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77 Capitulo setenta e quatro (June)
Sete anos depois...
– E quanto dá vinte e quatro mais sete?
– Trinta e um! — gritaram as criancinhas alegres.
– Mais um ponto para a equipe Guepardo!
A equipe amarela vibrou.
– Não desanimem, time Leão! Amanhã vocês podem se recuperar!
Então as crianças começaram a sair e eu me virei para limpar a lousa e organizar a sala.
Click.
Olhei para trás e uma câmera mirava em mim. Eles sempre vinham, os fotógrafos. De todos os lugares do mundo para registrar o projeto, de vez em quando era irritante.
– May I help you? (1) — perguntei.
– Yes. I'm looking for a friend called June. (2)
Então ele tirou a câmera e eu quase gritei.
Era Felipe. Mais velho, é claro. Tinha o cabelo maior, amarrado no alto da cabeça; estava mais alto, bem mais forte e bronzeado. Porém o que mais me chamou atenção foram seus olhos, estavam muito brilhantes e pareciam sorrir mesmo que ele mesmo não sorrisse.
– Felipe! O que você está fazendo aqui?
Ele levantou a câmera para ilustrar a resposta.
– Estou documentando o projeto.
– Você é de que jornal?
– Nenhum. Eu tenho um trabalho independente de fotografia documental.
– Isso é incrível. Você já expôs algum trabalho?
– Muitos.
– Eu não lembro de ver...
– Você tem procurado?
Fiquei imediatamente vermelha. Por que eu tinha procurado muito.
– Um pouco. Alicia tinha me dito que você tinha feito inúmeros cursos de fotografia e saído do país para fotografar, então fiquei curiosa.
– Sim. Mas não foram inúmeros cursos. Eu trabalhei como fotógrafo de casamentos e eventos por um tempo e em um jornal, onde me apaixonei por fotografia documental, mas em um jornal as opções são muito limitadas, então eu resolvi sair pelo mundo procurando quem precisava ser fotografado. Consegui a minha primeira exposição uns dois anos atrás mostrando minhas fotos para um empresário Australiano e ele virou meu patrocinador. Ganhei um prêmio no Sony World Photography Awards e hoje estou em um trabalho de fotografar projetos sociais.
– Mas eu nunca vi o seu nome.
– Eu tenho um pseudônimo.
– Qual?
– FENE.
Então minha cabeça deu um estalo. Eu lembrava de FENE. Lembrava que parecia o nome de mulher e que as fotos eram incríveis e impactantes.
– FENE é você?
– Sim.
– Nossa. Então você é uma espécie de ídolo para mim.
Ele riu.
– Me sinto lisonjeado. Você também é incrível. Criar esse projeto educacional para crianças sem renda foi impressionante.
– Sim. Depois de terminar pedagogia e me especializar em ensino de crianças, eu senti que eu precisava ir para algum lugar e ajudar quem precisava. O Projeto Aula foi um sonho que se tornou realidade e agora nós já estamos em cinco países.
– Que incrível. Foi sua a ideia?
– Parte dela sim. Na verdade é algo bem simples, tudo o que precisamos na época foi dinheiro, então cada uma das crianças é apadrinhada. Isso nos ajuda a dar tanto alimento quanto moradia decente e sustentar a escola.
– Brilhante.
– Obrigada.
Então ficamos em silêncio, apenas encarando um ao outro.
Ele abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, mas ele pareceu desistir de última hora.
– Caio vai casar — falou.
– Jura?
– Sim.
– Samuel devia estar tentando há muito tempo.
– Na verdade era o contrário. Samuel queria terminar a faculdade e se estabilizar financeiramente primeiro.
– E agora ele finalmente aceitou?
– Sim. Caio até se ajoelhou.
– Jura?
– Sim. Eu o ajudei.
– Eu queria muito ver isso.
– Alicia filmou.
– Ah, é mesmo! Como vai Lirya?
– Bem. Alicia finalmente decidiu o que fazer da faculdade. Enquanto a Lyria está se formando, ela acabou de entrar em artes plásticas.
– Então a família inteira foi para a área das artes.
– Sim. O canal de Caio está bombando.
– Eu o sigo! Assisto todos os vídeos.
– Sim...
Calamos de novo, apenas nos olhando.
Eu queria muito falar com Felipe há tanto tempo que agora as palavras me faltavam. Por sorte elas nunca faltaram para ele.
– Eu esperei.
– O quê?
– Eu cumpri a promessa que lhe fiz. Eu esperei você.
Eu não sabia o que dizer. Minha garganta fazia sons que eu nem sabia de onde vinham.
– E... eu... eu... é....
– Eu procurei você nos últimos quatro anos feito louco. Eu esperei por muito tempo, eu respeitei o seu tempo e se você disser que quer mais, eu irei esperar mais. Mas June, eu preciso saber. Eu preciso saber se eu ainda preciso esperar ou se eu não tenho mais chance.
– Você... você me procurou?
– Muito.
– Eu também. Depois que me formei eu lhe procurei, mas... Alicia disse que você tinha ido para a Austrália e eu não sabia o que fazer.
– Quê?
– Eu sabia que você encontraria outras pessoas, outras melhores, mais legais e que não iriam te deixar em banho maria por tanto tempo. Por que só uma idiota te deixaria esperando por tanto tempo.
Ele riu e se aproximou.
– June, eu já morei na Austrália, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Espanha, na China, na Índia e agora estou em Moçambique e posso afirmar com certeza: eu nunca achei alguém como você. Ninguém me deixa mais feliz, animado e nem mexe comigo que nem você. Mesmo depois de todos esses anos.
Não consegui conter o sorriso e ele me devolveu o dele. Estávamos com vinte e cinco anos agora e ainda assim eu continuava apaixonada por Felipe.
– Eu também esperei você.
Ele riu.
– Chega de esperar, não é?
– Por favor... chega de espera.
Ele se aproximou mais, com seus olhos sorridentes fixos nos meus e a respiração claramente acelerada.
Quanto tempo esperamos por isso? Eu estava com medo de que a espera e a ansiedade fizessem com que o momento fosse decepcionante.
Porém, quando ele chegou até mim, levantou a mão e alisou minha bochecha como se eu fosse feita de porcelana, eu sabia que tinha valido a pena esperar.
– Eu esperei muito por isso — riu ele ofegante.
– Eu também.
Então ele se aproximou e me beijou. Delicado como se pudesse me quebrar, mas firme como se pudesse me perder. Foi tudo o que eu imaginei e ainda mais. E eu não conseguia soltá-lo.
Até ele me soltar e rir.
– Valeu a pena.
Então consegui ouvir palmas e gritos. Meus alunos estavam nas janelas assistindo tudo, assim como os outros professores, que aplaudiam felizes.
Felipe fez uma reverência.
– Obrigado, obrigado! Estarei aqui por mais tempo do que vocês imaginam — disse ele olhando para mim e sorrindo.
Devolvi o sorriso.
Minha vida, finalmente, estava completa.
(1) Posso ajudá-lo?
(2) Sim. Estou procurando por uma amiga chamada June.
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