Hell Between Us
7 Capítulo 7 - Pequena Lutadora
Notas iniciais
Pov – Daryl
Morta, Lori está morta, T-dog e Carol também, três num único dia, nossa família, o bebê chora desesperado, tão pequena, no começo achei aquela história de bebê a coisa mais absurda do mundo no meio daquela merda toda, uma irresponsabilidade para ser gentil e não sou gentil, mas depois me acostumei com a ideia.
Os meses foram passando e todos nos envolvemos na aventura de manter Lori e aquele bebê, mas o apocalipse não faz por menos, quando uma merda acontece é sempre grande.
Rick está ali, paralisado, tentando entender o que se passa, fora de si, o bebê chora alto, Carl está perdido, essa droga nunca para de ferrar com a gente.
─Deixe-me ver a criança! – Hershel pede e Carl se aproxima com o bebê nos braços, nos aproximamos todos, ninguém fica imune a algo como um recém-nascido chorando sem parar, nem mesmo Abby e seu coração de gelo.
─Vocês têm o que dar para ele comer? – Ela pergunta sem chegar muito perto da criança.
─Como vamos alimenta-lo? – Eu continuo me juntando a família, Hershel abre o tecido que envolve a criança, dá uma olhada rápida enquanto o bebê ainda chora e Rick se mantêm paralisado completamente desconectado.
─A boa noticia é que ela parece bem, mas precisamos de leite em pó, ou ela não vai resistir.
Uma menininha, uma linda menininha com fome, não passei fome todos esses meses para alimentar Lori e agora perder o bebê, posso caçar leite, se fosse um cervo seria mais o meu estilo, mas posso ir em todos os lugares daquela porra de lugar esquecido por Deus e achar a comida.
─Eu vou, posso fazer isso, acho leite para a criança, não tem problema! – Abby se oferece e até estranho, ela nunca quer fazer parte de nada, está sempre à parte a agora quer caçar comida para a pequena.
─Deixa comigo, não vamos perder mais ninguém, principalmente ela, eu vou atrás.
Começo a arrumar a besta nas costas, posso fazer isso, agora todo mundo quer ir e quanto mais gente melhor, Maggie quer fazer por Lori, Glenn não quer deixar Maggie sozinha e a prisão precisa de proteção, Rick não está em condição de cuidar de nada.
─Vocês dois. – Me dirijo a Oscar e Axel, cuidem dos portões, não deixem juntar muitos, quem vai, vem logo!
─Sam, fica bem, ajuda com a segurança e se cuida, eu volto logo! – Abby pede ao amigo, ele concorda assustado, imagino como foram os momentos lá dentro com uma mulher parindo sem nenhuma ajuda profissional.
Eu puxo Beth de canto, é uma boa garota e sempre prestativa, ela me atende prontamente.
─Beth o garoto acaba de perder a mãe, o pai não está batendo muito bem! – Ela concorda já sabendo onde quero chegar.
─Não se preocupe, eu cuido dele.
Ela segue ao encontro do pai, não temos tempo a perder, precisamos da luz do dia para ir e voltar e não vai demorar muito para isso também nos abandonar.
─Vamos gente! Vamos perder a luz! – Eu grito Abby já caminhava para o carro, ela não perde tempo com conversa, é focada.
─Podemos ir no supermercado da oitenta e cinco.
─Já limparam as prateleiras, eu já dei uma olhada, a Lori andou me pedindo!
Maggie diz quando chegávamos no carro, Abby estava em pé, nos esperando impaciente.
─Será que não tem uma merda de um lugar que ainda não foi saqueado? – Estou perdendo a paciência e ficar rodando sem direção não faz sentido.
─E o shopping? – Glenn questiona, é um bom lugar, com mais alternativas.
─Um carro não passa pelas estradas, estão muito cheias! – Maggie diz assustada.
─Mas que merda! – Abby explode – O bebê precisa de comida, a moto é sua, não é? – Ela me pergunta já caminhando para ela depois de pegar a mochila de Maggie, olho para ela indeciso – Vai comigo ou vai me dar as chaves?
Bufo, subo na moto, não nos gostamos, mas concordo que não é hora para isso, ela se senta atrás de mim, dou partida quando sinto suas mãos me tocarem de modo leve, eu podia até sorrir só de pensar o quanto aquilo estava custando para ela, os portões são abertos e deixamos a prisão.
Adoro a estrada, simplesmente é maravilhoso a sensação de liberdade, o vento no rosto, seria perfeito não fosse o caos a nossa volta denunciando que o mundo acabou e que estamos apenas sendo teimosos, mas essa é a característica de todos que sobreviveram, teimosia, muito mais do que sorte ou força, estamos vivos por pura teimosia e se depender de mim ninguém mais vai me deixar.
Penso em Carol, sempre fomos amigos, achava que ela era a pessoa que mais me compreendia, nunca me exigia muito, apenas aceitava quem eu sou, agora está morta, junto com T-dog, Lori, Andrea, Merle, tantos, de tantos modos, sempre pelos mesmo motivos, essa merda de fim de mundo e o que ele fez conosco.
Abby não se mexe atrás de mim, está silenciosa e não esperava uma conversa no caminho, não é algo que qualquer um dos dois goste de fazer, mas ela no fim está aqui, se envolveu, fez algo, gosto disso, de quem não fica esperando por alguém que tome as rédeas.
Me lembro dela nas tumbas, de sua força física, da elegância de matar sem perder a postura, mas não foi isso que me deixou de boca aberta, sem reação imediata, o que me impressionou realmente foi a determinação, não sei quem ela é, o que a fez se tornar a pessoa que é, mas seja o que for, criou uma fortaleza.
A estrada está cheia de destroços, carros batidos, restos mortais, todo tipo de coisas espalhadas pelo chão, uma história fácil de ser contada, fala de desespero, de ver quem você ama ser devorado e só poder fugir.
Diminuo e sinto a tensão em Abby atrás de mim, vou desviando de tudo que posso, olhando para dentro dos carros por pura curiosidade mórbida, lugares como esses me lembram Sophia, de como ela simplesmente nos deixou daquele jeito estúpido, de como éramos tolos e despreparados para isso tudo, gastávamos tanta energia com um zumbi e hoje podemos limpar uma maldita prisão duas vezes e ainda correr em busca de leite em pó.
─Pega essa estradinha a direita! – Abby diz batendo no meu ombro, como cada movimento dela me irrita, detesto essa postura de dona de tudo, talvez eu não deteste tanto, mas é como quero me sentir.
─Não é hora de passeio X, tenho uma missão!
─Vá para o inferno! Eu sei, tem uma creche no caminho, se não me engano uns cinco quilômetros, não entrei, mas ela existe.
Faço o que quer, é melhor do que invadir um shopping que nem sabemos se está empesteado com essa praga vinda diretamente do inferno para nos atormentar.
─Logo ali na frente! – Ela aponta o lugar e diminuo, paro na frente, Abby salta feito um raio, feliz por ficar longe de mim, olho em volta, respiro fundo, que porcaria de vida é essa?
─Eles não estão longe, então fica perto de mim! – Determino e ganho sobrancelhas erguidas e um sorriso de desdém.
─Ainda não entendeu que não preciso de sua proteção ou a de qualquer outra pessoa? – Ela diz se afastando em direção a janela, intragável, é isso que é e ainda assim me deixa tonto cada vez que eu olho para ela.
Dou uma olha em volta enquanto ela quebra os vidros da janela e pula para dentro, aqueles brinquedos infantis mexem comigo, não tem como não pensar no que é uma criança no meio de tudo isso, no que teremos que fazer por nossa pequenina.
Sigo Abby, ela estava abaixada numa porta de armário, recolhendo coisas, começo a caminhar pelo lugar, olhando as pequenas coisas coloridas, brinquedos, desenhos, ali não tem cheiro de morte e isso é estranho, tem cheiro de vida e dor, quantas dessas crianças que tem suas mãos desenhadas e coladas na parede ainda estão de pé? O nome Sophia salta entre todos os outros, ela não está mais sozinha.
Vou andando pelo lugar, fazendo a segurança da mulher que diz não precisar de segurança, pego minha lanterna, o dia está chegando ao fim, e quanto mais dentro estamos, mais escuro fica, passo por uma sala, vejo uma bonequinha, nem só de leite vive um bebê e posso levar um pouco de vida a pequena lutadora, o que ela venceu para estar viva não é para muitos.
Recolho a boneca e continuo a caminhar, encontro Abby vindo no mesmo corredor, um barulho nos chama atenção e ela puxa uma de suas espadas, certo, eu adoro aquilo e entendo porque Sam fica tão empolgado cada vez que a vê fazer algo como aquilo, ergo a besta.
Paramos na porta de uma pequena cozinha, coloco a lanterna na boca, a porta de um armário balança e um som confuso que lembra um animal saia pela fresta nos confundindo.
Abby segue para abrir a porta, estou em posição e ela me olha achando tudo um exagero, se for um zumbi vou deixar que a devore só para ela parar de encher o saco com essa cara de, não preciso de ninguém, que vive fazendo.
Ela abre e um ouriço se assusta mais do que nós, acerto minha flecha.
─Olá jantar! – Digo caminhando para ele, Abby não esconde o desagrado, quero que vá para o inferno, não, essa é a frase dela.
─Não vou colocar isso na mochila!
─Não me lembro de ter pedido nada a você! – Respondo enquanto ela enfiava, para nosso alivio, duas latas de fórmula para bebês na mochila.
─Até porque seria perda de tempo! – Ela responde.
─Minha língua cai antes de usa-la para pedir qualquer coisa a você.
Ela se vira e nos encaramos a um centímetro de distância um do outro, Abby tem olhos lindos, expressivos, nem precisaria dizer nada, eles falam por ela, seu peito sobe e desce em movimentos tensos, como se tivesse corrido uma maratona, comigo não é diferente.
─Ela não tem mesmo muita serventia, não faria falta! – Sempre me desafia.
Aquilo só me faz dar mais um passo em sua direção, desejo essa mulher, isso é uma merda de uma tortura sem fim, ela me provoca com suas palavras, me aprisiona com seu olhar e só tem uma coisa que posso fazer e é o que faço.
Tomo Abby em meus braços, encosto seu corpo de encontro a pia atrás de nós e a beijo, não um beijo suave e doce, é um castigo, uma prova de que não pode brincar comigo, mas então o jogo vira e agora não quero mais solta-la, minha língua invade sua boca, ela passa os braços por meu pescoço, me encaixo mais a ela e é perfeito, aprofundo o beijo enquanto uma mão segura seus cabelos e a outra aperta sua cintura fina e modelada trazendo ela ainda mais para mim.
Abby corresponde, se entrega, me beija com o mesmo ardor, aquilo é alucinante, não pretendia, não esperava e então me dou conta que é estúpido, uma loucura sem noção e que está errado, acho que ela pensa o mesmo e me empurra com força, seus olhos estão cheios de algo que não consigo compreender, magoa talvez, raiva, desejo, tudo isso, não sei, não posso querer descobrir, mal consigo controlar as batidas do meu coração, ela está como eu, não sou cego, sei que está.
─Você é um grosso! – Me atira na cara cheia de fúria. – Mas claro que seria assim, é incapaz de uma gentileza.
─O que está dizendo sua maluca? – Eu grito, gesticulo, sempre que fico nervoso minhas mãos falam por mim – Você que é toda grossa, parece um...
Ela me empurra com força, passa por mim cheia de raiva, não me espera terminar.
─Eu sei que acha que sou um cara, talvez por isso tenha agido feito um ogro, mas sou uma mulher, gosto de gentileza seu animal!
Eu não ia dizer um cara, ia dizer um trator, ela some em direção a saída, mas espere, ela insinuou que beijo caras? Foi isso que fez? Eu a sigo furioso, não fui gentil? Não fui gentil? O que ela queria, flores? Um pedido de casamento?
─Vai deixar a menina morrer de fome? Anda logo!
─Escuta aqui garota...
─Anoiteceu, tem um bebê com fome, vai mesmo ficar parado aqui discutindo e chamando zumbis?
A maldita cúmplice do diabo está certa e subo na moto, ela senta atrás de mim, me abraça de muito má vontade posso notar e dou partida, acelero e dirijo de volta como um raio, só quero me livrar dela, não fui gentil? Aquilo fica martelando na minha mente, ela vai ver só, não fui gentil! Grande merda gentileza, posso ser gentil, se ela merecesse eu seria.
Avisto a prisão, a noite está densa, agora elas são sempre assim, escuras e cheias de fantasmas, mas não penso em mais nada que não seja o bebê quando os portões se abrem e estaciono a moto de qualquer jeito, corremos eu e Abby, escuto o choro cansado do bebê antes mesmo de entrar.
─Beth! – Abby grita por ela já abrindo a mochila, corro para a pequena chorando sem parar no colo do irmão que não sabe o que fazer com ela, eu a tomo dele, é tão pequena e delicada, tão forte e corajosa, um milagre e não se vê muitos hoje em dia.
─Shiu! Shiu! ─Balanço a pequena tentando acalma-la. – Pronto! Pronto! – Beth me entrega a mamadeira – Vamos lá, vamos lá! – Ela começa a sugar, é tão incrível que sorrio, simplesmente sorrio no meio de todo o caos e morte, sorrio com um bebê nos braços enquanto dou a ela sua primeira refeição, estamos todos ali afinal, trocando sorrisos, cheios de algo que eu nunca soube que existia, amor, meus olhos passam pelos de Abby, sorriem, fizemos isso juntos, numa corrida maluca, mas aqui estamos e ela mama veloz, lutando feito um gigante.
─Ela já tem nome? – Pergunto a Carl, sorrio para ele que assiste a irmã mamar em meus braços.
─Ainda não. – Ele diz tenso – Pensei em Sophia, e tem a Carol também, e Andrea, Amy, Jacqui, Patrícia ou Lori.
É muito peso para um bebê, muitas histórias para carregar, ela não precisa disso, já vai ter sua própria história triste para contar, as palavras de Carl, todos aqueles nomes de pessoas que perdemos, só reforça a minha certeza do quanto aquela pequena criança é forte.
─Gostou disso, não é... em sua Bravinha – Eles riem e é bom quebrar um pouco aquele novo momento de dor – Ela não é Bravinha? É um bom nome. Gostou disso não é querida?
Fico ali ninando o bebê que mamava em meus braços, me esqueço que sou um Dixon, que os Dixons não demonstram aquele tipo de sentimento, me esqueço de todo o resto, apenas me deixo ficar com ela, assistindo sua fome ser vencida pelo seu cansaço enquanto vai fechando os olhos de modo lento, adormecendo, vez por outra se obriga a puxar o leite, essa é só mais uma de suas batalhas, mais uma entre todas que já travou e todas as que ainda vai travar.
Depois eu coloco a pequena Bravinha nos braços de Beth, ela leva a pequena para sua cela, Rick pelo visto não vai voltar tão cedo, acho que posso entender seu momento de luto, sua fúria sem fim.
Não é só a mulher que perdeu, eles não iam bem, mas tinham uma história, era pelos filhos agora sem mãe, por todos os que perdemos, por ter seguido aquele infeliz e simplesmente deixado que fugisse sem ter certeza que estava sendo devorado.
É toda culpa que sempre carregamos cada vez que perdemos um e hoje perdemos três.
Me sento nos degraus depois de um longo suspiro, Abby se junta ao fiel escudeiro, Carl não está lá, Maggie também não, Hershel some também, não quero ir a lugar nenhum, não posso dormir, não acho que alguém possa.
─Ela escolheu, exigiu que Maggie fizesse! – Sam diz a Abby que olha para ele com alguma tristeza no olhar – Se despediu do filho, pediu que ele lutasse, que ganhasse essa droga de guerra com os mortos, fiquei ali assistindo tudo e achei que foi tanta coragem da parte dela, é isso que as mães fazem, não é?
─As boas Sam, apenas as boas mães.
─A sua não era boa? – Sam pergunta a ela e mesmo sem querer admitir quero saber quem ela é, presto atenção na resposta.
─Não sei, não convivi com ela mais que algumas semanas, ela morreu quando eu era um bebê.
Abby se levanta e segue para a própria cela, não deseja boa noite, não dá continuidade ao assunto, apenas se retira, o jeito, não preciso de ninguém, de sempre, não sou gentil! Aquilo não devia me deixar tão irritado, mas deixa, e volta e meia domina minha mente, mas não é apenas o que disse, é também o beijo, o que ele me provocou, decidi passar por essa merda sozinho e não vou mudar de ideia, mas Abby é o diabo e está disposta a fazer da minha vida seu inferno particular.
Tem muito a ser feito, limpar tudo de novo, encontrar comida, mais leite em pó, fazer rondas pelo lugar, e perdemos muitos agora, T e seus braços fortes, Carol, Lori e momentaneamente Rick, mas espero que ele não demore a voltar, até lá, posso cuidar de tudo com o resto do grupo, parece que Abby e Sam, mesmo ela não querendo, agora fazem parte de nós, Axel e Oscar ganharam seu lugar, não substituem os que perdemos, ninguém nunca consegue, mas ainda podemos vencer e não vou desistir.
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