Heirs of the Light
3 II
Notas iniciais
A apresentação do professor Alastor Moody e o anúncio do Torneio Tribruxo aconteceram diante dos olhos de Charlotte, que ainda encarava a mesa dos professores petrificada, sentindo seus ouvidos zumbirem. Ela a tinha visto em seus sonhos. Por ser uma bruxa, a loira sabia que quando esse tipo de coisa acontecia em seu mundo, não costumava significar boas notícias. Por fim, ela empurrou todas os seus questionamentos no fundo de seu âmago, e sorriu de maneira ensaiada para todos os comentários embasbacados que faziam sobre o Torneio e os novos professores. E a noite, ela não dormiu. Talvez pequenos cochilos tirados entre os pensamentos voltados para a bruxa misteriosa, seu pai, sua mãe, a conversa que teria que ter com Luke... Tudo se acumulava em sua mente, a deixando com uma sensação de peso em sua cabeça. Assim que o despertador tocou pela manhã, a garota pulou da cama e correu para o banheiro. Deixando suas colegas de quarto – Brenna, Daphne, Pansy e Tracey – confusas, enquanto a menina corria de um lado para o outro trocando de roupa, fazendo sua higiene matinal e pegando sua mochila.
Enquanto descia as escadas para o salão comunal e dava um nó na gravata verde e prata, ela se lembrou de parar de frente ao quadro de avisos. A senha dos primeiros quinze dias era Odisseia; foi o que notou enquanto lia os avisos do início do ano. Então ajeitou seu cabelo que estava preso no alto da cabeça e marchou para fora das masmorras, escutando uma dúzia de xingamentos ao passar esbaforida pelas escadas repletas de alunos. Ela tinha a intenção de chegar à porta do salão comunal da grifinória a tempo de ver Luke antes das aulas, para que pudessem conversar. Assim que chegou ao pé dos sete lances de escadas que teria que subir, gemeu desgostosa. E ao chegar ao topo, sentia as pernas arderem pelo esforço, puxando o ar com força ao chegar em frente ao retrato da Mulher Gorda, que logo fechou a cara ao ver as vestes da menina. Uma sonserina não costumava ser bem recebida por esses lados do castelo.
—Eu estou à espera de um amigo — murmurou entre as puxadas de ar, e a mulher resmungou um “humpf”. Depois de alguns minutos constrangedores, enquanto alguns alunos a olhavam estranho, Luke atravessou o quadro rindo com seus amigos Grifinórios, Fred e George Weasley.
—Hey, Lottie — cumprimentou com um grande sorriso, mas logo arqueou as sobrancelhas ao olhar atentamente para a amiga. — O que houve com seu cabelo? —perguntou indicando a cabeça da loira. Ela bufou soltando o emaranhado de fios desgovernados e os prendendo descentemente enquanto os gêmeos riam.
—Eu subi sete lances de escadas correndo, Lucian. —ele fez uma careta ao ouvir seu nome, não o apelido. —De qualquer forma, eu preciso falar com você. — ela firmou o tom de voz, e ele prontamente endireitou a postura relaxada.
— Eu já vou indo. —ele disse com um sorriso ensaiado para os gêmeos que deram de ombros e foram para o salão principal.
Em seguida ele a puxou para um canto no corredor, longe dos andares apressados dos alunos. Assim que pararam, Luke cruzou os braços sobre o peito, esperando que a menina começasse. E então, ela contou detalhadamente sobre seu sonho e a estranha sensação de que conhecia a mulher, agora professora dela.
— Acha que isso tem algo a ver com magia das trevas? Como... Você-sabe-quem? — ele sussurrou a última parte, com o cenho franzido em preocupação.
— Mas, por que eu? Esse é o chamado do Potter, não o meu. — ela tentou controlar o tom de voz para que não soasse exasperada.
— Eu não tenho ideia do que isso quer dizer. — ele murmurou enquanto leva os olhos para o teto do castelo, parecendo pensar. — Mas, posso pesquisar sobre ela. Talvez Marlene saiba de alguma coisa. — a loira suspirou aliviada ao ver que ele não duvidou um segundo sequer de seus tormentos.
— Obrigada. — ela o abraçou de súbito sentindo um pouco da tensão sair dos seus ombros, ele a aconchegou em seus braços.
— Sempre que precisar, Lottie. — Luke respondeu com a voz com uma leve sombra de riso, e em seguida depositou um beijo no topo de sua cabeça. Mas, uma lembrança a fez parar, sentindo seu estômago afundar. — Lottie? — ele perguntou, provavelmente sentindo o corpo da loira ficar tenso em seus braços.
— Sobre Marlene... — ele franziu o cenho em confusão quando ela se afastou. — Precisamos conversar. — ele engoliu em seco, como se adivinhasse o tópico e assentiu suavemente.
—Hoje à noite na Casa dos Gritos. — respondeu com os olhos sérios, e juntos caminharam em silêncio para o Salão Principal.
Lá Charlotte e Luke se despediram com um abraço breve, e a menina mandou um beijo para Sam que já tomava seu café da manhã. Lottie se sentou ao lado de Brenna, esta que exibia uma carranca matinal, com suas longas tranças presas em um coque no topo da cabeça e passava preguiçosamente uma camada de geleia em sua torrada.
—Saiu às pressas hoje. —comentou Brenna em meio a um bocejo.
—Saí. —respondeu simplesmente enchendo um copo de suco de laranja, a outra a olhou com desdém.
—Não foi uma pergunta, idiota.
—Eu sei. —a loira cantarolou e pegou um bolinho de frutas vermelhas, ignorando a careta feita pela amiga. Mas, Brenna não insistiu. Essa era uma vantagem dela, ela sempre respeitava o espaço de Charlotte, esperando que ela se abrisse quando se sentisse confortável.
Em seguida, professor Snape — homem que apesar da sua carranca habitual, Charlotte admirava, seja pela sua inteligência, seja pela sua astucia. — passou pela mesa distribuindo os horários.
—Até que não está tão ruim. —comentou deslizando o dedo indicador pelo horário. — Transfiguração, Trato de Criaturas Mágicas e Herbologia. —Brenna fez uma careta quando a loira comentou sobre a última matéria.
— Eu detesto Herbologia. —comentou franzindo o nariz.
—Poderia ser bem pior...
Assim que as palavras saíram de sua boca, houve um repentino rumorejo e umas cem corujas entraram pelas janelas abertas, trazendo o correio da manhã. Tal fato que a lembrou de mandar uma carta para sua mãe mais tarde, dando notícias de ontem e aproveitando para comentar sorrateiramente sobre a professora Peverell. Charlotte sabia que Violet normalmente sabia muito mais do que aparenta.
Quando passaram pelo pátio de Transfiguração naquela manhã a grama ainda estava úmida pela tempestade da noite anterior. A professora McGonagall deu uma aula muitíssimo interessante sobre como transformar um objeto de pequeno ou médio porte em um coelho. A pedra de Charlotte ficou com um lindo pompom. Quando a sineta de fim de aula tocou a turma se dispersou, os da Corvinal foram para outra aula e os da Sonserina foram em direção a orla da Floresta Proibida; e antes mesmo que conseguissem descer a pequena colina, o grito agudo de Lilá Brown ecoou pelo espaço, arrancando uma revirar de olhos em conjunto dos alunos da casa das cobras.
—Eu odeio tanto essa garota. —resmungou Brenna, arrancando uma risada baixa de Lottie. A loira não odiava a grifinória, mas definitivamente não nutria simpatia pela menina escandalosamente chata.
Mas, dessa vez, não era um total drama. Os animais que teriam que lidar na aula Trato das Criaturas Mágicas pareciam lagostas sem casca, deformadas, terrivelmente pálidas e de aspecto pegajoso, as pernas saindo dos lugares mais estranhos e sem cabeça visível. Havia uns cem deles em cada caixote, cada um com uns quinze centímetros de comprimento, rastejando uns sobre os outros, batendo às cegas contra as paredes das caixas. Desprendiam um cheiro forte de peixe podre. De vez em quando, soltavam faíscas da cauda e, com um leve pum, se deslocavam alguns centímetros à frente.
—Que merda é essa...? —a loira sussurrou em absoluto choque ao se aproximar. O trio de ouro a olhou de cara feia, como se ela não pudesse expressar seu descontentamento em voz alta. Mas, ela não ligou. Afinal, ela tinha o direito de expressar temor à vida, ou ao fim dela.
— Acabaram de sair da casca, — informou professor Hagrid orgulhoso. Charlotte nunca foi extremamente próxima do Guarda-Caça, mas tinha uma certa simpatia pelo homem que sempre disponibilizou um sorriso bondoso quando estava apavorada no seu primeiro ano — por isso vocês vão poder criar os bichinhos pessoalmente! Achei que podíamos fazer uma pesquisa sobre eles!
— E por que nós íamos querer criar esses bichos? — perguntou uma voz fria. Malfoy, o não tão amado primo de segundo grau de Charlotte, estava rodeado de seus capangas Crabbe e Goyle bem atrás das meninas.
Ela se lembrava da época em que ele não era assim, um babaca. Quando a menina passou uns bocados em uma época nada agradável de sua vida — onde ela e Violet pipocavam de casa em casa ao longo da Europa, Violet não confiava em ninguém após o que houve com seu pai, e por ser a ex esposa de um assassino, por vezes encontraram sua casa em chamas e eram perseguidas por onde quer que fossem — Narcisa cedeu o porão de sua casa por poucas semanas escondido do Sr. Malfoy até acharem algum lugar mais seguro, algum que não importasse se elas fossem Black. A loira tinha por volta de seus seis anos e estava apavorada, com medo da morte, sem o pai e com os últimos lugares que chamou de lar revirados, saqueados ou em chamas. O menino Malfoy a visitava todos os dias quando sua mãe saía em busca de um lar, eles brincavam com brinquedos favoritos do loiro e a noite a mãe de Charlotte lia livros de contos celtas para dormirem. Ela achava que Draco poderia ser um bom garoto. Mas, as coisas mudaram, eles mudaram e ele, por sua vez, parece ter se esquecido do que era.
— Quero dizer, o que é que eles fazem? — perguntou Malfoy interrompendo os pensamentos da loira que foram longe, novamente. — Para que servem?
Hagrid abriu a boca, aparentemente fazendo um esforço para responder; houve uma pausa de alguns segundos, depois ele disse com aspereza: — Isto é na próxima aula, Malfoy. Hoje você só vai alimentar os bichos. Agora vamos ter que experimentar diferentes alimentos... Nunca os criei antes, não tenho certeza do que gostariam... Tenho ovos de formiga, fígados de sapo e um pedaço de cobra, experimentem um pedacinho de cada
— Primeiro pus e agora isso — resmungou Simas, um rapaz da Grifinória, provavelmente se referindo a aula de Herbologia.
Charlotte resmungou em desgosto ao pegar alguns pedacinhos de cobra com nojo e um pouco de dó da cobra que já viveu um dia. Ela jogou na caixa dos animais que pareciam ter surgido das profundezas do inferno e que não tinham boca, tornando a tarefa um pouco... Inútil?
—Descanse em Paz. — disse para os pedaços jogados na caixa, se sentindo pessoalmente ofendida pelo animal escolhido, e Brenna deu risadinhas.
— Ai! — gritou Dino Thomas, passados uns dez minutos. — Ele me pegou!
Hagrid correu para o garoto, com uma expressão ansiosa no rosto.
— A cauda dele explodiu! — disse Dino zangado, mostrando a Hagrid uma queimadura na mão.
— Ah, é, isso pode acontecer quando eles disparam – disse Hagrid, confirmando o que dizia com a cabeça. Disparam? Charlotte pensou horrorizada.
—Sem ofensas ao Hagrid, eu genuinamente gosto dele, mas o que diabos era aquilo? —Brenna disse uma hora depois enquanto caminhavam de volta para o castelo para almoçar.
—Todo mundo sabe que Hagrid não tem nenhuma discrição quanto a animais potencialmente perigosos, Brenna. — suspirou. —Malfoy não estava tão errado assim. Devíamos nos livrar daquelas coisas, antes que elas se livrem da gente.
Ao chegarem ao Salão Principal, Charlotte pode ver Cedrico ao longe com suas duas mãos em concha na boca e olhando diretamente para a loira, e parecia estar sussurrando algo. Assim que ele se recompôs ela sentiu algo sendo depositado no bolso do seu suéter. Os sorrisos furtivos foram trocados brevemente, sem que mais alguém notasse.
—Que cara estranha é essa? —sussurrou Brenna.
—Fome. —Charlotte respondeu rápido demais e Brenna arqueou as sobrancelhas. A loira corou até a raiz dos cabelos, coisa que não acontecia frequentemente, mas ser pega no flagra dessa forma a pegou desprevenida.
A Black ficou em silêncio o restante do almoço, para evitar mais suspeitas. Assim que terminou, a menina disse que iria ao corujal, o que de certa forma não era mentira. No caminho, quando já estava do lado de fora, ela caminhou pela grama já sentindo as gotículas de água caírem em sua cabeça descoberta, aproveitou e abriu o bilhete. Uma letra inclinada e elegante dizia:
“Me encontre no banheiro dos monitores depois do almoço.”
E era só isso. A loira revirou os olhos enquanto se encaminhava para o corujal. Ela amava se encontrar com o Cedrico, mas desde a fatídica conversa no trem, ela tem visto esses encontros as escondidas com outros olhos.
“Cara Sr.ª Snowy,
Eu iria te contar da incrível novidade do Torneio Tribruxo, mas lembrei que você sabe muito bem disso. Fato que agora faz sentido terem pedido um traje à rigor.
Para deixar claro, sim eu estou ótima e sim estou animada, pretendo ter um ano mais tranquilo que o anterior.
Esse ano tivemos uma troca de professores de Runas Antigas, Srtª. Peverell. Provavelmente você a conhece.
Agora tenho que ir para a aula de Herbologia, mas por favor, me mande notícias. Preciso saber que está à salvo. E me mantenha informada sobre Almofadinhas.
Se cuide,
Toothy”
O intervalo naquela tarde passou se arrastando com Brenna resmungando o quanto a aula de Herbologia tendia a ser nojenta, e que daria tudo para não ter a disciplina. A mente da loira, por outro lado, estava presa no bilhete de Cedrico, mas não do jeito ansiosamente apaixonada. Era de um jeito angustiante, que fazia com que seu estômago se revirasse.
—Ei, onde vai? —perguntou Brenna quando a viu levantar do pátio de Transfiguração, onde estavam aproveitando um pouco dos raios solares.
—Vou ao banheiro, já te encontro. —respondeu sem olhá-la nos olhos, antes de disparar para fora do pátio.
Quando chegou ao local de encontro designado por Cedrico, ela não viu ninguém de primeira, mas logo sentiu braços rodearem sua cintura e selinhos serem depositados no seu pescoço fazendo com que a área fique sensível.
—Senti sua falta. —sussurrou o dono dos pensamentos ruidosos da loira.
—Eu também. —sussurrou de volta, ainda sentindo um bolo se formar na garganta. Ela se virou, não perdendo tempo em beijá-lo.
Ela precisava sentir algo que não seja a angústia, a ansiedade que a corroía. E ali, tudo parecia certo. O beijo dele, suas mãos se entrelaçando na cintura fina da menina, as mãos delas envoltas em seus cabelos rebeldes cor de cobre. Mas, no meio do que parecia estar perfeito, vozes vindas do corredor interromperam os dois. Ana Abott e Marietta Edgecombe pareciam estar em dúvida do que viram.
—Já estamos de saída... —falou Ana com o riso preso, Marietta por outro lado parecia furiosa.
—Não, tudo bem. Também estamos. —Cedrico riu e a olhou nervosamente, eles já tinham se separado. Mas toda a linguagem corporal dos dois indicava o desconforto. —Bem, acho que é isso. Aproveite minhas anotações; se precisar de mais é só pedir.
—Ah... — a loira ofegou para a desculpa mais esfarrapada que já tinha ouvido. —Claro. —forçou um sorriso que mais parecia uma careta.
Os três foram embora, e ao longe risadas femininas ecoaram para dentro do banheiro, fazendo com que a mente da Black pipocasse com paranoias. O que diabos tinha acontecido? O Cedrico realmente parecia ter sentido vergonha?
E por todo o caminho até a aula de herbologia enquanto Brenna tagarelava sem parar sobre o quanto ela estava ansiosa para o Torneio Tribruxo, Charlotte sentia um vazio no estômago, seu coração parecia estar acelerado e sua mente não parava. O que eu fiz de errado? Nem mesmo as estranhas plantas que a Prof.ª Sprout mostrava a tirava dos seus pensamentos. Durante a aula, Brenna reclamava de fome, mas ela não sentia um pingo se quer, seja pelo pus que tiveram que espremer das plantas, seja a estranha sensação que sentia pelo acontecido no banheiro algumas horas atrás.
Assim que saíram da aula, Malfoy e seus capangas correram disparados na frente com um pedaço de jornal nas mãos, pareciam genuinamente felizes. E quando eles estão felizes, normalmente significava que todos ao redor não compartilhariam do sentimento. Charlotte e Brenna se entreolharam antes que corressem atrás deles. Dentre os vários defeitos de um sonserino, um deles que Charlotte mais procurava evitar era a crueldade, mesmo que vez ou outra ela sinta a urgência de não ser tão boa. Ela, então, fazia o possível para contornar essa tendência, mesmo que isso signifique confrontar o sangue do seu sangue. Ou tentar confrontar, já que suas pernas curtas não a permitiam correr tão rápido.
Chegando lá Malfoy, rodeado de seus amigos imbecis, fazia gestos apontando para um jornal, de frente a eles, Weasley era segurado pelos dois amigos, Potter e Granger. O ruivo parecia furioso, enquanto Draco sorria debochado.
— E tem uma foto, Weasley! — acrescentou Malfoy, virando o jornal e mostrando-a. — Uma foto de seus pais à porta de casa, se é que se pode chamar isso de casa! Sua mãe bem que podia perder uns quilinhos, não acha? — O Weasley tremia de fúria. Todos encaravam a cena.
— Se manda, Malfoy — disse Potter. — Vamos Rony...
— Ah, é mesmo, você esteve visitando a família no verão, não foi, Potter? — caçoou Malfoy. — Então me conta, a mãe dele parece uma barrica ou é efeito da foto?
— Qual é o seu problema, Malfoy? — Charlotte que até o momento estava recuperando o fôlego deixou uma exclamação furiosa escapar. — Deixa eles em paz! — todos olharam surpresos para a loira. Até mesmo Brenna, que segurava seu braço com leveza ao notar que a mão de Charlotte segurava a própria varinha com firmeza.
— Cuida da sua vida, Black. — o loiro rosnou, com o rosto levemente avermelhado. Mas, antes que a loira pudesse retrucar, Potter se virou em sua direção ainda segurando Weasley pelas costas para impedi-lo de partir para cima do Malfoy.
— Está tudo bem, Charlotte. Você já olhou bem para a mãe do Malfoy? — respondeu Potter com raiva no olhar. E então se virou para o loiro. — Aquela expressão na cara dela, de quem tem bosta debaixo do nariz? Ela sempre teve aquela cara ou foi só porque você estava perto dela? — O rosto pálido de Malfoy corou levemente. Os demais seguraram uma risada.
— Não se atreva a ofender minha mãe, Potter.
— Então vê se cala essa boca. — disse Harry dando as costas. Então, tudo aconteceu muito rápido. Charlotte viu de relance Malfoy com a varinha em mãos e imediatamente reagiu com um sonoro Expelliarmus. A varinha do loiro voou e antes que pudesse revidar, o loiro foi atingido por um feitiço; não por Charlotte ou qualquer expectador. Mas, sim, por um furioso Moody que descia mancando a escadaria de mármore.
— Ah, não vai não, garoto! — O Prof. Moody tinha a varinha na mão e apontava diretamente para uma doninha muito alva, que tremia no piso de lajotas, exatamente no lugar em que Malfoy estivera. Fez-se um silêncio aterrorizado no saguão. Ninguém exceto Moody mexia um só músculo. Ele se virou para olhar Harry — Ele o mordeu? — rosnou o professor.
— Não — respondeu Harry
— Deixe-o! — berrou Moody. Charlotte pensou que o Professor não anda bebendo somente suco de abóbora.
— Deixe... o quê? — perguntou Harry espantado, com os olhos verdes arregalados.
— Não você, ele! — vociferou Moody, apontando o polegar por cima do ombro para Crabbe, que acabara de congelar em meio a um gesto para recolher a doninha branca. Moody começou a mancar em direção a Crabbe, Goyle e a doninha, que soltou um guincho aterrorizado e fugiu em direção às masmorras. — Acho que não! — rugiu Moody, tornando a apontar a varinha para a doninha, ela subiu uns três metros no ar, caiu com um baque úmido no chão e quicou de novo para cima. — Não gosto de gente que ataca um adversário pelas costas— rosnou Moody, enquanto a doninha quicava cada vez mais alto, guinchando de dor. —Um ato nojento, covarde, reles... — A doninha voava, as pernas e a cauda sacudiam descontroladas. — Nunca... mais... torne... a... fazer... isso — continuou o professor, destacando cada palavra para a doninha que batia no piso de pedra e tornava a subir.
— Prof. Moody! — chamou uma voz chocada. A Prof.ª Minerva vinha descendo a escadaria com os braços carregados de livros.
— Olá, Prof.ª a McGonagall — cumprimentou Moody calmamente, fazendo a doninha quicar ainda mais alto.
— Que... que é que o senhor está fazendo? — perguntou a professora seguindo com o olhar a subida da doninha no ar. Charlotte arregalava os olhos esverdeados para a cena, pensando que Hogwarts definitivamente tinha virado um hospício.
— Ensinando — respondeu ele.
— Ensinando... Moody, isso é um aluno? — gritou a professora, os livros despencando dos seus braços.
— É. — o homem respondeu simplesmente.
— Não! — exclamou ela, descendo a escada correndo e puxando a própria varinha; um momento depois, com um estampido, Draco Malfoy reapareceu, caído embolado no chão, os cabelos lisos e louros sobre o rosto agora muito vermelho. Ele se levantou, fazendo uma careta. Charlotte prendeu uma risada nervosa e trocou um olhar apavorado com Brenna; seja pelo professor louco seja pela situação deplorável que seu primo se encontrava.
— Moody, nunca usamos transformação em castigos! — disse a professora com a voz fraca. — Certamente o Prof. Dumbledore deve ter-lhe dito isso?
— É, talvez ele tenha mencionado – respondeu Moody, coçando o queixo displicentemente — mas, achei que um bom choque...
— Damos detenções, Moody! Ou falamos com o diretor da casa do faltoso!
— Vou fazer isso, então — disse Moody, encarando Malfoy com intenso desagrado. O garoto, cujos olhos claros ainda lacrimejavam de dor e humilhação, ergueu o rosto maldosamente para Moody e murmurou alguma coisa em que se distinguiam as palavras “meu pai”.
— Ah, é? — disse Moody em voz baixa, aproximando-se alguns passos, a pancada surda de sua perna de pau ecoando pelo saguão. — Bom, conheço seu pai de outras eras, moleque... diga a ele que Moody está de olho no filho dele... diga-lhe isso por mim... agora, imagino que o diretor de sua casa seja o Snape, não?
— É — respondeu o loiro.
— Outro velho amigo — rosnou Moody. — Estou querendo mesmo conversar com o velho Snape... vamos, seu... — E segurando o garoto pelo antebraço saiu com ele em direção às masmorras. A Prof.ª a Minerva acompanhou-os com um olhar ansioso por alguns momentos, depois apontou a varinha para os livros caídos fazendo-os subir no ar e voltar aos seus braços.
Toda a plateia se dispersava vagarosamente, restando apenas Charlotte, Brenna e o trio para trás. Eles se encararam sem saber o que falar antes dos meninos marcharem para o salão principal sem dizer uma palavra, mesmo que olhassem ansiosamente para a loira antes de sair. Granger por sua vez permaneceu parada, com os olhos castanhos presos em Charlotte; deixando a loira com uma sensação de nostalgia ao lembrar de quando eram próximas. Ela e o trio de ouro haviam se aproximado nas aulas de poções no ano anterior; a princípio eles haviam ficado curiosos pelo seu sobrenome e sua origem, e aos poucos a curiosidade tomou preocupação quando Hermione pensou que a loira corria tanto perigo quanto Harry. Eles nunca foram inseparáveis, mas ao menos nesses poucos momentos, era divertido. E Charlotte nunca esqueceu essa característica de Hermione, que por vezes a irritava; ela nunca deixava passar nada.
— Posso falar com você? — a morena se direcionou a loira e Brenna franziu o cenho em confusão.
— Claro. —Charlotte respondeu surpresa por sua repentina interação. Brenna por outro lado, a lançou um olhar significativo antes de ir para o salão principal, olhar esse que dizia que ela faria perguntas mais tarde.
— Por que fez isso? — ela perguntou assim que ficaram sozinhas no pátio.
— Isso o que? — Lottie cruzou os braços de maneira displicente se mantendo numa distância considerável.
— Defender o Rony do Malfoy. — Hermione sustentou o olhar, analisando as expressões faciais e corporais da loira. — Achei que nos odiasse.
— Eu não odeio vocês. —a loira revirou os olhos, e a grifinória arqueou as sobrancelhas. — Olha, naquela noite vocês me atacaram e por causa de vocês, eu não vejo meu pai faz meses! — respondeu controlando sua voz num tom baixo. — Então, vocês quem devem me odiar, por fazerem isso e me tratarem como a vilã.
— Nós pedimos desculpas! — ela respondeu em uma voz baixa esganiçada. Charlotte arqueou uma sobrancelha e riu sem humor. Hermione suspirou antes de continuar. — Eu sei que desculpas não são tudo. Mas, aquela noite não foi o que você pensa.
— Como não, Granger? Me ilumine com seu intelecto. — a loira debochou e a morena revirou os olhos.
— Se você quiser, eu posso te contar o que houve. E não esqueça, você passou boa parte daquela noite desacordada.
— Não tem como eu esquecer. — Lottie respondeu séria, arrancando um suspiro cansado da morena, que se virou para ir embora. Contudo, antes de ir de fato ela se voltou para a Black.
— Sabe, seu deboche me dá nos nervos. — ela parecia se divertir com o comentário. — Mas, nós sentimos sua falta. — se virou, ajeitou seus cachos e foi em direção ao salão principal, deixando Charlotte com seus pensamentos confusos.
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