Hell Between Us

22 Capítulo 22 - Um começo


Notas iniciais
Olá pessoas! Espero que gostem! Tive vários contratempos e por isso aindei meio atrapalhada, mas tudo está de novo no lugar.

Pov – Abby

Não tem muita gente no refeitório quando entro cuspindo fogo, na verdade não me importo nem um pouco com quem está ali ou não, o que me interessa é que Hershel está, isso é o bastante.

Acho que as pessoas notam minha tensão, Hershel que está sentado me encara firme, não posso negar sua perspicácia.

─Então ele não é bom o bastante para Beth? – Os olhos de Hershel brilham numa centelha de irritação que logo é substituída pelo habitual brilho de gentileza. Que se dane, não caio nessa. ─ Não me lembro de Sam não ser bom o bastante quando estava com um AK-47 lutando contra seus inimigos para manter esse lugar para sua filha.

─Abby! – Sam diz ao meu lado, Daryl está ali também, mas se mantêm calado, Hershel faz um sinal com a mão para que me deixassem falar, como se alguém pudesse me impedir.

─Cheguei um segundo antes de Sam se atirar aos zumbis para salvar a vida da sua filha, se isso não é ser bom o bastante eu não sei o que espera para Beth.

Hershel continua mudo, está me deixando falar, Maggie fica ao lado do pai, Beth se encolhe um pouco na porta de uma das celas, os olhos vermelhos pelas mil lágrimas que já derramou.

─Acha que ela é fraca não é isso? Maggie faz o que quer e por isso é forte, Beth não, você subestima sua filha, é ingrato também, Beth é mais forte do que pensa, mas ela aceita ser dominada e conduzida por você, faz isso por que simplesmente o ama demais, mas quer saber de uma coisa?

─Diga Abby, diga tudo que quiser! – Ele me diz de modo tranquilo.

─Não se faça de condescendente comigo, eu diria tudo que quero de qualquer modo! – Digo firme de olhos erguidos, há muito que ninguém me faz calar – Beth não é boa o bastante para o Sam, é isso mesmo, ele é jovem, forte e muito corajoso, não merece ter que carregar sua filha por ai, protegendo Beth de tudo porque não deixa que ela aprenda a viver, Sam não amarrou e arrastou sua filha para a floresta, foi escolha dela, devia respeitar sua decisão.

─Eu decido isso! – Hershel me diz.

─Devia ser ela, mas isso não é problema meu, se prefere que sua filha fique trancada numa cela ninando um bebê que não é dela até que as grades despenquem e ela morra problema de vocês.

─Não pode viver achando que tudo vai desabar.

─Já viu uma horda Hershel? Não falo de trinta, quarenta zumbis, já viu mil zumbis caminhando juntos? Acredite, é um Tsunami, não tem nada a ser feito, essas grades iriam ao chão num piscar de olhos e nem nos daríamos conta, quando isso acontecer, pode apostar, ou você sabe matar ou termina morto, o que dá no mesmo hoje em dia.

Meus pés estão firmes no chão, meus olhos fixos nele, foi assim que aprendi a me defender, fico de pé, finco os pés no chão para não fugir, para não me encolher de medo e correr, me equilibro e encaro o perigo, a menos que sejam zumbis, nesse caso eu danço, me movo porque não os temo, o que mais eles poderiam tirar de mim?

─É bom nos contar isso, podemos ficar pronto para algo assim.

─Vá para o inferno! – Digo a ele e aquela postura de sábio que ele insiste em manter – Mantenha sua filha longe do Sam, ele é bom demais para ela, e faça o mesmo você, fique longe e quando um inimigo seu e de suas filhas quiser derrubar a porcaria desses muros não conte com ele para manter o lugar enquanto você e ela se escondem na floresta!

Dou as costas a eles todos, marcho de volta para o pátio, me sento num banco e encaro os zumbis nas cercas, um homem que nunca vi se mantém de guarda, carrega uma arma na mão e olha para o horizonte, puxo o ar com força, depois solto lentamente, repito até buscar de novo meu equilíbrio, então Hershel surge ao meu lado.

─Posso? – Me aponta o banco ao meu lado, afirmo.

─Não vou retirar nada do que disse! – Aviso quando ele se senta e coloca o par de muletas encostado a seu lado, me sinto na obrigação de encara-lo, embora tudo que quisesse fosse sumir dali.

─Tem lá sua razão, assim como eu tenho as minhas, protege Sam com unhas e dentes e isso é bonito, faço o mesmo por Beth e Maggie, sei da força interior de Beth, acredite, não a subestimo.

─Deve dizer isso a ela!

─Acabo de dizer, e me desculpe pelo que disse sobre o Sam, foram as falas de um pai desesperado que acabava de receber a filha de volta depois de uma aventura inconsequente.

─Não se desculpe comigo, suas palavras foram dirigidas ao Sam, ele que precisa desculpa-lo.

─Ele já fez isso, me desculpei e disse que eles podem fazer como quiserem, claro que agora é você quem vai ter que permitir ou não já que não acha Beth boa o bastante para ele.

Se ele espera um pedido de desculpas não vai ter um, disse o que pensava e ainda penso, nada mudou.

─Realmente ela não é, sua filha precisa ser capaz de se defender, não gostei dos dois sozinhos lá fora, mas eles se viraram, e talvez um dia acabem assim, sozinhos lá fora, então que estejam prontos.

─Porque gosta tanto dela?

─Beth é... É um pouco como eu já fui, apenas... – Não quero me explicar e não vou.

─Obrigado por ser boa com ela, Maggie sempre foi mais independente e tivemos boas brigas por conta disso, mas Beth sempre foi doce.

─Ela é doce demais, isso pode matá-la, mas como eu disse não é da minha conta.

─Vamos cuidar para que Beth encontre um meio termo.

─Um meio termo... – As palavras morrem em meus lábios, nunca encontrei esse meio termo, mas no fundo acho que queria – Bom Hershel, acho que agora que ganhei o ódio geral por tê-lo desafiado, posso seguir como quero.

─Se era isso que estava buscando vai ter que fazer melhor, essa família está completamente acostumada com brigas e pequenos ataques, ninguém leva isso a sério.

─Não sou da família, não acho que vá receber os mesmos privilégios! – Uso o tom mais irônico que conheço, Hershel me dá um leve sorriso enigmático, acho que vou ter que me acostumar com isso.

─Sei que tem seus limites, que é difícil para você dar uma chance as pessoas, mas não basta apenas sobreviver, pode e merece mais do que isso.

─Estou aqui Hershel, voltei, posso oferecer minhas habilidades físicas para construir esse lugar que tanto sonham, mas não tenho mais nada para oferecer, e eu sou uma sobrevivente, já era antes do fim, então apenas continuo em frente.

─Não acredito muito nisso, um dia, daqui um tempo falamos mais sobre isso, agora vou entrar e acalmar as pessoas, eles queria vir junto.

─Estavam com medo das minhas espadas? – Tento sorrir.

─Claro que não, estavam com medo das minhas muletas! – Ele ri e depois caminha para o bloco, agora vem Sam, é só esperar, o dia já começava a terminar e uns minutos depois ele chega trazendo um pote com um tipo de mingau que me estende e respiro fundo antes de aceitar, no fundo já comi coisa pior, penso depois da primeira colherada.

─Você voltou decidida a morar nesse banco, achei boa ideia te trazer comida.

─Foi um retorno tenso! – Eu brinco.

─E está aqui decidindo se enfrenta Daryl e pega sua mochila ou simplesmente se rende a ele que eu sei.

─Só porque deu dois selinhos em Beth acha que sabe tudo sobre o tema?

─Perdeu essa parte, antes de eu ir atrás de você nos beijamos de verdade e estamos namorando agora que você fez a maior confusão e resolveu tudo.

─Algo que você devia ter feito, não pode aceitar tudo calado, lute pelo que acredita.

─Eu luto, fui te buscar, não foi?

─É, você foi! – e isso é assustador eu percebo, não sei muito como é isso de ser importante para alguém, quando salvei Sam não tinha nada disso em mente.

─Estou há horas esperando a sua bronca por ter ido te procurar, ela não vem?

─Não, você parece bobo, quer que eu brigue com você, é isso?

─Sim, se não vou achar que não se preocupa mais comigo.

─Tolice, eu me preocupo, amanhã vamos retomar nossas aulas, as coisas voltam a seus lugares! – Termino de comer aquela meleca e coloco o pote ao meu lado, depois encaro Sam um instante – Traí você Sam, sinto muito, não podia ter te deixado sem ao menos uma despedida.

─Você está parecendo uma garota X, isso é meio confuso para mim, melhor ameaçar minhas orelhas! – Ele brinca tentando me deixar mais leve, sabe que tudo isso é difícil para mim, por isso gosto de Sam, por que ele me conhece e não exige muito.

─Que merecia ficar sem as orelhas merecia, como se atreveu a pensar em se render?

─Você faria isso por mim, e ando achando que sua lista aumentou.

─Cala a boca garoto, vai ver sua namorada vai, daqui a pouco eu entro, já anoiteceu, nem notei! – Digo olhando para o céu, Sam pega o pote que me trouxe comida, sorri descido a me obedecer, é o tipo de ordens que ele adora.

─Beth mandou eu te agradecer por tudo.

─Detesto gente grata! – Faço careta ele ri, aquilo não era sério.

─Até amanhã! – Ele entra e continuo pregada no mesmo lugar, o garoto me conhecia mesmo, eu estava completamente confusa e perdida sobre Daryl.

Mas talvez aquilo tudo fosse uma tolice, talvez Sam tivesse apenas enxergado mal, ele não se aproximou de mim desde que chegamos, não trocou uma palavra comigo, quem sabe se arrependeu completamente de tudo e agora está me evitando?

Me lembro dos momentos que passamos, de como me senti e claro que não saberia dizer não a tudo aquilo, mas o que viria depois? Talvez eu apenas não precisasse pensar no depois, talvez eu pudesse viver um momento de cada vez, é tão difícil estar aqui, encarar as pessoas, os olhares, sempre com medo de ser de novo chamada de assassina, filha de corrupto, sempre com medo de acabar numa solitária qualquer, era tão mais fácil quando éramos apenas eu e Sam.

Era mais fácil mais não era melhor e Sam está certo sobre morar nesse banco, preciso me mover.

Daryl Dixon não pode decidir onde vou dormir, não vai fazer isso, vou entrar na cela dele pegar minhas coisas e rumar para o meu canto é isso, e a partir de amanhã vou seguir minha vida, treinar o Sam, sair em busca de suprimentos e me manter distante de tudo e de todos.

Caminho decidida, a coragem me abandona um pouco quando chego ao refeitório, só Carol ainda estava ali, ela me olha e não tenho ideia do que seu olhar significa, mas sei que de algum modo ela não é como todos os outros.

Passo por ela em direção as celas, Hershel lia em sua cama, subo a escada evitando barulho, não sei o quanto isso é para não incomodar ou para não ser vista, respiro fundo mais uma vez quando me aproximo da cela de Daryl, odeio essa maldita fraqueza que ele e mais ninguém no mundo me causa.

Titubeio um segundo antes de me aproximar e me odeio por isso, depois entro, ele está sentado, limpa uma de suas flechas e ergue o olhar quando me vê, silencioso como Daryl sempre pode ser, o olhar meio de lado, nenhuma expressão no rosto, treinou muito, assim como eu, para esconder quem é e como se sente.

Vasculho com os olhos em busca de minhas coisas, por um segundo penso que Sam pode ter se enganado e eu o mataria se fosse o caso, não saberia nunca como explicar o fato de estar de pé, no meio de sua cela, sem dizer uma maldita palavra a pelo menos um longo minuto.

Lá está ela, ao lado dele encostada no beliche, estrategicamente perto de Daryl, eu suponho, olho para ela, depois para ele que ainda me encarava mudo.

─Minha mochila! – Eu aponto, ele olha para ela, depois para mim.

─Eu sei! – Dois chimpanzés seriam mais articulados, me dou conta.

─Eu... – Onde está a mulher decida que pegaria a mochila e daria as costas a ele? Porque definitivamente não está aqui.

─Você?

─Exige tanto de mim Daryl, mas não o vejo fazendo o mesmo, quer me abra, que me mostre, mas continua tão escondido quanto sempre, devia ser uma via de mão dupla! – Meu tom se altera um pouco, ele deixa a flecha ao lado da besta se ergue diante de mim e me sinto pequena e indefesa como não me sentia há muito tempo.

─Sua mochila está aqui! – Ele a aponta, lá está Daryl e toda a energia que ele gasta numa simples discussão, braços e pernas, gestos que dizem muito mais de seu espírito que suas palavras – Acha que foi simples para mim fazer isso? Acha que não vim aqui olhar para ela uma maldita dezena de vezes desde que chegamos? Que não mudei de ideia e me senti um idiota pelo menos metade dessas vezes? Não vê que não consigo pôr em palavras o que ela estar aqui significa?

Diz alguma coisa idiota, responda a isso, se mova, corra enquanto pode, vá para a maldita cabana e tome um porre, se atire nos braços dele, mas faça alguma coisa.

Nada, nenhum movimento, nenhuma palavra, só estou ali, de pé e imóvel enquanto o tigre enjaulado anda de um lado a outro marcando território, provando sua força e superioridade.

─Foi tão bem lá em baixo provando suas teorias ao Hershel, porque agora está muda?

─Porque... Porque eu sabia o que estava fazendo, agora eu não... Eu não sei lidar com isso, não estava nos meus planos, era só sobreviver, matar zumbis e ficar de pé.

─Acha que planejei isso? Não Abby, se quer saber meu plano era o mesmo, não aconteceu, e isso é o que temos, podemos lidar com isso e aprender, ou podemos fugir, pega sua mochila, deixa a prisão e se enfia na maldita cabana, não vou seguir você, ou fica e... a escolha é sua.

Ele dá um passo para se afastar de minhas coisas no chão, me aponta a mala, olho para ela, tudo que tenho está ali dentro, algumas peças de roupas velhas que juntei pelo caminho, talvez uma barra de chocolate, uma lanterna, mais nada, nenhum valor, nenhuma importância, é só a maldita sobrevivência, desvio meu olhar, encaro Daryl sem me mover.

Seus olhos que pareciam cheios de raiva suavizam quando ele afirma com um movimento de cabeça e caminha em minha direção, me envolve e beija, não um beijo gentil e delicado, um beijo ardente e cheio de significados, tudo que não consegue pôr em palavras e que não conseguiria responder de outro modo que não com meu corpo.

─Me disse para apenas deixar acontecer, então deixe! – Ele diz quando se afasta um instante.

─Ainda estou aqui. – Respondo e ele afirma antes de tomar meus lábios mais uma vez, as roupas vão ficando pelo chão enquanto vamos caminhando para a pequena cama entre beijos e gemidos, cada toque de Daryl me marca, queima, me faz viva.

Não tem palavras românticas, só entrega física, talvez elas nunca venham e posso aceitar isso, nunca achei que teria nem mesmo isso. Estamos na cama, misturados de um modo que não saberia quem é quem e isso é tanto para mim.

Quando o sinto dentro de mim tudo volta para seu lugar e a vida faz de novo ou pela primeira vez, sentido, nos movemos entre beijos e sussurros, palavras sem sentido, apenas vamos deixando que o desejo comande os movimentos e me sinto dele e gosto de me sentir assim.

E mais uma vez sinto o inferno se fechar e sou levada para um mundo onde se pode ser feliz, Daryl está comigo como ninguém nunca esteve e nossas mãos entrelaçadas são um símbolo disso.

Então ficamos ali, esperando a respiração se acalmar, os batimentos cardíacos vão voltando ao normal, nos olhamos em silencio, não quero fugir dele, não vou mais fazer isso e queria tranquiliza-lo, mas não consigo dizer.

Beijo Daryl, eu tomo a iniciativa, acho que me sinto leve e talvez feliz, não paro para investigar ou entender isso, desde que o vi não entendo metade das coisas que faço ou sinto.

Ele tem um quase sorriso no rosto quando nos afastamos um pouco.

─Mulher complicada.

─Olha quem fala! – Ele dá de ombros, depois se move e ficamos de frente um para o outro, apenas nos olhando – Como vai ser isso?

─Caçamos, matamos, dividimos a cama e... Não sei, deixamos acontecer.

─Um bom plano!

─Um começo ao menos.

─Me entendi com o Hershel, ficou do lado dele?

─Fiquei imparcial, apenas em alerta, sabe que foi ele quem venceu no final, não é?

─Beth e Sam estão namorando com as bênçãos dele!

─O que mostra que no fim ele venceu! – Daryl sorri e tenho que concordar, mas ao menos disse o que pensava.

─Pode ser, era só o que eu queria mesmo.

─Vai passar os dias naquele banco? – Ele me pergunta e me sinto mais ridícula do que nunca, eu realmente passei o dia fugindo.

─Não. São muitos? Quer dizer não vi muita gente por ai.

─Enquanto estávamos fora eles organizaram as pessoas no bloco D e acho que estão com um pouco de receio ainda, não saíram muito de lá.

─Entendi, melhor dormir um pouco.

─Nem me lembro quando foi que dormi pela última vez, está certa, vamos dormir.

─Os dois aqui? – Decido confirmar, ele não gosta da pergunta, suspira de modo enfadonho, depois apenas fecha os olhos, sorrio já que ele não pode ver e como ele fecho meus olhos, deixo que o sono venha me dominar.

Espero que isso seja mesmo um começo, me sinto um pouco assustada, mas venci tanto, não vai ser diferente agora.

Notas finais
Beijos! Posto na quinta.