Herói Anônimo
16 Retorno
Capítulo 16
*Narrativa*
O chalé de Atena já estava vazio, Ernest havia perdido o café da manhã, mas não se importava muito, afinal era o preço da insônia. Seus sonhos eram confusos, mas ele viu a marca de Dédalo, um jovem loiro lendo um livro em uma sala de televisores que mostravam diversos lugares de Nova York. Algumas memórias passaram a tornarem-se mais vivas, o rapaz falando a palavra “história” e “Dédalo” pareciam importantes, mas no meio do turbilhão de lembranças que se misturavam, tudo ficava confuso.
(...)
Era por volta do meio-dia e, quase religiosamente, o mestiço estava sentado em baixo da sombra de uma árvore, olhando para as nuvens que passavam pelo céu.
— Ei, qual é a boa? – Uma sombra interrompeu os devaneios do semideus, logo a figura de um metro e meio sentou-se ao lado do rapaz.
— Ei... – O garoto sorriu e ficou um pouco sem jeito ao ver Peggy de novo, mas tentou disfarçar – Estava pensando em algumas coisas que preciso fazer.
— Que tipo de coisas?
— Coisas fora do acampamento... – O rapaz voltou a olhar para o céu – Ainda não concluí tudo.
— Você sabe que não vai conseguir sair tão fácil né? –A garota virou-se para ele – Fora que precisamos de todos aqui pra defender o acampamento, não sabemos como o pessoal está se saindo na missão.
— Eu sei.
— E você talvez seja nosso melhor estrategista, já que Annabeth está fora.
— Eu entendi Peggy – O rapaz olhou diretamente para a menina – Mas eu preciso fazer isso.
A filha de Apolo abraçou os próprios joelhos e olhou em direção à casa grande, como se estivesse pesando, dando um breve suspiro.
— Eu vou com você então.
— Oi?
— Oi, tudo bem?
— Para de brincadeira menina, não vou deixar você ir junto, é problema meu!
— Não estou pedindo sua permissão!
— Mas...
— Nada de “mas”, idiota! Eu vou e ponto.
O rapaz cruzou os braços e bufou.
— Certo... Desde quando você consegue ser tão irritante?
— Desde sempre, mas só quando eu preciso... Ou quando eu quero – A menina sorriu.
O filho de Atena levantou-se e estendeu a mão para a garota, ajudando-a a ficar em pé.
— Certo espertinha, pedimos para sair ou saímos escondidos?
— Melhor pedirmos, eu tenho uns parentes em Manhattan, posso dizer que preciso ir até lá e que você vai pra não me deixar sozinha fora do acampamento.
— Bom plano – O rapaz sorriu de canto – Vamos amanhã de manhã, preciso dormir mais hoje, to morrendo de sono.
— Eu também, mas a culpa é sua.
— Ei!
A garota deu um soquinho no braço do rapaz e saiu, dando uma risadinha.
*Comentários do registro*
— Eu devia ter conhecido a Peggy antes, hoje me sinto um idiota ao pensar que fui até Manhattan a pé DUAS FUCKING VEZES, sério, como meio filho de Atena eu devia ser mais esperto.
*Narrativa*
— Acha que foi uma boa ideia ter falado pro Argos não esperar a gente? – A filha de Apolo olhava ao redor enquanto caminhavam pela cidade.
— Não sei quanto tempo vamos demorar aqui, achei mais sensato deixar ele livre pra voltar.
O rapaz guiou a garota por uma série de quarteirões, finalmente chegando no local onde havia se encontrado com Archie.
— Deve ser por aqui, venha – Continuou até entrar em um beco e tocou a parede, fazendo a marca de Dédalo brilhar na parede – Isso!
— Um minutinho Ernest – A garota segurou o pulso esquerdo do rapaz, que estava se adiantando para dentro da passagem – O que é isso?
— Eu já disse que não posso te contar, pelo menos não diretamente, mas confie em mim, eu não te traria pra um lugar perigoso.
A garota revirou os olhos e seguiu o rapaz passagem adentro e, em seguida, para dentro de uma sala cheia de computadores mostrando São Francisco.
— Hmm, da última vez era Nova York...
— Ernie, você sabe que estamos dentro do labirinto, não sabe?
— Hoje eu sei, na primeira vez eu não sabia... Mas estou concluindo algumas coisas em relação ao labirinto agora.
— Tipo o que?
— Por exemplo...
— Ah! Finalmente você chegou! – O filho de Hebe apareceu porta adentro, interrompendo a fala do filho de Atena – Estou pronto para ouvir sua história!
— Archie – O semideus sorriu e estendeu a mão – Bom revê-lo.
— Igualmente – O loiro retribuiu ao cumprimento.
— Essa é Peggy, está me acompanhando hoje.
— E aí – Archie sorriu e cumprimentou a garota, apertando sua mão também.
Logo os três se sentaram em bancos ao longo das bancadas com computadores e televisores, o filho de Hebe pegou uma prancheta e começou a anotar algumas coisas conforme Ernest contava a história de sua ida ao mundo dos mortos, concluindo-a somente no ponto quando Hades abriu o portal para que ele saísse.
— Muito bem, sua dívida está paga! – Archie parecia animado, tanto que levantou-se e começou a caminhar pela sala.
— Pode responder três perguntas? – Peggy interrompeu a caminhada do jovem.
— Sim. Essa foi a primeira resposta.
— Eu contava com isso – A garota cruzou os braços e continuou – Para que queria essa história? Não pode ser por puro entretenimento.
— Motivos pessoais, estou trabalhando em um projeto e precisava de algumas informações que seu namorado me trouxe.
— Ele não é meu namorado – Peggy parecia um pimentão, mas continuou – E por que as telas estão mostrando São Francisco? Ernest me disse que antes eram imagens de Nova York.
— Eu não sei, eu não mexo em nada nessa sala, apenas me aproveito do ambiente e consigo informações quando venho aqui. Isso é coisa de Dédalo.
O mestiço suspirou e interrompeu a conversa.
— Vamos Peggy, precisamos voltar.
A garota deu de ombros e seguiu o rapaz para fora do labirinto, quando ambos saíram a primeira ação da menina foi puxar o filho de Atena e lhe dar um tapa na cara.
— Ei! O que foi isso? – O jovem cobria a área atingida com a mão direita, olhando assustado para a filha de Apolo.
— Você é idiota? – O volume da voz da morena subia gradativamente – O que passou na sua cabeça pra fazer aquela merda toda?
— Peggy...
— Você vem, fala com um desconhecido, invade o mundo inferior e quase morre lutando com um deus – Ela despejava as palavras sobre o semideus – UM DEUS, ERNEST! VOCÊ DEVERIA TER MAIS BOM SENSO, TENDO A MÃE QUE TEM!
— Ei, se acalme...
— Eu não vou me acalmar – A garota tinha lágrimas nos olhos, pontuava cada palavra com um soco no peito do rapaz, mas os golpes já não doíam, a força parecia estar abandonando-a – Você passou por tudo aquilo e teve sorte de eu te achar!
Em um impulso, Ernest tomou a menina em um abraço apertado, sentia as lágrimas da garota molharem a camiseta na altura de seu peito em meio aos soluços do choro que a filha de Apolo tentava segurar.
— Peggy, eu precisava fazer aquilo, me desculpe... Não vou pedir pra que entenda, mas o importante é que eu estou aqui, estou bem graças a você.
— Eu... – A garota soluçava – Eu não...
— E além do mais, foi graças a isso tudo que nos conhecemos, lembra?
A garota ficou em silencio, os dois permaneceram abraçados por longos minutos, até que finalmente se soltaram quando Peggy se acalmou. A jovem enxugava os olhos inchados, enquanto o rapaz a observava.
— Desculpe por tudo isso – A filha de Apolo mantinha a cabeça baixa, olhando para os pés do rapaz – E por ter te batido.
O garoto suspirou, passando o braço pelos ombros da garota.
— Relaxa, vamos voltar pro acampamento, precisamos pensar nos próximos passos.
— Próximos passos?
— Sim, acho que podemos ajudar o pessoal com a questão do labirinto.
*Comentários do registro*
— Bom, acho que devemos relembrar algumas coisas sobre o labirinto:
Ele cresce e se desenvolve sozinho;
Grupos grandes se perdem mais facilmente, o próprio labirinto de remodela para confundir as pessoas;
As entradas, apesar de tudo, são fixas. Resumindo: Se você entrar pela mesma entrada, sempre estará diante da mesma parte, pelo menos nos primeiros metros, porém, se você se afastar o suficiente, o labirinto se remodela e você perde a saída;
O tempo passa de forma diferente dentro do labirinto;
Nós não sabíamos na época, mas o labirinto está ligado à força vital de Dédalo.
*Narrativa*
A dupla voltou para o acampamento via táxi, não era muito usual, mas o motorista deixou os dois diante da plantação de morangos sem fazer perguntas.
— E já estamos de volta – O rapaz comentou.
— Já anoiteceu, o tempo passa rápido no labirinto...
— Sim... Isso é mau.
— Por que?
— Quer dizer que o tempo para Annie achar a oficina é menor do que o tempo que Cronos tem para arrumar seu exército.
— Mas Cronos tem que se mover pelo labirinto para conseguir o fio, o tempo não se equivaleria?
— Talvez, mas ele já está explorando o labirinto há mais tempo, vai saber o que ele já conseguiu...
A garota ficou em silêncio, pensando nas últimas e preocupantes palavras até se dar conta de que estavam quase chegando na casa grande, onde ocorria uma movimentação diferente do comum.
— Minha querida, acalme-se e conte o que aconteceu... – Quíron falava docilmente com alguém, em circunstâncias normais Ernest não se intrometeria, mas como havia uma missão ocorrendo, logo subiu na varanda e encontrou uma soluçante Annabeth segurando uma xícara de chocolate quente, enquanto o centauro estava sentado em sua cadeira de rodas ao seu lado.
— Annie? – O rapaz falou em voz alta, surpreso.
A filha de Atena olhou para o irmão, mas parecia não o reconhecer, os olhos da garota estavam inchados, parecia que estava chorando havia um bom tempo. O mestiço se agachou em frente à garota de forma a ficarem com os rostos na mesma altura e, com muita suavidade perguntou:
— Quer ir para o chalé? Você descansa e amanhã nos conta o que aconteceu, que tal?
— Não sei se isso seria uma boa ideia Ernest – Quíron olhou para o rapaz – Infelizmente a missão ainda está ocorrendo – E virou-se para a filha de Atena – Minha querida, você sabe que que não te pediria nada que não conseguisse fazer, mas se tiver algo pra nos dizer, melhor dizer agora, para o bem da missão.
— Eu... – A garota correu os olhos por todos na varanda: Quíron, Ernest, Peggy, os irmãos Stoll, Lee Fletcher, Clarisse e Silena – Preciso descansar, prometo que amanhã tratarei de tudo com detalhes, mas detivemos um avanço de Cronos, acho...
Todos se entreolharam, até que finalmente Clarisse se manifestou:
— Vamos deixa-la descansar, vocês não sabem como é estar naquele lugar horrível.
— Concordo, uma boa noite de sono é vital para a beleza, para a mente e para a alma – Silena acrescentou – Posso fazer um chá para você se quiser.
— Obrigada pessoal, mas só preciso descansar um pouco – Annabeth se levantou e deixou a casa grande, rumando aos chalés que, naquele horário, ainda estavam vazios, já que todos estavam na fogueira.
— Bom, espero que estejam certos quanto a isso – Quíron parecia um pouco contrariado, mas também queria o melhor para a garota, por isso não insistiu.
Ninguém correu atrás da loira, deixando que ela fosse sozinha para o chalé, como talvez ela quisesse.
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