Herança Real
15 Casa de Valois
Capítulo 15 — Casa de Valois
"Quando eu vou dormir, eu me pergunto:
você continuará aí, quando eu fechar os olhos?
E quando eu fecho os olhos, eu me pergunto:
você estará aí quando eu acordar?
(eu espero que sim)."
— Augusto Branco
CONRAD
Sobressaltado, acordei de mais um pesadelo pela, o que parecia, a enésima noite. Na realidade, aqueles ataques súbitos de assombro me tomaram mais de três noites seguidas e começavam a me deixar impaciente. Empurrei as cobertas para o lado da cama e respirei fundo, na intenção de apagar as memórias de uma moça mergulhada em um furioso rio, cujo destino iminente era perigoso.
Apesar de adorar o mar e tudo que o envolvia, eu sabia de seus males e estes não deixavam de me apavorar sobremaneira. E aquela sensação parecia piorar quando pensada com uma pessoa amiga.
Optei por não voltar à cama, então me arrumei para começar o dia. Como tinha marcado em treinar nos jardins com Adrien, vesti meu uniforme branco e desci a fim de ver o que teríamos para comer.
Não foi com surpresa, porém, que vi meu amigo sentado à mesa grande de mogno, já com um prato cheio.
— Meu querido! Dormiu bem, raio de sol?
— Bom dia para você também, Adrien.
Ignorei a risada de Adrien e sentei a sua frente, notando que meus pais não estavam presentes.
— Nem está tão tarde assim, não é? Cadê meus pais?
Adrien tentou me responder, mas estava com a boca cheia, de forma que o ignorei.
— Vossa Alteza e o marido já se alimentaram, senhor. O senhor DuVille chegou logo após. — uma empregada da cozinha respondeu quando pôs suco na mesa somente para Adrien quase esvaziar a garrafa no mesmo momento.
— Não tenho os tenho visto para as refeições ultimamente.
— A senhora Hanôver pediu para dizer que está envolvida com a chegada de visitantes. — a empregada respondeu novamente e agradeci pelo recado dado.
— Esta cidadela andará muito badalada pelos próximos dias, hein – Adrien soltou um sorriso malicioso. – Já estive na presença de beldades inglesas só nessa semana, óbvio, com o baile da Vossa Alteza Real para acontecer daqui a duas semanas.
— Não tenho nem como esquecer este evento esperadíssimo! – ironizei. – Minha mãe está nos levando à loucura com os preparativos.
— Enquanto seu esperto primo curte as Maldivas! Isso que é vida!
— Como se você não pudesse ir quando quisesse, não é?
— De fato... Mas não ostentando o título e o charme natural dele.
— Curioso esse seu comentário, Adrien – eu ri duvidosamente de meu amigo que deu de ombros.
— Eu prefiro mulheres, palhaço, você sabe quanto. Mas sou um cara sincero. Aliás, elas apreciam a sinceridade.
— Imagino que sim. Vamos?
Levantei-me para sair e, finalmente, eliminar a tensão que se acumulava em meus ossos. Adrien furtou alguns pãezinhos da mesa e me acompanhou rumo à claridade dos jardins.
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— Se você continuar a rebater feito uma mulherzinha, eu vou embora! – Adrien ladrou no meio do nosso jogo. – Preste atenção, Conrad! Rebata direito!
Bufei, a chateação ganhando espaço em meu ser. Desde o começo do treino que algo me impedia de me doar por inteiro e fazer valer a tarde.
— Eu estou tentando! – rebati e mais uma vez, foi um fracasso. – Vamos acabar por hoje.
— Você é um molenga mesmo.
— Não enche.
— Fica com a cabeça nas nuvens! Eu sou o mais lunático de nós dois, valeu?!
Joguei-me em uma cadeira por perto e não respondi a meu amigo. Ele logo ocupou o lugar ao meu lado e iniciou uma conversa banal até sermos surpreendidos com as figuras de duas mulheres saídas de minha casa.
Minha mãe, como sempre, mantinha seu ar elegante, por vezes mesclado com uma dose de arrogância que eu supunha ter adquirida desde muito tenra idade; porém, ao seu lado, estava uma mulher sorridente, com uma simpatia emanando do largo sorriso.
— Olá. – minha mãe falou primeiro. – Senhor DuVille, Conrad...
— Conrad! – a moça mais jovem interrompeu minha mãe e me abraçou forte, cumprimentando-me.
— Cecile?! – perguntei, totalmente surpreso com a moça que se parecia tão pouco com a pequenina menina que outrora dividira brincadeiras de infância comigo.
— Ora! Eu ia apresentá-los, mas a senhorita Cecile me interpôs! – minha mãe repreendeu. – Conrad, Adrien, esta é a senhorita Cecile Valois.
— Encantado, senhorita Valois. – Adrien gracejou, beijando a palma da mão da jovem.
— Um prazer, senhor...
— DuVille, sim, mas pode me chamar de Adrien, se preferir.
— Oh, claro.
— Enfim. – a duquesa Alexandra os interrompeu e não estranhei esse comportamento natural de minha mãe. – Cecile é prima do príncipe Pierre, como Conrad, devo dizer, porém pela parte materna.
O modo como minha mãe insinuou aquelas palavras, dando tanto ênfase no histórico familiar da garota me trouxe uma ideia que eu sabia ser o objetivo da duquesa.
— A Casa de Valois viera um pouco cedo para a festa de Vossa Alteza Sereníssima Louis, mas senhorita Cecile insistiu para vê-lo.
Fitei Cecile mais uma vez e me perguntei como seria possível tamanha mudança em alguém. Quando pequena, era rechonchuda, dona grandes dentes, andava sempre bagunçada e fazia questão de participar das mesmas brincadeiras que Pierre e eu; a única coisa, porém, que não havia se transformado em elegância e carisma na flor da idade fora seus curiosos olhos índigos, um tom que sempre fora motivo de riso e admiração para mim e Pierre, quando pequenos.
— É uma prazer reencontrá-la, senhorita Cecile.
— Oh, Conrad, deixe das formalidades! Chame-me de Ceci, como sempre fez. – Cecile virou-se para minha mãe. – Obrigada, Vossa Alteza, por ter me aberto sua casa.
— Não há de quê. – sucinta, minha mãe respondeu e se despediu deixando-nos sob o sol escaldante.
— Mas então... Posso chamá-la de Ceci, também? – Adrien indagou e soltou uma sonora risada na mesma hora ao notar o rubor em Cecile, não acostumada com flertes tão descarados.
— Deixe de ser galanteador, Adrien, está constrangendo a garota.
— Não é nada, Conrad...
— Mas continuando, senhorita Cecile... Tem belos olhos.
Cecile corou, mais uma vez, pois sabia ser o alvo de dois pares de olhos perscrutadores. No entanto, eu não estava mais observando seus olhos, mas toda sua aparência. O tom de cabelo não era surpresa, pois era da mesma tonalidade escura que compartilhávamos os três quando pequenos; seu corpo adquirira novas formas e o rosto se alongara, por isso só a reconheci depois, pelos olhos e sorriso.
— Está animada com a chegada de nosso estimado primo, Cecile? – eu a tirei dos galanteios de Adrien antes que ficasse ainda mais sem jeito. Como não sentia a antiga familiaridade, preferi utilizar seu primeiro nome.
— Sim! Ainda mais empolgada por estarmos os três juntos novamente, como antes.
Concordei e dei um leve sorriso. Adrien voltara a puxar conversa com a garota e eu fiquei ao lado, falando quando Cecile tentava me introduzir na conversa, porém ainda me sentia levemente irritado pela tarde infrutífera.
— Hm... Adrien, foi um prazer te conhecer melhor, mas será que posso conversar com Conrad por um instante?
Meu amigo me lançou um olhar questionador, cheio de segundas intenções e revirei os olhos.
— Claro que sim, Cecile. Espero vê-la mais vezes. – ele beijou a mão dela de novo. – Marcamos algo para depois, meu amigo.
— Conrad... Tenho algo a te falar. – ela iniciou, enrolando um cacho preto em seus dedos.
— Pode dizer.
— Acho... Acho que seria melhor mostrar.
Então, Cecile se prendeu em meu pescoço como fizera ao me abraçar e me beijou. Confuso com a situação, só pude separá-la de mim após alguns segundos.
— Cecile!
— Eu... Conrad, nós...
— O que foi isso?
— Eu sou apaixonada por você, Conrad. Sempre fui.
— O quê?! – exclamei, com certeza, mais alto que o normal. – Faz muito tempo que nos vemos, Cecile!
— Mesmo assim! Eu mudei por você! Vê? Estou bonita agora, pode me olhar!
— Cecile, minha nossa... Não pode me beijar assim. E não tem nada a ver com sua aparência!
— Me desculpe, não sei o que me deu... Achei que esperaria por isso, também.
— Não é bem assim.
— Entendi.
Cecile ficou cabisbaixa e com as bochechas rosadas. A vergonha tomava conta dela.
— Vou acompanhá-la até a porta, sim? – eu disse depois de pigarrear e aliviar o clima que se instalou entre nós.
Mesmo que eu estivesse levando-a, claramente, para fora de minha casa, não podia ser descortês ao ponto de deixá-la sozinha nos jardins. Mesmo com idade, Cecile continuara com uma imensa ingenuidade dentro si, ao que parecia.
Conduzi-a pela casa e nos despedimos formalmente, até minha mãe surgir na porta.
— A que veio a senhorita Valois?
— Conversar. – eu omiti. – Relembrar fatos antigos.
— Você entendeu quando eu falei da família?
— Sim. Eu me lembro um pouco, mãe. Ela é a prima de Pierre pela parte materna.
— Sim. – Alexandra deixou um silêncio pairar entre nós. – A Casa de Valois é a preterida pelos príncipes para nosso título, e Cecile, sua amiga de infância, é a unigênita da casa.
Balancei a cabeça diante das insinuações de minha mãe. Meu dia já não estava bom e tendia a piorar se eu continuasse a escutar os devaneios de minha mãe, mesmo que fosse por respeito a ela.
— Eu entendi, mãe. Agora, preciso ir.
E saí para o único lugar onde me sentia verdadeiramente livre.
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Para meu desagrado, o dia seguinte foi tão entediante quanto o anterior. Dessa vez, mesmo com o pesadelo, consegui dormir novamente e me concentrar para as atividades diárias, como auxiliar meu pai com os deveres da Casa. Tinha passado a tarde toda no escritório até o mordomo nos avisar sobre uma visita para mim.
— Victorine. – eu cumprimentei a ruiva quando a vi na sala. – Surpreso em vê-la por aqui. Como vai?
— Estou bem, Conrad, e você? Desculpe-me incomodá-lo, mas eu devia algumas encomendas para sua mãe e as trouxe.
— Tudo bem, não se preocupe, eu as entrego.
Ofereci-me para pegar as sacolas e uma se rasgou, deixando um tabloide cair no tapete.
— Desculpe-me, Victorine. – eu, prontamente, me senti culpado e peguei a revista do chão.
— Não, essa era minha, mas não tem problema.
Minha atenção estava totalmente voltada para a capa do famoso tabloide circulante do centro do principado.
E ninguém mais que Serena estava estampada sua capa. Um cachorro acuado era defendido por ela frente a dois homens musculosos e raivosos.
"Jovem turista, A Salvadora dos Cães Indefesos, enfrenta dois lutadores de boxe contra os maus-tratos aos animais abandonados."
— De quando é essa revista? – perguntei, com a sobrancelha arqueada.
— De alguns dias. Circulou tanto que quis ler, de toda forma, mesmo Serena tendo me contado...
— Por sinal, como ela está?
Eu ainda observava Serena na capa; desprendida como sempre, com sua natural altivez e teimosia arqueando sua coluna ereta contra dois homens muito maiores que si. Sorri.
— Ela está bem. Aliás, Serena foi convidada a um evento de cães abandonados e o senhor Burnier se solidarizou também com a causa, de forma que doou uma enorme quantia para o projeto como forma de presente para a afilhada, então Serena estará sendo homenageada como Embaixadora da causa, hoje à noite.
Com os olhos arregalados, eu ouvi as novidades referentes à Serena e não pude deixar de me lembrar da última vez que a vi... Parecia tão distante o dia em que a encontrei perdida, embora essa lembrança se fizesse presente em todos os meus sonhos nos dias que se seguiram. Finalmente algo começava a mudar a sequência de meus dias entediantes.
— Onde será esse evento?
— No Centro. Na galeria, será às sete. – Victorine respondeu e arrumou a própria bolsa. – Mal posso esperar para rir do nervosismo de Serena. Ela fica uma pilha por coisas simples, pobrezinha!
Victorine riu e eu percebi o quanto Serena tinha conquistado a amizade da ruiva.
— Posso apostar como ela fica.
— Por que não vai, Conrad? Ter conhecidos pode acalmá-la, sempre é bom.
Entreguei a revista a Victorine e, subitamente, me senti melhor.
— Sim, claro que irei. Não perderia por nada.
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