Hell Between Us
43 Capitulo 43 - Marcando território
Notas iniciais
Pov – Abby
Sabia que essa história de ficar parando no meio do nada acabaria dando nisso, puxo a pistola presa a perna, não é hora para sais, elas funcionam melhor com os mortos.
─Fica aqui, eu desço. – Daryl diz abrindo a porta com a besta na mão.
─Posso me defender! – Reclamo abrindo minha porta.
─Desculpe rainha! – Ele desdenha quando descia e apontava a besta para os dois homens que desciam do carro a nossa frente.
─Desculpado machista! – Rebato apontando a pistola para os caras.
Um deles devia ter a idade de Sam, era apenas um rapaz e não portava arma de fogo, só uma faca na cintura, o outro era mais velho, trinta e poucos anos, tinha uma automática na mão, mas mantinha abaixada.
─Precisam de ajuda? – O mais jovem pergunta. – Só paramos porque achamos que precisavam de ajuda, afinal ninguém é idiota para ficar parado na estrada do nada, só pode ser problema.
Prendo o riso, nós somos idiotas o bastante para parar no meio do nada para trocar beijos, Daryl ao contrário não disfarça a irritação, afinal acaba de ser chamado de idiota.
─Estão perdidos? Sem combustível? O carro quebrou?
─Cala a boca Zack! – O cara mais velho diz impaciente.
─É Zack, calar a boca é boa ideia. – Daryl continua de péssimo humor, o garoto nos chamou de idiotas, não vai ficar impune. – Não precisamos de nada, estávamos... Não importa, podem seguir seu caminho.
─Beleza! – O homem mantinha sua arma abaixada, já eu e Daryl mantínhamos os dois sob nossas miras.
─Esperem. – O garoto que agora sabemos se chama Zack, se pronuncia mais uma vez. – Estamos só nós dois na estrada, quatro é melhor que dois, porque não nos apresentamos e quem sabe seguimos juntos?
Eu e Daryl trocamos um olhar, depois olhamos para eles, minha pistola ainda com o homem armado na mira, Daryl baixa a besta.
─São só vocês dois?
─Sim. – Eles respondem juntos. – Deixamos um acampamento atacado, há três semanas, depois disso não encontramos mais nada. Sou Cliff, este é Zack, se quiserem nos acompanhar não estamos interessados em matar, roubar ou qualquer coisa assim, só queremos sobreviver.
─O que acha? – Daryl me pergunta, olho para os dois, depois de volta para Daryl.
─Dois a mais não fará diferença, não acho que seja assim tão arriscado.
─Está certo. – Daryl diz me olhando firme. Gosto de saber que minha opinião seja importante para ele. ─Já mataram?
─Você está brincando? Uns cinquenta deles, sei lá, talvez mais, quem sobrevive sem acerta-los? – Zack pergunta.
─Pessoas? – Daryl questiona sem muita paciência.
─Sim. Vou ser honesto, matei um homem, não queria, ele estava no grupo conosco desde o começo, um dia simplesmente enlouqueceu, ficou fora de controle, não tive escolha. – Cliff responde sem sinal de arrependimento ou culpa, Daryl fica pensativo, gosto da honestidade do homem e do fato de saber que ele é capaz de matar se for preciso.
─Temos um lugar seguro, podem vir conosco, serão bem-vindos, temos um grupo bom e todos fazem algo de útil. ─Daryl convida sem demonstrar muito interesse.
─Por mim tudo bem! – Zack diz apressado.
─Calma Zack, as coisas não são assim. – O Homem comenta cauteloso.
─Vamos Daryl, não vamos ficar feito idiotas na estrada, nem precisamos de ninguém, se não querem ir fiquem por ai. Dane-se.
Meu braço já estava doendo de apontar a porcaria da arma e estávamos oferecendo abrigo, os caras deviam agradecer e não questionar.
─Desculpe moça, mas duvido que aceitasse a generosidade de estranhos num mundo como esse sem questionar. Só quero saber se é seguro, quantos são, nada além disso. Pode ser uma emboscada. ─Não é fácil admitir que o cara tem razão.
─Eu podia ter atirado nos dois umas dez vezes nos últimos cindo minutos, não é uma emboscada, somos muitos, somos fortes e o lugar é seguro, mais só se decidir seguir conosco verá, do contrário, boa viagem.
Detesto aquele lenga-lenga. Agora é a vez dos dois se encararem, Zack parecia bem mais inclinado a aceitar, o outro estava desconfiado, por fim a arma de Cliff volta para o coldre.
─Vamos com vocês.
─Ok, é só seguir o carro.
Eles entram no carro, me viro para fazer o mesmo e um zumbi se aproxima, puxo a espada, apenas uma Sai, enfio na cabeça do infeliz, uma única e firme estocada que o desmonta em segundos, me sento no banco ao lado de Daryl.
─Vamos ver se foi boa ideia em breve. – Ele diz decidido quando o carro ganha velocidade.
─Não te acho um machista! – Digo uns minutos depois.
Daryl me olha de lado, volta a atenção a estrada. Guarda o riso, guarda o medo, guarda tudo, a vida o ensinou a chorar sem lagrimas, a viver para dentro, sou fechada, mas ele não mostra nada, é só aquele silencio que para mim é sempre tão eloquente, não sei se os outros podem ver, eu posso. Somos feitos do mesmo material.
Tem um mundo de emoções dentro dele, o tempo todo em conflito, ele tem tanto medo de sentir quanto eu.
─Eu sei que não acha, mas sim, quis te proteger, é meu jeito. E te acho a rainha do apocalipse.
─Não perde a chance. – Digo desviando meus olhos em direção a estrada a frente, o carro nos seguia ainda.
─A rainha do apocalipse e a rainha da moda.
─Usaria aquela coisa? – Pergunto rindo, ele dá de ombros. – Mentiroso, morreria congelado, tenho certeza!
Daryl Dixon nunca usaria aquilo, fingiria estar no verão das ilhas gregas, me encosto no banco do carro, olho para a paisagem irritantemente verde. Sonhei com ele, aproveito aquele momento silencioso para tentar me lembrar o que afinal sonhei.
Imagens claras se formam na minha mente, nós dois trocando beijos, as mãos dele afastando minhas roupas enquanto tentávamos chegar a pequena cama que dividíamos, ele tinha dito, eu te amo, não é algo que ele fica repetindo toda hora.
Olho para ele com olhos arregalados, tínhamos estado nos braços um do outro uns minutos antes de pegar no sono, mesmo assim não tinha sido o bastante, eu sonhei com mais.
─Lembrou? – Ele pergunta me olhando rapidamente, logo desvia o olhar.
─Ahn?
─Do sonho, você lembrou?
─Sim! – Respondo meio hipnotizada, me arrependo no mesmo instante, que mania que tenho de falar demais. ─Como sabe? – Ele lê minha mente. Daryl da de ombros em mais uma de suas evasivas.
─O que sonhou? – Me pergunta sem se explicar.
A prisão surge e adoro vê-la. Ele fica olhando de mim para a estrada em busca de uma resposta.
─Sonhei com... Com coisas! – Uso sua resposta, isso o impede de insistir.
Vejo a pequena correria para nos abrir o portão, Daryl estaciona, Rick está a nossa espera, Maggie e Glenn também estão.
O carro para logo atrás de nós, tem aquela pequena tensão de receber estranhos, não são os primeiros, Carl se afasta quando eles chegam, acho que ele é um pouco como eu, avesso a mudanças e novos membros, o menino perdeu muito, é de se esperar tal reação.
Me afasto um pouco enquanto Daryl vai contando ao grupo como encontrou Cliff e Zack. Procuro por Sam e Larissa, os dois sempre correm quando chego, não vejo nenhum dos dois, nem Beth e só podem estar juntos.
─As sais são muito úteis, você sabe usa-las bem? – Cliff se aproxima enquanto esperava a conversa de Daryl e o grupo uns metros de nós.
─Não andaria com elas se não soubesse.
─Brava! – Ele comenta rindo. – Gosto de armas brancas, não sei usar, mas quando garoto treinei caratê, também não sei mais nada sobre isso, mas gostava de ver os mais velhos treinando com essas armas. – Ele me aponta.
─São ótimas para zumbis, rápidas. – Respondo com um tom mais brando, quem sabe aprendo a conviver com seres humanos? Não é isso que cobram de mim?
─Eu tinha encomendado um par delas pela internet quando o mundo acabou. – Ele ri. – Meu objetivo era pendura-las na parede, o mundo acabou antes. Minha esposa era oriental.
─Entendo. – Não encontro nada para dizer, meus olhos encontram Daryl e sua cara fechada, não entendo o motivo, será que o grupo não gostou de termos trazido pessoas?
─Eu a perdi há três meses. Sempre achei que quando acontecesse eu simplesmente me entregaria, não fiz isso. – Olho para ele e o homem parece triste, não me sinto muito à vontade ali, diante de sua momentânea fraqueza, de ser escolhida para ouvi-lo desabafar. – Tentei me aproximar quando ela foi cercada, não consegui, estranhamente eu fugi, corri, tenho corrido desde então.
─Eu sinto muito, as pessoas perderam muito depois que o mundo acabou.
─Sim. Esse lugar é incrível! – Ele diz olhando a nossa volta e mudando de assunto, fico grata.
─Cliff! – Zack o chama, ele acena em despedida, não paro para olhar o que afinal está acontecendo na rodinha, deve ser a entrevista de sempre.
Sigo para minha cela, quem sabe encontro Sam e Larissa pelo caminho, não vejo nenhum dos dois, decido deixar as coisas na cela e ir em busca dos dois.
Retiro as espadas das costas, apoio na parede ao lado da mochila, prendo os cabelos num coque e quando me viro Daryl me olhava da porta, ainda tinha a mesma expressão grave.
─O que aconteceu?
─Nada.
─Brigou com alguém? Reclamaram por que trouxemos os dois?
─Já disse, não aconteceu nada.
─Certo! – Ele não quer falar, isso está claro, mas quem sabe posso anima-lo um pouco, cuidar de fazê-lo se sentir melhor como as namoradas, fazem? Sorrio tentando pensar em algo.
─Quando vamos sair de moto? – Ele gosta de andar de moto e não consigo pensar em nada melhor para dizer, seu olhar irritado me assunta um pouco.
─Quando for necessário.
─Não achei o Sam, nem a Larissa, achei que estariam a nossa espera. – Divido minha curiosidade com ele.
─Sabe o que é estranho? Você não faz nenhum esforço para conviver com a família, mas foi bem gentil com o tal Cliff, ficaram amigos rápido.
─Amigos? Só por conta de meia dúzia de palavras que troquei com ele porque ele se aproximou? – Caramba, aquilo magoava.
─Descobriram assuntos em comum?
─Se quer saber, ele estava falando da morte da esposa.
Por que raios estou me explicando?
─Um bom jeito de deixar claro que está livre.
Certo, agora ele me irritou, ao mesmo tempo me fez ver como minha implicância com Carol devia irrita-lo.
─Mas eu não estou! – Digo firme, antes de decidir que o melhor era procurar logo Sam e Larissa.
Caminho em direção a saída pisando duro, com vontade de chorar de raiva feito a maldita princesinha republicana que odeio ser, ele pega meu braço com força me impedindo de sair, acabo em seus braços, meu rosto a centímetros do dele.
─Não você não está. – Daryl me beija.
Sempre reconheço seus beijos, o que eles querem me dizer e esse é possessivo, é o tigre marcando território, mostrando quem manda e eu, o cervo indefeso, mais por escolha que natureza, me rendo.
Passo meus braços por seus ombros, colo meu corpo ao dele, aproveito aquele segundo como se fosse o único, minha respiração descompassa, sempre acontece, pertenço a esse homem, como quis que fosse desde sempre, sua mão escorrega para dentro da minha blusa em busca de sentir minha pele, gemo em seus lábios sem qualquer resistência.
Daryl se afasta, seus olhos me desejam e vejo o quanto, sua respiração não menos acelerada que a minha, aquilo é um delicioso tormento.
─Foi com isso que sonhou? – Ele pergunta, afirmo, incapaz de mentir, seus olhos sorriem, eles sempre sorriem mais que seus lábios, e isso é algo que amo nele, o que seus olhos não conseguem esconder. – Não vamos terminar sempre assim, vamos ser como os outros.
Não quero ser como os outros, quero terminar sempre na cama e que se dane o que vão pensar de mim, sou fraca e daí? Aquele é o homem que amo e me despertou desejos que nem conhecia.
─Eu... – Alguém me devolva a capacidade de articular uma frase digna de um animal racional.
─Vem rainha da moda, vamos achar seus garotos.
Ele me puxa pela mão, estávamos quase no fim da escada quando ele solta meus dedos entrelaçados aos seus. Vamos ser como os outros, mas nem tanto, mãos dadas é demais para Daryl Dixon.
─Viu sua irmã? – Daryl pergunta a Maggie quando a encontramos no refeitório.
Ela nos olha, demora uns segundos para se conter, seu olhar brinca, desvio meus olhos, claro, estávamos uns minutos atrás agarrados na cela, qualquer idiota notaria.
─Nesse segundo ela está lá fora.
Seguimos para o pátio em silencio até nos afastarmos dela.
─Devíamos ter ficado na cela. – Resmungo, Daryl me olha um tanto surpreso. – É sério, se vão pensar que estávamos... Era melhor ter estado mesmo.
Daryl ri, se diverte com minha confusão, quando não o divirto afinal, e quando foi que virei motivo de diversão? Eu era a mulher distante e indiferente, agora só causo risos no idiota.
─Se faz tanta questão. – Ele me segura pela cintura, estamos nos degraus para chegar no pátio, eu o olho indecisa.
─X! – A voz de Sam decide por mim, Daryl revira os olhos decepcionado, me solta e nos viramos para ver Sam sorrindo.
─Onde estava garoto? – Começo a perguntar mesmo antes de chegar até ele.
─Sai um pouquinho e já fica com saudade de mim. – Ele me abraça, retribuo. – Eu e a Beth estávamos atrás da Larissa, ela saiu para dar umas voltas pela prisão, disse que queria conhecer melhor o lugar, mas a gente não achou ela ainda.
Ele parece tranquilo, meus olhos se arregalam um pouco, será que algo aconteceu? Larissa não sairia lá fora sozinha, como não acharam ela?
─Olharam em tudo? – Me tom preocupado os alerta, instintivamente dou um passo em direção a Daryl, busco proteção, sua mão repousa nas minhas costas em sinal de apoio.
─Calma Abby, onde ela iria?
─Beth... –
─X, a garota deve ter só se distraído por ai.
─Onde é por ai Sam? – Pergunto irritada, ergo os braços em busca de sacar minhas Sais, estão na cela, dou as costas a eles, meu coração saltado, apresso o passo, a mente começa a criar monstros assustadores, penso nas tumbas, nas minhas horas de terror lá em baixo, na promessa que fiz a ela de que não estava sozinha, na minha divida com seu pai, ele me deu uma chance, ninguém nunca tinha feito isso.
Corro, subo as escadas de dois em dois degraus, quase atropelo Carol que descia e se espanta com minha pressa, não me desculpo, nunca fui boa nisso e não me esforçaria por ela, pego minhas espadas e a besta de Daryl, quando deixava a cela ele caminhava para mim, ergue o braço pedindo a besta, atiro para ele que se vira e desce na minha frente, encontramos Sam e Beth de olhos arregalados no refeitório, agora Rick está lá, e Carl.
─Onde procuraram?
─Em todos os lugares. – Sam responde. – Todos que se pode andar.
─Ela não iria nas tumbas, todas as entradas de onde não foi limpo estão trancadas, minha chave está comigo.
Rick avisa, Daryl toca seu molho de chaves na cintura, o barulho nos comunica que as dele estão com ele também.
─Ótimo, isso reduz o perímetro.
Aviso, já procuraram nos blocos, as tumbas estão sem acesso, só resta...
─Avisaram ela para não ir no prédio da administração? – Pergunto com muito medo da resposta, não limpamos aquele lugar por pura falta de tempo, sabemos que tem uma saída para os fundos da prisão e que vez por outra zumbis entram por lá.
Olhos arregalados respondem minha pergunta, meu coração para de bater um segundo, para depois retornar num salto. Eu devia ter feito isso, não quero ser responsável por ela. Não quero ser responsável por ninguém, não quero me importar.
─Vamos de uma vez! – Daryl diz me tocando de leve no ombro, sai na frente de todos, eu o sigo com as espadas em punho.
─Fica aqui Carl! – Escuto a voz de Rick um pouco atrás de mim e Daryl.
Pov –Larissa
Meu pai estava completamente errado sobre Abby, ela convive muito bem com pessoas, do jeito dela é claro, reservado, silencioso, mas cuida de mim e achei que estava sozinha, tive medo de nunca mais me sentir próxima de outro ser humano.
Mas me sinto próxima a ela e Daryl, acho bonito vê-los juntos, o jeito que se olham, sorrio caminhando pelo bloco D. Sam disse que podia andar por ai, me mandou ter cuidado.
O bloco é quase igual ao outro, refeitório e celas, vou andando por ele, vejo pessoas conversando nas celas, gente deitada, sentada, lendo, são muitas pessoas.
Deixo o bloco, o trabalho que esse grupo faz é lindo e importante, podiam estar preocupados em se proteger, mas não, eles aceitam pessoas, alimentam, protegem, não pedem nada em troca e por isso são especiais.
Olho para a torre, Tyreese está lá e acho melhor não subir, dizem que é um cara legal, mas é tão grande que me dá medo.
Passo pelo bloco A, mas não me animo para entrar, deve ser como o bloco C e o bloco D, sigo passeando pelo pátio, minha faca na cintura, nunca mais precisei usa-la, gosto da proteção, mas queria ser mais forte, forte como Abby e Daryl.
Paro nas grades olhando os monstros caminharem em volta da prisão, feios, sujos, famintos, devoradores de sonhos, os meus de ser uma lutadora, de ir para universidade, de viajar o mundo, morar sozinha e viver uma linda e conturbada história de amor.
Os sonhos de todas as adolescentes do planeta. Carl passava ao longe carregando a irmã, era um menino bem legal, um pouco mais novo, mas nem parecia, sempre conversávamos.
O pai quer que ele seja diferente, que conviva com os outros meninos e meninas da prisão, ele não consegue muito. Sam e Beth são muito legais comigo, acho que um dia Sam será como um irmão mais velho, quero ficar com ele e Abby e fazer parte daquele clã.
Suspiro, não gosto de ser meio inútil, queria ser igual ao resto e achar algo importante para fazer, mas só ando de um lado para outro, penduro roupas no varal para ajudar senhoras, abro latas, lavo pratos, olho as crianças quando estão correndo pelo pátio, nada além disso.
Continuo caminhando sem destino, uns metros depois vejo mais uma construção, essa é um pouco diferente e me desperta curiosidade.
“Administração. Proibida a entrada de internos sem autorização”
A placa em uma porta me chama atenção, giro o trinco e a porta se abre, interessante, passo para o lado de dentro, encosto a porta logo atrás de mim, ela faz um ranger assustador, sorrio depois de um arrepio digno de filmes de terror com meus irmãos em noites de halloween, o sorriso se entristece ao me dar conta que os perdi.
Tem papéis espalhados por todos os lados, foi mesmo um pânico deixar aquele lugar. Será que todos conseguiram? Provavelmente não.
Vou andando pelo corredor silencioso, as portas de madeira, o piso, as paredes pintadas, tudo tão diferente do cinza úmido das celas, não sei porque eles não decidiram morar aqui, limpo e arrumado lembraria muito mais um lar do que as celas.
Abro uma porta, talvez o escritório do diretor, penso ao ver a mesa de madeira e a cadeira confortável, Hershel podia fazer desse lugar seu consultório, quem sabe falo com eles?
Sigo até a janela curiosa sobre a paisagem do lado de fora, provavelmente pinheiros e mais pinheiros, é só o que se vê nos arredores da prisão.
Me estico um pouco para tentar olhar e então escuto os gemidos, passos arrastados, meu coração dispara num segundo de incerteza, toco a faca na cintura, puxo me virando apressada, corro em direção a porta, quero deixar aquele lugar, ou ao menos me fechar lá dentro.
É tarde quando chego a porta o primeiro zumbi já entrava, não sou indefesa, não sou, tento me convencer quando meu pé direito crava em seu peito o chutando para longe, ele cai, mas então outro se precipita, acerto minha faca, ela fica presa em sua testa e vai ao chão junto com ele.
Reprimo um grito de pânico quando me vejo sozinha, tento me abaixar para pegar minha faca de volta, sinto a sombra de mais um deles, com o pé direito dou uma rasteira no infeliz, como aprendi nos anos de aulas com meu pai, ele sobe uns centímetros e depois cai com um estrondo, ergo meu olhar, tem dois vindo de um corredor, um mais próximo.
Só matei um e os dois do chão se arrastam em minha direção, mãos tentam alcançar meus pés, estamos na porta da sala e sem alternativa volto para dentro, empurro a porta, braços e cabeças se esgueirando pelo chão me impedem de fechar.
Corro para longe, olho em volta, as janelas têm grades, a mesa, penso quando eles já entravam na sala, empurro a cadeira que estava atrás da mesa, as rodinhas dão rapidez a ela que bate em um zumbi, ele se enrosca no obstáculo, cai. Puxo a mesa para a parede. Me encolho em baixo dela me fechando em um cubículo na quina da parede.
Pés sombreavam no vão entre a madeira e o chão, me encolho num canto espremida, os gemidos me apavorando, mãos arranhando a madeira me contando sobre até onde aquela fome pode ir, uma mão tenta me alcançar por baixo, me dobro mais sem armas, meu braço arranhando pela quina da madeira sangra um pouco, o cheio os convida.
Quanto tempo até alguém sentir minha falta e me procurar? Será que alguém vai sentir minha falta? Abby e Daryl talvez sentissem, mas saíram.
A mesa trepida, três pares de pés, logo vão conseguir arrastar a mesa, choro em um pequeno ataque de covardia. Não quero morrer assim, não posso, eu sobrevivi a toda minha família, achei um lugar, não posso morrer porque estava entediada, é estúpido, injusto.
Tento conter o choro, segurar a mesa sem que eles me alcancem a mão, não posso aguentar muito. Não sei quantos são, o que pode acontecer se empurrar a mesa e tentar correr, se for mordida, arranhada, melhor me encolher. As lagrimas molham meu rosto, reprimo soluços e só penso que Abby e Daryl não estão aqui para me salvar.
Escuto vozes, solas de borracha de encontro ao piso e seus sons característicos.
─Larissa! – Abby, reconheço a voz, meu coração se aperta, ela não pode se ferir por mim.
─Abby! Daryl! Socorro! – Não consigo me conter, minha voz os agita ainda mais, a mesa balança forte, o que antes era apenas uma mão tateando é agora um braço todo, com unhas tentando alcançar meu tênis. – Socorro.
Baques surdos, metal se chocando com ossos, gosma se espalhando, reconheço todos esses sons, são de luta, eles estão aqui, não sei quantos, nem contra quantos inimigos, mas estão e agradeço.
O braço que me torturava em sua caçada cega para de se mover, um silencio de segundos se faz e então a mesa é jogada para longe de mim.
Daryl, Abby e Rick me olhavam, as respirações alteradas pelo cansaço, Daryl me puxa pelo braço me colocando de pé. Glenn, Maggie e Sasha aparecem correndo.
─Fechamos a passagem, está tudo limpo.
Glenn avisa, todos me olhando, não sei se bravos, felizes ou indiferentes, só sei que devo mais uma vez minha vida a essas pessoas, que de algum jeito eu pertenço a eles, que são minha família e que posso morrer por qualquer um deles e me sentiria orgulhosa.
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