Hell Between Us
49 Capitulo 49 - O sistema
Notas iniciais
Pov – Abby
Abro os olhos e sinto uma dor lancinante na cabeça, fecho os olhos mais uma vez, respiro fundo tomando coragem para reabrir os olhos e reconhecer o ambiente.
Sinto cheiro de remédio e limpeza, além disso o silencio parece brutal, me concentro por um tempo, abro os olhos mais uma vez e tudo parece limpo e claro, me acostumo com a luz, me sento e encaro o ambiente. É um quarto de hospital, me sinto completamente confusa.
Investigo meu corpo, não tem nada errado comigo, apenas a dor de cabeça irritantemente constante.
O que aconteceu? Estava matando zumbis, policiais apareceram depois apaguei.
Matando zumbis? Zumbis e policiais ao mesmo tempo? Policiais? No meio do fim do mundo? Eu não posso estar num hospital, será que foi tudo um sonho?
Pulo da cama, Daryl Dixon não foi um sonho, não pode ter sido, meu coração salta fora do ritmo, ele é tudo que tenho, penso em nós dois, em tudo que vivemos e claro que não criei isso.
Caminho até a janela, meu coração se acalma no mesmo instante, vejo os prédios destruídos, a cidade morta, ainda é o fim do mundo. Daryl ainda existe, rio da felicidade que sinto ao descobrir que o mundo acabou.
Se o mundo acabou então o que faço num hospital? Caminho para a porta, forço o trinco, está trancado, olho em volta, nada das duas sais, visto roupas hospitalares. Nenhuma arma a minha volta, forço mais uma vez a porta.
Percebo movimentos do lado de fora e me afasto, o trinco gira e a porta se abre, um médico invade o quarto seguido de uma policial, então ainda existe alguma lei?
─Sou o doutor Stevens, essa é a policial Dawn. Este é o Hospital Grady, como se sente?
─Ótima? Como cheguei aqui?
─Policias encontraram você prestes a ser devorada, sofreu uma lesão na cabeça e eles te trouxeram.
─Isso não é verdade, eu estava lutando, não prestes a ser devorada, recebi uma pancada na cabeça.
─Volte a deitar, descanse mais hoje.
─Estou ótima, obrigada pelos cuidados, onde estão minhas armas e roupas? Quero ir embora.
─Para onde? – A policial pergunta.
─Não importa. Onde estão minhas roupas?
─Nos deu gastos sabia? Usamos soro, energia, remédios para dor, você nos deve.
A policial Dawn me avisa e fico encarando a mulher sem compreender o que afinal ela está tentando dizer.
─Como quer que pague, cartão de crédito ou dinheiro? – Pergunto enfrentando aquele olhar frio e superior.
─Trabalho, quero que pague com seu trabalho é claro.
─Que tipo de trabalho tem em mente? – Pergunto apenas por curiosidade, não vou ficar de modo algum.
─Tem conhecimentos médicos? – O doutor me questiona. O tempo todo que falo com eles procuro saídas, armas, ela tem uma pistola, mas uma luta corporal não faz sentido, não ainda.
─Não. E realmente não pretendo limpar seu chão.
─Sabe como é lá fora, aqui está segura, você fica até pagar o que deve, não decide que trabalho vai fazer, fará o que for preciso se quiser mesmo partir.
Decido que era melhor ser paciente, Daryl deveria estar assustado, achando que algo aconteceu, não pode imaginar que estou num lugar como esse, preciso usar a cabeça para sair daqui.
─Está certo, trabalho para vocês uns dias.
Aquilo era outra mentira, não posso me demorar, o rosto de Daryl volta a dançar em minha mente. Será que ele vai pensar que o deixei?
Não. Daryl sabe que o amo, ele não vai duvidar disso.
Dawn segue comigo me mostrando o hospital, tudo se resume a um andar que limparam, tem algumas portas trancadas, alguns poucos pacientes, uma enfermeira ou duas e policiais, vejo pelo menos quatro deles, chegamos ao refeitório.
─Pode comer, claro que vai pagar pela comida, afinal não é fácil conseguir recursos, nossos policiais dão duro lá fora para garantir a segurança e a comida dos doentes.
─Imagino. A questão é porque? – Pergunto quando deixávamos o refeitório, ela me encara.
─Como assim porque? Esse é nosso trabalho, um dia as coisas se acalmam, alguém vem nos resgatar e queremos manter esse lugar e as pessoas.
─Resgate? – Solto uma longa risada, ela não pode estar falando sério. – Já viveu lá fora? Não tem mais nada, não tem resgate.
Os olhos dela me assustam, o brilho amargo, a revolta.
─Verá!
─Definitivamente não verei, nem você.
─Quero que leve essas roupas para lavanderia, depois esfregue o chão do refeitório e pode ir dormir. Noah está na lavanderia e te mostrará o material de limpeza.
Eu ergo meu olhar, definitivamente essa mulher não sabe com quem está lidando, mas será bom ficar sozinha e encontrar minhas coisas além de um modo de deixar esse lugar.
Encontrar a tal lavanderia não é difícil, abro a porta e um rapaz negro ergue o olhar, me encara de modo simpático, sorrimos um para o outro, não que tenha qualquer simpatia por ele, não ainda, mas preciso de informações.
─Finalmente acordou.
─Finalmente? Como assim?
─Três dias dormindo. Estava curioso sobre você.
Três dias, as palavras ficam ecoando em meu cérebro, o que está passando pela cabeça de Daryl, Sam, Beth, Larissa, fico muda a mente trabalhando rápido, não posso me demorar a sair daqui.
─Algo errado?
─Tudo errado!
─Já conheceu tudo? Está trabalhando.
─Gosta daqui? É seguro?
─A segurança custa caro, um dia quando eles menos esperarem eu vou sair daqui.
Ele me diz firme, fico em dúvida se posso confiar em um garoto, mas olhar para ele me lembra Sam, a doçura dos olhos do meu irmão de fim de mundo, sinto falta dele, da prisão, da família que relutei em aceitar e que me faz tanta falta agora.
─Um dia? – Um dia é muito vago para mim, tenho pressa quero ver Daryl, sentir seu cheiro, meu coração se aperta. – Sabe como deixar esse lugar?
─Além da porta da frente? – Reviro os olhos. – Pelo poço do elevador, é a única maneira, as chaves ficam com a Dawn, podemos descer pelo poço, mas lá em baixo está cheio de zumbis, passar por eles será um problema.
─Zumbis não são problema, como consigo a chave?
─Temos que invadir a sala da Dawn, não sei como fazer isso, mas sei qual é a chave e onde fica, vai tentar?
─Vou embora garoto, pode apostar, pode ir comigo ou pode ficar.
─Pareço fraco, mas sou forte, sou muito forte, eles me subestimam, olham para mim e acham que não aguento lá fora, mas eu vou para casa, temos muros lá, minha mãe e meus irmãos estão lá.
─Entendo. Onde fica?
─Richmond.
─Longe. Possível, mas se quiser posso te levar comigo, tenho um lugar seguro, com grades, gente boa e justa, pode entrar e sair quando quiser.
─Não, eu quero ir para casa.
─Quem sabe me mostra a sala e como devo fazer isso, qual a chave e vamos de uma vez.
─Não é assim tão simples. Temos seguranças por aí, são policiais. Sabem como nos manter aqui.
─Isso não se aplica a mim garoto.
─Noah, e você?
─Abby. Onde encontro minhas espadas, não vou sem elas.
─Na sala da Dawn, presa no mesmo armário. É o que acho, eles ficaram bem impressionados com suas armas.
─Tenho mais trabalho, depois continuamos essa conversa, quem sabe vem no meu quarto á noite?
─Se conseguir eu vou. – Caminho para a saída, ele me para segurando meu braço. – Cuidado. – Seu olhar é firme. – Dawn pode acabar com você, ela é perigosa, e os policiais... Você é jovem e bonita, cuidado com eles.
─Entendo... Nenhum homem além do meu me toca.
Deixo a sala, mas o aviso é um bom modo de me deixar em alerta. Sigo meu caminho, faço a limpeza que me foi determinada, o tempo todo observo o número de policiais o vai e vem deles.
Noto o quanto são soberbos, completamente donos da situação, também percebo certo medo nos outros funcionários e pacientes, começo a compreender como as coisas funcionam.
Quando caminho para meu quarto Dawn me para, seu olhar superior me irrita, odeio esse uniforme, o cassetete e o jeito de quem comanda. O reformatório fica vivo dentro de mim.
─Onde vai?
─Para cama, acabei meu trabalho.
─Amanhã esteja cedo na sala do doutor, ele vai te dar novas instruções.
─Porque me pegaram?
─Quanto mais gente viva mais chances de um recomeço. Salvamos as pessoas, esse é nosso trabalho.
─Não fui salva, fui sequestrada, me acertaram.
─Acha que meus homens ficam pelas ruas sequestrando pessoas? Devia mostrar gratidão para quem te acolheu, deu teto, comida e segurança.
─Não me faltava absolutamente nada disso. Não são mais do que bandidos rasos para mim.
Os olhos dela cintilam de ódio, ela me encara fria, aperta meu braço e controlo a vontade de mostrar a ela quem eu sou.
─Vá para cama e pare de incitar a raiva por meu hospital, se continuar com esse comportamento talvez tenha problemas.
Ela me empurra e preciso de todo auto controle que tenho para não dar uma lição a essa mulher. Sigo meu caminho, encontro um dos policiais saindo de um dos quartos, ele arrumava as roupas, olho para dentro e uma mulher de longos cabelos e olhos tristes me encara, depois como se eu fosse a razão de sua dor ela bate a porta.
Entro em meu quarto, um policial estava de pé, ele olhava a paisagem morta da janela e se vira quando escuta meus passos, paro em alerta.
─Abby. – Ele me sorri, dá uns passos em minha direção. – Vim saber como está, acho que sabe que fui eu quem te salvou.
─Sequestrou na verdade. – Dou uns passos em direção a parede quando ele caminha decidido em minha direção.
─Preferia estar morta?
─Preferia estar livre.
─E está livre, assim que pagar pela estadia pode ir, mas talvez prefira ficar.
Sinto a parede impedir meus passos, me encosto nela, o homem fica a milímetros de mim. Os olhos nojentos não escondem a lascívia. Sua mão vem para minha cintura.
Nunca mais. Ninguém me toca sem que eu queira, e só quero Daryl, um enjoo me domina, o passado me invade de um modo que me deixa cega, é como encarar mais uma vez Selena e sua gangue.
─Afaste-se.
─E porque eu faria isso? – Ele pergunta quando sua outra mão toca minha nuca. ─ Fiquei maluco por você quando te vi com as espadas.
Sem pensar nas consequências, eu me defendo, minhas mãos vão para seus ombros e meu joelho acerto o meio de suas pernas, enquanto confuso e dominado pela dor ele se dobra eu o empurro, ele cai se contorcendo.
─Vadia! – Ele grita, me mantenho de pé, os pés firmes no chão, os olhos fixos nele. O homem toca a arma, chuto sua mão, ele geme e em seguida se põe de pé, a arma sai do coldre e prefiro morrer a ser tocada, ele me aponta a arma, o cano vem para minha têmpora. – Eu devia matar você agora mesmo, mas não vou, não antes de conhecer seu corpo, vou te dar um tempo.
─Tente tocar em mim e mato você, então use essa arma de uma vez.
─Se acha que me assusta está errada, isso me excita apenas.
Ele deixa o quarto, me dou conta do quanto tremia, ando de um lado para outro, meu coração disparado, as lagrimas rolando livremente. Sinto a rainha do apocalipse me dominar, nada nem ninguém vai me impedir de deixar esse lugar e voltar para Daryl.
Eu não sou uma garotinha perdida, não estou no reformatório, Selena está morta, eu a matei, eu fiz isso para me livrar do passado e ele não vai me dominar mais uma vez.
Não consigo relaxar, não durmo um só minuto, fico em alerta, oscilando entre pensar em Daryl revivendo nossos momentos e planejar minha fuga.
Assim que amanhece vou ao encontro do doutor Stevens, um dia aqui e entendi completamente qual o esquema do lugar. Não tem nada de diferente do reformatório.
É o poder do mais forte escravizando o mais fraco. De novo a cena de um policial deixando um dos quartos se repete diante dos meus olhos, é inaceitável que Dawn não faça nada.
O médico estava atrás de uma mesa, a sala destoava completamente da organização do restante do hospital, observo o ambiente, ao lado de sua mesa uma obra de arte, encaro o quadro um longo momento.
─Caravaggio.
─Conhece arte?
─É um belo quadro, gosto dos traços dele. Barroco.
─A traição de Pedro. – O médico diz desviando o olhar, a culpa claramente o atingindo.
─Porque não impede o que acontece aqui?
─Eu? O que um médico pode fazer?
─Tem muitos homens e mulheres capazes de comandar grupos de busca e matar zumbis, mas você é um médico e isso é raro, eles precisam de você, não o contrário.
─É seguro aqui, limpo, organizado, as pessoas tem comida, estão vivas, tudo tem um preço.
─Isso é bem nojento, pensa mesmo assim? É por isso que encara esse quadro com tanta vergonha? Porque é apenas o seu reflexo?
Ele me olha espantado, eu caminho pela sala, ele apenas observa entediado.
─Não posso fazer nada Abby, ninguém pode, eles são uma estrutura e é essa estrutura que mantêm esse lugar. O sistema!
─Dorme bem com isso? Hipócrates foi esquecido?
─Fiz aquele juramente num tempo que o mundo ainda existia, não é mais o caso.
─Podia assumir as coisas aqui, mas é apenas um covarde idiota, não está nas mãos deles, eles estão nas suas mãos.
─Aceito o que tenho, faça o mesmo, as ruas não servem para nenhum de nós.
Dou as costas a ele e deixo a sala, encontro Noah, ele encara os dois lados, estamos sozinhos.
─Pode ser hoje. Precisa entrar na sala da Dawn, pegar a chave e podemos ir.
─Minhas roupas?
─Deixo sobre sua cama, já preparei uma boa corda com lençóis.
─Me encontra no meu quarto.
Caminho para sala de Dawn, está vazia como Noah disse que estaria, abro a gaveta, remexo e encontro a chave que Noah me indicou, depois vou para o armário onde deveriam estar minhas espadas, está trancado e arrombo.
Lá estão elas, de pé, uma ao lado da outra, olho em volta encontro um casaco sobre uma cadeira, enrolo as espadas nele, depois fecho a porta do armário, me viro e lá está o infeliz do policial que estupidamente acho que poderia me tocar.
Pelo modo como me encara já sei que não desistiu da ideia. Ele me sorri, caminha em minha direção de modo incisivo, deixo as espadas sobre a mesa quando ele me encara tocando minha cintura.
─Dawn vai odiar saber que esteve aqui, não sei se vai te perdoar.
─Não quero ser perdoada.
─Posso te ajudar, é só ser boazinha comigo que ela nunca vai saber. – Ele força seu corpo contra o meu, afunda o rosto em meu pescoço e com uma mão procuro a espada por sobre a mesa, num movimento firme toco o metal gelado, pego minha espada e ao mesmo tempo que o empurro passo a lamina em seu pescoço, o sangue jorra e ele cai.
─Isso é ser boazinha o bastante para você canalha? – Os olhos se fecham e a cabeça tomba para o lado. Pego sua arma e coloco na cintura.
Passo por cima do corpo caminho até a porta, me volto e acerto a espada em sua testa, cravo com todo ódio que acumulei por ter achado que podia me tocar.
Então deixo a sala, caminho para meu quarto, o que quer que aquela cama hospitalar signifique, minhas roupas estão sob a cama, visto apresada, calço minhas botas e coloco as espadas em x nas costas, respiro fundo e Noah surge na porta.
─Temos que ir.
─Matei Gordman. – Os olhos de Noah se arregalam, ele me encara assustado.
─Então agora não tem outro jeito, temos que ir o mais rápido possível, não vai viver depois disso.
Caminho ao lado dele, minha mente o tempo todo trabalhando, esse lugar é um inferno, muito pior que as ruas, não precisava ser. Se esse esquema de policiais não existisse as coisas podiam ser diferentes.
Abro a porta e caminhamos em direção ao poço. Olho para baixo quando chegamos a beira, o cheiro de morte invade minhas narinas, corpos dilacerados e restos mortais se acumulavam em uma pilha.
Penso nos abusos que aquelas mulheres sofreram, que vão continuar sofrendo, penso em encarar minha família deixando para trás toda aquela injustiça. Não posso ignorar aquilo.
─Todos os policiais fazem parte desse sistema de abuso e escravidão?
Noah me encara um tanto confuso, olha de novo para baixo, depois para mim mais uma vez.
─Não, quatro deles são confiáveis, mas estão lá fora agora, não vão nos ajudar.
Puxo a arma de Gordman que estava em minha cintura, entrego a Noah, ele pega a arma da minha mão sem entender.
─Pegue, se quer tentar vá em frente, desça pelo elevador.
─E você? O que está fazendo? Não vem?
Puxo minhas duas espadas ao mesmo tempo.
─Eu sou Abby Coleman, não saio pelos fundos, vou destruir o sistema, matar Dawn e sair pela porta da frente.
Caminho de volta para dentro do hospital, não vou dar as costas a essas mulheres como fizeram comigo por toda uma vida. Daryl vai sentir orgulho de mim, nesse momento enquanto caminho em direção ao inimigo me sinto realmente a rainha do apocalipse.
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