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1 Capítulo Único


Notas iniciais
Não tenho o que dizer, então: boa leitura.

Ichigo sempre soube que havia mais sobre Kuchiki Rukia do que desenhos mal feitos e obsessão por coelhos.

Ela se movia com a graça e finalidade de alguém que não precisava impor a sua presença em um local para ser notada. Portava a confiança de uma mulher que já vivenciara mais do que a sua jovem aparência conseguia denunciar. E, ainda assim, seu diminuto corpo estava sempre envolvido por uma aura de distanciamento da realidade que em nada tinha relação com o seu status de Shinigami.

Rukia não era nenhuma tola, e embora Ichigo não duvidasse disso nem por um segundo, – não de verdade, embora ele às vezes demonstrasse o contrário só para tirá-la do sério – ele não conseguia entender como ela se mantinha indiferente aos efeitos que causava ao seu redor.

Não é como se ela não se importasse com essas coisas, porque Rukia vivia lhe provocando de uma forma ou outra, deliberadamente lhe lembrando de que ela era uma mulher, afinal. Mas ela não conseguia enxergar o básico da coisa; que Ichigo não permanecia indiferente.

Rukia parecia não pertencer ao tempo-espaço em que se encontrava.

Parecia não se encaixar.

E embora ele sempre desconfiara da verdadeira natureza da garota – mulher, ele se corrigia toda vez – Ichigo nunca dedicara muito pensamento sobre até ver um deslumbre que lhe acendera a chama da curiosidade.

Lá estava ela, olhando fixamente e de modo deslumbrado para um ponto fixo da paisagem que Ichigo não poderia se importar menos. Ele sabia que ela estava perfeitamente ciente da beleza do lugar. Ele também sabia que ela não fazia ideia do quanto a sua imagem – o corpo, o vestido, o cabelo— e a sua voz excitada faziam todo o cenário desaparecer porque só havia ela.

Ela e seus olhos incrivelmente tristes e maravilhosos.

Kuchiki Rukia era uma mulher de detalhes. Você podia decifrá-la pela postura – especialmente pela rigidez, ou falta dela, de seus ombros – e pelo seu tom de voz, sempre firme, mas nem sempre decidido. Se você fosse habilidoso, poderia tentar extrair alguma informação a respeito da curva de seus lábios – muitas vezes maliciosa –, da tensão nas finas linhas ou na sinceridade dos dentes expostos.

Mas olhar no fundo de seus olhos roxos era o maior tiro no pé que alguém poderia se dar.

Ela era excepcional na arte de controlar linguagem corporal e deixar escapar apenas o que queria – e Ichigo tinha a certeza que até em seus momentos de exaltação eram previamente calculados em sua mente afiada, mesmo que por apenas segundos – e para quem queria. Mas Rukia era péssima em esconder seus sentimentos justo da parte mais destacável e apelativa de sua aparência.

Seus olhos.

Seus olhos incrivelmente tr—

Ichigo tinha a certeza que já pensara isso antes.

Não era como se eles só soubessem demonstrar tristeza ou pesar. Ela ria com os olhos também, e essa era uma das experiências mais gratificantes que alguém próximo dela poderia vivenciar porque seus olhos eram incrivelmente tristes.

Ele teria abdicado de metade de seus poderes se fosse para saber o que se passava na mente de Rukia quando ela fechava os olhos antes, durante ou depois de uma fala particularmente sentimental porque sabia que transmitiria mais do que estava pronta a mostrar.

Ichigo queria entender o que a prendia a outro lugar que não fosse o seu agora.

Porque Kurosaki Ichigo sabia que existia uma parte da vida de Rukia que ele não conhecia, que ele nunca poderia tocar. Que nunca viria a completar o quebra-cabeça que ele considerava vital para a sua própria sobrevivência.

Porque sem ele, ela continuaria lhe encarando com aquele misto de tristeza e angústia velada e Ichigo permaneceria no escuro sobre por que por que por que você me olha desse jeito? O problema era ele?

Ele era uma pessoa tão desprezível assim? Tão incrivelmente vazio que ele a fazia se sentir incomodada? Justo ela, a quem Ichigo devia tanto. Justo Rukia, sua...

Sua.

Era o suficiente.

Precisava ser.

Porque Rukia sempre lhe retribuía o olhar como se fosse incapaz de se perceber um dia retribuindo um sentimento que ela provavelmente nem sabia que existia de sua parte. Mas Ichigo já sabia que Rukia não era nenhuma tola.

E talvez por isso ela lhe olhasse daquela forma, como se conseguisse vê-lo, ver através dele e até mesmo dentro dele. E ao mesmo tempo, como se não o visse de forma alguma. Ichigo às vezes tinha a impressão de que era ele o desligado da realidade, incapaz de perceber algo tão básico;

Havia uma parte de Rukia, uma significativa, que não era tão sua assim.

Ele nem ao menos chegara a conhecê-la, oficialmente. Pensando bem, Ichigo era um sujo. Mesquinho. Ele apenas conhecia aquele lado especial de Rukia porque ele a observava o suficiente para notar.

Era quase como se invadisse sua privacidade em busca de algo.

Ichigo tinha certeza de que ela só portava aquele olhar melancólico porque achava que ninguém notaria. Porque, novamente, Rukia tinha a impressão de não afetar em nada as pessoas e as coisas ao seu redor.

Ela se achava uma presença sem dimensão.

E talvez ela fosse, bem no fundo. Uma alma vagando sem rumo e fora do seu devido lugar.

Kuchiki Rukia era bonita demais para pertencer a lugar algum. E não só bonita de aparência, – e se Ichigo fosse ser sincero, ela era a mulher mais bonita do mundo vivo e não vivo – ou o clichê de sempre da personalidade. Não. Até mesmo a sua tristeza era marcante de uma forma quase poética.

E Ichigo não era de romantizar a desolação.

Sode no Shirayuki talvez fosse a representação máxima da beleza de Rukia. Ela era uma espada de gelo, a mais formosa delas. Elegante. Branca como a neve; fria. E ainda assim, bela, de um jeito cativante e hipnótico.

De um jeito totalmente Rukia.

Ichigo também tinha a impressão de que Sode no Shirayuki refletisse justamente a parte da alma de Rukia que ele não conseguia alcançar. Que ele não conseguia tocar, mas que queria tanto tanto tanto.

Doía.

Era irônico, até, que Rukia fosse o seu símbolo de força quando ela demonstrava tanto arrependimento e um trilhão de escolhas erradas quando tinha a impressão de que ninguém estava observando.

Mas Rukia, de fato, era forte. E não só por esconder tanta coisa e ao mesmo tempo nada — Ichigo se sentia um tolo ao cogitar a possibilidade de estar apenas imaginando coisas (coisas que ele precisava ver desesperadamente porque—) – e se manter perfeita e firme e forte e decidida e segura por ele quando ela claramente ainda não superara alguma coisa trágica e decisiva.

Rukia realmente não conseguia imaginar a repercussão de seus atos.

Porque se ela o fizesse, então saberia que Ichigo precisava de toda essa postura agressiva nos seus piores dias e piores momentos, mas que ele queria, em seus melhores humores, que ela apenas parasse, se sentasse e contasse a sua história.

Era bonito ver Rukia lutando, tanto com a sua linda espada quanto com palavras. Mas era mais bonito ainda vê-la admirando a neve caindo e fazendo contato com a sua pele, – e Kurosaki Ichigo respirava a poesia do momento, como se ele presenciasse o encontro entre duas almas gêmeas separadas pelo destino – o modo como ela inalava profundamente pela primeira em semanas como se somente aquilo a fizesse esquecer de tudo (menos de sua tristeza) e o jeito como ela o olhava em seguida, quase o convidando a se juntar ao seu momento tão íntimo.

Quase.

Porque ele nunca precisava de um convite.

E talvez esses momentos representassem Rukia ainda mais do que sua própria Zanpakutou. Os momentos em que, se ele fizesse esforço, podia imaginar ela sussurrando ao vento os contos de uma vida passada.

Foi somente quando ele a flagrou em um momento exatamente igual, apenas em um lugar diferente e com pessoas diferentes que Ichigo entendeu o que estava fazendo de tão errado assim para nunca nunca nunca conseguir decifrar Kuchiki Rukia por completo.

Lá estava ela, Renji ao seu lado. Sempre ao seu lado.

Ela olhou para o ruivo muito mais alto do que ela – comicamente mais alto, diga-se de passagem – e apenas esperou. Esperou algo que Ichigo soube imediatamente que nunca nunca nunca tinha recebido quando era ele a retribuir o contato visual.

Rukia ganhou compreensão.

Embora a sua tão conhecida – e desejada, admirada, cobiçada – e bela tristeza ainda estivessem presentes nos orbes arroxeados – que ele tanto desejava, admirava, cobiçava, amav— –, Ichigo percebeu que ela estava em casa; que havia encontrado o seu par.

Porque se Ichigo tivesse dedicado certo pensamento ao fato, teria visto em Abarai Renji um espelho daquele mesmo sentimento que fizera residência em Rukia – pelo que ele julgava há anos e anos.

E subitamente, Rukia não parecia tão triste assim.

Não a Rukia parada a sua frente, a de carne e osso ou o mais próximo disso que almas chegam. A mulher de vários anos, várias vidas, várias dores, mas também vários amores, alegrias e conquistas. A shinigami que lhe dissera seu nome pela primeira vez com olhos brilhantes.

Ichigo sempre soube que havia mais sobre Kuchiki Rukia – uma parte de sua alma que ele não conseguia alcançar.

Ele só não sabia que era inalcançável para ele.

Notas finais
Podem me processar pelo final, eu deixo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!