Hell Between Us
66 Capítulo 66 - Ficando de pé.
Notas iniciais
Pov – Daryl
Caminhamos de volta para casa, depois do funeral mais triste que já assisti e assisti muitos desde que o mundo acabou, mas era só uma menina. Não uma menina qualquer, um jovem e corajosa amiga.
Quando salvamos Larissa e a levamos conosco eu achei que era apenas uma criança perdida, mas era muito mais do que isso. Larissa era forte, um espirito independente e cheia de sonhos, era mais parecida com Abby do que podia entender, era mais importante para ela do que podia sonhar e agora não sei o quanto isso pode transformar Abby.
Olho para ela ao meu lado, acho que nunca a vi assim. Triste, eu já vi Abby perdida, destruída, forte, já a vi feliz e com medo, mas nunca tinha visto ela apenas triste, completamente triste.
Bela está com Rosita na enfermaria, ainda não tivemos tempo de cuidar dela e deve estar tão assustada quanto pela manhã, não entende porque desde que acordou nós a deixamos.
─Vai indo para casa, eu pego a Bela. – Digo a Abby que apenas afirma, suspiro quando assisto ela se afastar de mim e subir os degraus de casa, me apresso em busca de Bela. Sinto falta dela.
Escuto seu choro baixo antes mesmo de abrir a porta me apresso.
─Que bom! – Rosita diz aliviada ao me ver. – Ela está esgotada, mas não consegue se acalmar. – Bela me estende os bracinhos, o choro desaparece quando eu a pego nos braços.
Ela se encosta em meu ombro cansada. Sinto pena e amor, é bom ser o centro de tudo para alguém.
─Obrigada Rosita, por tudo, sei que queria ir. Sei que tento o quanto pode.
─Eu fiz o que pude, eu e a Beth, mesmo se fossemos médicas, acho que não tinha nada que pudéssemos fazer sem recursos.
─Ainda vamos ter tudo de novo, tenho certeza. Melhor eu ir, quero que ela aguente acordada até ver a Abby.
─Acho bom. – Deixo a enfermaria com minha pequena em meus braços.
─Está tudo bem querida. Vamos para casa, a mamãe quer você.
─Mamãe! – Ela diz esfregando o nariz em meu peito cheia de sono. Acaricio seu cabelo com a mão livre. Evito olhar para a casa de Ellen, imagino que lá também é um momento de muita dor para Bill e a filha. Beijo a testa de Bela e entro em casa.
─Abby? – Subo as escadas quando noto que não tem ninguém em baixo. –Abby?
─Aqui! – Ela enchia a banheira com olhos triste.
─Mamãe! –Bela se agita e ganha um quase sorriso, se joga para a mãe que a pega com os olhos marejados.
O que Abby fez hoje, quando se ajoelhou. Sei o que aquilo significou para ela, e sei o quanto de amor tinha naquele gesto, só pude amar Abby mais do que tudo.
─Mon bébé. Si belle – Abby beija Bela, aperta a pequena nos braços. – Je t’aime.
Bela só se encosta nela, está tão esgotada que só quer mesmo se sentir segura.
─Vou dar um banho nela, está cansada, suada.
─Faço uma mamadeira enquanto isso. Porque não entra na banheira com ela e descansa um pouco? – Ela olha para a agua, depois para mim. – Momento mãe e filha. – Brinco e ganho um sorriso triste. Ela afirma. – Ótimo, vou fazer o leite dela.
Desço as escadas e só então vejo o sangue na sala. Que droga, ela passou por isso sozinha, entrou sozinha e deu de cara com o sangue, não me lembrei disso.
A mamadeira pode esperar, até saírem do banho eu já terminei, não quero correr o risco de Abby passar por isso de novo. Limpo tudo, não é fácil, o sangue sempre deixa suas marcas, seu cheiro, mas faço o melhor que posso e depois observo o chão limpo.
É isso, uma menina, aqui há poucas horas agonizando porque uma maluca resolveu que podia roubar um bebê e enfrentar os zumbis. Sinto um aperto no peito, um nó na garganta. Se estou assim imagino como ela está.
Lavo as mãos, muitas e muitas vezes. Só quero apagar todo sangue que carrego nelas. Depois preparo uma mamadeira e aquilo é tão meu oposto, tão absurdamente paradoxal. É quase como ser outra pessoa. Subo as escadas e as duas estavam na cama.
─Afastei o berço e encostei a cama na parede de novo, acho que não posso me separar dela hoje.
─Esse! – Abby pede a mamadeira, está faminta deitada na cama.
─Com fome pequenina? – Beijos seus cabelos e entrego a mamadeira para Abby. – Vou tomar um banho rápido.
─Obrigada. – Abby segura meu braço. – Por limpar... Obrigada.
─Amo você. – Beijo seus lábios e as deixo. Tomo um banho rápido, só quero mesmo envolver minha mulher. Paro de me vestir e encaro o espelho. Minha mulher. É isso que ela é. Acho que preciso dizer isso a ela.
─Calma Dixon, sabe que ela é difícil, ainda pode correr de você.
Termino de me vestir e quando entro no quarto elas estão deitadas e encolhidas, Bela tem uma mão na orelha de Abby, brinca com o lóbulo com olhos cansados e mesmo assim resiste.
─Acho que ela está com medo de acordar sozinha. – Abby me conta quando me deito com elas. Bela se senta se esforça para passar por cima de Abby e se deitar entre nós. Procura por botões, mas dessa vez não tem nenhum.
─Desculpe querida. Sem botões hoje. – Ela aceita assonada. – Pega a orelha de Abby mais uma vez.
─Ela adora roubar meu lugar. – Abby faz bico.
─Acho que vai ter que cantar para ela. Sabe como ela adora.
Nem é preciso cantar a canção até o fim e logo Bela dormia. Nos demoramos olhando para ela, tão pequena e delicada. Tão necessária.
─Põe ela no cantinho que quero abraçar você. – Peço e Abby sorri. Com cuidado coloca a filha no canto, cobre nosso bebê e vem para meus braços. As lagrimas começam a correr em silencio. Queria poder arrancar sua dor, mas não posso só posso mesmo secar suas lagrimas e mostrar que estou aqui.
─Da primeira vez que fez isso, secou minhas lágrimas lá na prisão, quando aquela vadia apareceu... – Me lembro, estávamos começando, tudo era difícil. – Me senti tão fraca e sozinha. Eu estava com tanto medo.
─Eu sei. Me lembro.
─Mas agora. – Ela toca meu rosto, nunca fica assim em meus braços sem demonstrar carinho, desde sempre. – Agora é diferente, eu me sinto inteira. Sei que não estou sozinha, que não me acha fraca.
─Nunca. Amo você, é forte, corajosa. O que fez hoje, quando se ajoelhou. Eu pensei que não havia mais espaço para tanto amor, mas então meu peito se expandiu, só para poder amar você ainda mais. – Ela sorri por entre as lágrimas.
─É meu bebê Daryl, minha menininha. E sua eu sei. – Beijo Abby, de modo leve e carinhoso, ela se encolhe mais em meus braços. – Fico tentando me lembrar como eu passava pelas coisas antes de você. Só lembro de um vazio gigante. Não sei como consegui.
─Você é uma força da natureza, sempre fica de pé. Pode ter que se ajoelhar, mas então fica de pé. E aí é um gigante.
─Acho que me ama! – Ela diz delicada, minha princesinha republicana. Eu volto a beijá-la, acaricio sua pele, seco suas lágrimas, só Abby me faz forte para cuidar dela.
─Quando Merle morreu, naquele momento devastador para mim. Quando me estendeu sua mão. Foi como secar minhas lagrimas. Me senti fraco e sozinho. Depois me mandou erguer a cabeça e me orgulhar, me senti forte e inteiro.
─É assim que é.
─Você me faz forte.
─E fico forte com você. – Meu rosto acaricia o dela, é só cuidado, amor, carinho. – Pode só ficar assim? Pertinho e cuidando de mim, me espera dormir?
─Claro! Tudo que quiser.
─Amanhã vamos achar outra casa. Não quero mais viver aqui, foi maculado, nosso cantinho, quero achar uma outra, começar sem as marcas... – As lagrimas retornam agora mais intensas e só a abraço e mantenho Abby comigo.
─Vamos fazer isso. – Morar em frente à casa que Ellen viveu não vai nos ajudar a esquecer. As lagrimas vão diminuindo e Abby adormece. Bela se move, acorda assustada, me vê olhando para ela e só volta a dormir.
Então eu fecho os olhos e adormeço. Quando acordo as duas estavam acordadas, Abby sorri, Bela também.
─Perdeu ela acordando, ficou tão feliz quando viu a gente aqui. Abriu um sorriso tão lindo. Por um segundo esqueci tudo de ruim que existe no mundo.
Abby coloca Bela entre nós, me beija e ficamos os três ali mais um pouco.
─Poupée mamãe! – Bela aponta o berço. Já entendo que quer a boneca, mas tem uma frase que quero aprender, duas talvez, mas não posso pedir a Abby para me ensinar.
Abby pega a boneca no berço, volta para cama, Bela abraça a boneca.
─Vamos ficar um tempo aqui dentro, até ela se sentir segura, até nós dois nos sentirmos.
─Vai ser bom! – Ela me diz. – Mas agora acho que temos que sair daqui, achar uma casa... Eu decidi Daryl, enquanto olhávamos você dormir eu e Bela decidimos.
─O que foi que andaram conversando pelas minhas costas?
─Nós decidimos pegar tudo isso que nos aconteceu e transformar em algo bom, Larissa deu a vida para proteger Bela, fez isso por nós, temos obrigação de vencer isso, nós três.
─Boa decisão. – É bom ver que ela está disposta a se recuperar e amo Bela por isso, por ter esse poder sobre nós.
Deixamos a casa um pouco depois. Abby com Bela no colo, mas quando chegamos a rua ela a coloca no chão, segura sua mãozinha.
─Vamos querida, é hora de começar, tem que aprender a andar sobre suas próprias pernas. É assim que vai ganhar essa guerra. Aprendendo a ficar de pé.
Abby me sorri. Ela sempre pode vencer, ela sempre vence e eu a amo e quero que seja minha mulher, quero poder dizer que é minha.
Não demora para acharmos um lugar, longe o bastante da casa de Ellen, perto o suficiente para ouvirmos se nossa família precisar.
─É linda! Um pouco menor, o quarto da Bela vai ficar pertinho do nosso, se é claro algum dia a gente puder deixar ela ter alguma privacidade. – Abby diz com Beth a seu lado.
─Então vocês ficam aqui cuidando de tudo que o Sam vai me ajudar a trazer o berço.
Ela deixa Bela no chão da sala, vem até mim, me beija carinhosa.
─Obrigada!
─Eu ajudo a carregar o berço para cima e para baixo e o que ganho? Manter minhas orelhas, só isso. – Sam resmunga.
─E a língua se calar a boca é claro! – Abby brinca caminhando para Sam, depois o abraça. – Me abandonou e ainda quer privilégios, amo você.
─Vamos Daryl buscar o berço, pela segunda vez! – Ele ri, quando Abby disse na cama não tratei de correr atrás de um berço e obriguei Sam a me ajudar a levar e agora lá vamos nós de novo com o berço. ─ Já está bem grandinha para berços Bela, não fica nem bem você agindo como um bebê.
─Tio! – Ela diz afastando a mão de Sam que bagunçava os cabelos crescidos.
Quando entramos na casa fico feliz que não vamos mais viver aqui, a verdade é que acho que toda vez que entrasse eu me lembraria de tudo que aconteceu.
Subimos, já temos prática, levar o berço foi complicado, mas descer com ele é bem mais fácil.
─Sam. Preciso de uma coisa, é bem... Constrangedor e estranho.
─O que? Coisa de amor aposto, está com uma cara engraçada.
─Esquece Sam, é tolice. – Desisto.
─Abby merece. – Ele diz sem se mover quando tento erguer o berço para deixarmos a casa, coloco o berço de volta ao chão. Olho para ele. – Ela mudou muito por você, sempre diz como se sente, divide tudo com você. Acho que pode ser ridículo uma vez na vida e fazer algo constrangedor que a faça feliz.
─Você se acha o sabe tudo do amor.
─Tudo bem, se a Abby não merece. – Agora ele ergue o berço e não me movo, ele devolve o berço ao chão.
─Abby fala francês.
─Eu sei.
─Quero dizer uma frase em francês.
─Pede para ela te ensinar. – Ele diz tranquilo.
─É uma surpresa Sam, deixa de ser idiota, precisa pedir para ela te ensinar e depois você me ensina e isso é tudo.
─Que frase? – Ele quer rir o engraçadinho. – Agora já começou diz de uma vez.
─Vai dizer que quer falar isso para a Beth, assim ela não desconfia.
─Que frase? Fala logo!
─Eu te amo. Quer ser minha mulher? – Ele abre e fecha a boca.
─Eu te amo. Quer ser minha mulher? Isso é... Legal. Mas não vai ser estranho nós dois treinando francês?
─Se acha que a Abby não merece. – Ergo o berço. Ele fica parado. Eu o devolvo ao chão.
─Tudo bem. Eu te amo. Quer ser minha mulher? Vou decorar. – Sam ergue o berço e pretendia fazer o mesmo.
─E se ela responder em francês e eu não entender?
─Você beija ela e implora em qualquer língua que souber e vamos parar de erguer e abaixar esse berço.
Erguemos o berço e acho o plano dele muito bom.
─Não vai abrir essa sua boca para mais ninguém.
─Prometo! – Ele responde quando ganhamos as ruas. – Vai ameaçar minhas orelhas também?
─Meu negócio são flechas Sam.
─Muito fatal para brincar com isso, seu segredo está guardado. Já sabe quando vai dizer?
─Não. Primeiro quero aprender, depois penso no resto. Não vai fazer lambança e aprender tudo errado.
─Vou fazer melhor, não quero andar por ai te pedindo para ser minha mulher em francês, então vou pedir a Abby para me ensinar na sua frente, assim aprende direto com a fonte.
─Boa ideia.
─Sou bom em coisas de amor. Beth é caidinha por mim.
Rio, Sam é divertido, de algum jeito nos tornamos amigos, ele é família, mais um dos meus irmãos de fim de mundo. Me lembro de como gostava de Merle.
Chegamos, Abby e Beth tinham afastado móveis, e colocamos o berço no lugar, depois vou sozinho buscar as roupas e coisas que deixamos na antiga casa. Quando voltava encontro Rick.
─Como elas estão? – Ele me pergunta quando paramos os dois.
─Bem. Abby está se recuperando e não tem outro jeito, nós sabemos disso.
─É, não tem. – Remexo a mochila, entrego a ele o que Eugene me pediu.
─Consegui o que Eugene queria. Espero que funcione.
─Também espero! – Rick me diz. – Tem gente lá fora Daryl. Temos que buscar essas pessoas, médicos, arquitetos, sei que tem todo tipo de gente lá fora e essas pessoas precisam chegar aqui e dar um futuro para Judy, para Bela. Para todos nós.
─Se elas existem vão nos encontrar. Se não puderem então nós as encontramos.
Estou disposto a fazer esse lugar grande, agora eu tenho porque sonhar com o futuro, antes era só mais um dia com Abby, agora é uma vida para Bela.
─Você é pai! – Ele me diz sorrindo. – Quem diria.
─É estranho. Ainda estou me acostumando.
─Se te consola eu também e o Carl já é um rapaz. Vou levar isso para o Eugene.
Ele me dá um tapa leve no ombro e sigo em frente. Quando chego Abby está sozinha com Bela, deixo as coisas no chão e Bela se ergue e caminha para mim, pego ela no colo.
─Botão papai.
─Sim. Dessa vez você tem botões.
Olho para Abby de rabo de cavalo, rosto suave e corado pelo trabalho e linda. Os olhos verdes estão claros. Ela venceu o apocalipse. Às vezes é um furacão, mas em momentos como esse é a brisa leve que me acalma.
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