Heiress.
9 Envy.
Notas iniciais
O clima na casa dos Lee Parker estava ruim. Estávamos em luto, afinal. Nós queríamos, a todo custo, ir até nossa cidade, saber das informações do acidente, como foi, os detalhes e afins, mas nós tínhamos uma “missão”. Bem, na verdade nossa “missão” já estava feita, pois eu já conheci todas as sete peças. Mas Kevin diz que temos que aproveitar enquanto estamos seguro, porque á qualquer momento, um caçador pode aparecer. E não vai ser nada bom nos encontrarmos com eles.
Eu já havia conquistado quatro peças. Alice, Lucy, Kevin e Christian; Gula, Luxúria, Ira e Avareza. Lucy e Christian não deram muitos detalhes sobre a noite quente deles, mas nós já sabemos exatamente o que aconteceu. Mas como não saberíamos? As paredes são finas, e eu diria que as camas daqui são... Velhas. É. Sem contar que, convenhamos, fazer tal atividade física é difícil conter os... Sons. Mas depois da noite de ambos, eles continuaram agindo normalmente. Lucy continuou agarrada com Kevin, e Christian... Bem... Ele está normal, eu acho. Não posso dizer muita coisa, afinal, não o conheço.
O que me preocupava era Belle e Bia. Ambas estavam pálidas, sem forças, não se alimentavam direito, não sorriam mais... Estavam anêmicas. Eu via Andrew tentando convencer a mulher á se alimentar regularmente, á sair da casa para ver a luz do Sol, mas... Ela só ficava no quarto, trancada, chorando. Com Bia era a mesma situação, trancada no quarto, sem abrir as cortinas, só abrindo a porta para me deixar entrar. Tentei conversar com ela, mas nada. Ela apenas sorria e murmurava um: “Está tudo bem”. Lógico que não estava. Kevin continuava indiferente. Brigava com Lucy, tinha ataques de raiva, mas apenas isso. Acho que desabafar com alguém, e ter um ombro amigo para chorar o fez sentir-se melhor. Lembro-me do dia após descobrirmos sobre o falecimento de nossos pais, eu e Kevin estávamos sentados no mesmo banco que estávamos quando eu o conquistei.
– Ela era próxima a eles? – Perguntei. Ambos estávamos olhando para o horizonte, sentados lado a lado.
– Quem? – Senti seu olhar pairar sobre mim.
– Bia. Ela era próxima a eles?
– Era. E muito. Era mimada pelos dois. Deram uma vida feliz para ela. Deram a infância que ela queria ter – Voltou seu olhar para frente. Dessa vez, eu virei meu rosto, encarando-o.
– Você não era próximo a eles?
– Não. Digamos que eles não me planejaram. Fui um acidente. Eles não sabiam como cuidar de mim, então não tive uma infância... Razoável. Mas sinto falta deles. – Um sorriso tomou conta de seu rosto.
– E Belle?
– Era a melhor amiga da minha mãe. Eram amigas de infância, acho que desde o ensino fundamental. Nós sempre passamos a noite de Natal juntos. Quando os filhos de Belle faziam aniversario, nós viajávamos para cá. E quando era aniversario meu e da Bianca, eles vinham para nossa casa. Nós éramos como uma grande família, literalmente.
– Entendo... – Murmurei, virando meu olhar para o horizonte novamente. – Amanhã nós vamos embora, não?
– Sim. Aliás, suas coisas estão prontas?
– Mais ou menos. Wah! Tenho que pensar num jeito de conquistar o Oliver e a Anne! – Exclamei, erguendo meus braços e espreguiçando-me no banco.
– Porque você não conversa com eles? Do mesmo jeito que fez com a Alice, ou comigo, sei lá. Dá seu jeito.
– Boa ideia. Eu não tenho tanta intimidade com Oliver... Talvez eu devesse falar com ele, perguntar algumas coisas, ganhar intimidade... – Falei, pensando alto. Levantei-me e fui à frente do garoto. – Obrigada, Kevin. Está sendo ótimo conversar com você ultimamente.
– Obrigado – Respondeu seco. – Até mais.
– Até!
E então foi quando tomei como objetivo principal conquistar o Oliver. Nunca falei muito com ele, e também ele não se abre com ninguém, só com sua irmã. Nunca o vi com inveja de ninguém.
Procurei-o pela casa e então o encontrei na biblioteca, sentado em um sofá, mexendo no celular. Por incrível que pareça, Anne não estava com ele. Ótimo!
– Oi, Oliver – Cumprimentei-o, entrando na grande biblioteca e fechando a porta atrás de mim. – Estou atrapalhando?
– Olá Elizabeth. – Retirou os olhos do celular e focou em mim, seguindo-me com os olhos enquanto eu sentava em uma poltrona, na frente do sofá. – Não, não está. É uma surpresa vê-la.
– Uma surpresa boa ou ruim? – Sorri.
– Não sei. Depende de você. O que quer tratar comigo?
– Eu queria te conhecer melhor, Oliver. Nós não nos falamos muito, não é? Eu queria, sei lá, saber do que você gosta, do que não gosta, dos seus hobbies... Eu gostaria de aproveitar, enquanto sua irmã não está com você.
– Está fazendo isso para achar algum meio de conquistar meu coração? – Sorriu irônico, bloqueando o celular e encostando as costas no sofá. – Há muitas coisas que gosto, e muitas que não gosto. Seja mais especifica. Ah, por favor, não fale da minha irmã perto de mim.
– Oh. Porque não? – Olhei-o curiosamente. Ele desviou o olhar, parecendo ficar bravo.
– Não interessa.
– Falar dela lhe incomoda? – Insisti.
– Sim.
– Por quê?
– Não quero falar sobre ela.
– E qual é o motivo, aparentemente?
– Não interessa, caramba! – Gritou, virando seu olhar para mim. Arregalei os olhos e recuei um pouco. Ele ofegava, estava com os punhos cerrados, e parecia com raiva. Ajeitou sua postura e suspirou pesadamente. – Desculpe.
– N-Não, a culpa foi minha por insistir – Respondi, erguendo as mãos, em forma de rendição.
– Mas... Hum, se você quiser saber o que eu sinto pela Anne, posso te contar. Talvez tal informação lhe ajude.
– Se não for incomodo me contar... Acho que qualquer informação ajudaria.
– Pois bem. – Levantou-se do sofá. – O motivo pelo qual eu não gosto de falar dela é por que... Tenho inveja dela.
– Co-como? – Engasguei. Oliver, com inveja de Anne? Sua própria irmã?
– Eu tenho inveja da minha irmã, Anne.
– Por quê?! – Exclamei, levantando-me também. Eu estava incrédula, afinal, como alguém teria inveja da Anne?!
– Porque ela é popular. E eu sou... Antissocial. – Respondeu sem olhar-me nos olhos.
– Desculpe-me, eu ainda não entendo aonde você quer chegar.
– Eu tenho inveja dela! Eu queria ser como ela, tá legal?! Eu queria ser popular, ter amigos, fazer amizades naturalmente, ser social, ir á festas, sei lá! – Exclamou.
– Oliver...
– Eu queria ter a vida dela, Elizabeth. Você não tem noção de como é ser o... Excluído. Ela sempre ali, radiante, feliz, com todas as pessoas olhando para ela e eu aqui, sozinho, no escuro, sempre a olhando com inveja. E então fico pensando, porque não sou como ela? Porque não tenho a facilidade dela? Porque não herdei os dons dela?
– Oliver!
– Torne-me como ela, Elizabeth. Torne-me como minha irmã. Faça-me ser popular por... Um dia! É isso! Um dia, eu só preciso disso para você me conquistar. Quero ser popular, quero que as pessoas me deem atenção, me deem carinho, me façam rir, sei lá! Faça-me ser mais popular que minha irmã por um dia! – Um sorriso radiante tomou conta de seus lábios.
– Oliver! – Exclamei. Ele desfez o sorriso lentamente e voltou sua atenção á mim. Aproximei-me dele e segurei seu rosto com as mãos. Como o mesmo era menor, ficava fácil fita-lo e tomar toda a sua atenção. – Você não precisa de popularidade!
–... Não? – Murmurou, fitando-me sem sequer piscar. – Mas como não? E-Eu sempre quis ser popular...
– Oliver, me escuta! – Num impulso, abracei-o, passando meu braço pelo seu pescoço e com a mão solta, acariciei seus cabelos negros. – Você não precisa de popularidade. Você precisa de amigos com quem possa confiar. Você tem a nós. Nós somos seus amigos, nós confiamos em você, nós damos atenção á você, nós somos sua família. Você pode não aceitar isso, mas é a verdade, Oliver. Você pode confiar em nós. Veja sua irmã. Ela é popular e tudo o mais, mas você não vê o pecado dela? Orgulho. Vaidade. Você não acha que esse pecado é horrível? Você queria, com toda a certeza, ter tal pecado?
– Não... – Murmurou.
– Então, Oliver! – Separei-me do abraço e segurei seus ombros, sorrindo. – Você não precisa ser como ela. Você é perfeito sendo você mesmo! Nós gostamos de você com seu jeito de ser!
– O-Obrigado... – Desviou o olhar, corando.
– E então, Oliver, o que me diz? Quer desistir desse objetivo e seguir em frente, sendo você mesmo?
– Eu gostaria, mas não tenho como fazer tal coisa. Não sei como fazer isso.
– Pois eu lhe falo! Você só precisa interagir com as pessoas. Converse com os outros. Tente falar com o Kevin, com o Christian, talvez vocês tenham coisas, hobbies, em comum, não é? Mas, principalmente, fale com a Anne. Conte á ela sobre essa sua inveja, e então, talvez, ela comece a lhe dar mais atenção, comece a lhe tornar popular também! Seja arriscado, Oliver!
– E-Eu... Farei isso. Obrigado, Elizabeth – Num movimento rápido, agarrou minha cintura, puxando-me para mais perto de si, aconchegando sua cabeça em meu peito. Um abraço desengonçado, mas com carinho.
– Não há de quê – Sorri e o abracei também, fazendo carinho em sua cabeça.
E foi assim que conquistei o frágil coração de Oliver. Confiança. Palavras. Amizade. Carinho.
– E-Eu vou conversar com a Anne... – Desfez o abraço rapidamente e desviou o olhar, totalmente corado. Foi em direção á porta, abriu-a, mas parou na mesma. – Obrigado, mais uma vez. Até.
– De nada – Respondi para eu mesma, pois o mesmo já havia saído do cômodo. – Agora só faltam duas. As mais difíceis.
[...]
Já era metade da manhã quando eu terminava de arrumar minhas malas para voltarmos á nossa casa. Eu e Bia estávamos quase acabando de arrumar as malas, e depois tínhamos que arrumar o quarto. Eu olhava para Bia, e ela tinha o olhar triste, olhando apenas para o chão, sem aquela empolgação que tinha.
– Bia... – Chamei-a. Ela virou seu olhar para mim, com um sorriso forçado no rosto. – Vê-la assim me deixa triste. Por favor, se alimente melhor!
– Eu estou bem, Lize.
– Não, você não está. – Retruquei. Cerrei os punhos e encarei-a com determinação. – Bia, eu sei como é difícil, mas você não pode ficar assim para sempre! Você é uma garota empolgada, feliz, alegre... Vê-la assim me corta o coração. Por favor, Bia, anime-se novamente – Corei levemente e desviei o olhar para qualquer outra coisa, menos para ela.
– É que é tão difícil Lize... – Murmurou. Notei a mudança em sua voz e voltei meu olhar á mesma. Lagrimas queriam sair de seus olhos, mas ela forçava-as a permanecerem quietas. Engoliu em seco e prosseguiu: – Essa viagem está me sobrecarregando, ver todas essas pessoas está me sobrecarregando! Eu não aguento! Eu estou sofrendo, Lize! Foi bom ver meus amigos de infância, sim, foi ótimo, mas está tudo tão complicado na minha vida... Estou sofrendo por amor, estou sofrendo por causa dos nossos pais, estou sofrendo por causa dessas viagens repentinas, está tudo tão misturado!
– Calma, Bia, respira! – Acalmei-a. Num movimento rápido, veio até mim, com os braços abertos. Abracei-a e então senti seus soluços. Ela, finalmente, estava chorando.
– Li-Lize... – Murmurava com a voz tomada pelo choro.
– Pode desabafar Bia... – Acariciei seus cabelos, com um instinto maternal.
Ficamos nessa mesma posição até os soluços e as lagrimas da menor acalmarem. Separamo-nos do abraço suavemente e sorrimos uma para a outra. Prometemos, com o dedo mindinho, que nunca iriamos nos separar. Quando uma se der mal; a outra vai estar lá para ser o ombro amigo. Quando uma quiser desabafar; a outra vai estar lá para escutar. Quando uma tiver uma crise; a outra vai estar lá para acalmá-la.
E que assim seja. E assim será. Eu e Bia, uma confiando na outra. Sempre.
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