Hellishness
3 Chapter II — Hold on, we’re going home
Notas iniciais
O loiro, cujo nome agora sabia ser Garrett, pressionou-a contra a parede de modo bruto, fazendo com que esbarrasse no dispositivo da descarga e o acionasse. Magdalena tirou a boca da dele para soltar uma risada contida, interrompendo o primeiro de vários outros beijos. As mãos do homem percorriam seu corpo como se ela fosse um oásis, e ele um vagabundo perdido no deserto, morrendo de sede. Traçaram a linha de sua cintura, de seu quadril e agarraram sua bunda com uma força que a fez arfar. Ah, como precisava daquilo.
A garota tombou a cabeça para trás, deixando o pescoço à mostra. Ele não demorou e encontrá-lo, depositando beijos e mordidas, que depois transformaram-se em um chupão mais demorado. Lena sentia o volume do membro excitado contra sua virilha, e aquilo apenas fez com que se animasse ainda mais. Deixou os dedos frios descerem pelas costas fortes de Garrett, arranhando-as por debaixo do uniforme de piloto, e deixando uma trilha vermelha até o cós, e puxou-o para mais perto.
— Quantos anos você disse que tinha mesmo? — O homem conseguiu perguntar, a respiração cada vez mais ofegante. O desejo em seus olhos deixava claro que não planejava parar, independente da resposta.
— Eu não disse — Ela umedeceu os lábios em resposta, abrindo um sorriso carregado de malícia. Sua mão direita desceu pelo peitoral do parceiro, sentindo cada músculo do abdômen definido, indo até o pênis e segurando-o com delicadeza controlada. Seus olhos desafiavam-no a questioná-la.
Aquilo foi a gota d’água.
Garrett segurou-a pela cintura e colocou-a em cima da pia. Ao mesmo tempo em que se encaixava entre suas pernas, levou a mão até os seios firmes da garota, apalpando-os com experiência. Hillsborough gemeu baixinho, em êxtase, esquecendo-se completamente do destino infeliz que lhe aguardava quando aterrissassem. Tudo o que queria naquele momento era aquele homem dentro dela. Apenas.
Com os olhos fechados de prazer, procurou o zíper da calça social que ele vestia. Quando finalmente encontrou-o, abriu-o rapidamente e começou a empurrar a peça de roupa para baixo. Suas bocas se encontraram novamente, e Lena beijou-o de maneira feroz, urgente. Era uma bagunça de corpos colados, tecidos desnecessários e mãos. Mãos que corriam dos cabelos para a nuca, da nuca para o peito, do peito para a cintura, da cintura para, bem, você sabe onde.
Do lado de fora do pequeno banheiro de avião, Keith entretinha-se com suas planilhas e negócios, distraído demais para notar a ausência da filha, e uma chamada de Skype impedindo-o de escutar os gemidos e outros sons que escapavam abafados. Os comissários de bordo e o copiloto, dentro da cabine de comando, riam e faziam brincadeiras entre si, cada um jogando uma nota de vinte dólares no assento vazio do comandante. Outra aposta estava rolando; a pergunta da vez era: comeu ou não comeu?
[. . .]
O jato particular aterrissou quarenta e cinco minutos depois, pousando em uma Londres fria, nublada, cinzenta e triste. Magdalena soltou o cinto de segurança e voltou a poltrona para a posição inicial; levantou-se para pegar seus pertences no compartimento de bagagens de mão e aproveitou a ocasião para ajeitar as roupas, ainda meio amassadas. Soltou o cabelo do coque bagunçado para disfarçar as marcas arroxeadas em seu pescoço e sua nuca, afinal, o pai não precisava saber que sua garotinha havia transado com seu piloto preferido a menos de dez metros de distância.
Não que ela se importasse, mas seria uma pena ver Garrett demitido. Podiam se divertir juntos em outras viagens, e perder este brinquedo seria uma pena.
— Maggie, vamos logo. Já estamos atrasados demais, vai acabar perdendo a reunião de entrada com a diretora — Keith começou a descer da aeronave, sem olhar para trás. Carregava consigo seu preciosíssimo laptop debaixo do braço, e já dava ordens para os funcionários do lado de fora.
A morena revirou os olhos, prendeu a bolsa estilo carteiro no ombro, deu uma piscadinha para o comandante e saiu atrás do pai. Apesar de nublado, um sol irritante escapava por entre as nuvens, e ela precisou colocar os óculos escuros de armação redonda para evitar uma dor de cabeça. Não passavam das onze da manhã e já odiava aquela cidade.
Um senhor desconhecido abriu-lhe a porta do sedan que os levaria até o terreno da Weston Academy, sorrindo, simpático. Lena retribuiu o gesto, o qual acabou sendo mais uma careta irritada, e entrou no veículo. Evitou sentar-se ao lado de Keith, deixando o máximo de espaço entre eles possível. Ainda se recusava a declarar trégua e terminar aquela guerra ridícula.
Logo saíram do aeroporto, o carro virando na estrada contrário ao centro de Londres, levando-os cada vez mais para longe da civilização. Magdalena conhecia esse caminho como a palma de sua mão, mesmo depois de tantos anos sem vê-lo. Os quilômetros sem fim pelo asfalto, vendo a paisagem ao redor mudar drasticamente ao seu redor. Prédios tornaram-se casas, casas tornaram-se grama e grama evoluiu para árvores. Lembrava-se de como achou a transição de cinza a verde bela, quando a presenciou pela primeira vez, como parecia um caminho encantado para um mundo mágico. Hoje, via tudo aquilo com novos e bem mais cínicos olhos.
Seu sexto sentido disparava, alertando-a que perigo se aproximava.
Eu sei, eu sei. Mas não tenho escolha.
Após outra hora de viagem, conseguiu enxergar indícios de uma construção ao longe. Embora o bosque que os rodeava deixava difícil enxergar o céu, sabia que já não haveria sol algum iluminando a paisagem. Na Weston era sempre nublado. O sedan fez uma curva acentuada para a direita, entrando em uma ruela discreta que apenas quem soubesse onde procurar encontraria. Continuaram por mais algumas centenas de metros até alcançarem o enorme portão da Academia, construído para que parecesse ser de outra época.
Barras de bronze se entrelaçavam em um padrão complicado, criando figuras semelhantes à flores e plantas; no centro, curvavam-se até formar um círculo envolvendo as letras “W” e “A”, escritas em uma caligrafia complicada. O portão era ladeado por duas lanças de ferro, separando-o dos altos muros de tijolos que continuavam de ambos os lados para dentro da floresta, marcando o perímetro do colégio. Também era possível enxergar câmeras de vídeo instaladas por toda sua extensão, e dois seguranças do tamanho de armários guardando a entrada. Seria ingenuidade imaginar que eles seriam os únicos, provavelmente outros vários guardas se escondiam na mata densa, armados até os dentes. Os alunos que protegiam valiam, juntos, mais que um pequeno país.
Assim que o carro parou, o guarda da direita caminhou até a janela do motorista, enquanto o da esquerda checava a identificação do veículo em um tablet. Após uma conferida rápida e uma sondada para verificar que os passageiros não sofriam um sequestro relâmpago, foram liberados.
Um zumbido baixinho de eletricidade começou, e as barras de ferro abaixaram, desaparecendo no solo e liberando passagem.
Magdalena engoliu em seco, lançando um olhar de desespero para os homens lá fora. Queria que lessem sua mente, sentissem sua aflição de ser presa ali novamente, e salvassem-na enquanto ainda podiam.
Mas, obviamente, nenhum deles possuía telepatia, e ignoraram seu apelo silencioso.
— Mags, pegue sua bolsa, estamos quase lá — Keith quebrou o silêncio de repente, observando a vegetação passando rapidamente pela janela. Quem o conhecesse bem o suficiente conseguiria reparar uma mudança em sua postura; parecia ansioso.
— Sabe que me mandar para cá acabou com todas as chances de nos darmos bem, né? — Ela tirou os fones do ouvido e guardou-os, relutante. Pela primeira vez desde que deixaram Bristol dirigia-se ao empresário com a voz controlada e nenhum indício de raiva. Estava apenas cansada.
— Você não me deu escolhas, querida. Devia ter pensado nisso antes de fazer aquele rabisco horrível na parede da sua escola. Realmente pensava que não iriam se importar? Tenha dó.
Ele não devia ter dito isso. A bomba finalmente estourou.
— Aquilo é arte, algo que seu cérebro subdesenvolvido nunca conseguiria entender. Vou é rabiscar sua querida conta bancária, aí quem sabe você acaba com essa atitude escrota e abaixa a bola!
Keith ficou boquiaberto com a explosão, nunca ninguém ousou tratar-lhe daquela forma. Levantou a mão para dar um tapa, vermelho e tremendo, tamanha a raiva, quando o veículo parou, estacionando na entrada de um grandioso conjunto de edifícios vitorianos. Um funcionário abriu a porta do passageiro e disse, alegre:
— Bem-vinda, srta. Hillsborough! Aguardávamos ansiosamente sua chegada!
O rapaz olhou de Magdalena para o pai, tentando entender o que se passava ali dentro. A visão de um adulto ameaçando uma menor de idade provavelmente não causava a melhor das impressões. Keith recompôs-se rapidamente, ajeitando o terno. Recusou-se a se despedir enquanto a filha saía, chocada.
Ele ia me bater. Ele ia me bater. Ele ia me bater.
Percebendo que não devia ter presenciado aquela cena, o rapaz limpou a garganta e estendeu o braço, gentil. Lena aceitou o apoio, agarrando o desconhecido e usando-o como fonte de sustento para continuar de pé. Apesar dos altos e baixos, seu pai nunca representou ameaça verdadeira, e vê-lo daquele jeito assustou-a mais do que qualquer coisa. De repente a Weston Academy pareceu um paraíso.
Enquanto outros dois empregados tiravam sua bagagem do porta-malas, uma belíssima mulher, vestida em um elegante terninho cinza, com cachos loiros presos em um elaborado penteado no topo da cabeça, e qualquer traço de velhice escondido por cirurgias muito bem-feitas, desceu as escadas da entrada principal. Uma senhora na meia idade, não tão bem conservada, segui-a como se fosse sua sombra.
— Ah, querida, você deve ser a Margarida! Sou Minerva von Schwers, uma de suas estimadas diretoras — A mais jovem disse, estendendo a mão.
— É Magdalena — Corrigiu a aluna, respondendo ao cumprimento com firmeza, ainda ligeiramente abalada.
— Mil perdões, Deus! São tantos nomes... Bom, Magdalena, infelizmente terei de adiar nossa reunião de entrada, visto que uma visita de emergência está chegando neste exato momento. No entanto, nada tema, minha secretária, Rhonda, lhe mostrará o caminho para seu dormitório, onde sua colega terá o prazer de te acompanhar pelo resto do dia!
A mulher falava sem parar, e rápido para caralho, e Lena queria muito interrompê-la para avisar que já conhecia o colégio; na verdade, conhecia bem demais. Mas deixou-se levar, respondendo a enxurrada de palavras com um sorriso. Satisfeita, Minerva deixou-as a sós e andou na direção do estacionamento, ladeada por dois guarda-costas gigantescos que brotaram do chão.
— Vamos, não tenho o dia todo mocinha — Rhonda estralou os dedos e os funcionários começaram a puxar malas e carregar caixas para dentro do prédio, com uma agilidade impressionante.
As duas entraram no hall do internato, e Lena mal conseguiu conter um suspiro admirado. Era ainda mais belo do que se lembrava. O salão amplo e bem iluminado, circular, com as paredes da direita coberta por quadros dos antigos diretores, e as da direita feitas de vidro, marcando a secretaria e o escritório de Minerva. Tinha o pé direito altíssimo, e o teto adornado por não um, mas três magníficos lustres de cristal. Caso continuasse andando e passasse pelas portas duplas na lateral oposta à entrada, chegaria à uma área ainda maior, onde estava o corredor principal, com as escadarias que ligavam os quatro andares de salas de aula, e outro par de portas que levavam até o terreno externo. Rhonda guiou-as naquela direção, indo para o pátio principal.
Lá fora, a vastidão de prédios e anexos continuava, porém a velha apontou para uma trilha de cascalho que, segundo uma placa muito bem posicionada, mostraria o caminho até a pista de corrida leste, o Lago Umbrae – onde eram realizadas atividades como canoagem e mergulho – e o prédio de dormitórios Einstein.
— Seu quarto é no Einstein e, se não me engano, os camareiros já devem estar chegando com suas bagagens. Poderia te levar até lá, mas, primeiro, minhas articulações doem, e, segundo, não tenho vontade — Rhonda entregou-lhe uma chave dourada com o número 24601 gravado, preso em um cordão de couro — Qualquer problema, contate seu inspetor de dormitório. A partir de agora, você é problema dele.
— Obrigada, eu acho — Magdalena esperou a senhora virar e voltar para o prédio principal antes de partir, por instinto.
Ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou em silêncio, observando o espaço à sua volta. A trilha contornava o pátio e descia até o nível do Lago, desviando ocasionalmente de bancos e postes de iluminação estrategicamente posicionados.
— Cacete, esse lugar é gigante — Murmurou consigo mesma. As crianças costumavam ser alocadas em um complexo conectado diretamente ao hall de entrada, para que evitassem a perda de alunos pelo enorme terreno. Sendo assim, nunca fora para esta área antes, e não pôde deixar de se sentir menos irritada com a paisagem digna de um de seus desenhos.
Estava prestes a dar meia volta e procurar uma curva perdida, o glorioso complexo de dormitórios Einstein surgiu atrás de um conjunto de limoeiros, escondido. Era, definitivamente, menor que sua antiga república, e logo suspeitou do local. Uma bandeira feita com uma cueca listrada hasteada no teto, e uma placa feita a mão com os dizeres “Bem-vindos ao Einstein, lar dos fracassados. Juramos solenemente não fazer nada de bom!” confirmaram suas ideias.
Esta era a famosa república da desgraça, lar dos piores alunos que a Weston já teve o desprazer de ensinar.
Ah, aqui é o meu lugar.
Lena abriu a porta principal e deu de cara com uma cena improvável: o salão comunal vazio. Mas que diabos? Onde estavam os alunos? Incerta, subiu as escadas até o segundo andar, onde, provavelmente, estaria o quarto 24601. Se não estivesse tão ansiosa, olharia o relógio e veria que ainda eram 11 da manhã, ou seja, horário de aulas.
No final do corredor, encontrou o primeiro indício de vida: uma garota da sua idade, por volta dos 17 anos, com os cabelos coloridos – metade preto e metade rosa chiclete -, dormindo na soleira da porta.
Trancada para fora, truque clássico.
Não foi preciso andar muito mais, visto que o número 24601 estava gravado na segunda porta da direita. Uma pequena lousa branca fora pendurada em cima da fechadura, e nela estava desenhado um pênis enorme, espirrando esperma que formava a expressão “Foda-se”. Magdalena riu, imediatamente aliviada por morar com alguém com senso de humor.
Ela, porém, quando abriu a porta, não conseguiu se conter:
— Mas que porra é essa?
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