Notas iniciais
Toquem os sinos porque o capítulo 2 chegoooooouuuuu! Depois de mais de três meses... Honestamente eu devia tomar mais vergonha na cara, mas como eu não vou tomar nenhuma mesmo já deixo avisado que estarei lançando mais uma história. Provavelmente o link para ela só deve estar disponível no capítulo 4 de Her Wealth and His Misery e no capítulo 16 de Love Doesn't Have Legs (minha outra história). Essas férias já começaram bem para mim, estou me sentindo muito inspirada ultimamente, peço que tenham um pouco de paciência com a minha euforia. AVISO IMPORTANTE: Cenas mais para frente no capítulo terão momentos de violência que podem deixar algumas pessoas desconfortáveis. Por favor, leiam por sua própria conta e risco já que todos estão avisados. Boa leitura!

Meu peito subia e descia em ritmo acelerado. Eu não estava conseguindo estabilizar a minha respiração, sentia que a qualquer hora meu coração iria ceder.

Eu não tinha para onde ir. Não podia voltar para casa e precisava arranjar uma forma de avisar meu pai para sair de lá. Eu não tinha certeza se eles sabiam onde eu morava, mas algo me dizia que sim. Minha bolsa havia caído no chão quando o de cara tatuada havia me pegado, então eu não tinha celular e não tinha dinheiro.

Meu Deus, para onde eu vou agora?

Apesar daquela rua estar mais iluminada do que a outra, não havia ninguém por ali também. Vasculhando tudo com os olhos, encontrei uma luz branca mais forte na virada do quarteirão que chamou a minha atenção e corri até ela. Conforme me aproximava percebi que era uma loja de conveniência e senti alívio tomar conta de mim. Entrei na loja rapidamente e o rapaz que estava no caixa, que parecia não ter mais do que 18 anos, paralisou no mesmo lugar.

Minha imagem devia estar terrível, sem dúvida. Mas eu não tinha tempo para me preocupar com aparências. Eu havia conseguido escapar com sucesso, mas o psicopata de dentes amarelos bem podia já ter saído à minha procura.

— Você tem um telefone que eu possa usar? — Tentei soar o menos assustadora possível, mas minha voz saiu arranhada. Ele apontou para um aparelho fixo atrás do balcão em que estava. — Obrigada, vai levar só um minuto, dois no máximo.

Liguei para o número de casa que só tocava sem resposta.

Meu Deus, onde foi que ele se enfiou?

Eu precisava avisar meu pai para sair de casa, se esconder na casa de algum amigo, alguém.

Droga! Ele não estava atendendo de jeito nenhum. Pensa, Keith. Pensa.

Lembrei de Rosa, nossa vizinha. Nós não éramos muito chegadas, mas ela havia dado o seu número de telefone para mim uma vez quando viu meu pai chegar em estado lastimável em casa. Um dia, ele havia chegado em casa e desmaiado bem na porta, o marido de Rosa me ajudou a levá-lo para dentro. Desde então eu tinha o número dela de cor.

— Rosa?

— Alô? — A voz dela soou desconfiada.

— Rosa, sou eu Keith.

— Meu Deus, Keith, está tudo bem?

Franzi o cenho confusa. Não tinha como Rosa saber o que havia acabado de acontecer comigo.

— Sim, por quê? O que houve?

— Eu vi uns homens vindo aqui mais cedo. Eles bateram em todas as portas perguntando por você.

Senti o sangue gelar em minha veias. Eles sabiam onde eu morava... Meu Deus, meu pai!

— Rosa, sabe se meu pai já chegou em casa?

— Não tenho certeza, mas acredito que não. Esses homens arrombaram a porta da sua casa e vasculharam tudo. Pareciam ainda mais furiosos quando saíram do que quando entraram, não deviam ter encontrado o que queriam.

Senti meu peito expirar aliviado. Pelo menos eles não tinham meu pai. Nunca fiquei tão feliz por ele não estar em casa.

— Rosa, se ele voltar para casa avise para que se esconda em algum lugar, procure um amigo ou mesmo fique em um hotel. Diga que eu dou um jeito de pagar depois. Por favor, só não deixe ele voltar para casa.

— Fique tranquila, menina. Se ele voltar, nós o ajudaremos aqui.

— Rosa, eu não tenho como te agradecer o suficiente. Que Deus lhe pague por todo o bem que nos fez, espero um dia ser capaz de retribuir toda a sua ajuda.

— Não, não, não. Não vamos falar sobre isso. E você, onde está? O que vai fazer?

Essa era uma ótima pergunta. Eu já tinha em mente alguém para quem ligar, mas sentia meu estômago se revirar só de pensar na pessoa.

— Não se preocupe comigo, eu já tenho um lugar para ficar.

— Ok, mas se ainda precisar de qualquer coisa é só me falar.

Senti meus olhos se encherem de lágrimas, de novo. Rosa era uma mulher muito generosa e eu não havia ideia de como pagá-la por tudo o que estava fazendo por mim e pelo meu pai. Porém eu não podia colocá-la em um risco maior do que ela já estava, só de ajudar meu pai já era perigoso. Eu precisava arranjar algum lugar para mim.

Desliguei o telefone e fiquei encarando-o por alguns segundos. Piscando rapidamente para tentar fazer as la´grimas voltarem, respirei fundo. Apesar de aquele ser o último número que jamais passaria pela minha cabeça em ligar mais cedo naquele dia, ironicamente era o único que poderia me ajudar no momento. Eu sabia que precisaria engolir meu orgulho e parte da minha dignidade, mas não tive outra escolha. Eu não tinha amigos além de Rosa e também não tinha parentes próximos.

Disquei rápido como quando se tira um band-aid. O que estava feito, estava feito.

— Alô? — Uma voz sonolenta atendeu do outros lado.

Buscando toda a coragem que me era necessária respirei fundo e disse:

— Sra. Gannix, sou eu Keith do departamento de RH do A&A Banks — Esperei um pouco para que ela pudesse processar o que eu estava dizendo e então falei: — eu preciso da sua ajuda.

Joyce não era o modelo exato que eu tinha de amiga na cabeça, ela mal era uma conhecida e com certeza era uma chefe um tanto dura. Contudo, ela era a minha única salvação.

— Srta. Connor, onde está? — A voz dela mudou completamente se tornando mais séria e sobre controle da situação.

Dei minha localização para ela que por sua vez me informou que morava apenas 20 minutos de táxi dali e me instruiu para chamar um. Eu ia mencionar que não tinha dinheiro para uma corrida, mas ela apenas me cortou e me disse para fazer o que estava mandando. Pela primeira vez fiquei feliz com o tom autoritário de Joyce. Anotei o endereço dela na mão com uma caneta que o jovem rapaz do caixa me emprestou. Ele ainda me forneceu um guia de páginas amarelas para ligar para um táxi.

Eu tinha certeza que fiz o rapaz se sentir mais sem graça pela quantidade infindável de vezes que o agradeci do que pelo meu estado deplorável em si. Ele me dissera que o seu nome era Raphael e fiz uma nota mental para, em um futuro próximo, voltar naquela loja e agradecê-lo apropriadamente.

Quando o táxi finalmente chegou, entrei imediatamente. A verdade era que em todo o momento que o estava esperando meu coração se apertava cada vez mais de medo daquele homem psicótico me encontrar ali. Mandei que o taxista partisse imediatamente e em 17 minutos cheguei no endereço dado por Joyce. Antes mesmo de sair do carro, ela já estava saindo da entrada de uma casa toda branca com um pequeno cercado na frente que servia mais de enfeite do que proteção. Enquanto ela entregava alguma coisa para o motorista que entendi ser o dinheiro da corrida saí do carro e bati a porta. Em menos de cinco segundos o taxista já havia partido.

— Vamos entrar — disse apenas seguindo à minha frente.

Passamos pelo pequeno cercado e um gramado muito bem aparado na frente da casa. Subimos alguns degraus que nos levaram para a porta de entrada. A sala de estar foi o cômodo no qual nos encontramos ao atravessar o batente. O ambiente estava muito bem aquecido e a luz amarela de dois abajures próximos tornavam tudo extremamente aconchegante. Tudo ali era modesto, mas de muito bom gosto. Joyce atravessou a sala até chegar no que descobri ser a cozinha. A iluminação ali era mais clara e era outro cômodo muito bem arrumado. Tudo parecia tão limpo e claro que me deu vontade de ficar ali mesmo.

Ela puxou uma cadeira de uma mesa de quatro cadeiras e disse:

— Senta.

Apenas obedeci enquanto a vi sair para a sala novamente. Olhei meus pés no chão e fiz uma careta. Eles estavam acabados. Havia cortes entre os dedos provavelmente devido a minha escalada na cerca e luta na mesma. As solas estavam arranhadas e sangue seco estava grudado nelas. Meus braços tinham alguns hematomas e meus pulsos também. Quando tentei virar o pescoço para dar uma olhada no meu ombro senti minha cabeça doer como se mil agulhas estivessem sendo pressionadas contra ela, mas qualquer dor que estivesse sentindo parou no momento em que vi todos o meu ombro ensopado de sangue. A minha blusa social branca havia sido tingida de vermelha em toda a região da escápula*.

Joyce entrou na cozinha de novo com uma caixa de medicações nas mãos. Não era exatamente primeiro socorros em parte porque eu acreditava que aquela não era o tipo de situação que ela enfrentava com frequência, mas tinha gaze e alguns esparadrapos. Identifiquei também alguns antibióticos tópicos e me senti aliviada por ela estar minimamente preparada.

— Isso aqui não vai ser o suficiente — respondeu como que querendo cortar meu momento de alívio.

— Como? — Perguntei.

Enquanto abria a caixa e tirava o que era necessário ela disse:

— O seu ombro foi cortado.

Balanceia a cabeça.

— Foi um prego...

— O que é pior. Amanhã cedo você vai ao hospital e conte a eles sobre esse ferimento. Você precisa de uma vacina anti-tétano — apenas assenti. Olhando-me de cima a baixo com algumas gazes na mão ela respirou fundo. — É melhor que tome um banho primeiro. Vai ajudar a limpar um pouco essas feridas e suor.

Ela saiu da cozinha novamente e entendi que era para segui-la. Passamos pela sala até chegarmos a um corredor que tinha três portas. Joyce entrou em uma delas e vi que aquele devia ser o seu próprio quarto. Ela saiu de lá e me trouxe uma toalha. Seguimos para uma porta logo ao lado.

— Quando tiver terminado me encontre na cozinha.

Ela se virou para voltar pelo mesmo caminho.

— Sra. Gannix? — Chamei-a com a voz incerta. Ela apenas virou, mas não falou nada me esperando continuar. — Muito obrigada.

Ela assentiu com a cabeça e então continuou o seu caminho.

Assim como a sala e a cozinha, o banheiro daquela casa também transmitia um ar muito bom. Senti meu corpo começar a relaxar, mas foi quando entrei debaixo da água quente e deixei-a escorrer por todo o meu corpo é que senti meus músculos desenrijecerem. A temperatura era ideal e não fosse por meu ombro arder como fogo, eu não poderia ter aproveitado melhor aquele banho. Foi quando terminei de me enxugar com a toalha é que me dei conta de que não tinha nenhum roupa para vestir além da minha blusa social esfrangalhada e suja de sangue e minhas calças. Ia saindo do banheiro enrolada na toalha quando vi um saco pendurado na porta. Voltei para dentro do banheiro e tirei do saco uma calça de flanela quadriculada azul e branca, uma regata branca e meias grossas. A roupa ficou um pouco justa demais e duvidava muito de que fosse de Joyce.

Saí de novo do banheiro me sentindo renovada pelo banho e fui para a cozinha. Ela me olhou rapidamente quando entrei no cômodo, mas não falou nada. Sentei na cadeira para que pudesse fazer os curativos, mas ela parecia estar ocupada com alguma coisa no fogão. Poucos minutos depois me estendeu dois comprimidos, que logo identifiquei serem analgésicos** e um copo fumegante que tinha um cheiro doce familiar.

Chá de camomila.

— Obrigada — disse.

Ela então concentrou-se no meu ombro. Tentei ao máximo não recuar ou não expressar qualquer som de dor, mas isso estava sugando o resto das minhas energias. Ao menor toque, uma dor lancinante percorria toda a minha escápula até minha clavícula. Quando a tortura finalmente acabou eu já havia bebido todo o meu chá. Apesar da dor ainda me agulhar, sentia o resto do meu corpo e mesmo a minha mente começarem a ceder.

— Venha — ordenou.

Segui-a até em frente a porta do quarto dela onde entrou rapidamente e saiu da lá com uma chave em mãos. A terceira porta daquele corredor foi para onde nos dirigimos. Ela rodou a chave na fechadura e a abriu para que eu entrasse. Dei um passo à frente para a completa escuridão e ouvi um clique atrás de mim que fez a luz acender.

— Srta. Connor — chamou Joyce. Virei-me para encará-la. — Eu não sei o que aconteceu hoje, mas não é algo que me compete saber. A senhorita tem responsabilidades com as quais cumprir amanhã e a primeira delas é a de ir no hospital para conseguir a vacina anti-tetânica. A segunda coisa que precisa fazer é chegar no serviço em ponto. Entendo que não deve ter sido uma noite fácil, mas não tendo nem a vida e nem a saúde em risco, o que é prioridade não deve ser posto de lado — parou por alguns segundos para checar se eu estava entendendo mesmo. — Dessa forma, me parece que a senhorita vai ter que sair mais cedo que eu, por isso informo que a chave da porta da frente fica no porta-chaves na parede ao lado da porta.

Assenti sorrindo cansada, minha cara devia estar péssima.

— Obrigada, Sra. Gannix.

Ela pareceu um pouco desconcertada.

— Mais uma coisa: no armário ao lado da cama deve ter alguma muda de roupa que seja apropriada para o seu trabalho amanhã. Sendo assim, boa noite.

Ela saiu me deixando no quarto sozinha.

Senti-me um pouco desconfortável com tanto rosa me rodeando. Desde o teto até as paredes, cama, cortinas, praticamente tudo era rosa e o que não era dessa cor era branco. Parecia ser o quarto de uma adolesente de 15 anos, mas não vi nada que sugerisse a presença da dona além da própria decoração. Os móveis estavam ligeiramente empoeirados e tudo parecia estar no mesmo estado já há algum tempo. Abri o armário e para minha surpresa encontrei algumas roupas sociais. O tamanho era o mesmo das roupas de dormir que estava usando, deviam pertencer a mesma mulher. Peguei uma calça que parecia ser a que mais iria caber em mim e uma blusa branca com botões discretos na frente de manga comprida para esconder os roxos do meu braço e punhos. Escolhi um par de sapatos com o menor salto possível para não ficar com os pés ainda mais doloridos durante o dia.

Apaguei a luz do teto e acendi o abajur ao lado da cama. Quando sentei no colchão e os meus pés não mais sustentavam o peso do meu corpo foi quando finalmente senti alívio. Apesar de ter sentado na cozinha para que Joyce fizesse curativo para mim, estava tão tensa de dor que não pude relaxar muito. Deitei no colchão macio e puxei a coberta para me cobrir. Encarei o teto rosa como se ele pudesse me dar respostas para toda a loucura que havia acontecido nas últimas horas. Desde o momento em que aquele maníaco me puxou para o beco até a hora em que recebi ajuda da pessoa mais inesperada possível, meu dia havia se tornado insano.

Uma pergunta passou pela minha cabeça sem que eu pudesse responder: o meu pai está bem? Onde ele está? Queria que estivesse com Rosa, mas qualquer lugar servia desde que fosse longe daqueles homens... O que me levou a pensar nos dois brutamontes. Tinham morrido ou não? Depois dos tiros, não ouvi mais nada, mas também não tinha como ter certeza de que o homem de dentes amarelados havia acertado eles. Tudo estava um breu impossível de enxergar.

Essas eram apenas algumas das milhões de perguntas que vagavam na minha mente. Subitamente, senti meus olhos pesarem e não consegui mais mantê-los abertos.

Respirando fundo, encarei meu reflexo na parede espelhada do prédio da agência. Meus cabelos loiros que chegavam até a metade das costas estavam presos em um firme rabo-de-cavalo. Meus olhos verde-acastanhados estavam opacos devido o pouco sono. Eu havia ido ao hospital cedo naquela manhã para tomar a vacina. Estava tão letárgica que nem senti a picada em meu braço. De lá fui direto para a agência para não me atrasar. Sentia meu estômago revirar de fome, mas precisava aguentar até a hora do almoço. Eu não havia nem jantado, mas não era como se tivesse tido alguma escolha.

Entrei no prédio e fui para o escritório do RH. Algumas pessoas que estavam para se aposentar iam ser mandadas para casa hoje mesmo, todas de uma vez só. Consequência: mais trabalho para mim que trabalhava justamente no departamento de movimento de pessoal. Apesar de não saber ao certo, eu desconfiava que o provável motivo de ter sido contratada pela A&A Banks era devido ao grupo que estava para se aposentar. Dificilmente alguém pedia demissão ou era demitido do banco, a maioria que entrava não saia até se aposentar por um motivo muito simples: o salário e os benefícios eram simplesmente excelentes, principalmente de quem havia um bom cargo, mas até mesmo uma estagiária como eu estava ganhando mais do que se estivesse em dois trabalhos de meio período pagando treze dólares a hora. Se eu fosse contratada e eventualmente conseguisse subir de cargo, eu e meu pai poderíamos ter uma renda estável para o resto da vida. Eu finalmente poderia fazer o curso de administração.

Durante toda a manhã Joyce se mostrou a mesma. Ela não dava nem mesmo um sinal de que algo diferente havia acontecido com ela na noite anterior, como por exemplo uma intrusa fugida de não sei aonde aparecer de repente na sua porta.

Aquilo que era verdadeiro profissionalismo.

Eu ao contrário, dava todos os sinais de que a minha noite tinha sido a pior possível.

Suspirei massageando as têmporas mais tarde naquela manhã. Precisava organizar alguns documentos na minha mesa antes de sair para almoçar. Quando finalmente havia terminado, fui para um restaurante que tinha em frente à agência e que ficava lotado naquela hora com os funcionários do banco. Eu pensava que o estabelecimento iria à falência se um dia aquela agência fechasse.

O ambiente era limpo e satisfatório, não era muito luxuoso, pois ninguém que ia comer ali podia pagar muito todo dia. As paredes eram pintadas de branco gelo, as mesas e cadeiras eram todas de aço e algumas luminárias pendiam do teto. Os garçons eram muito educados, mas pareciam sempre carregar uma carranca. Era um pouco deprimente, mas não era como se eu estivesse em um dos meus melhores dias também.

Sentei perto de um grupo de três funcionárias que eram do andar de cima da agência, eram todas atendentes de caixa. Estavam bem arrumadas e vestiam blazer com saias sociais, uma maquiagem um tanto exagerada na minha opinião — mas quem era eu para dar opinião de maquiagem quando eu não usava nada? —, além de saltos bem altos.

Já tinha ordenado meu pedido e enquanto esperava trazerem, apoiei os cotovelos sobre a mesa e entrelacei os dedos. Estava distraída com o trânsito do lado de fora e alguns transeuntes quando ouvi algo que me chamou a atenção. Como estava de costas para as vozes, não sabia o rosto de quem falava.

— ... o CEO***? Como assim vocês não sabiam? — Ouvi uma das mulheres do grupo do qual tinha sentado perto falar.

— Ele está no país? — Disse outra, a voz um pouco esganiçada. — Quando chegou?

— Já faz duas semanas que está aqui e sinceramente isso é um recorde — respondeu a primeira.

— Ele vai ficar de vez ou já tem planos para ir para o exterior de novo? — Perguntou a terceira.

Uma delas estalou a língua em excitação.

— Essa é a melhor parte, ele não vai sair do país tão cedo.

— O quê? Como você sabe disso?

— Meu namorado é da agência principal e me disse que esses são os boatos que rolam lá dentro. Ele me contou também que viu o chefão com os próprios olhos chegando para o escritório com o assistente pessoal em uma BMW preta edição limitada. Ele usava nada mais nada menos do que um Armani naquele corpo maravilhoso dele.

As três suspiraram.

Franzi o cenho. Não tinha certeza, mas parecia que estavam falando do presidente da A&A Banks. Vez ou outra lia um artigo no jornal que informava as novas transações e altas das ações que só eram possíveis graças às estratégias financeiras que ele fazia. Era considerado um gênio no meio administrativo, pois conseguira ser bem sucedido nos negócios que herdara do pai mesmo quando era tão novo. Em suas mãos a empresa só prosperava.

Meus pensamentos foram cortados pela terceira do grupo que falou:

— Ele sempre viaja para o exterior para resolver negócios, e quando volta para o país, fica apenas alguns dias. Porém, de três em três anos, ele sempre volta para cá por tempo indeterminado — ela se calou por um segundo e então falou mais baixo e tive que fazer um esforço maior para entender: — toda vez que isso acontece, ocorre um assalto na agência sede.

Fiz uma careta que provavelmente era muito assustadora, pois o garçom que trouxera meu almoço parecia estar com medo. Tentei agradecer com um sorriso, mas acredito que a primeira impressão ficou marcada nele.

Eu não conseguia acreditar que aquelas três eram tão fúteis a ponto de acreditar em fofocas estúpidas. Era verdade que houvera três tentativas de assalto na agência principal, mas não era como se isso estivesse relacionado com o fato do CEO estar no país por um período de tempo mais longo. Era tudo besteira supersticiosa, além do mais se eu fosse roubar um banco não pensaria em fazer isso enquanto o dono estava lá. Seria muito mais inteligente fazer isso enquanto ele estivesse fora. Resolvi me esforçar para não prestar mais atenção em nenhuma das inutilidades das quais elas falavam e concentrei-me em meu almoço.

Faltando três horas para o término do expediente, eu já estava ansiosa sem saber o que iria fazer, sem saber para onde ir. Eu poderia tentar algum hotel barato, mas mesmo o mais barato de todos ainda me seria muito dispendioso. E por quanto tempo também? Uma noite daria para pagar, mas se tivesse que ficar uma semana ou meses?

Joyce entrou no escritório interrompendo meus pensamentos. Ela estava com uma pasta na mão vindo em minha direção.

Ah, não! Pressenti que algo bom não podia vir daquela pasta.

— Srta. Connor, que bom que ainda está aqui — disse. Ela parou em frente à minha mesa e eu podia botar a minha mão no fogo porque vi nos olhos dela um brilho diferente. Então ela acrescentou: — Preciso que entregue esses arquivos para Gary, ele precisa disso com urgência.

Não pude evitar um som de espanto escapar de meus lábios. Gary era o gerente do setor de RH da agência sede. Não era tão longe, ficava a umas três quadras de onde estávamos, mas esse não era o problema. Nós estávamos vivendo em uma era digital. Digital!

Quem em sã consciência fazia entrega de documentos via mensageiros?

— Não há a possibilidade de enviar por email, Sra. Gannix?

Ela parecia impaciente com alguma coisa e pôs a pasta em minha mesa antes de se virar para sair. Peguei-a sem poder reclamar. Ela havia me ajudado muito mais do que a família da minha mãe jamais me ajudou... Muito mais do que a minha própria mãe, jamais me ajudou.

Aquilo não era nada se comparado com a dívida que eu tinha para pagar a ela. Olhei para o arquivo tentando segurar um suspiro, mas levantei apressadamente. Andei quase correndo costurando meu caminho através da calçada apinhada de pessoas. Morar em capital tinha suas vantagens e desvantagens. Cheguei na outra agência um pouco sem fôlego. Parei alguns minutos para respirar, quando minha respiração se normalizou o suficiente, entrei.

Por dentro era ainda mais lindo do que por fora, parecia um castelo com toques modernos. Um enorme candelabro pendia no centro. No meio do salão havia cadeiras para os clientes sentarem e esperarem a sua vez enquanto que rodeando as paredes, várias cabines para caixas de atendimento estavam dispostos um ao lado do outro. Passei por um segurança que postava-se próximo à uma coluna tentando ignorar o olhar que recebera dele.

Era sempre assim.

Desde nova os homens sempre me olhavam diferente, via luxúria e desejo sujo através de seus olhos, o que me fazia querer vomitar de tanto asco. As lembranças da noite anterior só contribuíram ainda mais para o sentimento de náusea que me tomou. Eu nunca tentei me arrumar colocando maquiagem ou usando um vestido bonito. Eu não me vestia de qualquer jeito, só não tentava parecer bonita porque não me importava com essas coisas, pois me trariam mais dor de cabeça do que já tinha. No ensino médio, as garotas da minha sala que considerava como amigas sempre se viravam contra mim quando descobriam que os garotos que gostavam estavam atrás de mim. Eu era empurrada das escadas, tinha os cabelos puxados e uma vez até me atropelaram com uma bicicleta. Eu não dizia nada quando me machucavam e isso só as irritava e instigava a me perturbar mais.

A forma como me olhara o segurança pelo qual passara não era diferente. Seus olhos sujos eram quase palpáveis.

Felizmente o setor de RH não estava muito longe e Gary já estava lá dentro quando bati na porta e entrei. Sorri quando o vi. Ele levantou os olhos do computador à sua frente e me deu um sorriso caloroso de volta ao me reconhecer. Diferentemente de qualquer outro homem, ele me olhava de forma doce, como se estivesse vendo uma filha. Foi com ele que fiz minha entrevista para estágio. Ele foi compreensivo com todo o meu nervosismo me oferecendo até mesmo uma xícara de café. Sentia um pouco de saudades dele, pois não o vira desde a entrevista.

— Ora, ora, quem está aqui? Srta. Connor, em que devo a honra da sua presença? — Disse amigavelmente.

Sorri com seu cumprimento, mas fiquei confusa com a sua pergunta.

— Não sabe por que vim, Gary? A Sra. Gannix havia me dito que você tinha pedido por esses documentos — entreguei para ele a pasta.

Ele abriu e folheou os papeis com o cenho franzido. Não parecia ser algo que ele havia requisitado se nem mesmo ele sabia o que era.

— Eu nun...

Gary foi interrompido por um barulho estridente e curto. Não durara nem mesmo um segundo. Aos poucos meus olhos se arregalaram com o entendimento.

— Gary, isso foi um...

Ele pôs os dedos nos lábios para que me calasse e pudesse ouvir melhor. Após mais alguns segundos o mesmo barulho se repetiu.

— Fique aqui — ordenou.

Ele saiu porta a fora, não sem antes fechá-la com cuidado para não fazer barulho. Eu tinha certeza do que eu ouvira, não podia estar enganada. Minha curiosidade me impediu de ser prudente e esgueirando-me na ponta dos pés fui até a porta e saí silenciosamente assim como Gary. Beirando as paredes do corredor, caminhei lentamente até a grande abertura que era o salão principal. A coluna onde o segurança antes estava entrou em meu campo de visão primeiro e verifiquei que ele não estava mais ali.

Estranho.

Seguranças nunca podiam sair dos seus postos sem que outros os substituíssem. Andei mais um pouco e então paralisei no mesmo lugar. Gary estava de joelhos no meio do salão com as mãos para cima em rendimento. Atrás dele, vários clientes que vira quando passara por ali, estavam encolhidos tremendo, uns próximos dos outros. Um homem vestido com roupas pretas e máscara da mesma cor apontava a arma para a cabeça dele.

— Se todos ficarem calmos e colaborarem ninguém vai se machucar.

*Escápula: um dos ossos do ombro.

**Analgésicos: remédios para dor.

***CEO: Chief Executive Officer, é o cargo mais alto em uma empresa, ou seja, a presidência.

Notas finais
Woah! Chegamos na parte em que os leitores antigos pararam, mas não se preocupem. Estou editando o capítulo 3 nesse momento e ele será postado ainda hoje, provavelmente daqui a uma ou duas horas, então para quem acabou de ler, não se preocupe! Até!