocês se conhecem? – perguntei, olhando de Adrien para Serena.
— Não! – ela respondeu.
— Sim – meu amigo falou ao mesmo tempo.
— Quero dizer, eu só fui apresentada ao senhor DuVille agora pouco. Não nos conhecemos.
A firmeza das palavras da moça era tão clara que até meu amigo pareceu surpreso.
— É verdade.
Passeei meus olhos entre os dois até me lembrar do motivo de estar ali.
— Me perdoem não demorar, mas preciso resolver algo agora.
— Sim, certo.
— Tudo bem, cara.
— Uma boa noite. – eu disse para caso não voltasse a vê-los. – Divirtam-se.
Adrien deu seu famoso sorriso e Serena assentiu com a cabeça, não sem antes olhar estranhamente para meu amigo.
Virei-me e segui pelo corredor imaginando o que será que tinha acontecido para apenas Serena e Adrien estarem no andar superior à festa.
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