Heirs

1 Estrela da manhã


Notas iniciais
Pretendo postar um capítulo por semana, espero que gostem!

Parte 1

Anjos Negros

Pois nenhuma criatura sob os céus é como nós, nenhuma se parece tanto com Ele quanto nós mesmos, anjos negros não confinados aos parcos limites do inferno, mas perambulando por Sua terra e por todos os Seus reinos.

— Anne Rice, Entrevista com o Vampiro

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Estrela da manhã

Uma torrente de água fria caía do céu quando ele saiu do beco, adentrando a rua deserta. O lado esquerdo decorado por placas neon retrôs; cafés, pequenos restaurantes, brechós. A calçada por onde o jovem garoto caminhava, à direita, seguia à sombra de grandes edifícios antigos, com detalhes neoclássicos misturados à arquitetura colonial.

Molhado e com frio, ele atravessou a rua em direção à uma vitrine com uma tosca representação de uma xícara de café em neon e uma placa imunda com os dizeres: “Aberto”. Quando ele abriu a porta o som típico de sineta preencheu o ar por menos de um segundo, mas foi o suficiente para despertar os seus sentidos de alerta, fazendo-o tremer antes de se sentar na primeira mesa que viu.

Uma garota alta adentrou o recinto através de uma porta à direita do balcão. Seguiu até ele pelo corredor entre as diversas mesas vermelhas do café. Vestia um vestido amarelo-vivo estampado com cerejinhas, o cabelo louro preso em um rabo de cavalo.

— O que vai querer? – A garçonete o encarava com um leve tom de desdém, provavelmente devido ao fato de o banco e a mesa estarem completamente encharcados. O garoto desviou o olhar confuso da moça e percebeu um cardápio pousado à sua frente, mas não o pegou.

— Um café preto, sem açúcar. Só. – Disse sem tirar os olhos da mesa.

Depois de a garçonete desaparecer pela porta ao lado do balcão ele se viu refletindo. Ela não havia reparado na espada presa às costas dele, ou seja, os símbolos ainda estavam funcionando. A katana, o diário de seu pai e o pequeno bastão de metal eram os únicos pertences de valor que carregava, além de uma pequena quantia de dinheiro que havia pego antes de fugir. Logo depois de seu pai morrer.

O garoto se lembrava muito bem de como e quando tocara Toshiro pela primeira vez, a espada curva e brilhante que seu pai pusera em suas mãos no seu aniversário de dez anos. Era uma tarde nublada, incomum no verão do hemisfério sul. Lembrava-se de descer do carro na principal avenida da pequena cidade natal e ser levado pelo pai através de um grande portão negro, de descer por uma longa escadaria. Ao chegarem ao pé das escadas, ele sentiu o abraço firme do pai levando-o para a direita através de um corredor oculto que seguia paralelamente às escadas até uma porta cor de vinho.

Atrás daquela porta estendia-se uma grande sala negra. As paredes escuras repletas de tapeçarias orientais, e na parede oposta, defronte à entrada, uma grande estátua de um guerreiro japonês empunhando uma espada curva em posição de ataque. À direita e à esquerda da estátua, a parede era decorada por diversas armas. Lanças, armaduras, sabres de todos os tipos.

Após o pai abrir a porta e levar o menino através da sala em direção à estátua do samurai, das sombras, um grande homem surgiu. Alto, asiático, os cabelos e a barba brancos como neve. Vestia uma túnica estampada com cenas de batalha e símbolos estranhos muito parecidos com os das tapeçarias nas paredes. De uma longa caixa aos pés do menino e de seu pai, o velho retirou Toshiro, empunhando-a na vertical, com a lâmina para baixo de forma que os dizeres na lâmina entalhados brilhassem à luz das velas: “Eu trago a luz à escuridão, e a escuridão à luz”. O senhor depositou-a nas mãos do pai do menino, que se ajoelhou e beijou a testa do filho, dizendo antes de entregá-la a ele:

— Odeio ter de lhe passar esse fardo, e ainda mais por fazê-lo esquecer de tudo isso. – Agora ele se lembrava. Lembrava-se da cerimônia, das palmas das mãos sendo cortadas, do sangue alimentando as chamas das velas negras postas à sua frente. Negras como piche, e com símbolos brancos gravados que brilhavam como as estrelas.

Foram necessários sete anos para que ele se lembrasse daquela tarde, para que os primeiros símbolos começassem a aparecer, para os primeiros monstros surgirem. Não foi fácil ignorar no início, fingir que as pessoas azuis, com asas ou chifres não o encaravam de volta quando percebiam que ele conseguia lhes ver. Sua mãe ficara enraivecida com a “tatuagem” de olho na mão direita, mas depois de uma explicação do pai do menino ela não fizera mais perguntas.

Mas ele fizera. Tentava extrair respostas do pai a todo custo, sem sucesso. Seu pai adiava “a grande conversa” como a chamava por dias e dias. Dizia que logo os dois viajariam, mas que o filho teria de esperar pela formatura. Quase sem esperança de receber as benditas respostas que tanto almejava, foi em um sábado à noite que ele as obteve, ou pelo menos grande parte delas.

Da festa de formatura do ensino médio voltavam ele, a mãe, a meia-irmã e o sobrinho. O pai havia ficado em casa, há muitos anos vinha sucumbindo ao alcoolismo e já não saía com tanta frequência. A irmã mais velha no volante, tagarelava com a mãe sobre a festa, de tempos em tempos em meio a gargalhadas relembravam o quanto ele ficava desengonçado de terno. O sobrinho há muito, dormia em seu colo no banco traseiro.

Enquanto o carro atravessava a penumbra, o garoto pensava no fim das aulas de kendo, a esgrima japonesa. Antes de completar dezessete anos em 21 de dezembro, três dias depois do final do ano letivo, ele tinha aulas extracurriculares de esgrima, ou pelo menos era isso que achava que eram. Antes de se lembrar da cerimônia.

Para ele, treinar com espadas de bambu três vezes por semana era algo absolutamente normal. Obviamente, depois de ter a cerimônia de alguma forma apagada de sua mente, nunca mais tocara em Toshiro. Suas feridas cicatrizaram, sua memória fora alterada, e na semana seguinte fora apresentado novamente, sem saber, ao seu mestre de kendo, com quem aprenderia a lutar pelos próximos sete anos.

Conforme as marcas da cerimônia começavam a reaparecer e a memória a se recobrar, os sentidos dele aguçavam-se de forma sobrenatural. Sentia cheiros estranhos, presenças nas sombras, monstros à espreita. Nunca estava sozinho. Seguira assim por duas semanas após seu aniversário, até a festa de formatura. Perguntando-se se toda a sua adolescência não havia passado de uma mentira.

Seus dedos passeavam pelos cabelos encaracolados do sobrinho. Encarando a noite, ele observava as sombras, à procura de alguma perturbação. De repente o carro fez uma curva para a esquerda, saindo da rodovia e adentrando os subúrbios. Logo estariam em casa. O carro seguia rápido pela rua onde moravam quando uma sombra surgiu em meio ao asfalto. O garoto segurou o sobrinho com todas as forças, sabia que a irmã não pararia a tempo. A colisão foi forte, bateram na massa escura e então, tudo ficou preto.

Ele acordou com um cheiro de enxofre e lixo no ar. O sobrinho estava desacordado ao seu lado. Assustado pelo pequeno, colocou o dedo sob as narinas do sobrinho e procurou por algum machucado na cabeça. Ele respirava.

Via as luzes das casas se acendendo ao redor. “Ambulância”, pensou. Estava zonzo, mal conseguia pensar. O celular havia sumido do bolso. O carro havia batido a apenas alguns metros da frente de casa. Ainda tonto, o garoto abriu a porta e saiu do carro com o sobrinho nos braços. Antes de chegar na calçada sentiu um toque no ombro.

— Ei, ei! Calma! A ambulância já está vindo. Ei! Em que vocês bateram? – Era o vizinho da frente, de roupão e pantufas. Provavelmente havia sido tirado da cama no meio da noite pelo barulho da colisão. Lentamente o homem tirou o sobrinho dos braços do garoto.

— Obrigado... – Foi a única coisa que conseguiu dizer antes de ver a porta de casa aberta. E então ele correu.

Chutou a porta entreaberta e não viu nada. Tudo estava escuro, o único som vinha da televisão na sala de estar. Aos poucos sua visão se adaptou à falta de luz. O hall estava em ruínas, os vasos de flores, os quadros, tudo destruído. Marcas de garras cortavam o papel de parede estampado com flores que a mãe tanto gostava. Ele seguiu pelo corredor até a sala. Estava deserta. Não havia ninguém sentado na poltrona em frente à televisão. Um copo de uísque meio cheio na mesa de centro, um cigarro pela metade no cinzeiro. Onde estava o pai?

Em segundos o menino se viu correndo pela casa, de porta em porta. Todos os quartos estavam destruídos, a despensa, a cozinha, a sala de jantar, todas desertas. Lentamente ele abriu a porta do quarto dos pais, o último cômodo que havia revistado, e saiu novamente no corredor. E então viu.

O rastro de destruição. Os vasos de flores partidos, a terra e os cacos formando uma trilha em direção à porta entreaberta do banheiro. Ele respirou fundo. Uma, duas vezes. E então, lentamente, deu um passo em direção à porta. Ouviu um pedaço de porcelana se partir sob seu pé, sentiu a terra espalhada sobre o assoalho que rangia. E seguiu. Estendeu o braço em direção à porta e empurrou.

Na penumbra, a silhueta iluminada pelas estrelas do céu limpo além da janela no fundo do banheiro. Balançando, como o pêndulo de um relógio antigo. A barba por fazer, os longos cabelos desgrenhados, a pele cor de papel. O lençol amarrado em torno do pescoço mantinha o corpo de seu pai a apenas alguns centímetros do fundo da banheira, onde jazia um pedaço molhado de papel.

Depois de ler o bilhete escrito às pressas ele correu para o quarto do pais. As instruções eram claras. “Atrás do espelho. Buraco na parede. Fundo falso”. Pôs uma jaqueta comprida de inverno, prendeu Toshiro às costas. No fundo falso também havia um livro encardido e um bastão de metal semelhante a uma caneta longa. Colocou tudo na mochila, junto com o pouco de dinheiro que sobrara do último mês e correra. Pelo corredor, às pressas, quebrando os restos dos vasos. As sirenes da ambulância ecoando do lado de fora da casa, as luzes vermelhas entrando pelas janelas.

Agora ele sabia que se não fosse por aquelas luzes, e talvez pelos olhos cor de fogo da criatura, ele não teria percebido as sombras se elevando no meio do hall. Feito de fumaça e fogo, o monstro avançou. Com o dobro da altura do garoto, a coisa facilmente o derrubou. De costas no chão ele sentiu o toque da fumaça que formava o monstro queimar sua pele.

O grito dele ecoou pela escuridão. Ele ia morrer, não como o pai, recusando se render a ponto de tirar a própria vida, mas gritando e em chamas. Então em meio ao caos ele ouviu o seu nome. A voz da mãe o chamando do lado de fora da casa, provavelmente da ambulância. Ouviu seu sobrinho aos berros, chorando, chamando pela mãe. E por ele.

As lágrimas evaporaram em meio as chamas. Ele levou a mão direita às costas, apertou o cabo da espada. “Uma espada de verdade, pela primeira vez”, foi a única coisa que passou por sua mente.

Ele sacou Toshiro. Puxou-a da bainha e desceu a lâmina sobre o braço escuro envolto em fogo do monstro. Um grito animalesco cortou o ar quando o cotovelo se partiu e o sangue espesso jorrou. O sangue do monstro queimava como ácido. O garoto engatinhou para trás, enquanto a criatura se debatia entre as paredes do hall, agora sem o antebraço esquerdo. E então, da mesma forma que surgiu, de repente, parou.

Os olhos alaranjados do diabo estavam focados nele, brilhantes como o inferno. Chifres curvos saiam da testa da criatura, uma boca cheia de dentes aberta em fúria vertendo fogo e calor. O monstro empertigou-se como um gato, pronto para saltar. Então o garoto lembrou-se das primeiras aulas com o mestre, ou sensei como ele o forçava a chamá-lo. E estendeu a lâmina em direção ao diabo à sua frente. Agora rígido, em kamae, posição de combate. Ele esperou.

O monstro saltou no ar, para cima dele. O menino então abaixou-se levemente, deixando a criatura passar por cima de sua cabeça, e rápida e precisamente fez um corte no peito da coisa. Acima dele, que estava agora agachado no chão, o diabo explodiu em uma mistura de fogo, sangue fervente e cinzas. Coberto pelos restos mortais da criatura, que pareciam sumir aos poucos, evaporando no ar, ele se levantou. Correu para a porta. A frente da casa estava cheia de policiais, a ambulância na frente da casa do vizinho. Conseguia ver os pés da mãe saindo da porta traseira do veículo mas não via o sobrinho nem a irmã, que deviam estar lá dentro.

Sabendo que não poderia sair por ali, foi para os fundos da casa. Quando pôs a mão na maçaneta de prata ouviu a mãe gritando por ele novamente. Ela provavelmente devia estar pensando que ele havia corrido para casa e que estava conversando com o pai, com vergonha de sair. Ele não queria pensar na reação dela ao saber do pai, ao saber que o filho tinha desaparecido. Mas se era aquilo que ele precisava fazer para obter as respostas, ele faria. Ele abriu a porta e correu para a noite.

Depois do muro do pátio nos fundos da casa, havia um campo deserto. Um banhado que separava o bairro onde morava no subúrbio do meio da cidade. Ele se lembrava de ter corrido até a casa do sensei aquela noite, no frio da madrugada. Lembrava-se de não ter encontrado ninguém. Dormiu lá por uma semana. Comia as poucas coisas que encontrava na geladeira do velho e lia o diário do pai. O livro era cheio de símbolos estranhos, com nomes estrangeiros. Para cada marca havia uma função e cada marca tinha de ser gravada na pele por uma faca ou algo do tipo. A ilustração não tinha nomes ou título.

Ele levou alguns dias para descobrir que o bastão que carregava era o da ilustração. E mais alguns dias para aprender a usá-lo adequadamente. Por algum motivo desconhecido, ele era muito bom em desenhar as marcas na própria pele. O símbolos que doíam quando começaram a ser gravados, passaram a fazer cócegas e o bastão a ser quase prazeroso e reconfortante ao toque. Depois de descobrir como os símbolos funcionavam decidiu parar de esperar. O diário do pai dava instruções caso o sensei não aparecesse.

Mostrava uma estrela vermelha em um mapa do estado. Bem ao sul, a capital. E depois um mapa da capital com outra estrela no centro da cidade. E foi aí que ele partiu. Pegou a mochila, e foi para a estrada. A passagem de ônibus não era muito cara. O mais difícil foi localizar-se na cidade, demorou um dia inteiro para achar a estrela vermelha do mapa. E quando a noite começava a cair, e uma chuva espessa preenchia o ar, não viu problema em tomar um café.

E ali estava, tomando o café mais horrível de sua vida. Não gostava de café sem leite, e muito menos sem açúcar, mas estava recorrendo a qualquer coisa para continuar acordado. É claro que não chegara ali sem problemas, fora atacado pelo menos quatro vezes depois do diabo de fumaça e fogo. Duas a caminho da estação, quando foi comprar a passagem para a capital. Uma quando desceu na capital, e uma antes de chegar ao café.

Estava exausto, mal dormia a dias. Não se dava o luxo de ficar desacordado ou desatento qualquer hora que fosse. Só realmente dormia quando o corpo vencia a guerra e ele acabava caindo no sono sem perceber. Como agora.

Ele acordou com uma batida na cabeça, abriu os olhos e viu uma moça loura histérica gritando na sua frente.

— Você não pode dormir aqui! Já molhou tudo, nem pagou o café e ainda cai no sono na minha mesa! BABANDO ELA TODA! – Ela segurava um cardápio na mão como se fosse uma arma. Os olhos bem abertos, arregalados, as bochechas coradas. Estava claramente enraivecida.

O garoto não gostava de chamar atenção, então sacou duas notas, deixou-as na mesa e saiu para a noite fria. A chuva ainda caía forte ali fora. Em toda sua estupidez ele não se lembrara de comprar um guarda-chuva e agora tudo a não ser os cafés e bares que funcionavam 24h estavam abertos. Ele levantou o capuz e seguiu caminhando pelo asfalto.

Percebeu em meio a tormenta, a ironia de toda a situação. Ele tremia, tinha calafrios e a pele era sensível ao vento e ao toque, mas não tinha frio. Existiam símbolos para isso. E então lembrou-se das coisas na mochila e rezou para que houvesse um símbolo de impermeabilidade a água em alguma das páginas do livro do pai. Os tremores vinham da preocupação constante que ele tinha, tudo aquilo fazia parte de algo novo e estranho que há alguns meses nunca fizera parte de sua vida. Agora ele precisava olhar atentamente para todas as esquinas, becos, buracos e sombras que encontrava na rua. Um símbolo de “Coragem em Combate” ou “Foco” não levava os tremores embora.

Os seus passos não emitiam som algum ao tocarem o chão, ou submergirem nas enormes poças no asfalto. O símbolo de “Silêncio” gravado profundamente em seu peito, perto do coração, onde era mais forte, funcionava muito bem. O menino encarava as vitrines das lojas à esquerda e pensava nas vidas das pessoas que frequentavam aqueles lugares, na vida que ele costumava ter. E em meio a esses devaneios, veio-lhe a hipótese da loucura. Ela lhe vinha à mente de tempos em tempos mas ele sempre a afastava rapidamente. Era impossível, depois de tudo o que havia enfrentado, que todas as coisas que via não passassem de visões ou ilusões, que não existissem de fato. Ou não?

Seguia pela rua quando o cheiro típico de enxofre e lixo em decomposição preencheu o ar. Não havia nada à sua frente. Nenhum carro vindo, poucos estacionados. Então ele viu, na esquina onde dois becos estreitos abriam-se para a esquerda e a direita. Pálidos como papel, a pele escamosa e gosmenta. As bocas perfeitamente circulares cheias de dentes afiados, os olhos grandes e negros como carvão. Não tinham braços mas tentáculos com quase o dobro da altura do próprio corpo. Já havia enfrentado monstros daquele tipo, mas não tantos.

Do beco à direita vieram dois, grunhindo e soltando sons desordenados que se assemelhavam a gritos, ou tentativas de uma pessoa com a traqueia perfurada ou muito asmática de falar. Do beco à esquerda, do lado de um pequeno prédio de dois andares onde via-se a vitrine de uma boutique, vieram mais três. E quando ele se virou para o lado de onde havia vindo, cinco daquelas coisas o encaravam.

Lentamente ele levou a mão às costas, em direção à bainha da espada. Estava quase tocando Toshiro quando alguma coisa caiu do céu em cima dele, quase esmagando-o. Debateu-se e rolou com a coisa no chão, os tentáculos cheios de sugadores que tentavam injetar veneno em seus braços através do tecido da jaqueta, sem sucesso. Rolaram até a calçada à sombra dos prédios neoclássicos antigos e sujos e quando o monstro ficou por cima dele, grunhindo e encarando-o com aqueles olhos negros e sem pupilas, ele viu. Nas sacadas dos prédios históricos e das lojas, mais e mais deles. Gritando e emitindo mais daquele som ininteligível.

Depois de se dar conta da situação, o garoto finalmente tocou o cabo da espada com a mão direita e sacou-a. Imediatamente decepou a cabeça do monstro que o prendia contra o chão. O sangue ácido jorrou no seu rosto mas ele já estava acostumado. Quando os tentáculos afrouxaram ele se levantou rapidamente. Virou para correr quando os dois monstros vieram do beco da direita. Dividiu um ao meio e decepou a cabeça do outro. Agora com os sentidos atentos para o céu acima, rolou no chão em direção os outros três no beco da esquerda. Cortou as pernas do que estava mais próximo, rolou para o lado quando o corpo caiu no asfalto. Girou com as costas no chão, e usando a katana fez os outros dois em pedaços.

Quando se levantou sabia que os outros pulariam das sacadas em cima dele. Então correu. Conseguiu evitar um ou dois dos corpos que caíam desengonçados no chão, muitos acabavam caindo debilmente de cara no asfalto, morrendo instantaneamente, mas o que as criaturas não tinham de inteligência ou habilidade manual (já que tinham tentáculos ao invés de braços), tinham em número. Em meio ao caos, três ou quatro dos monstros conseguiram aterrissar com sucesso na rua já encharcada com a água da chuva e o sangue ácido.

O menino correu em direção à eles. Dividiu verticalmente a cabeça de um que logo se desfez em cinzas, e antes das cinzas atingirem o chão, antes de ele se virar, um tentáculo envolveu seu braço direito. A dor foi intensa, ele sentia as cerdas cortando o tecido e a carne. Injetando algum tipo de veneno que fazia sua pele queimar. Em meio a grunhidos de dor, sentiu o símbolo de “Coragem em Combate” queimar no braço esquerdo, então abriu a mão direita e deixou Toshiro cair. Antes que a espada atingisse o chão ele a pegou no ar com a mão esquerda e cortou o tentáculo da coisa. A criatura começou a gritar e grunhir mas antes que pudesse avançar, sua cabeça já estava voando em direção ao bueiro e suas entranhas espalhadas pelo chão.

Ele tentou se lembrar do mapa na mochila. Sabia que quando saíra do beco, adentrara a rua da estrela vermelha. Então só tinha que correr, e o fez, o mais rápido que pode. Ouvia os grunhidos dos monstros atrás de si, e o som das partes dos corpos se quebrando ao atingirem o chão. Sua visão já estava turva em meio a chuva, talvez por causa da água ou pelo veneno que fluía do corte no braço direito. Agora segurava a katana com a mão esquerda, não era canhoto, mas fazia o melhor que podia. Decapitava ou feria gravemente qualquer das criaturas que surgisse em sua frente. Já estava quase caindo, sucumbindo à dor e à tontura quando a viu.

No fim da rua, alta a imponente. A arquitetura decadente, as paredes externas sujas e encardidas, a pedra esculpida em detalhes coloniais, as janelas talhadas com vitrais que brilhavam na escuridão noturna, refletindo a luz dos poucos postes que ainda funcionavam. A igreja ficava na esquina, de frente para uma praça, então claramente havia uma entrada lateral naquela rua. Ele correu em direção às escadas, cambaleando nos degraus, resvalando na água.

Não havia mais monstros.

Eles haviam sumido, recuado à sombra da igreja. Talvez fossem demônios, vindos das profundezas obscuras do inferno, talvez não resistissem à imagem da catedral, ou das cruzes que subiam das enormes cúpulas douradas. Ele socou as portas duplas, eram grossas e altas. Bateu com todas as forças, tinha de ser ali, não podia ser outro lugar.

Bateu e gritou por ajuda até ouvir uma voz.

Uma voz feminina, sonolenta, e por debaixo da superfície da impressão de educação que parecia querer causar, irritada? A porta direita se abriu. Ele se levantou, tirou a franja molhada da testa e embainhou a espada. A encarou suplicante.

Uma garota alta, toda de preto, o cabelo castanho, quase negro e ondulado, caindo pelas costas até a cintura. Por debaixo da gola v, a pele estampava marcas, os mesmos símbolos que ele gravava na dele. Ela tinha olhos cor de avelã, e era pálida. Os lábios finos contraídos. A irritação era evidente.

— Você sabe que portas têm maçanetas não sabe? Isso é um Instituto, não te ensinaram de onde diabos você vem que elas se abrem pra qualquer Nephilim? – Ela cruzou os braços e então arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma.

Nefi o quê? – Não sabia o que a palavra significava, talvez fosse o que ele era afinal. A expressão dela não suavizou, ainda parecia chocada e estava em riste.

— Quem é você? Qual é o seu nome? O que você quer? – Ela estava vermelha, os olhos arregalados brilhavam como se estivesse prestes a chorar. Não havia por que não respondê-la afinal.

— João. Meu nome é João.

Carol havia caído no sono com o Códex na cara, de novo.

Sonhava com os pais. Os pais biológicos, a antiga casa que abandonara aos treze anos de idade. Via as escadas circulares que levavam ao segundo andar, a cozinha com o teto baixo. Os sofás, a televisão. A casa permanecera clara em sua mente, e a devastação também. Ela via os corpos, o sangue e o icor demoníaco.

Havia chegado da viagem de escola mais cedo que o planejado. Lembrava-se de abrir a porta e ver a trilha de sangue no piso. A sensação do sangue pegajoso nos degraus ao subir as escadas nunca foi esquecida, a ruína que era o seu quarto também não. Quando abriu a porta e viu os livros espalhados, o líquido ácido que na época não fazia ideia do que era. E em meio a destruição, ao sangue e ao horror, um corpinho. Estava sentada, com os olhos heterocromáticos abertos. Um cor de café e o outro envolto em uma névoa branca.

Com Yoko nos braços (sua dachshund), a mochila nas costas e toda a pesquisa que vinha fazendo a meses sobre as visões, ela fugiu. Lembrava-se do homem alto vindo até ela em meio à escuridão, o frio e a fome. Não comia nada havia semanas, enrolava-se com a cadelinha em um cobertor de lã no meio da noite, deitada na calçada. Ela via os olhos azuis dele enquanto ele a carregava nos braços. Outro homem com vestes turquesa trazia Yoko.

— Mas que animal curioso... Alec, será que podemos levá-la também? – Ele falava um inglês muito natural, com muita graça e certa sutileza. Como se nada pudesse irritá-lo. – Ela tem a marca, os olhos. Veja.

E então ela sucumbiu.

À fome, à fraqueza. Dormiu por dois longos dias, e quando acordou, a primeira coisa que viu foi o próprio rosto. Um espelho tridimensional cristalino. Via o lábio superior fino, o inferior inchado e cheio. Os olhos castanhos que lembravam chocolate, os cabelos longos e escuros, o nariz fino.

— Clary, Alec. Ela acordou. – O quê? Ela não estava falando, mas os lábios da figura à sua frente moveram-se mesmo assim. Duas outras figuras surgiram ao seu lado, uma mulher ruiva e um homem moreno, alto e pálido. Todos tinham tatuagens, símbolos negros marcando a pele e inúmeras cicatrizes.

Naquele dia conheceu a mãe. Isabelle Lightwood.

Estava chegando na parte que mais gostava do sonho, onde a mãe a abraçava em meio aos gritos e as lágrimas e dizia que tudo ficaria bem, quando ouviu batidas. Acordou e viu sombras, letras e figuras ilustradas. Tirou a cópia do Códex dos Caçadores de Sombras da cara e se sentou na cama. Seu quarto não era muita coisa, era pequeno, como todos os quartos no Instituto de Porto Alegre. Uma cama de solteiro de madeira, uma mesa de cabeceira, um armário e um banheiro pessoal. Também havia uma estante cheia de livros que negociara com muito entusiasmo com Claudia, a diretora do Instituto.

— Mas e meus livros, aonde vou colocá-los? – Perguntara à mulher loira, alta e encorpada um dia depois de chegar ao Instituto.

— Empilhe-os, queime-os, desfaça-se deles. Não me importo. Temos muitos livros na biblioteca daqui, não esses romances mundanos que só servem para poluir a sua mente. Você já trouxe sua cadelinha necromante, o que mais você quer? – Claudia respondera de forma tão ríspida que Carol quase se deteve, mas o dia em que um pouco de rispidez parasse Carol Lightwood de dizer o que queria nunca chegaria.

— Eu quero a minha estante, e eu quero meus livros, e os quero agora. Não bebi do cálice e nem fui treinada para ter que obedecer ordens nulas. Comande-me em batalha, puna-me nos treinamentos, mas não diga o que polui ou não minha mente. – Ela recebeu a estante e o baú com os livros no fim da tarde. Não conseguia se lembrar de uma ocasião onde abraçara seus livros com tanta força.

Agora ela achava a situação muito engraçada. Claudia Casaverde era uma das melhores treinadoras que conhecera, e apesar do físico, uma das mais doces também. Depois de uns dias descobrira que o tratamento rígido era comum à todos os internos que chegavam ao Instituto vindos de outros países. Claudia disse à Carol que só lhe dera a estante por que nunca um interno falara com ela daquele jeito, e com um português tão bom. É claro que ela não sabia que Carol era brasileira, e a garota não via vantagem nenhuma em contar.

Depois de admirar o quarto por alguns minutos, ela se levantou. O chão estava uma bagunça como sempre, Carol perdia tanto tempo estudando e treinando que mal encontrava tempo para ler, e muito menos para organizar o quarto. O caos então se instalava nos aposentos dela como uma doença contagiosa que nunca ia embora. O máximo que ela fazia era tirar o pó dos livros de vez em quando.

Os gritos e as batidas na porta continuavam. “Mas que diabos?”, ela pensou. Procurou por alguma calça em meio a montanha de roupas, vestiu-a, abriu a porta e saiu para o corredor de pés descalços. O Instituto era frio a noite, o corredor era enorme. Cheio de tapeçarias e quadros retratando histórias de Caçadores de Sombras brasileiros e símbolos antigos. Ela seguiu devagar pelo corredor gelado, quem quer que estivesse batendo na porta ou era um mundano com a visão retardado, um ser do submundo que provavelmente perderia a cabeça quando ela o encontrasse ou um caçador de sombras muito idiota. Nenhum dos três casos merecia um pingo de sua atenção.

Carol desceu as escadas circulares que levavam aos andares inferiores e saiu no corredor de entrada do Instituto. Muitos institutos tinham a arquitetura gótica das igrejas preservada, o instituto de Nova York por exemplo ainda continha a nave da igreja onde fora erguido, com acentos e tudo. Já outros institutos apesar de se parecerem com igrejas por fora, não tinham nada mundanamente religioso dentro, a não ser o que dizia respeito a cultura dos Nephilim. O de Los Angeles não tinha uma nave de igreja, a entrada como a do instituto Porto Alegrense encarava uma escadaria que levava aos andares superiores, e só.

O Instituto de Porto Alegre tinha uma entrada principal que dava em uma rua movimentada do centro, de frente para uma praça. As portas abriam-se para uma grande escadaria de mármore, mas se você olhasse com atenção para os lados da escadaria veria dois corredores paralelos no térreo. Que após alguns metros juntavam-se em um grande corredor que levava aos fundo do Instituto, onde ficava o Santuário. Ao lado das portas do Santuário, na esquerda e na direita, haviam pequenas escadas circulares de pedra que levavam aos andares superiores, e que desembocavam em corredores laterais.

Carol seguia para a entrada lateral da esquerda, ou a entrada lateral sul como a chamavam. Gritos de socorro vinham do outro lado da porta.

— Você só pode estar de brincadeira. Olá? Em que diabos posso ajudar? – E abriu a porta. À frente dela, um garoto alto se erguia do chão. Completamente encharcado. As batidas e os gritos dele eram tão altos que ela havia se esquecido que estava chovendo. Ele tinha cabelos castanhos volumosos e encaracolados. Tinha o maxilar definido, com uma barba rala e olhos castanhos. O nariz parecia uma batata. Mas tinha runas nos braços afinal.

— Você sabe que portas têm maçanetas não sabe? Isso é um Instituto, não te ensinaram de onde diabos você vem que elas se abrem pra qualquer Nephilim? – Ela cruzou os braços e então o reconheceu. O mesmo garotinho estranho, de pele naturalmente bronzeada, com os dentes enormes e a cara de cavalo. Mas não podia ser ele.

O garoto falou algo mas Carol não ouviu.

— Quem é você? Qual é o seu nome? O que você quer? – Ela não conseguia pensar. A visão daquele garoto era a única coisa em anos que a ligava ao passado. As lágrimas queriam sair, mas ela não deixava, havia parado de piscar.

— João. Meu nome é João. – Era ele. Era ele, sim. O mesmo rosto, mais masculino e velho agora. Evidentemente mais alto, mais bonito. Vestia uma jaqueta preta ensopada de água e icor demoníaco. O braço...

— Meu deus! O seu braço! Entra, entra! – Ela o agarrou e o puxou para dentro. Tinha uma mochila rasgada e uma katana presas às costas. Assim que ele entrou e encarou o corredor, ela abaixou o rosto e o limpou com a mão esquerda sem que ele visse, o símbolo de Clarividência brilhando com o sal das lágrimas.

— Por aqui. – Ela pôs o braço esquerdo dele sobre o pescoço, dando-o apoio, e o levou em direção à enfermaria. Ele gemia enquanto subiam as escadas circulares, gemia e babava. Logo, logo desmaiaria. Quando chegaram ao primeiro andar ela o levou em direção ao corredor da direita, os archotes brilhavam com a luz enfeitiçada, a luz refletia no rosto dele. Pálido, doente. O garoto agora caminhava com a cabeça baixa, os olhos fechados, mal se sustentando. Carol chutou as portas da enfermaria e o deitou na primeira cama que viu.

Não levou meio minuto e Claudia estava entrando na enfermaria, vestia uma roupão vermelho, o cabelo loiro platinado preso em um coque. Veio em direção a eles e tomou o rosto do menino nas mãos.

— Ele disse o nome dele Carol? Sabe de onde ele vem? Nunca vi esse garoto, não pode fazer parte do nosso Conclave. Carol? – Carol estava paralisada. Encarava o rosto do menino enquanto a diretora o examinava. João? Como? O cálice talvez? Mas não, não poderia. Ele não tinha a Visão, pelo menos não enquanto foram colegas no ensino fundamental. Na verdade ele era o garoto mais comum e mundano que ela poderia encontrar. O mais inteligente da turma, sim. Esperto, mas completamente comum. Bobo, infantil. Não poderia ser um nephilim.

Mas era.

— João. João Dieterich. – Disse Carol, e então se sentou na cama ao lado da dele.

— Dieterich? Alemão. Victor! Eu quero que você vá até a biblioteca e procure por esse nome. Deve haver uma família nephilim com esse nome. Vá! Vá! – Carol mal tinha visto o garoto entrar, o cabelo castanho arruivado, a cara cheia de sardas, sebosa. Victor Belykh, o caçador de sombras mais inútil da história.

— Mas como, como, co-como se soletra, diretora? – Perguntou ele. Claudia o encarou perplexa.

— Não lhe treinamos em nomes europeus, ã? D-I-E-T-R-I-C-H ou possivelmente D-I-E-T-E-R-I-C-H, ou talvez com um E no final, mas não importa. Agora vá, seu pedaço de estrume! – Carol incrivelmente não riu da situação, a presença de João ali a tinha deixado anestesiada. Ela nunca havia visto ou ido a qualquer lugar que havia frequentado na vida passada, e muito menos encontrado alguém que a conheceu na vida passada.

A diretora foi até o armário na parede oposta. Através do vidro transparente era possível ver inúmeros frascos coloridos. Claudia voltou com um frasco cheio de líquido roxo brilhante semelhante à purpurina e uma seringa de metal antiga.

— Devemos esse antídoto ao seu tiozinho Bane. Veneno de Raum, hhhm, na-na-ni-na-não, muito complexo. – A diretora encheu a seringa com o líquido roxo brilhante. – Se ele tivesse chegado a nós seis ou sete meses atrás? Morto! Pelo menos com um corte desses. Pietro não curaria isso aqui nem com a mágica mais complexa que aquela cabecinha de setenta anos pode fazer. – Agora ela injetava o antídoto na veia de João, que se contorcia em meio ao desconforto. Provavelmente sonhando com sangue e entranhas.

Pietro era o Alto Feiticeiro de Porto Alegre, fora nomeado há uns dez anos. Era relativamente novo para um feiticeiro e Claudia não confiava em seus truques. Depois de guardar o frasco no armário e jogar a seringa usada em uma vasilha de metal em um canto, sentou-se em uma poltrona do outro lado da cama onde João estava dormindo.

— Como ele chegou aqui? Ele te contou? As batidas e os gritos eram ele, não? – A diretora encarava Carol com uma expressão de confusão. – Mas como? Todos os nephilim treinados sabem que as portas do Instituto se abrem para qualquer um que tenha o sangue de Raziel.

Carol a encarou de volta.

— Talvez ele não saiba.

Sonhou com sangue e entranhas.

Quando abriu os olhos, João viu um anjo de tinta. O teto da enfermaria ostentava murais com desenhos de anjos e símbolos. A cama na qual estava deitado era de ferro, várias outras idênticas à dele preenchiam o recinto. Ele encarou a cama à sua esquerda, um emaranhado de cabelos escuros saía das cobertas vermelhas. “Que cor curiosa para cobrir as camas de um hospital”, ele pensou. Então subitamente as cobertas de levantaram e a menina se sentou.

Ah! Você acordou. – Disse surpresa. Os olhos quase fechados, a expressão sonolenta.

— Acordei. – João respondeu, olhou ao redor novamente, confuso. – Aonde eu estou, exatamente?

A garota o examinou atenta, os olhos cerrados.

— Este é o Instituto de Porto Alegre. Você sabe o que é, não sabe? – Ela perguntou.

Ele pensou por um momento. O que ele era afinal? À que ela se referia? João juntou todas as informações que tinha sobre as marcas, os monstros, a espada e o pai, e então, lentamente, balançou a cabeça negativamente.

Hmmm. Mas você tem as Marcas, não tem? Tem a runa de “Clarividência” na mão, foi obviamente treinado. Sabe a localização do Instituto e tudo mais, como diabos você não sabe o que é? – Ela tinha saído da cama, zanzava com os braços cruzados pela enfermaria.

João estava sobrecarregado com as informações e perguntas. Não possuía respostas adequadas, e muito menos compreendia os termos que ela usava. Chamavam os símbolos de marcas afinal, assim como ele. Nunca havia ouvido o termo “runa” em alto e bom som, a palavra lhe soava arcaica e o fazia pensar em símbolos vikings antigos.

— Bom, eu não posso lhe dar respostas. Claudia, a diretora do Instituto, quer falar com você pessoalmente mais tarde, mas primeiro você tem que comer alguma coisa. – Depois que a garota parou de falar, João reparou nos raios de sol que entravam pelas altas janelas às costas dele. Devia ser quase meio-dia.

A refeição que a garota morena trouxe era vasta. A bandeja de metal continha três pratos; um com sopa e os outros com frutas. Um copo grande cheio de suco de laranja, e no canto da bandeja, quase escondida entre os pratos, uma barra de chocolate.

— A diretora vai falar com você depois que comer. – Estava encostada na porta, as mãos nos bolsos da calça. – Pode tomar um banho antes se quiser, os banheiros ficam ali. – Levantou o queixo, apontando para a parede oposta onde havia uma pequena porta, um grande relógio pendurado na parede acima. – Estarei aqui às 12:45 para levá-lo até o escritório dela. O que está esperando? Coma!

Ela saiu para o corredor fechando a porta atrás de si.

João observou o quarto ao redor, vazio. As camas cor de sangue, os anjos nas paredes. E então, pegou uma maçã da bandeja e a mordeu.

O escritório da diretora era razoavelmente grande. Ficava em um corredor paralelo à praça na frente do Instituto, no segundo andar. Duas longas janelas, ambas de cada lado da enorme escrivaninha, se abriam para as árvores lá fora. Fora a escrivaninha havia armários nas paredes da esquerda e da direita, acima da cadeira alta onde a diretora se sentava, entre as grandes janelas, um quadro retratava um anjo com um cálice e uma espada nas mãos.

João havia tomado um banho rápido. Vestia roupas negras que encontrara em cima da cama quando saíra do banheiro. Apertadas e desconfortáveis. A mulher à sua frente era loira, os cabelos quase prateados, os olhos eram cor de mel. A expressão era dura, mas depois de encarar o garoto por algum tempo, abriu um sorriso.

— João, eu sou Claudia. Comando o Instituto. Gostaria de lhe dar todas as respostas das quais tenho certeza que precisa, mas temo que dá-las diretamente apenas o confundiria mais. Afinal, Carol me contou que você, apesar de carregar as Marcas, não sabe o que é. – Carol, então esse era o nome da garota. – Então, por que não começamos, bem, pelo básico. O que você sabe?

O que ele sabia? Bem, ele não sabia muito.

— Bem, eu não sei muita coisa. – João disse. – Então vou tentar contar com o máximo de detalhes possível. – Pigarreou, e então começou.

Contou tudo, desde a cerimônia até o ataque à sua casa. Contara que sua memória fora apagada e como recobrou-a quando completou dezessete anos. Descrevera o ataque e como encontrara o diário do pai e o bastão. Detalhou as ilustrações e as informações que o livro continha.

Claudia massageava o queixo com a mão esquerda quando João parou de falar.

— Será que eu poderia ver esse diário? – Ela perguntou, pousando as mãos sobre a mesa. João olhou para o chão, havia trazido a mochila com ele e a deixara aos pés da cadeira. Rapidamente a abriu e retirou o livro encardido, entregando-o à Claudia.

A diretora folheou-o por cinco longos minutos. Analisou os mapas, as instruções e os símbolos. Então fechou o livro e pousou-o na mesa. Olhou para João com uma expressão triste.

— Lamento pelo que aconteceu com seu pai, João. Lamento por ter tido de deixar sua família, e lamento por dizer que não seria prudente voltar à vê-la novamente. – João franziu o rosto. A tristeza tomou-lhe conta, mas não ficara surpreso. De alguma forma pressentiu que não os veria novamente. – Mas pelo que vi neste livro, seu pai deixou claro que sua mãe, seus meios-irmãos e consequentemente seu sobrinho são mundanos, alheios à nossa realidade. – Mundanos? – Trazê-los para ela não seria apenas imprudente, mas um ato de extrema crueldade. Ainda mais considerando que sua história é um mistério até para nós.

Um mistério? Será que ele abandonara a família, quase morrera cinco vezes e viajara quilômetros para não obter as repostas que tanto queria?

— Você é um Caçador de Sombras, faz parte de uma raça de humanos que tem sangue de anjo correndo nas veias. Nós, os nephilim, combatemos demônios, nosso dever sagrado é impedir que perambulem por nosso mundo, ameaçando nossa existência e a dos mundanos, seres-humanos comuns, os quais fomos incumbidos de proteger pelo anjo Raziel. – Claudia apontou para o quadro às suas costas.

— Então as coisas que vi, que enfrentei, eram... demônios? – Ele havia acertado! As coisas que matara não podiam ser nada além de demônios, grotescas como eram. Claudia balançou a cabeça negativamente.

— Não, não. Isso não é tudo. Sim, as coisas que matou eram demônios, mas receio que as visões que descrevera, os seres que viu nas ruas, não passavam de seres do Submundo. Feiticeiros, fadas e outros. Não representam perigo algum.

Mas que diabos? Fadas? Feiticeiros?

Ã? Fadas? Espere, se todas essas coisas existem, po-por que só nós conseguimos enxergá-los? – João perguntou, sedento por mais respostas.

— Perceptivo você. – Claudia sorriu mais uma vez. – O glamour esconde nossa realidade dos olhos mundanos. É uma espécie de feitiço muito antigo que precede até mesmo nossa existência. Você vai aprender à usá-lo a seu favor.

— E os símbolos? Presumo que eles sirvam para lutar, mas, de onde vêm?

— Quando Jonathan Shadowhunter bebeu do Cálice Mortal, transformando-se no primeiro Caçador de Sombras, ganhou do anjo Raziel uma espada e um livro. O Livro Gray, que continha nada menos que a linguagem do Paraíso. Gravamos as runas ou marcas em nossa pele com estelas, mas disso você já deve saber.

Estelas. É claro, certamente precisavam de um nome arcaico e chique para se referir à coisa. Não poderiam simplesmente chama-la de grande graveto celestial.

— Mas, e como se organizam? – As suas perguntas não paravam por ali, tinha dezenas delas.

— Você tem muitas perguntas, garoto. E nós, pouco tempo. Informei a Clave, nosso corpo político, o governo, sobre sua chegada. Estamos todos curiosos para saber quem você realmente é, por que seu pai desapareceu e a que família pertencem. Dieterich não existe nos nossos arquivos, é um nome mundano. – A diretora então tirou um grosso livro de capa dura da gaveta e depositou-o na frente de João. – Quero que leia isso, acredito que a maioria das respostas que procura estejam aí. – Ele tocou a capa do livro. Era um exemplar velho e gasto, as letras quase sumindo: “O Códex dos Caçadores de Sombras”.

— Agora vá! – Exclamou a mulher. – Carol lhe mostrará seus aposentos depois que conversar comigo. Por enquanto, a espere na enfermaria. Lembra-se do caminho, não?

— Sim, sim. Me lembro, Senhora. – Respondeu, começando a se levantar. – Presumo que vá ficar com o diário.

Ela sorriu.

— Sim, ficarei. Não se preocupe, o devolverei o mais rápido possível. Agora, vá! Leia, leia! Mais respostas lhe esperam. – Havia algo reconfortante na voz da mulher, como se ela falasse com um tom mais baixo com ele, como se sussurrasse, com medo de assustá-lo. João sorriu, pegou o livro pesado de cima da mesa, abriu a porta e saiu.

— Leitura pesada, ein? – Ouviu a voz feminina à sua direita. Virou-se e viu Carol apoiando-se na parede do corredor.

— Pois é. – Respondeu. – Carol é um nome bonito, sabia? Geralmente dizemos nossos nomes um ao outro quando nos apresentamos.

Ela corou.

— Pelo menos agora fomos poupados da formalidade, não? – Carol então abriu a porta do escritório da diretora, e entrou.

A cadeira no escritório da diretora era desconfortavelmente dura.

Como pedra, literalmente. Havia alguma coisa na cultura dos caçadores de sombras que tentava avidamente evitar tudo que se relacionasse à conforto, principalmente em escritórios ou salas de reunião. Como se pensassem que Raziel desceria pelo teto envolto em fogo celestial com uma carranca, dizendo: “SENTEM-SE DIREITO! SOLDADOS!” caso alguém ousasse sentar a bunda em um pedaço de pano macio.

Carol achava que tudo não passava de ladainha, falta de conforto não resultava em atenção. O colchão do quarto era extremamente fino, as roupas que vestiam, justas e desconfortáveis. Tudo no Instituto parecia ser feito para se assemelhar a um centro de treinamento militar. Em uma catedral, é claro, mas muito, muito militar.

Por isso fazia como a mãe, que passara a adolescência inteira em um Instituto como aquele. Sempre vestia os peitorais de couro negro por debaixo das roupas também negras. Mas sempre usava saias, ou vestidos. Gostava de correr livremente. Era melhor correr o risco de se machucar a ter de vestir as calças de couro que Claudia chamava de uniforme de combate. Ela e os outros internos podiam muito bem enfiar os uniformes de combate aonde o sol não batia. Jamais vestiria aquilo, as únicas peças que pegava na sala de armas eram os peitorais e as cotas de malha, só.

Enquanto Carol se remexia na cadeira, tentando achar uma posição suportável, a diretora andava de um lado para o outro com a mão na testa.

— Como assim o conhece? Eu sei que nasceu aqui, não pense que eu não sabia, mas na mesma cidade do garoto? A mesma escola? – A voz de Claudia soava descrente, chocada.

— Sim, desde os seis anos. Fugi aos treze como sabe, depois disso não sei mais que você. – Carol lembrava-se muito bem da vida mundana, fora até um pouco próxima do garoto, parte dela tentava ocultar o quanto estava magoada por ele não a reconhecer.

Claudia se sentou.

— Mas nunca percebeu nada estranho? Nenhuma marca?

— Não, e acredite, minha Visão era aguçada, qualquer feitiço que ocultasse as Marcas de iniciação dele eram fortes, fortes o suficiente para inibir o efeito da runa de Clarividência pelo menos. Ou seja, bem forte. Não um simples glamour.

A diretora fitava a mesa.

— Informei a Clave. O Conselho tem suas presunções, mas eu, ah, eu tenho as minhas. – Claudia apoiou o queixo nas mãos cruzadas. – Estudou a Guerra Mortal, claramente. Conhece Valentim?

— Sim. – Respondeu Carol. Conhecia a história muito bem, na verdade estudou ela com ninguém menos que Clarissa Fairchild, a própria filha de Valentim. Conhecia sua árvore genealógica, estudara o Ciclo.

— Então, o que diria se eu lhe contasse que Ygor Morgenstern não desapareceu, simplesmente? – Ygor era o irmão mais velho de Valentim. Poucos o conheciam, mal era mencionado, não obteve glória alguma. Desapareceu sem deixar rastros quando o irmão ainda era um adolescente. A Clave o considerava morto. – Fugiu de Idris, ah, sim. Descobriu alguma sujeira da Clave e sumiu de Alicante. Evaporou. Há boatos de que foi para a Ásia, passou por Xangai, mas acredito que tenha se estabelecido no Japão. Mas não ficou lá por muito tempo. Só há registros de que algo foi roubado do Instituto de Tóquio nos anos 80. Só o Conselho sabe o que é que foi roubado. Mas me lembro de Ygor, Carol. Estudei com ele em Idris. Alto, cabelos castanhos. Uma ovelha negra entre as estrelas brilhantes que eram os Morgenstern com seus cabelos prateados e seus olhos claros.

Carol já sabia onde a diretora queria chegar. A hipótese avaliada por um mundano poderia parecer nula, mas em meio a uma população escassa de nephilim que agora recorria ao Cálice Mortal para obter descendentes, se você não tivesse bebido dele, a sua lista de possíveis ancestrais era bem curta, e se você não fosse registrado na Clave. Mais curta ainda. Afinal, quantos caçadores a Clave considerava mortos sem vestígios, desaparecidos ou fugidos? Pouquíssimos.

Claudia fitou Carol. Os olhos cerrados, o maxilar rígido.

— Por que os demônios foram atraídos ao menino? Por que o atacaram com tanta frequência? Não é da natureza de demônios menores arquitetar ou planejar. Seguiam ordens, eram atraídos por alguma coisa, algo que ele carregava provavelmente. E o que diabos o homem que tenho certeza que era o pai dele roubou? Por que a Clave mantém seu nome em segredo, que poderes tem, para que serve? – Era engraçado como a diretora confiava tanto em Carol, uma interna que conhecia há apenas seis meses, mas haviam se tornado muito íntimas. Ela segurou a mão da menina.

– Estou lhe dizendo Carol, tenho certeza. Aquele garoto, ele é uma estrela da manhã.

Notas finais
Por enquanto é isso aí. Ave atque vale.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.