Herança Real
10 Dia 21 de Setembro
Notas iniciais
Capítulo 10
Depois de me acalmar da cena que protagonizei com Blaire, ainda fiquei minutos longe da quadra e de toda aquela gente. Ouvir as palavras de Blaire me incomodava por darem ênfase a uma sensação conflitante que habitava em mim: a de não pertencimento. Eu não me importava se era assunto de toda aquela sociedade, devia ser normal alguém novo causar euforia, nem se o ciúme infundado de Blaire recaísse como uma ameaça sobre mim. Todavia, eu tentava reprimir a angústia que crescia. Eu entendia que estava temporariamente por ali, eu estava mesmo esperando por notícias de meu pai e até descobrindo mais sobre o passado que levou meus pais a me terem, porém eu começava a cultivar em mim a empatia por alguns que realmente pareciam interessantes, como Victorine, Conrad, Marie e até mesmo Jean, embora tivesse discutido com ele pela manhã, ele me acolhera de uma forma surpreendente.
Eu não devia estar me importando também se eu não era daquele lugar, iguais àquelas pessoas. Eu não era mesmo. Então por que me sentia daquele jeito?
Bufei. Não queria ficar mais impaciente do que quando discuti com Blaire, então tratei de beber a limonada que segurava.
Peguei outro copo para Victorine e me dirigi, lentamente, até as arquibancadas.
Notei que a partida era de Adrien com alguém desconhecido.
— Desculpe pela demora, Vic – eu sussurrei para a ruiva quando sentei ao seu lado. – Acabei me perdendo e depois demorei para aprender a mexer na máquina.
Vic sorriu agradecida, não se importando por esse 'aprendizado' ter levado algum tempo.
— Não se preocupe, Serena. Muito obrigada, de toda forma.
Consenti e tentei concentrar minha atenção no jogo que se desenrolava e não em como Alexandra conversava animadamente com Blaire, no banco abaixo de nós. Estava bem difícil porque elas não conseguiam conter o tom de voz. Como assim elas vinham assistir e nem paravam de conversar?
Eu tinha mais raiva ainda da loira platinada que me lançava olhares fulminantes vez ou outra.
— Então, querida, a chegada dele está bem próxima! – a duquesa de Hanôver anunciou para sua companhia. – Daqui a um mês, ele retornará com o pai e queremos recepcioná-los. A verdade é que já iniciamos o trabalho e só faltam detalhes a serem planejados. Quer se responsabilizar, senhorita de Rohan?
Não era minha intenção estar ouvindo a conversa alheia, mas elas tiraram meu foco, juntamente com Michele, que ao nosso lado, se intrometeu na conversa das mulheres embaixo.
— Oh, Blaire! – ela exclamou, animada, depois que Blaire declarou que gostaria muitíssimo de tomar conta desta atividade. – Posso ajudá-la? Eu iria adorar participar da organização da festa de recepção do príncipe Pierre! E meu pai ficaria encantado em me ver esforçada em uma atividade real.
Victorine ficou na expectativa com Michele até a loira declarar – acho que meio relutante em dividir a glória – que ficaria honrada com a ajuda da filha do marquês de Chilly.
À medida que Michele se empolgava com as palavras e Blaire, Alexandra nos fitou demoradamente e seus olhos pousaram em meu rosto. Não desviei meus próprios olhos ordinariamente castanhos dos impressionantes verdes. Vi a curiosidade ser substituída pela confusão e logo depois as sobrancelhas da duquesa franzirem levemente. Acho que ela viu a interrogação em meu olhar e falou inesperadamente:
— Nunca a vi antes, senhorita Kane?
Victorine, Michele e Blaire pararam de conversar.
Eu não era muito fã de meu sobrenome, porque ele só combinava com o nome de meu pai.
— Acredito que não, Vossa Alteza. – eu me lembrei de tratá-la pelo honorífico correto para não trazer confusões. – É a primeira vez que estou aqui e nunca sai do interior onde morava.
E eu tinha certeza que Alexandra não fazia o perfil de visitar interiores.
— Hm... – ela refletiu sob quatro rostos a inquirindo. – Tive a impressão de conhecê-la.
Neguei com a cabeça e forcei um sorriso só para poder me ver livre da atenção delas. E assim prosseguiu a conversa de Blaire, Michele e Alexandra, com pequenas falas de Victorine.
A partida de Adrien terminou – ele ganhou elegantemente – e Conrad entrou com outro. Observei sua habilidade e leveza no esporte, além do sorriso leve que ele dava toda vez que fazia um ponto novo. Não era um sorriso por inteiro, mostrando seus dentes brancos, mas daqueles de um sutil puxar do canto da boca que era dado espontaneamente.
— Vic, não estaria interessada? – Blaire, em um dado momento, perguntou, me assustando. – Você tem um dom em escolher cores combinantes e um ótimo cardápio para festas!
— É verdade! – Michele concordou. Apenas Alexandra e eu olhávamos para o jogo até Vic se pronunciar:
— Obrigada pelo convite, Blaire, eu adoraria. – a ruiva se voltou para mim. – Já que está em minha companhia, Serena, poderia me acompanhar?
Eu quase pulei do banco com a pergunta receosa de Vic.
— Eu não sei quanto tempo ficará aqui, mas já que estamos entre conhecidas, seria ótimo apresentar mais um pouco de nosso mundo para você. Se quiser, claro.
Vic não notou o olhar duro de Blaire. Eu olhei para a ruiva, que parecia encabulada demais.
— Pode recusar, Serena, eu só queria chamá-la porque estivemos juntas e...
A voz dela se perdeu e eu fiquei com pena da ruiva ser tão solícita comigo, sem motivo, e ainda se arriscar a me inteirar em seu grupo tão elitizado. E que parecia não se dar tão bem comigo.
— Eu...
— Ótima ideia, Vic, querida. – a voz de Blaire estava diferente, carregada de um tom desafiador. – Adoraríamos ter a sua participação, Serena, no que consegue ser boa.
Um sorriso de gozação se desenhou em meus lábios. Ela estava me desafiando. Que maneira mais madura de conseguir minha atenção.
— Quando será a festa? – minha curiosidade venceu meu bom senso.
— Dia vinte e um de setembro. – Vic me respondeu.
Droga! Era meu aniversário, será que eu o passaria ali, com aquelas pessoas? Naquela provável festa? Uma leve tristeza se abateu sobre mim. E se intensificou quando Victorine pareceu desanimada com meu silêncio.
— Eu não sei muita coisa de festa, Vic – eu sussurrei para ela. Na verdade, eu não sabia nada.
— Pode me fazer companhia, Serena. – ela sussurrou de volta. Eu via implícito em seus olhos o 'por favor'.
Uma parte de mim se negava a dizer não para Victorine, entretanto eu não queria dar indício de que cairia na armadilha infantil de Blaire.
Então eu vi Alexandra novamente. E dessa vez, seus olhos esmeraldas escondiam algo sobre mim que iam além da sensação 'te vi em algum lugar antes?', e eu quis desesperadamente ter uma convivência maior com ela até poder obter respostas.
— Posso te fazer companhia.
Vic sorriu, aliviada, e voltou a uma conversa animada com as garotas. Blaire estreitou os olhos em minha direção, mas a ignorei.
Quando tive certeza que a atenção das quatro mulheres não estava em mim, me permiti expirar longamente. Eu estava me metendo mais fundo naquilo e talvez fosse difícil sair depois.
Porém parecia meu destino ter que me enveredar mais e mais fundo por aquelas longas e inúmeras teias de segredos.
°°*°°*°°*°°*°°
Quando o jogo final começou, entre Adrien e Conrad, eu não consegui prestar muita atenção. Inacreditavelmente, a tristeza e o abandono consumiam meus pensamentos e me faziam desacreditar que meu pai, pela primeira vez desde que me conheço, não estaria comigo. Ele era minha única família, e agora... Eu estaria completando vinte anos entre quase desconhecidos.
Somente sai de meus devaneios quando Vic me puxou para descermos as arquibancadas após o término dos jogos.
— Vamos, Serena! Ficaremos para trás!
Eu tentei acompanhar Vic em sua corrida para alcançar Blaire, Michele e Alexandra que iam à frente, porém o vestido apertado, os passos rápidos e o sol muito quente estavam me deixando zonza. Separei-me de Victorine para que ela pudesse correr até as outras.
— Iremos para a casa da duquesa, Serena.
— Estarei logo atrás – eu respondi sem me importar se chegaria mesmo até lá. Queria ir para casa.
Caminhei vários passos atrás do grupo de mulheres, observando o verde ao redor e tentando não me deprimir.
— Olá.
Assustei-me ao notar a presença de Conrad ao meu lado.
— Ora, olá.
— Gostou dos jogos? – ele passou a caminhar no mesmo passo que o meu.
— Acho que sim – sorri de lado porque não ia confessar que só tinha assistido de verdade poucas partes de alguns que ocorreram.
— O que faz sozinha aqui e longe daquele grupo? – ele apontou para onde a mãe estava.
— Sabe como é, meio tonta com o calor e eu não saberia nem opinar em um assunto que elas abordam.
— Acontece comigo também, mas... – Conrad me olhou de soslaio. – Você me parece mais abatida do que o sol seria capaz de causar em alguém, Serena.
Ter alguém ao meu lado, que demonstrava um interesse genuíno por minhas preocupações, sem pretensões, me fez ponderar sobre dividir minha angústia.
— É mais que isso, sim.
— Você quer dividir? Tenho algum tempo antes que minha mãe queira fazer uma refeição lá em casa. – percebi que Conrad tentava me animar com suas brincadeiras insinuantes sobre o comportamento pegajoso de sua mãe para com ele e me solidarizei com o gesto.
Não seria grande coisa compartilhar, afinal.
— Vic me chamou para ajudá-las a preparar a festa para o príncipe daqui a um mês.
— Entendo que se sinta intimidada. – Conrad preencheu minha pausa. – Mas você pode tirar de letra, Serena, na verdade, não precisa provar nada a ninguém. Victorine deve tê-la chamado para acompanhá-la.
— Eu sei. Ela me disse, de qualquer forma.
— E então...?
— Será no dia do meu aniversário. – declarei.
— Olha só quem anda com segredos. – ele deu um sorriso alegre, daqueles que seus dentes aparecem e seus olhos se contraem. – Está triste por ficar um ano mais velha?
Ele conseguiu me fazer rir.
— Não, Conrad. – respondi. – É que sempre comemorei essa data com meu pai e dessa vez tenho quase certeza de que ele não estará comigo. E provavelmente ainda estarei aqui.
— Oh. – ele murmurou. – Deve sentir saudades dele, mas acredito que possa chamá-lo para comemorarmos aqui também, que tal?
A tristeza habitou meu sorriso quando vi a inocência em Conrad, e não quis sobrecarregá-lo com meus porquês.
— Ele não poderá vir, infelizmente. E não iremos manter a tradição de todo dia vinte e um de setembro.
— Que seria?
— Meu pai costumava, ao fim do dia, me fazer um bolo pequeno e azul, — eu ri de minhas próprias lembranças. Tantos bolinhos em anos... – Eu te disse que ele amava sereias... Ele fazia um bolinho com desenho de sereia por cima, então me dava enquanto cantava uma música estrangeira que ele ouviu uma vez em uma de suas diversas viagens pelo mundo. Ele me ensinou a tradução da música assim que eu pude começar a ler e escrever.
Conrad me ouviu pacientemente, respeitando meu momento saudosista. Ele virou seu rosto para mim, com os cabelos pretos desgrenhados, mas com um sorriso, e me perguntou a música, que eu disse e simultaneamente meu coração se apertou com a lembrança de John, meu pai.
— Sinto muito, Serena, por não ter a continuação da tradição. – ele me disse depois que ficamos em silêncio. – Mas tenho certeza de que seu pai poderá recompensá-la.
— Pode ser.
— E você pode descobrir novas tradições. Não fique triste – Conrad declarou e me lançou um sorriso encorajador. Eu sorri de volta, não porque estava feliz, mas porque ele estava tentando mesmo ser legal e eu reconhecia isso.
— Mas então... Irá com elas para minha casa?
— Eu queria mesmo ir para a do meu padrinho. – mordi o lábio inferior. – Poderia avisar a Vic que fui?
— Poderia, mas se bem me lembro, a senhorita tem mania de se perder.
Dei uma risada. Ele estava certo.
— Quer que eu a leve? Posso me atrasar um pouco.
— Não precisa, Conrad. Já foi muito legal comigo. – por mais que ele se dispusesse, eu não iria abusar da boa vontade. E queria ficar sozinha. – Você poderia me dar o endereço?
Ele quem riu dessa vez. Disse-me o nome e eu fiquei repetindo em minha mente várias vezes para não esquecer.
— Tem certeza de que não quer carona?
— Não seria carona porque você não estaria indo para lá, Conrad. – eu ri. – Sério, não se preocupe. Não disse que tinha transporte público? Eu irei me virar nem que tenha que sair perguntando a todos!
— Tudo bem! – ele se rendeu, também sorrindo. – Tome cuidado, e até mais, Serena. Não fique triste!
Ele se despediu e seguiu mais rápido até o grupo de mulheres que seguiam para sua casa.
Peguei outro caminho quando tive oportunidade e logo consegui um ônibus (até mesmo ali existia, e não era em mau estado).
Eu só queria ir para o quarto e me ocupar, de preferência sozinha, pelo resto do dia.
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