Help Insane

3 Reconstituição


•••

\"\"

•••

Tudo bem. Vai ficar tudo bem. Repeti a mim mesmo, enquanto a lâmina gelada abria espaço para o sangue em meu pulso. Olhei para o lado, na esperança de não vê-lo, mas ele continuava ali. Tudo bem. Está tudo bem. Senti o metal adentrar mais fundo na carne. O rosto de meu amigo imaginário começou a avançar em minha direção. Fechei os olhos. Sua respiração batendo em meu ouvido causou arrepios em meu corpo. Tudo bem. Com um movimento rápido deslizei a lâmina pelo pulso. Cerrei os dentes, me impedindo de fazer qualquer ruído devido à dor. O líquido vermelho começou a escorrer pelo antebraço, dando voltas neste. Abri os olhos lentamente, as íris opacas estavam a dez centímetros de mim. Minha visão começou a embaçar e as lágrimas a descer. Quando isso teria um fim? Tudo bem. Vai ficar tudo bem.

– Eu não sou louco. – sussurrei para mim mesmo.


•••

(Oito meses depois...).

Não sei qual foi o momento em que os arranha-céus cederam lugar aos campos, mas já fazia mais de vinte minutos que não via nenhuma casa ou celeiro. Estava amanhecendo e ainda não havíamos chegado ao nosso destino. Minha mãe dirigia calma ao som dos Stones, pelo menos tinha bom gosto. O tempo estava frio, ainda mais por estarmos indo ao norte do país. O vidro do carro estava embaçado por causa de minha respiração, não resisti e comecei a desenhar bonecos de neve ali. Ouvi minha mãe se remexer no acento. Sabia que ela havia notado minhas novas cicatrizes, só estava esperando a oportunidade certa para tocar no assunto e, comigo ali, preso dentro do carro, tinha certeza que ela não deixaria a chance passar.

– Então Eric, tem algo para me contar? – me virei para encara-la, o rosto saiu da estrada por um segundo para se concentrar em mim, voltando à frente em seguida.

– Deveria? – me ajeitei no lugar. Ela suspirou.

– Estamos recomeçando, casa nova, amigos novos, uma vida nova. Seria bom se não houvesse segredos entre nós, não acha?

– Sim, seria muito bom se não guardássemos segredos uns dos outros nessa família. Mas, ninguém é perfeito né? – fitei os olhos castanhos escuros, cansados de muitas coisas e sem vontade de iniciar uma discussão.

Ficamos nos encarando por alguns segundos até ela contrair os lábios e voltar sua atenção à direção. Quando minha mãe fazia aquele gesto poderia significar duas coisas: estava terrivelmente irritada ou terrivelmente magoada. Mas a culpa não era minha, eram-me exigidas explicações quando eu nem mesmo as tinhas.

O silêncio pairou no ar, se fazendo mais presente ainda quando o rádio fora desligado. Voltei a desenhar meus bonecos de neve. Não era minha intenção magoar dona Marta, mas não gostava de falar sobre aquilo, e nem ela. Era um assunto delicado para ambos os lados, meu por que não queria ser tratado como doente mental, dela por que não aguentaria toda essa loucura novamente.

Passamos duas horas no mais mortal silêncio, até chegarmos a uma cidadezinha cujo nome não me lembro, e onde o número de habitantes deveria se aproximar dos trinta, brincadeira, deviam ser trinta e cinco. As pessoas até que eram simpáticas, nos olhando e mostrando os dentes como se fôssemos hambúrgueres.

– Lugarzinho legal que você arranjou ein. Mandou bem mãe.

– Lugar pequeno, eles não estão acostumados com gente de fora. Só isso.

Depois de passarmos pela rua principal, que mais se parecia com queijo suíço do que com rua, entramos num atalho de terra, que minha mãe teima em chamar de estrada. A caminhonete brincou na lama em torno de uns 4 km, quando comecei a ver uma casa branca que, aliás, deveria ser azul. Espera, aquilo é azul ou é branco descascado? Espera de novo, essa coisa tá aumentando de tamanho?

– Pensei que seria maior. – certo, eu estava sendo irônico. Aquela casa era enorme, mesmo.

– Quatro quartos com um banheiro cada, cozinha, sala de jantar, sala de estar com direito a lareira, lavanderia, dois banheiros gerais, garagem, sótão e porão. – minha mãe sorria com o peito estufado, cheio de orgulho.

– Cuidado pra não inflamar demais e sair voando. – ela me olhou como se eu estivesse estragado a graça da coisa, no mesmo momento em que tirou a chave da ignição.

– Muito bem, quem quer ajudar a mamãe com a mudança? – olhei para ela como olharia para um cachorro dançando maxixe vestido de tanga de texugo. – Não me olhe como se eu fosse um alien.

– A culpa não é minha.


•••

Jesus Christ, era caixa que não acabava mais. Já havia levado umas vinte delas para o segundo andar, mas as desgraçadas pareciam se multiplicar. Depois de terminar o serviço minha mãe me atirou uma garrafa de suco, sentei no primeiro degrau da escada.

– Não sabíamos que tínhamos tanta coisa. – comentei depois de tomar dois goles do refresco. – Esse suco tá quente...

– Por que será né?... Os rapazes da mudança foram gentis, carregando tudo para dentro. E colocando os móveis em seus lugares...

– É o trabalho deles, são pagos para isso. Gentis seriam se tivessem levado as caixas do segundo andar, pro segundo andar. Aliás, por que eu carreguei tudo sozinho, posso saber dona Marta?

– Porque você é novo e eu sou sua mãe. Agora seja um bom menino e vá arrumar seu quarto.

Atirei a garrafa meio cheia para ela e subi as escadas. Fui em direção a última porta do corredor, o quarto que eu havia escolhido para ser meu. Era bonito, tinha um tom azul claro com detalhes brancos, mas o escolhi pela vista. Possuía duas janelas, uma na lateral da casa que detinha a vista para um campo e outra na direção dos fundos que dava direto em um bosque.

Procurei pela caixa dos livros, para colocá-los na estante, mas não a achei. Talvez tivesse esquecido de trazê-la para cima. Resolvi descer e procurar por ela. Estava passando pelo corredor, indo em direção as escadas quando ouvi o som de algo se quebrando. Vinha de um dos quartos que ficava entre o meu e o de minha mãe. A porta estava entre aberta.

– Mãe? – chamei, entrando devagar no lugar.

O quarto estava vazio, não possuía caixas, nem vidro, nem objetos, somente o cheiro de mofo. Talvez o som tivesse vindo do andar inferior. Tentei abrir a janela, mas ela parecia estar emperrada. Ouvi um som abafado atrás de mim, como se alguém estivesse segurando o riso. Virei-me abruptamente, mas não havia nada ali. Droga, isso era tudo o que me faltava, sons. Além de ver, agora comecei a ouvir? Caminhei em direção à saída, quanto antes estivesse fora daquele lugar, melhor. Levei a mão à maçaneta da porta, quando esta se fechou num baque alto. Senti o desespero tomando conta de mim, estava ficando com medo, o que não era bom. Quando eu perdia o controle, as visões pioravam. Senti alguém rir junto ao meu ouvido, uma sensação fria tomou o meu corpo. Fechei os olhos com uma força desnecessária. Odiava quando Ghost aparecia, Ghost é um apelido carinhoso que dei a meu amigo imaginário, me fazia sentir um pouco menos de medo. Pensei em chamá-lo de Steve como em os Sem Floresta, mas não combinava muito e ele não era um arbusto. Senti um suspiro.

– Vá embora. – o silêncio se fez mortalmente presente. Resolvi me virar, o silêncio permanecia. Me permiti voltar a ver. Os olhos negros encaravam os meus, a boca virada em um sorriso torto e os cabelos brancos como neve. Lá estava ele, à minha frente, minha cópia. Era como olhar para um espelho, um que mostra o seu verdadeiro interior. – Vá embora. – ele começou a rir sem imitir som, uma voz que eu rezo para nunca ser ouvida.

– Por que diabos bateu a porta desse jeito?!

– Mãe?! Deus, não me assuste assim!

– Não me assuste assim você! Caramba, achei que tivesse se machucado.

– Estou bem, não precisa se preocupar. E essa maldita porta se fechou sozinha!

– Ora vamos, talvez tenha sido o vento. Portas não se fecham sozinhas.

– A janela está fechada.

– ...As dobradiças devem ter algum tipo de problema.

– Qual?!

– Bem, é uma casa velha... Ah, como vou saber?! Venha, me ajude a trazer os colchões para cima.

Não discutimos mais sobre isso pelo resto do dia. Colocamos no lugar a maioria da mudança, só faltava arrumar as coisas mais simples e desnecessárias, como as cortinas, tapetes, objetos pequenos, lustres. Já estava escuro quando jantamos que, por sinal, foram sanduíches, e fomos dormir.

Deitei na cama com a cabeça a mil, eu não podia ficar pior, já nos mudamos para que eu melhorasse, embora minha mãe diga que era por estar cansada da cidade grande, do movimento. No fundo eu sabia que ela tinha esperança de que isso me ajudasse a melhorar. De que se eu tivesse mais espaço, não me sentiria mal. Suspirei, me virei pro lado. Ghost sorria para mim.

– Ótima maneira de recomeçar.