Hell Between Us
23 Capítulo 23 - Promessa
Notas iniciais
Pov – Daryl
O dia começava a clarear quando acordo, sei porque posse ver a claridade vindo do corredor, não temos janelas nas celas, isso torna tudo mais escuro e claustrofóbico, penso em Abby adolescente e assustada em uma solitária por dias e dias, o estrago que isso produziu em sua vida, parece não ter como medir.
No quanto cada passo que dá é de algum modo doloroso para ela, eu só conheço o mundo obscuro, nunca estive do outro lado, ela não, Abby foi arrancada do paraíso e atirada ao inferno, como pode ser isso quando se tem apenas dezesseis anos? Que tipo de pessoa ela poderia se tornar se não a mulher defensiva e cismada que se tornou?
São tantas as faces dessa mulher que dorme ao meu lado, a rainha do apocalipse quando caminha altiva com suas espadas, a mulher atormentada e perdida que fugiu da prisão porque tem medo de gente, a irmã mais velha e protetora capaz de enfrentar o mundo por um irmão postiço, e a garota delicada e suave que agora dorme ao meu lado com seus traços perfeitos, que me tira do ar quando me beija e se entrega por inteiro.
Tantas delas, todas ao mesmo tento vivendo nesse corpo esculpido por deuses, me movo para olhar melhor seu rosto, linda como nunca vi, difícil como o diabo, insuportavelmente dona de si.
Ela coça o nariz encolhida ao meu lado, me faz sorrir, penso em como vai ser quando abrir os olhos, como se lida com o que estamos tentando fazer, parece fácil quando vejo Glenn e Maggie, eles trocam carinhos, beijos, caminham de mãos dadas, são íntimos de um modo que não tem nada a ver com sexo, mas não consigo me imaginar daquele jeito, não sei ser assim, é estranho e diferente para mim.
Acho que não sei fazer isso e como ela também não sabe tudo fica ainda mais complicado, mas tem uma força que me empurra para estar com ela, não consigo evitar e não quero, gosto até, me tira um pouco desse fim do mundo longo e cansativo.
Até ela chegar era só matar, caçar e correr, agora não é mais assim, agora torço por horas como aquelas na cabana, ou a noite que tivemos.
Devia ficar na cama e esperar que acorde, mas não faço isso, me levanto em silencio e deixo a cela, não pode ser tudo de uma vez ou vamos correr apavorados, Rick olhava o horizonte parado no pátio, paro ao seu lado.
─Encontramos finalmente um lugar, não é? – Ele me diz quase leve, dou de ombros, nunca consigo ser muito otimista – Eu sei, tantas bocas, e as que ainda chegarão, mas podemos fazer funcionar.
─Podemos. – Eu respondo apenas.
─Abby, ela fica?
─Sim, não importa o que aconteça, o quão difícil seja para todos, ela fica! – Deixo claro, não sei o quanto de problemas aquele gênio forte pode criar, mas não vou abrir mão dela nem desse teto.
─Isso é por conta da discussão com o Hershel? – Ele me pergunta sorrindo – Aquilo foi divertido de assistir, Hershel é sempre tão dono da verdade, ele começou perdendo feio.
─Isso é por conta das brigas que ainda virão, Hershel ganhou o tempo todo, sabia o que estava fazendo, não saberia me comportar como ele.
─Começo a achar que andou aprendendo, espero que dê certo para vocês, merece um pouco disso, foram meses difíceis.
─Outros meses difíceis nos aguardam Rick, não vamos baixar muito a guarda.
─Acha que ele matou o garoto apenas porque quis? – Ele me pergunta e penso em Carl e todo aquele ódio que começa a envenena-lo.
─Acho que é muito para ele, e tudo ao mesmo tempo, mas ele vai ter tempo de acomodar as coisas.
─É vai, agora acredito nisso, vamos trabalhar, temos muito o que fazer! – Rick me diz e começo a assistir o movimento das pessoas saindo dos blocos.
Alguns idosos, um ou dois homens, uma mulher jovem com seu garotinho, outras crianças que nem sei se ainda tem pais e mães, Karen, Sasha e Tyresse, são poucos os que vamos poder contar para algo além de cozinhar e limpar, mas isso não diminui seus valores, espero que dê certo.
Então Sam segue em minha direção, se aproxima e me lembro de como gostava de Merle, alguém que anda por ai com Abby Coleman só podia mesmo adorar Merle.
─A X já acordou? – Olho para ele achando por um segundo aquilo a coisa mais estranha do mundo, quase digo que não tenho como saber, mas aquela pergunta simples me da uma dimensão de que de algum jeito de agora em diante somos um pouco mais ligados que o resto e nego com a cabeça em silencio.
─Não deu tempo de te agradecer por ter ido atrás dela, por ter trazido ela de volta para mim. – Bom não foi para ele e suas palavras quase me incomodam, mas então me lembro que são como irmãos e dou de ombros – Abby precisa de cuidados, ela não sabe e não admite, mas precisa, estou torcendo para ser corajoso o bastante para enfrentar aquele furacão.
Minha resposta é um resmungo inteligível e um olhar matador, ele não pode achar que virou meu amiguinho agora, Sam sorri, acho que rosnados não o incomodam e então o sorriso se desfaz quando ele olha por sobre meu ombro, me viro para entender o que o surpreende.
Abby estava de pé, paralisada, lívida, não me vê, não vê Sam, está cega para tudo que não seja... Me viro para descobrir o que a ofende daquele modo, uma mulher a encara, tem um leve e cínico sorrido, me volto para Abby pronto para mais um grande problema, ela puxa suas espadas naquele movimento decidido, agora todos prestam atenção, caminha firme para a mulher próxima a mim e Sam, dou um passo em direção a ela, mas Sam me impede.
─Seja o que for é coisa dela! – Ele diz tão firme que me esqueço que é um garoto, as espadas de Abby cruzam no pescoço da mulher imóvel e impassível, ficam como uma grande tesoura colocando aquela vida desconhecida por um triz, Rick se aproxima e faço sinal, ele para.
─Olhe se não é Abby Colemam! – A mulher diz fria.
─Um lixo como você só podia ter sobrevivido, que bom, sempre quis fazer isso pessoalmente! – Abby diz decidida.
─Puxa! Quer dizer que a patricinha inocente agora tem espadas? – A Mulher toca a faca, eu puxo a minha, mas Abby aperta um pouco mais a arma ao redor daquele pescoço imprudente e a mulher solta – Sentiu minha falta?
─Acha mesmo que não sei como está apavorada por trás desse seu sorriso cínico? Não estamos mais no reformatório Selena, as regras mudaram.
─Sim, agora pode me matar e não vai terminar seus dias em uma solitária!
─Não, eu não vou!
Abby, encara a mulher a sua frente, seus olhos cintilam de uma raiva que jamais vi, ela vai fazer, ali, na frente de todos vai cortar a cabeça da mulher e não sei o que fazer, porque ouvi sua história e sem quem é aquela ali, diante dela, tudo que fez Abby passar e não posso culpa-la por desejar isso.
─Mãe? – Um menino corre para perto das duas, Selena não o olha, mas segura sua mão, a criança está apavorada, Abby afrouxa um pouco suas espadas, titubeia.
─Não vai fazer não é? – Selena diz – Vamos garotinha, faça! – Provoca me enchendo de raiva – Não te ensinei nada?
Abby desvia os olhos dela um instante, o garoto de cinco ou seis anos chora apertando a mão de Selena.
─Você não pode fazer não é? Ainda é só a patricinha mimada de sempre, sabe que sinto falta do seu gosto, quem sabe te visito uma noite dessas, para lembrar os velhos tempos! – As espadas saem do pescoço de Selena, mas então Abby acerta um golpe firme com o cabo da espada no rosto da mulher, o movimento é tão preciso que ela cai e uma ferida se abre em seu rosto, o garoto grita de susto, Abby se abaixa, ergue a mulher pela camisa apenas para poder olhar para ela que tampava a ferida com a mão.
─Vou matar você Selena, eu vou fazer isso, minha espada vai cortar sua cabeça ela vai rolar pelo chão, e vou deixar que se transforme, e vai ficar ali, agonizando pela eternidade, mordendo o ar faminta e inútil como sempre foi, nada, nem ninguém vai me impedir, nem mesmo um garotinho, ele não será o primeiro órfão do apocalipse! – Ela solta a mulher que agora não tinha mais nenhum vestígio de arrogância ou cinismo.
As espadas voltam para suas costas num movimento preciso, ela caminha para as grades sem olhar para trás, fico ali, sem saber se a sigo ou deixo que se vá.
─Eu iria, mas acho que ela prefere você! – Sam me diz quando Karen e Sasha ajudavam Selena a se erguer, Rick caminha para mim, está sério e não, não vai me fazer mandar Abby embora.
─Depois! – Aviso lhe dando as costas e seguindo Abby, ela já saia pelo furo que fizemos nas grades, some pela floresta e eu a sigo, não está longe, caminho uns minutos, me aproximo e tem dois zumbis despedaçados no chão, as espadas caem ao longo do corpo ainda seguras por suas mãos firmes, mas a cabeça está baixa, ela puxa o ar e depois solta lentamente, já percebi que faz isso em busca de auto controle, os pés cravam no chão como se da terra viesse sua força, me lembro de Sam me dizendo que ela era uma força da natureza quando estávamos na torre assistindo sua dança de cortar cabeças.
─Não estou indo embora! – Ela avisa antes mesmo de se virar.
─Eu sei! – Comunico quando ela se vira e encontro seus olhos escuros e cheios de fantasmas.
─Então porque está aqui? – Me pergunta e dou de ombros.
─Só estou.
─Podemos caminhar um pouco? – Ela me surpreende com o pedido, afirmo.
─Vai tomar um porre agora? – Brinco quando estamos lado a lado seguindo pela floresta.
─Já disse, engulo a vida a seco.
─Sim, você já disse.
Caminhamos um tempo em silencio, procuro prestar atenção a tudo a nossa volta, deixo que seus pensamentos a dominem e a levem para outro lugar, uma vez ela me deixou viver minha dor enquanto me mantinha seguro, sofri a morte de Merle sem assistir a mais nada e devo isso a ela.
─Vou matar aquela mulher, não hoje, não na prisão, mas vou fazer isso.
─Talvez precise, mas não vai fazer apenas por ódio ou o garotinho não teria te impedido.
─Incomoda você eu ser capaz disso? – Ela me para, nos olhamos e fico pensando a respeito, não sei responder, por um momento quis eu mesmo fazer aquilo, quando ouvi o que a infeliz teve coragem de dizer a Abby meu sangue ferveu.
─Não, se quer saber não mudaria nada para mim, mas mudaria para você, e isso seria... Te mataria um pouco.
─Acha que estou viva? – Ela me diz sem esconder um certo escarnio.
─Está, estava ontem à noite, ninguém é uma coisa só, acho que tínhamos que parar os dois de cultivar tanto a dor.
─Você foge Daryl, luta contra ela, se debate e pensa que ela foi embora, que acabou e então, lá está ela te lembrando quem afinal você é.
─Vem, ainda não caminhamos o bastante.
Ela sorri, um sorriso triste, mas ainda a deixa mais linda que nunca, voltamos a andar, tem algo bom agora, não é tenso, não estamos lutando um contra o outro mais, agora é leve e bom, estamos só caminhando.
─Obrigada! – Ela me diz quando paramos na beira do rio, sorrio, finjo que seu agradecimento não me afeta, não demonstro o quanto gosto de ouvi-lo, queria ser diferente nesses momentos.
─Acho que caminhamos o bastante! – Ela afirma e me sento, Abby pensa um segundo, depois se senta ao meu lado, gosto disso.
─Eu gostei da noite... de estar lá.
─Eu... Foi bom – Digo sem encontrar palavras, nos olhamos, dois idiotas, caímos numa longa gargalhada.
─Olhando para a teoria de Darwin nos perdemos em algum lugar entre os primatas e o homem.
Ela diz entre seu riso, concordo.
─Neandertal! – Ela ri ainda mais.
─Podemos treinar mais e um dia... – Ela não termina a frase, nos distraímos tanto que quando nos damos conta um grupo de zumbis surgia, ficamos de pé, armo a besta, Abby puxa suas espadas, nos olhamos, conto sete deles, acerto uma flecha, enquanto armo a besta, Abby acerta o mais próximo, pego o segundo com outra flecha, mas então é hora de se agitar, decido pela faca, acerto um, chuto outro e Abby se move acertando mais um, então mais um está sobre ela que o chuta, ele cai desengonçado, eu piso em sua cabeça enquanto empurro o outro para longe, Abby precisa ser rápida e então mais deles surgem.
─Vamos! – Eu chamo, ela derruba mais um zumbi abrindo espaço e corremos, paramos um tempo depois quando estávamos longe o bastante.
Respirando com dificuldade, ela me olha e está calma, aquilo não a assusta, não apavora.
─Eu sabia que daríamos conta! – Diz rindo.
─Vem, melhor voltarmos. – Toco seu braço e ela concorda, começamos a voltar.
─Acha que ele está por ai?
─O governador? – Pergunto e ela afirma – Acho.
─Pensei em andar por ai, tentar uma pista, voltar em Woodbury.
─Abby... Se importa de me ajudar a conseguir suprimentos antes? – Ela ri.
─Sei o que está fazendo Daryl, não se incomode, não é nada sério, só quero olhar por aí, quando estivermos livres, não estou falando de uma caçada.
─Podemos fazer isso, amanhã vamos formar um grupo e buscar suprimentos.
Estou disposto a fazer dar certo e para isso precisamos de comida e muitas outras coisas, ela para de andar, faz sinal e então fico mudo, escuto passos, nos preparamos e o que vemos é um pequeno grupo de pessoas, um homem, duas meninas e uma moça.
Apontamos armas uns para os outros, mas o que vejo são pessoas apenas assustadas e perdidas.
─Estão perdidos? – Abby pergunta – Tem para onde ir?
─Não, não queremos guerra, só estamos em busca de um lugar.
Eu e Abby nos encaramos, eles têm crianças, ela suspira.
─Um a mais, um a menos.
Ela me diz e concordo, abaixo a besta.
─Querem nos acompanhar? Temos um lugar seguro, serão bem vindos.
─Seguro como?
─Grades e pessoas, apenas decidam porque não podemos ficar parados aqui! – Abby faz o tipo Dixon e responde irritada.
─Nós... – Eles trocam olhares – Sim, nós vamos arriscar.
Nos colocamos a caminhar, agora Abby está mais a frente e eu mais atrás, eles não parecem capazes de se defender, deixo as perguntas para Rick, ele vai saber o que fazer com eles, mas o homem decide falar.
─Nosso acampamento foi atacado há duas noites.
─Muitos zumbis? – Pergunto e ele para de andar e me encara.
─Homens, uma dúzia deles, talvez mais, armados, atiraram sem distinção ou conversa, nem sei como conseguimos fugir, foi sorte, não acho que sobrou mais alguém.
Agora Abby está ao meu lado atenta, penso no acampamento que encontramos, os corpos estavam devorados, pareceu ser um ataque de zumbis, mas pode não ter sido isso, os zumbis podem ter chegado depois, trocamos um olhar preocupado.
─Nunca descansamos afinal! – Ela diz cansada, faço sinal e seguimos, precisamos redobrar os cuidados.
─Onde estavam?
─Ao norte, um dia ou dois.
Mais uma hora de caminhada e estamos de volta a prisão, assisto os olhos das meninas brilharem e descubro que gosto disso, de dar esperança as pessoas, temos que limpar um pouco para passar, mas logo alguns dos nossos faziam barulho nas cercas e entramos.
─Rick, encontramos eles, e acho que temos que pensar um pouco sobre o que eles têm a dizer.
Aviso e Logo Maggie e Carol se aproximam, Hershel vem também, as meninas sempre de mãos dadas se juntam mais, mas então eles são levados para dentro, estavam cansados demais para uma conversa.
─Vou falar com eles. – Rick avisa, Abby começa a caminhar para dentro quando ele a chama, recebe um olhar de advertência, me ignora – Abby podemos falar um instante?
─Não é meu líder Rick, não vou me explicar, não preciso me defender, não me arrependo de nada e sim, eu vou matar aquela mulher em algum momento, se ela se mantiver longe de mim o bastante não será na prisão, mas se tentar qualquer coisa contra mim vou arrancar aquela cabeça e não pode me impedir.
─As pessoas estão assustadas.
─Claro que estão, o mundo acabou, elas têm motivos para estar.
─Queria evitar problemas – Ele diz a ela, mas Abby aponta as grades e os zumbis caminhando depois delas.
─Não pode, o problema está ali, sua fome sórdida nos persegue e com eles vieram todo tipo de demônios, vá falar com o homem que chegou e verá que sou o menor dos seus problemas.
Ela vai embora e ele me olha, no fundo gosto de desafio de domar Abby Coleman ele sabe disso.
─Eu sei que ela fica, mas fique de olho.
─Como se conseguisse evitar! – Eu e ele caminhamos juntos, Rick vai falar com os recém chegados e eu sigo para minha cela.
─Que droga Abby, você tem namorado não devia se trocar na minha frente mais! – Escuto a voz de Sam e quando entro ele está sentado e ela terminava de vestir uma blusa.
─Não seria má ideia! – Eu aviso e os dois me olham, Sam fica de pé.
─Se ele me bater a culpa é sua! – O garoto diz antes de deixar a cela, Abby solta os cabelos e se senta na cama.
─O que? – Reclama quando continuo parado olhando para ela sem esconder a contrariedade – É um menino.
─Beth pode não gostar! – É uma boa desculpa, que bom que pensei nisso, ela suspira.
─Tudo bem, vou evitar, porque a Beth pode não gostar e não quero estragar nada para o Sam.
─Ótimo. Para a Beth é claro.
─Exato! – Ela diz e então eu me sento ao seu lado. – Pode ficar longe dela? – Abby me pede e seu olhar volta a ficar pesado e escuro.
─Posso! – Digo antes de beija-la, quis fazer isso o dia todo, ela parece relaxar, se enrola em mim e ficamos ali, nos beijando, nenhum de nós diz muito, mas quando estamos ali na cela e sozinhos, me sinto à vontade para toca-la com carinho, ela toca meu rosto, tem os dedos finos, seu toque é suave – Se troca mesmo na frente do garoto? – Não consigo evitar a pergunta, sua resposta é um riso leve e um beijo quente.
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