Hell Between Us
3 Capítulo 3 - Tumbas
Notas iniciais
Pov – Abby
É o mesmo céu de todas as noites, mas agora traz com ele alguma esperança, acho que precisávamos disso, Sam se deita ao meu lado, poder dormir os dois ao mesmo tempo é algo bom, sempre que dormíamos ao relento um tinha que ficar acordado e quando era minha vez de dormir eu tinha medo que ele acabasse apagando e terminássemos na boca de um zumbi.
─O Daryl pensou que era minha namorada, disse que era muito velha para mim.
─Velha é garoto? Vou te mostrar a velha, dorme Sam, amanhã tem mais.
─A grama pinica um pouco, mas eu sei que dentes afiados são piores. Boa noite X.
Nem me dou ao trabalho de responder, fecho os olhos e deixo o sono me dominar, quando a claridade começa a irritar eu me obrigo a despertar, olho para Sam, é sempre a primeira coisa que faço desde que ele entrou na minha vida, abrir os olhos e verificar se ainda está aqui, se não estou mais uma vez sozinha, o garoto dorme a sono solto, nem o apocalipse tira seu sono, com ou sem fim de mundo é só um adolescente em crescimento.
Me sento, as pessoas começavam a despertar, dá para ver que eram uma família, cutuco Sam, ele salta assustado caçando a faca, depois senta rindo de si mesmo, qualidade de poucos, reviro os olhos ficando de pé.
─Bom dia Sam, está seguro.
─Que susto dos infernos, achei que estávamos sendo atacados, eu nem consegui pegar minha faca.
─A gente vai treinar mais isso, já está atirando muito bem, agora precisa aprender a usar a faca.
─Onde aprendeu Abby?
─Com a vida, este não é meu primeiro apocalipse, agora desperta, temos muito o que fazer.
─Abby, Sam! – Lori nos chama, sorrio acenando. ─Café!
─Abby sorrindo, que lugar abençoado! – Sam me diverte e irrita na mesma proporção, faço sinal e vamos em direção a eles, só então eu o vejo. Daryl e sua besta, são como uma dupla, não é apenas sua arma, é sua companhia, assim como minhas duas Sai, pisco quando me dou conta que estou encarando Daryl descaradamente, me viro em direção a Lori, ela me estende uma xicara que pego de imediato.
─É café instantâneo, obrigada pelas coisas que ofereceu ontem, estávamos num momento muito ruim.
─Me apresente alguém em um bom momento, quero apertar a mão e fazer umas perguntas.
─Pois é – Ela sorri, toca a barriga, faz um carinho no filho ali, admiro sua força e coragem, já teria surtado. ─ Eu sei. Não é um mundo para bebês.
Tem tanta angustia ali que apenas me mantenho silenciosa, o que se diz para alguém num momento como aquele?
─Sam – Ofereço a ele o café – Bebe, precisa despertar.
Rick reúne o grupo, me junto a eles, não vou me esquivar de ajudar, quero mesmo esse lugar, ele vale a pena.
─Entramos em formação e limpamos mais esse pátio, não temos uma visão completa, então temos que ficar juntos porque não sabemos o que vamos encontrar, já disse que tem que ser sem armas de fogo, então nada de pânico, Abby, você vem?
─Sim, eu disse que tomaria a prisão Rick, é isso que vou fazer.
─Sam? – Rick pergunta.
─Sim.
─Não, o Sam ajuda os outros pelas grades. – Olho para Sam que está desanimado – Será mais útil aqui, ainda não treinamos o bastante com as facas.
─Certo!
Caminhamos para o portão que Rick tinha fechado no dia anterior, minha respiração acelera, puxo o ar com força prendo um instante e solto lentamente, buscando auto controle, uma mão segura firme meu braço, não preciso me virar para saber que é ele, mesmo assim o encaro.
─Presta atenção, pode brincar de ninja o quanto quiser, se vai acabar ou não na boca de um zumbi eu não me importo, mas se quer entrar aí com a gente vai ser do nosso jeito, não vai colocar nenhum de nós em risco. – Ele diz baixo, a mão firme me prendendo, eu mantenho seu olhar, ele não me intimida, não me conhece para achar que brincaria numa hora como essa com tantas vidas em jogo, puxo o braço com força, dói em mim e não nele, mas que se dane.
─Prontos? – Rick convida abrindo o portão.
─Pronta X? – Daryl diz passando por mim. Eu vou matar o Sam, se sair dessa viva aquele garoto está com os dias contados, odeio o meio sorriso daquele caçador idiota e mandão.
Hershel nos fecha do lado de dentro, puxo minhas armas, admiro Maggie e sua única faca, mas não tem mesmo mais ninguém frágil, os inocentes estão mortos.
Vamos acertando cabeças assim que se aproximam, derrubando um a um em um trabalho lento, vez por outra, alguém saia da formação e os outros gritavam, dá para ver que estão acostumados com trabalho em equipe, me mantenho em ação, protegendo quem posso e derrubando zumbis, T-dog encontra um escudo, usa como proteção, isso é bom considerando que basta um arranhão.
O local parece limpo, Rick abre uma porta, mas então outro portão estava aberto, zumbis andavam de um lado para outro, nos encolhemos silenciosos, alguns soldados com capacetes surgem.
─Mas que merda! – Eu reclamo quando tento acertar um deles e a espada escorrega, eu o chuto para longe, empurro outro, Rick com a ajuda de Daryl fecha o portão, mas os mortos e seus capacetes continuam ali, Maggie fica presa a um deles, o medo sempre nos faz agir, ela enfia sua faca pelo queixo do infeliz, ele cai como sempre acontece.
─Viram isso? – Comemora, mas não é tempo para isso e apenas seguimos seu exemplo, uns minutos e finalmente acabou.
Nos reunimos, ninguém está mesmo confiante, a segurança é mínima, é preciso mais do que isso, o zumbi de uma mulher deixa claro que a prisão não está inteira, então Rick quer entrar em um bloco, garantir antes de buscar os outros, acho boa ideia e fico feliz por serem corajosos, cruzei todo tipo de covardes depois que o mundo acabou.
Ele e Daryl vão na frente, não que me agrade seguir regras, mas não é hora para isso e apenas faço meu melhor, entramos no bloco, a princípio parece vazio, os gruídos ecoam pelo ambiente, mas não acho que esteja cheio de zumbis, me parece mais vir das profundezas da prisão.
Rick surge com chaves e seguimos para as celas, em cada uma um corpo com uma porcaria de bala na cabeça, foi assim que deram jeito na epidemia, enfiando uma bala na cabeça de qualquer coisa que se movia.
Vamos caminhando em silencio, o lugar conta sua história, a mesma história que todos os outros, mas não se pode negar os requintes de horror ali presentes, Rick observa uma grade que abre para os fundos da prisão, está trancada, passo por ele subindo as escadas em direção aos irritantes gruídos no andar de cima, pelo outro lado Daryl surgia, ergue uma sobrancelha, me dá passagem de modo cínico.
─Você primeiro X.
─Vá para o inferno! – Sibilo, detesto reagir a ele, devia apenas ignorar, seguimos juntos, a verdade é que gosto do modo como ele trabalha, dois zumbis presos em celas, olho para aqueles dedos podres, enegrecidos e desejos de minha carne, devia sentir asco, mas me vejo com pena.
Tem muitas formas de estar preso, essa é apenas uma delas, pego a espada enfio de uma vez, não tem porque prolongar, Daryl faz o mesmo e então Rick também está lá.
─É isso! – Digo tranquila.
─Obrigado! – Rick sorri, eu diria que não fiz por ele ou qualquer um deles, mas não quero problemas, quero meu espaço e uma chance de viver, meneio a cabeça e desço, alguém buscava o resto do grupo e todos entram, Sam trazia nossas coisas.
─Que legal Abby, vamos ter quartos, isso é incrível, fede um pouco e está imundo, mas é bom como o paraíso.
─É bom, vai servir, mesmo que não seja para sempre vai servir.
Daryl e Rick tem chaves, as pessoas vão escolhendo celas, se arrumando, Daryl diz que não vai morar numa gaiola e se ajeita no poleiro como acaba de dizer, que seja, vou adorar um lugar reservado finalmente, subo com minha mochila e Sam no meu encalço.
─São beliches, a gente vai dividir uma cela?
─Não, me deixa um pouco Sam, fica nessa aqui do lado.
─Sério, não vai dizer que sou idiota e se ficar sozinho vou acabar morto?
─Não, além disso você ronca, será bom me livrar disso.
Jogo minha mochila no chão e me atiro na cama, Sam continua de pé, na porta da cela me olhando.
─Mesmo? Eu ronco? Sério isso?
─Vai dormir garoto.
─A gente não acordou quase agora?
─Dormir nunca é o bastante, se não quer dormir arruma o que fazer.
Fecho os olhos decidida a dormir umas horas, me esqueci de matar Sam por dar munição ao inimigo, mas posso fazer isso mais tarde. Não queria pensar nele, mas penso, ele é... não sei o que pensar, ele apenas me intriga, nada além disso, se parece comigo, é meu oposto, não sei dizer, não quero descobrir, quando o lugar for realmente seguro vou ficar longe.
Cedo ou tarde vão estar todos mortos, não faz sentido deixar que entrem, puxo o ar com força mais uma vez, prendo um instante, solto lentamente, depois adormeço.
Depois de algum descanso é hora de continuar, precisamos achar a enfermaria, o refeitório, nos reunimos perto das grades. Hershel vai descer também, Sam me olha, não posso evitar, temos que fazer, posso cuidar dele.
Carl é um pequeno valente, quer ir é claro que o pai não permite e com alguma psicologia garante que ele precisa cuidar das mulheres, Beth tem um sorriso suave quando nos deseja sorte, Maggie vem conosco, duas mulheres, e todos os homens.
Daryl abre a porta, a grade range, porque seria diferente? É um eletrizante filme de horror, a escuridão é só parte do suspense, a pouca iluminação é nada perto do cheiro da morte impregnado no ambiente, ele traz com ele o mofo, a respiração fica pesada, o som de nossos passos se expande criando uma sinistra sensação de sermos muitos, falta os gemidos, esperar por eles é pior, o não saber é sempre pior.
Então aos poucos a tragédia se apresenta, corpos dilacerados, se decompondo junto com o mundo que herdamos, vamos seguindo juntos, Glenn marcando o caminho.
Quase desejo que eles apareçam, detesto isso, simplesmente não suporto a porcaria do fim do mundo, vamos seguindo juntos, então os primeiros aparecem virando um corredor, voltamos, mais deles surgem, desviamos, vamos ficando encurralados, correndo pelos corredores acertando alguns quando não podemos apenas desviar.
É isso, chegamos finalmente ao inferno, ali está ele, em cada uma de suas nuances, o inferno abriu suas portas e nos sugou ainda vivos, sem distinção, a confusão é intensa e em meio ao caos me perco de Sam.
─Sam! – Chamo por ele, Maggie e Glenn não estão, espero que estejam juntos, tento voltar em busca dele, aquela mão me segura mais uma vez – Me solta, perdi o Sam, não deixo ninguém para traz.
─Shiu, espera! – ele me leva para uma cela, ou o que quer que aquela porcaria de lugar seja, um grupo de corpos andantes passa gemendo, decidimos sair em busca dos outros, sussurrando seus nomes, caminhando no escuro.
─Sam – Se aquele garoto idiota fizer a burrice de morrer nesse inferno nunca mais o perdoo.
Um grito ecoa, me assusta, me viro correndo, seguimos todos em direção ao som, paro quando vejo Hershel sendo mordido na perna, Rick atira, Maggie surge com Glenn e não consegue conter o desespero, Sam é o último a chegar.
─Abby. – Agradeço ao universo, puxo o garoto pela camisa.
─Se sair de perto arranco a sua orelha! – vamos tentando fugir dali, levar Hershel para um lugar seguro, entramos numa sala grande, T-dog prende a porta, o velho estúpido vai morrer por uma teimosia tola, não tinha nada que ter vindo junto.
Rick pega uma machadinha, prende a perna de Hershel com o próprio cinto, não acredito no que vai fazer, mas é exatamente isso que faz, decepa do modo mais dolorido e demorado uma parte da perna do homem que em meio aos gritos e a dor desmaia.
Sam tem os olhos pregados na cena, engole em seco.
─Abaixem – Daryl exige e pelo seu olhar temos um problema, faço o movimento oposto, me ergo na mesma hora, com as espadas em punho, ele se ergue ao meu lado com a besta e cinco pares de olhos vivos e perplexos nos encaravam atrás de uma tela.
A porta está sendo forçada, Hershel precisa de cuidados, é hora de partir, Os caras ficam ali nos olhando sem reação, sigo para porta, T abre e vamos derrubando zumbis e abrindo caminho em direção a saída, se os caras vêm junto eu não sei, mas não vou dividir meu espaço com eles.
Conseguimos finalmente voltar para o bloco, Hershel é colocado numa cama, mas eu fico no pequeno refeitório junto com Daryl e Sam, T-dog também está lá.
─Devia entrar Abby, não é bom ficar com esses caras, não sabemos quem são.
─Obrigado T, mas não vou perder esse lugar para eles, só quero garantir que não vão deixá-los entrar.
Daryl me olha de lado, a arma fixa na porta à espera dos sobreviventes.
─Tudo bem, só disse porque é mulher, sei lá, eles estão presos ai, nunca se sabe.
Eu adoraria responder aquilo, mas então os caras entram e apenas fico a postos, não me importo com quem são, mas não me arrisquei para meia dúzia de idiotas tomarem meu espaço, o que vale agora é a lei do mais forte, não foi fácil entrar para esse time, mas entrei, faço parte do grupo dos que sobrevivem, ninguém pode me tirar isso.
Daryl se move de modo a ficar na minha frente, tampa minha visão, mas também a deles sobre mim, me faz lembrar que sou uma mulher, nunca quis ser outra coisa, nunca quis me parecer com um homem, nem disputar com eles seu espaço, gosto de gentilezas, mas esse mundo de gêneros acabou, aprendi isso lutando pela vida.
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