Hennessy & Sailor Moon
2 Badlands
O som da chave trancando meu cotidiano me acorda do transe da arrumação. Checo mais uma vez minha máscara, que esconde minhas preocupações e experiências. Vou embora sem dar satisfações, mas sem ter a quem dá-las.
Desço pelo elevador vazio. O porteiro nem se importa mais com minhas frequentes saídas, e não acho que alguma vez ele as considerou. Continuo a caminhada, não me importando em olhar atrás.
Eu via luzes neon nos prédios, via expressões compungidas, um ambiente lúgubre, estrépitos dos cantos longínquos, bravatas nas esquinas dos bares, pessoas sequiosas pela perda de si mesmas. E eu me identificava, mesmo que tudo o que eu quisesse fosse voltar para uma memória desconhecida.
Uma vez começado, não há fim. Eu apreciava minha vida fenecer com alegria, pois em nenhum momento eu percebia os erros, apenas aproveitava o fato de não me apoquentar.
Juro que antes sentia algo. Uma adrenalina percorria meu corpo e me fazia sentir. Sentir o quê? Eu não sei. Nesses dias não era nada mais que um hábito. A noite era uma dimensão paralela, como se a vida real não pudesse me atacar daqui.
A Lua me encarava. Ela me julgava lá de cima. Como você pode julgar alguém, Lua, se não produz nem a própria luz? Ela me encarava de volta, e respondia que eu não devia caçoá-la, pois nem era capaz de fazer uso da luz que me cediam. Uma nuvem solitária aparece em minha defesa e cobre a luz refletida da insolente Lua.
Sou tal que um corvo, atraída pelo brilho dos outdoors iluminados dos bares daquela parte esquecida da cidade. Meu patíbulo já estava armado, e, mesmo que ainda não soubesse, estava pronta para encontrar meu executor.
Procurando ebriedade pela fração não incólume da terrível capital, continuo a andar na noite iluminada da cidade grande, e paro quando encontro a porta para um sonho, ou um pesadelo, ou um coma da vida real.
Não era exatamente uma coincidência. Os planos diários não exatamente planejados incluíam ir ao bar de sempre, beber a bebida de sempre e chorar no banheiro de sempre até que a manhã chegasse. Mas, naquele dia, "Purple Velvet" havia sido mencionado por colegas do trabalho. O nome amaldiçoado fora caracterizado como "lugar para gente desocupada, depravada, carente e com dinheiro pra gastar". Pois essa descrição era de um lugar perfeito.
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