Hello, Stranger.

2 Capítulo 2 - Alvo.


Notas iniciais
Victoria sofre bullying na escola. Ela não suporta ser o centro das atenções.

A primeira aula era de química. A professora era uma mulher franzina de uns 40 e poucos anos. Ela era claramente inteligente e entendia muito do assunto, mas isso não fazia dela uma boa professora. A essa altura eu já aprendi que, pra ser um bom professor, você não tem que somente saber do que está falando. Tem que ter aquele dom, sabe? O dom de fazer todo mundo calar a boca na hora em que você vai falar. É o que falta nela. E como faz falta. Fica difícil prestar atenção nos isótopos, isóbaros e isótonos com o Caio Bueno praticamente colocando fogo na sala junto com os amigos nas carteiras do fundo. Eu queria estar brincando, mas é sério. Ele realmente tava colocando fogo nas coisas.

– CAIO BUENO! FORA DA SALA JÁ!

Ele deu um sorriso de lado, se levantou e saiu da sala. Como se não fosse isso o que ele mais queria fazer. Apagar o fogo do caderno ficou por conta dos amigos idiotas, que colocaram a blusa de moletom de um deles em cima.

O Caio não merecia nem uma linha sobre ele por aqui, mas já que foi mencionado, acho justo dar mais detalhes. Pensa num cara ruim. Eu não consigo adjetivo melhor, mesmo. Ele não é alto e forte o suficiente pra praticar bullying direto com os alunos mais "desafortunados", mas nada o impede de comandar os fortões e fazer com que eles batam nos outros por ele. Se o segundo ano fosse uma máfia, o Caio seria o o Don Corleone. Vocês entendem? Ele é manipulador, cínico, folgado, narcisista, frio, e tem mais todas as outras características que apareceriam em um livro sobre psicopatas. Pra completar, é galinha pra caramba. E adivinhem? Tem uma legião de admiradoras. Com certeza é por causa do cabelo enroladinho de protagonista da Malhação e os olhos verdes. Na última vez em que passaram um caderninho pelas salas perguntando quem era o menino mais lindo do segundo ano, ele ficou em segundo lugar. Só perdeu para o o Diego Cavalli, o amor da minha vida. Ok, vamos deixar isso pra lá. Eu só sei que não consigo entender o que as meninas veem no Caio. Eu olho pra ele e só vejo um futuro serial killer ou político corrupto.

A bagunça não terminou depois que o Caio saiu da sala, mas ficou um pouco mais controlada. Logo que a professora deu a aula como encerrada e foi guardar seus pertences que estavam em cima da mesa, eu me levantei para pedir mais alguns exercícios para praticar em casa. Eu entendi bem os conceitos, mas me sinto mais segura reforçando o que aprendi depois.

– Professora, eu...

E eu senti algo batendo nas minhas costas. Imaginei que fosse só uma bolinha de papel, coisa que, honestamente, eu já estava acostumada. Sentar na frente e prestar atenção na aula é tipo pedir pra virar alvo de qualquer coisa que quiserem jogar de lá de trás. Mas a cara de pânico da professora me fez pensar que talvez não fosse só uma bolinha de papel.

Pude ouvir as risadas misturadas com gritos e palavrões enquanto meu cabelo derretia. O cheiro era insuportável. Experimentem queimar a ponta do cabelo ou os pêlinhos do braço para verem do que estou falando. Ou melhor, não façam isso. Vocês não precisam passar por essa bad se não são azarados como eu.

Sim, acertaram uma bolinha de papel pegando fogo nas minhas costas, e pegou no meu cabelo. Esse é o tipo de coisa que acontece para as outras pessoas olharem e pensarem que, não importa o quão ruim esteja, sempre dá pra ficar pior. Não basta você não ter nascido com o cabelo de comercial de shampoo da Marcela. Alguém ainda precisa botar fogo nele.

A professora, desesperada, ficou sacudindo os braços numa tentativa de... Sei lá, ventilar e fazer o fogo aumentar?! Eu gritei como se não houvesse o amanhã quando me dei conta do que estava acontecendo, mas aquilo também não adiantou muito. Só fui salva depois que uma menina da segunda fileira resolveu agir — se é que se pode chamar isso de ser salva. Ela se levantou e bateu forte nas minhas costas com o livro de química, que devia pesar uns cem mil quilos. Nem preciso dizer que as risadas, gritos e palavrões triplicaram depois que eu caí de quatro na frente de todo mundo.

"Pelo menos seu cabelo parou de pegar fogo", é o que vocês devem estar pensando. Sinceramente, eu preferia que minha cabeça pegasse fogo por inteiro ao invés de cair assim. Teve gente que até se levantou pra tirar foto com o celular. Eu não me importo das pessoas não gostarem de mim, ou não saberem da minha existência, ou não darem a mínima pra nada relacionado comigo. Mesmo. O que me incomoda de verdade é ser o centro das atenções, ainda mais desse jeito. Desse jeito absolutamente ridículo. Senti meu rosto ferver de vergonha e parei de prestar atenção no que estava acontecendo ao meu redor. Assim eu ficaria menos envergonhada.

Por isso não sei dizer direito o que aconteceu depois. Só sei que a professora me tirou da sala ameaçando os amigos do Caio Bueno e me acompanhou até a diretoria. Eu só conseguia encarar o chão e responder "não sei" para todas as perguntas da diretora. "Quem jogou isso em você?", "Se machucou?", "Foi o fulano?", "Quer ir para casa?". Me vendo em estado de choque e depressão daquele jeito, a secretária ligou para minha mãe me buscar. Fiquei incomodada com aquilo, porque sabia que ia atrapalhar o dia da minha mãe, que trabalha duro. Mas eu não tinha coragem e nem vontade de voltar pra sala. Não naquela hora.

Saldo final: uma mecha da parte de trás do cabelo queimada, um furo na camiseta, dor nos joelhos e uma Victoria voltando pra casa em silêncio. Minha mãe tentou puxar assunto, mas eu realmente não estava a fim. Ela parecia possessa.

– Isso é um CRIME, Victoria! Você poderia ter se machucado feio!

Suspirei e continuei com o olhar concentrado na janela do carro, mais precisamente na parte de fora da janela, observando o que acontecia na rua.

– Vamos denunciar. Isso não está certo e algo precisa ser feito! Eu vou fazer um BO contra esses marginais. Isso é um ABSURDO! ABSURDO! Como você...?
– MÃE!

Tive que falar mais alto do que ela para ser ouvida. Ela se assustou com meu grito e parou de falar.

– Tá tudo bem. Deixa isso pra lá. — pedi.
– Mas Vick, eles queimaram sua roupa e seu cabelo! Você vai ter que cortá-lo, sabia?
– Tudo bem, já estava na hora mesmo.

Vendo a minha total falta de atitude que, por sinal, é uma das minhas principais características, ela bufou e voltou a prestar atenção no trânsito.

– Não precisa denunciar ninguém.

Eu só não queria transformar aquilo num assunto. Queria cortar meu cabelo, ir pra casa, trocar de roupa, e voltar a viver minha vida. Amanhã todos na escola já teriam esquecido. Ou melhor, se lembrariam do que aconteceu, mas não de mim. Seria tipo: "E aquela menina que pegou fogo e caiu de quatro na sala? Que idiota!", mas ninguém mencionaria meu nome. E tudo bem.

Notas finais
Quem puder, me deixa uma mensagem ou comentário dizendo o que achou da história até agora :) beijos
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.