Hediondo Despertar
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Aquele mundo se deparava na mais temível guerra. Os Pokémon haviam se convertido em uma espécie hedionda, e o ódio era o único sentimento que emitiam de seus corpos.
Corpos velados pelo sangue daqueles que um dia foram seus treinadores. Seus melhores amigos.
Os humanos, os poucos que ainda encontravam resquícios de coragem dentro de si, permaneciam no campo de batalha, disparando tudo o que podia matá-los. Um vínculo de amizade que se rompeu em um piscar de olhos.
Em um estado de melancolia, Carvalho andava de um lado para o outro sem parar.Acompanhado das notícias que surgiam diretamente da rádio sintonizada de Goldenrod, se encontrava trancado em seu laboratório tentando compreender o quão rápido a situação chegou àquele terrível ponto. Do lado de sua estante estava o que parecia ser um bulbo ensanguentado. O pouco que sobrou de um Bulbasaur irritado, que tentou-o enforcar com seus chicotes.
No intervalo do chiar da estação e falas do radialista do jornal das seis, o telefone tocou aflitamente. O professor suspirou uma ou duas vezes, antes de atender ao chamado de quem quer que fosse no outro lado da linha. Com voz arrastada falou o mais baixo possível para não ter perigo de ser descoberto.
— Professor Carvalho falando, quem é?
— Professor sou eu, Ash. Consegue me escutar? — O atrito entre uma ligação ruim e à voz do treinador eram perfeitamente perceptíveis.
— Ash... Onde está?
— Eu consegui um abrigo por enquanto. E o senhor, está seguro?
De soslaio, Carvalho mirou naquele bulbo sem vida.
— Não tenho certeza. Snorlax ainda está solto pelo lugar. E os Tauros estão enlouquecidos tentando procurar alguém em quem descontar à fúria.
— Sinto muito... É minha culpa por estarem aí.
— Não se culpe, meu jovem. Ninguém tinha em mente que Arceus se voltaria contra a humanidade e passaria a controlar os Pokémon, para exercerem esses atos macabros.
O tom de voz de Ketchum ficou embargado. Era muito claro que suas lágrimas queriam escorrer pelo seu rosto, se já não estivessem.
— Pikachu está morto. — Soluçou entre as palavras. — Eu o matei. Era eu ou ele.
— Ash, não era o Pikachu. Tenha conhecimento disso.
— Eu presenciei tudo antes de acontecer. Escutei seu último lamento e depois vi sua consciência ser invadida. Não consegui ter coragem de agir antes de... — Pausou por minutos e em seguida, depois de tomar fôlego, continuou. — Ele golpear duas ou três pessoas com um forte choque e após isso acertar várias vezes as cabeças com a cauda de ferro...
— Não se esforce pensando nisso. Já presenciei muita coisa aqui pelo campo. Uma carnificina. Estou trancado em meu laboratório em busca de um pingo de paz, para pelo menos tentar interpretar como essa rebelião se iniciou. Vamos focar em buscar, se ainda possuir alguma esperança, uma solução.
— Solução? Qual solução professor? E não existe mais esperança. Vi meus amigos serem retalhados por seus Pokémon. Se estou aqui, foi pelo fato de ter me escondido antes dos meus Pokémon me acharem. Ainda estão lá, caçando suas vítimas, caçando a mim. Minha roupa está coberta de sangue, sangue do meu melhor amigo. Não tem nada pior do que isso. Eles vão tomar conta desse mundo. Cansaram de obedecer ordens. É o fim para nós.
O silêncio se instalou sobre a ligação. Carvalho compreendia que Ash estava certo. Não havia mais esperanças ou soluções naquela altura. Era morrer ou... Morrer.
— Eu não aguento mais. — O treinador acabou quebrando o sossego da ligação. — Não viverei direito com essa culpa de ter espancado Pikachu até a morte. Com o peso de não poder fazer absolutamente nada para salvar o mundo. Já vivenciei muitas aventuras, ajudei pessoas, adquiri méritos. Mas ver tudo ser destruído dessa maneira tão... Tão cruel, é demais para mim.
— O que está pensando em fazer Ash?
— A vida humana não vale mais nada aqui. Esse é o fim, professor. Este é o capítulo final de toda à aventura. É nesse ponto que tudo termina.
Novamente ambos cessaram a conversa. Ainda que ao fundo desse para perceber os estrondos de um cenário assustador vindo de onde Ash estava, aqueles segundos de paz restauraram um pouco da tranquilidade que tanto precisavam. Mas não foi o suficiente.
— Como vai fazer para... — O homem de cabelos grisalhos não soube como continuar.
— Isso é o de menos. Há tantas opções para suicídio agora, não é? Somente quero que um dia... Algum dia, se essa desavença acabar e os Pokémon voltarem ao normal, se lembrem de quem foram e das aventuras que viveram. Que não se sintam culpados por nada. Não foram eles. Espero que cuidem uns dos outros. Que não vivam com esse pesar em suas memórias. Apenas se lembrem dos momentos bons ao lado dos humanos. Dos laços de amizades que formaram e do quanto eles evoluíram, superando seus medos e obstáculos. Apenas vivam bem. Em segurança. E felizes.
Engolindo em seco, Carvalho respirou fundo e proferiu seu último adeus a Ash Ketchum. Em anos de pesquisas havia se envolvido com inúmeros Pokémon, mas nunca entendeu direito suas perspectivas e maneiras de agir.
Se sentiu culpado por tornar-se tão fútil naquele momento.
Se sentiu culpado por estudá-los à favor da ciência, mas não se envolver a tal ponto que descobrisse uma maneira de interromper o transe de Arceus em suas mentes.
Considerando todo o peso que se criou em sua consciência, destrancou a porta e permitiu ser executado pelos próprios Pokémon.
. . .
Após desligar o telefone Ketchum deu uma olhada ao seu redor. O Centro Pokémon costumava ser um local tranquilo e bonito. Apresentava-se completamente destruído agora. Considerava-se sortudo por obter um meio de comunicação que ainda funcionava. E por adquirir um abrigo que lhe proporcionou tempo para dizer suas definitivas palavras ao recentemente falecido, Professor Carvalho.
Dispersos pelo sobrado corpos daqueles que um dia caminharam lado a lado com o treinador. Reunidos, foram a última esperança que o mundo tinha. Até todos serem massacrados pelos seus próprios Pokémon. Misty, Brock, Tracey, Gary, May, Max, Dawn, Iris, Cilan, Bonnie, Clemont, Serena entre outros que ainda portavam um ponto de esperança em seus corações, mas que infelizmente foi lhes tirada de maneira tão brusca e dolorosa. Próximo à porta o corpo de Pikachu se encontrava estendido. O amarelo de sua pelagem se mesclava ao vermelho do líquido espesso que saia da brecha que um dia foi sua cabeça. Em um ato desesperado pela sobrevivência, Ash havia acertado-o incontáveis vezes com uma barra de ferro. Quando constatou que estava espatifando partes das orelhas e o cérebro do seu melhor amigo, paralisou.
Seu pranto escorria pela sua face. Tudo havia virado de cabeça para baixo tão de repente.
Todas aquelas cenas horrendas, recentes, rebobinando em seus pensamentos sem ele poder intervir. O odor fétido que saia das carcaças estava enjoando-o cada vez mais. Não compreendia o fato dos Pokémon se revelarem monstros assassinos. Mas no fundo ele tinha conhecimento de que não eram culpados. Estavam a mando de Arceus, que em um estalo de dedos se voltou contra à humanidade. Não entendia o pretexto daquilo. Queria obter respostas, mas sabia que era tarde demais para aquilo. Tarde demais para tudo.
Sentou ao lado do cadáver fresco de Pikachu. Vagarosamente levou a mão direita até o que sobrou do corpo. Acariciou-o como sempre fazia quando ganhavam uma árdua batalha. Recordou de suas insígnias. Não valiam mais nada. Eram meros “broches”, itens sem nenhuma utilidade naquele ápice. Colocando-as no chão, simultaneamente, lembrou dos obstáculos que enfrentou para conquistá-las. E novamente sua dor voltou a verter de seus olhos até chegar ao queixo e cair no chão frígido do Centro. Eram recordações que queria guardar, mas que eram dolorosas demais naquele momento.
— Me perdoe Pikachu. Me perdoem pessoal. Desta vez... Não fui capaz de salvá-los e nem de protegê-los. Até que a humanidade seja extinguida, os Pokémon não vão parar de atacar... — Afundou os dedos na pelagem ensanguentada do rato amarelado. — O que pude fazer para procurar impedir, já fiz. E não adiantou. Eu não quero viver com esse peso na consciência. Não quero viver com o fardo de ter fracassado com vocês. Muito menos com o fardo de ter assassinado meu melhor amigo. Meu tempo aqui está acabado também, não é? Eu não queria chegar ao ponto de ter de tirar minha própria vida para parar de rever à morte de todos vocês e de outras pessoas, que permanecem girando em minha cabeça sem parar. Mas não tem outro jeito. Então... Apenas estejam bem, seja lá onde estiverem. Eu escrevi minha história nesse mundo, e acredito que não vai ser apagada tão facilmente. Eu tentei dar meu melhor. Eu tentei ser o melhor. Eu quero ser o melhor... Eu quis ser. Infelizmente não posso mais.
Erguendo-se de sua lamúria o treinador caminhou para fora e seguiu por uma estrada estreita, com a mesma barra de ferro que massacrou Pikachu. Sem delongas chegou ao rio que sabia que estava cheio de Carvanha, presas ao transe de Arceus. Sua jornada chegara ao fim. Memorou como tudo se iniciou. De cada amigo que fez em suas viagens. Das risadas compartilhadas, conquistas, medos e evoluções em suas batalhas. Não passavam de facadas que recebia em seus pensamentos e em seu coração. Golpes mortais que o destruíam pouco a pouco. Em busca de alívio levantou à barra de ferro defronte a ele e chegou o mais perto possível da margem do rio, sentindo a água corrente encharcando seus pés e os dentes das Carvanha’s roçando em seus tornozelos.
Em um movimento ligeiro golpeou sua cabeça o mais forte que pode.
Sua visão foi escurecendo aos poucos.
E a última coisa que viu foram as Carvanha’s nadando depressa em direção de seu corpo.
Sabia que seria estraçalhado por todos aqueles dentes.
Mas não sentiria nada pois apagou completamente. Para sempre.
. . .
Ao longe se ouvia murmúrios de vozes desconhecidas. O tic-tac incessante de um relógio que estava próximo, agora era percebido cada vez mais alto e claro.
“Madame, estamos fazendo de tudo.”
“Há sete dias que iniciamos o tratamento com o remédio mais forte. Vamos forçá-lo a acordar.”
“É o único jeito para que ele sobreviva. Caso não acorde, não há outra opção.”
Seus olhos foram se abrindo. Não enxergava muita coisa, apenas borrões que passavam depressa pelo seu campo de visão e sumiam de repente. Em uma vontade desesperada de entender o que estava ocorrendo, forçou-se a despertar ainda que estivesse tonto e confuso.
Era um quarto pequeno e tranquilo. As paredes brancas combinavam com as cortinas de seda que agora voavam levemente, em consequência da brisa que entrava pela janela. Em frente à ela uma mulher sofrida, enxugando suas lágrima em um lenço azulado.
Com a adrenalina do acontecido arrepios percorriam seu corpo a cada segundo, e o suor de quem acabara de acordar de um pesadelo tenebroso começava à escorrer em sua pele. Ao tentar balbuciar suas primeiras palavras à mulher em um pulo assustado virou-se em direção a ele parecendo desacreditada.
“CHAMEM O DOUTOR, CHAMEM O DOUTOR AGORA!”
As vozes que se tornaram extremamente audíveis machucavam seus ouvidos. Confuso, machucado e amedrontado.
Talvez à guerra teria acabado? Talvez alguém que teria o visto cair na água o salvou? Erro. Erro fatal. Subitamente, um homem esguio de cabelos loiros entrou no quarto em disparada para ver o “milagre” que acontecera.
— ELE ACORDOU, ELE ACORDOU DOUTOR! MEU FILHO ACORDOU! — Gritava à mulher alegremente ao lado da cama. O tom de voz alto da mesma lhe dava dor de cabeça.
— Vamos com calma, senhora. Lembre-se que ele ficou muito tempo afastado, pode estar confuso. — O olhar do médico cruzou rapidamente com os dele. — Consegue me ouvir, meu jovem?
“Meu jovem”
Aquele jeito de falar era semelhante ao do Professor Carvalho. Tentou imaginar como o velho estaria naquele momento, mas tudo o que conseguiu foi piorar sua dor.
Vagarosamente afirmou com a cabeça ao questionamento.
— Ótimo. Você sabe o que aconteceu antes de chegar aqui?
— G-Guerra... — Gaguejou cansado ainda com dificuldade para se expressar.
O homem denominado “Doutor” e a mulher histérica se entreolharam sem entender.
— Não teve nenhuma guerra meu filho... — Aquela que estava dizendo ser sua “mãe” se estreitou ao lado da cama e o acariciou. — Você sofreu um acidente de bicicleta. Miseravelmente o impacto forte o fez entrar em... Coma.
As palavras entraram como agulhas afiadas por seus ouvidos e se fixaram em seu cérebro como farpas. “Coma?” “Acidente de bicicleta?” Onde estava? Porque o salvaram?
— Meu jovem. Há um bom tempo que você está aqui. Há uma semana trocamos sua medicação por uma mais vigorosa. Tivemos que induzi-lo a sair de seu estado. Era isso ou seu diagnóstico seria dado como morto.
“Morto.”
Ele já experimentara essa sensação. Já presenciara à morte de perto. Estava tudo fresco em sua memória.
— Por um milagre parece que o remédio o ajudou em partes. O lado positivo é que você despertou. E o lado negativo é que, intervindo desse jeito talvez não tenha sido tão agradável para você.
Estava tudo fazendo sentido. O fato de Arceus ter se revoltado contra os humanos. E o mundo em que viveu ter desmoronado daquele modo terrível. A tal medicação o forçara a assentir à realidade. Pressionaram-no para enxergar que estava vivenciando uma ilusão. Que os Pokémon nunca existiram, apesar de lembrar dos vínculos que havia criado naquele lugar.
Era óbvio que derrubando aquele mundo e fazendo-o se “suicidar”, ele iria despertar. Do jeito mais atroz que existia.
Infelizmente aquela utopia nunca foi real, mas as recordações de um angustiante pesadelo foram.
A pior parte é que não conseguia lembrar das coisas boas, mas da carnificina que transcorreu naquele mundo durante os últimos dias. Os Pokémon se rebelando contra os humanos. Os assassinatos à sangue frio. Todas aquelas pessoas mortas ao seu redor. O jeito em que seus amigos acabaram mortos. O jeito que matou Pikachu.
Aquilo o fez chorar desesperadamente.
Ninguém entendia o que se passava naquele momento.
Só ele podia entender o que estava sentindo.
Era horrível.
Queria voltar a dormir de novo.
Ele acabou com sua vida no outro mundo para extinguir aquela terrível sensação.
E no fim ganhou outra pior do que aquela que havia criado.
E iria conviver com aquilo até o último suspiro. No mundo real.
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